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Norte

Norte, primavera, terra, fleumático, Fonte Magnesiana Comendador Augusto Ferreira. Noite estrelada a perder de vista sobre as fontes do Parque das Águas de Cambuquira, uma a uma se perpetuando na escuridão que envolve o próprio parque. Uma brisa fria varre os muitos canteiros em torno, criando belas e misteriosas ondulações. Fico lembrando da cena do Jorge tropeçando e isso quase quebra minha concentração. Estamos em frente da fonte do ponto cardeal norte.

Minha lanterna ilumina a fachada da fonte e eu vejo o nome dela, observo as plantas pendentes, as ramagens de hera que iam subindo pela estrutura tubular do teto da fonte. Avencas, interior azulejado e limoso, úmido da água que brota da terra para dentro do recinto da fonte, fazendo um ruído suave ao encontrar o metal do tanque dela. Descemos para o interior da fonte. Romero recolhe água da fonte com sua chaleira favorita. Acendo a fogueirinha com os gravetos que trouxemos. A chaleira vai para o fogo ferver a água magnesiana que Romero recolheu. De tempos em tempos, sons como os da letra U, denunciando atividade de macacos nas matas vizinhas. Silêncio entre nós três. Romero agora retira a chaleira fervente do fogo e coloca na água o chaquinam que trouxe consigo. Coloca a tampa e deixa a chaleira fora, mas perto do fogo. Procuro me lembrar das correspondências. Norte, primavera, terra, fleumático, Fonte Magnesiana Comendador Augusto Ferreira.

Ele disse que nos concentrássemos nas chamas e no instante em que seriam apenas brasas. Quando só elas restaram, ele encheu três xicaras e disse que podíamos beber. Em silêncio absoluto, bebemos e procuramos, em pé ou sentados, nos concentrar em volta. Bromélias, plantas, árvores, tudo o que há em volta começa a desenvolver um certo brilho. Eu já não sei há quanto tempo estou nesa posição e vejo apenas que os ramos e galhos das árvores de algum modo parecem estar vindo em minha direção. Me viro de lado para dizer isso a Jorge e Romero, mas já não há mais nem Jorge nem Romero. Nem eu estou mais no interior da fonte.


Estou me deslocando, por dentro da mata que parece ser a que faz divisa com o Parque das Águas de Cambuquira. Não estou então tão longe assim e me espanto com a mudança de ambiente pela qual acabo de passar. Me impressiono com o poder de deslocamento que se tem no astral. Tudo é em poucos segundos, se isso, tudo já aconteceu antes que a gente perceba o que se passou.

No caminho me distraio com as clareiras em meio às copas das árvores revelando o céu estrelado por todos os lados, peneirando a luz de estrelas desse céu, dessa Via-Láctea que eu observo com prazer. Brilhos em todas as árvores, trazendo para a mata a luminiscência do próprio céu daquela noite. Sons de pássaros noturnos. De corujas, que dentro do astral do chaquinam, tornam-se mais graves que o normal. Não sinto o chão onde piso, como um astronauta, mas os meus "passos" mesmo assim iluminam o terreno em volta, como se meus pés fossem lanternas elétricas. Sons noturnos dos insetos e saparia distante enquantro eu entro num trecho de mata mais fechada.

Neste trecho, uma árvore dança e joga seus galhos para o céu em constante adoração do céu estrelado. Suas flores noturnas vão se abrindo e se fechando enquanto ela dança, emitem notas musicais suaves e compassadas como um pequeno xilofone vegetal. Eu paro diante da árvore e começo a dançar também, imitando seus movimentos; ela parece gostar da companhia e passamos a dançar juntos por horas a fio dentro da floresta. A árvore então boceja e vai dormir. Suas flores e galhos vão se recolhendo até que ela acaba dormindo de roncar, a pilantrinha.

Prossigo o caminho. Meus passos vão formando claridades no chão onde piso, caracóis se afastam com incrível velocidade para me deixar passar. Vou adentrando a floresta noturna até um ponto onde o caminho se divide em dois. Há uma bifurcação mais a oeste e o caminho principal.


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