A gruta parece estranha como tudo mais; se eu evitar de entrar porque o que eu vejo é estranho, o que mais vou poder fazer nesta experiência? É nisso que eu penso enquanto vou seguindo gruta adentro.
De fora, parecia bem assustadora, mas por dentro é iluminada por algo que está lá no fundo dela: uma fluorescência que ilumina as estalactites e as paredes da gruta. Eu paro e fico por ali por instantes, observando sinais gravados na pedra, símbolos de alquimia, sei lá do que mais. Um triângulo com um olho no centro que pisca para mim em intervalos regulares. É um olho simpático e pacífico que, no entanto, não tira da gruta a sua atmosfera estranha.
No final de um corredor, encontro uma lancheira azul. Ela me pertence, ou pelo menos pertencia, lancheira que eu arrastava todos os dias para a escola. Aquele furo redondo na tampa, por onde sai a garrafinha de suco de laranja, o espaço para o sanduíche e as bolachas Maria. Não abro a lancheira, já sei de cor o que ela contém. Prefiro seguir mais adiante para o lugar de onde parece vir a tal fluorescência ou luz. O meu olhar vai varrendo a gruta, esquadrinhando todos os cantos.
Um nicho com uma vela apagada sobre o castiçal de prata, idêntico ao que eu costumava levar nas férias junto com a barraca para ter um pouco de luz à noite. Junto, um bilhete, "acenda isso". O bom-senso me diz para acender, mas que é do bom-senso? Nem bom-senso, nem fósforos.
O corredor se prolonga mais à direita e eu vou seguindo. Numa das curvas, há uma mesa e um copo com água, ou líquido semelhante à água. Tudo em volta banhado com a mesma fluorescência e ainda os símbolos de alquimia gravados na pedra por toda a parte. Sinais que desconheço, mas que imagino serem importantes. Se ao menos eu entendesse metade do que há aqui… Poderia me ajudar com as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais?
Neste ponto da gruta existem zonas de escuridão e de fluorescência que se alternam como listras dentro das paredes, mostrando as sombras dos símbolos cavados na rocha. Aqui eu paro para observar alguns papéis no chão. Me abaixo e vejo o que realmente é.
Embalagens de sabonete. Sabonete Carnaval, Eucalol, OK, Phebo, Lifebuoy, pura memória, memória afetiva dos tempos de criança, noites debaixo de um chuveiro quente com o sabonete Carnaval, que loucura, quanta memória esse chá pode trazer de volta.
Desenhos simétricos e assimétricos nas paredes da gruta. Não me canso de pensar que poderia ler os seus significados, se ao menos soubesse ler aquilo. Mas me interessa mesmo é fonte da fluorescência, aquilo que de lá do fundo ilumina todo o interior da gruta. Avanço mais alguns metros e a luz que vai se tornando cada vez mais forte me indica que estou próximo da origem da fluorescência.
Seguindo o corredor banhado em luz vou sair num cômodo de casa, que na verdade é o meu próprio quarto! É daqui que parte a luz que ilumina todo o interior da gruta. De uma estatueta de costas para a entrada. Estranho a posição da estatueta, assim de costas para a entrada e me aproximo dela devagar. Quando consigo ver o rosto, fico gelado.
É o rosto da Cláudia.
Com dois caninos imensos.
Dou um pulo para trás, ricocheteando sobre a parede do quarto quando a estatueta ganha vida e avança sobre mim, procurando me morder. Ela se move com incrível velocidade de modo aleatório por entre os móveis do meu quarto que eu conheço tão bem, mas se esse é realmente o meu quarto de todo dia, então ela não vai me vencer no meu próprio campo.
Eu e a Cláudia-Drácula nos embolamos no chão ali mesmo, derrubando a cômoda, espalhando as gavetas e eu estico meu pescoço para longe, fugindo cegamente de sua perseguição. Me vendo no espelho da parede, meu medo não permite rir de minha aparência ridícula com um pescoço de um metro e meio de comprimento e o que é pior, a qualquer momento ela pode também esticar o seu pescoço para alcançar o meu.
Me lembro de que estou em meu próprio quarto e que já passou da hora de agir. Empurro a Cláudia-Drácula para longe com violência sobre-humana e animalesca, enquanto remexo as gavetas caídas em busca de um crucifixo que sei que está ali.
No momento em que ela vem de volta, consigo encontrar o objeto e o seguro em frente de mim, apontando para ela. Cláudia-Drácula então acaba por explodir em uma massa nojenta e disforme em meio aos mais espantosos gritos de toda a Antiguidade. Resolvo sair, deixar o local imediatamente, agora que a luz se acabou naquela explosão imunda e asquerosa.