Já que estou no ponto cardeal norte, não vejo problema em continuar seguindo nessa direção. Em uma condição normal do dia-a-dia, eu iria achar loucura me enfiar dentro de uma mata como esta à noite, sozinho e sem ao menos uma lanterna ou mesmo uma vela. Só que no estado de torpor e percepção em que me encontro, minha própria disposição se modifica, os medos que temos no dia-a-dia se transformam em pura curiosidade, por mais estranho que seja o que está ali. Não tenho o problema de caminhar na escuridão, porque tudo dentro da floresta se reveste de brilhos que dançam e mudam de lugar a todo instante, iluminando o caminho a ser seguido.
Meu corpo, imerso no astral, não sente o peso das pequenas subidas e descidas que vou encontrando aqui e ali sob a copa das árvores; elas mesmas parecem me observar discretamente entre seus ramos. Paro e olho e é como se elas tivessem mesmo olhos brilhantes e curiosos em minha direção. Delas vem a atmosfera fresca e saudável do sereno, do orvalho noturno; aqui e ali, onde as copas se abrem, deixando entrever o véu preto do céu noturno, aprecio o caminho leitoso que é a própria Via-Láctea, num espetáculo que faria qualquer cético acreditar em tudo isto. Aqui eu reparo que as árvores nada têm de mal dentro de si.
O caminho se prolonga até uma trilha muito estreita que conduz a um ponto em que cessa todo o brilho que me orienta, substituído por uma luminescência mostrando em detalhes a estreita mas evidente entrada de uma gruta escavada na rocha de uma encosta, lançando reflexos a intervalos regulares sobre as pedras da entrada. Talvez fosse uma gruta natural, talvez fosse construída para abrigar uma imagem de santa, costume antigo destas regiões de Minas Gerais. Chegando mais perto, noto que ela é natural e que é profunda. Não há imagem nenhuma ali, nem se vê o fundo da gruta.