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Norte

O caminho que sai da bifurcação mais a oeste é misterioso como tudo mais dentro da floresta noturna. Estivemos aqui de dia e ele já impunha uma aura de respeito e receio, quanto mais a essas horas avançadas da noite.

Aqui, as árvores aparecem negras, misturadas com a noite em redor e nelas há veios luminosos formando nervuras por dentro dos troncos, nervuras que sei, são sua seiva. Espantoso poder observar as nervuras luminosas e suas ramificações que vão se perder no infinitamente pequeno. Estou parado em frente a um grupo de árvores de troncos grossos e é aí que esse espetáculo ganha contornos de grandiosidade. Vá saber para que minúsculos mundos estão se dirigindo ou o que estarão procurando. O ar em minha volta é frio, sem chegar ao desconfortável. Meus passos vão acendendo clareiras de luz assim que tocam o chão. Tocar o chão é um modo de dizer. Meus pés realmente não tocam o chão.

Um relógio luminoso de Emulsão de Scott que canta o jingle do Regulador Xavier e muitos outros.

Paro mais à frente. Um relógio de interior de uma farmácia qualquer, com o logotipo de Emulsão de Scott, que tem aquele homem levando um bacalhau nas costas. O relógio sorri para mim e começa a reproduzir anúncios de remédios e cosméticos antiqüíssimos, a saber: Pílulas de Vida do Dr. Ross, Sadol, Minâncora, Sabonete Eucalol, Polvilho Antisséptico Granado, A Saúde da Mulher, Regulador Xavier, Sizigium Jambolanum e muito mais.

Anúncio ancestral do ancestral Regulador Xavier
"Um, dois, um, dois", cantarolava o relógio alegremente, "com Regulador Xavier vive melhor a mulher. Um, dois, um, dois… Número 1: excesso. Número 2: escassez"

Peço ao relógio que faça silêncio. Estou precisando pensar. Pensar no que faz este relógio aqui no meio da floresta à noite. Numa noite como esta. Sigo caminho, enquanto o relógio ao longe ameaça recomeçar a cantilena do Regulador Xavier e me deixar ainda mais confuso. Por que é que eu devo me importar com o que faz um relógio dentro da floresta, afinal? Fico me lembrando dos versos de Bastos Tigre, publicados em anúncios de bonde para vender o medicamento ancestral Rhum Creosotado:

Veja, ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
E no entanto, acredite.
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rhum Creosotado.

Eu me volto para o céu que as copas e galhos das árvores escondem e revelam alternadamente. Fragmentos da Via-Láctea e zonas de escuridão que costumam se chamar sacos de carvão. A Via-Láctea vai girando no céu à medida que vou caminhando pela trilha natural, seguindo o traçado de minhas voltas. Às vezes eu pulo, passando para a mata fechada, onde divirto meu corpo astral passando através de árvores centenárias tão astrais quanto ele. Logo depois, retornava à trilha principal com a mesma facilidade e agilidade.

Há um ponto de luz que vejo agora que certamente indica uma presença na mata, algo mais que apenas um simples vagalume. Fico encafifado, pensando no que isso pode ser. E sigo, um pouco mais cauteloso que antes, já sem a mesma esportividade de alguns instantes atrás. É, o que pode ser essa luz? Pessoas dentro da noite? Outro relógio de publicidade cantando o jingle do Regulador Xavier? Eu não faço idéia.

"Você gosta de Eurythmics?"

Eu paro no mesmo lugar, assombrado. Quem em nome do Todo Universal poderia estar no meio daquela escuridão que só o chaquinam consegue clarear, ainda mais falando em Eurythmics?

"Eu aqui."
Larva minúscula encontrada em um ponto da mata.

Eu tinha chegado à origem do ponto de luz em meio aos meus pensamentos e nem percebi. E aconteceu que o ponto de luz era uma lagarta multicolorida fantástica, de grandes olhos amarelos que lembravam persianas. O corpo dela era dividido em gominhos, como num desenho animado, vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, indigo e violeta. Porra! Uma larva arco-íris que conhece Eurythmics e ainda por cima fuma um narguilê todo trabalhado que é o sonho de todo bicho-grilo?

A larva estava reclinada num canapé de veludo com figurinhas dela mesma xilogravadas por cima, sentada ou seja lá o que faz uma larva nessa posição. Do lado esquerdo dela, uma estante de reivstas num estilo anos 50, um abajur com uma cúpula de metal que era um cone cheio de fuirnhos, como nos tempos do futurismo em design de móveis.

"Olá, meu nome é…"
"Não me interessa seu nome. Você gosta de Eurythmics ou não? Porque se não, nem encoste."

Fico olhando para aquela larva, pensando se ela não é Annie Lennox, a crooner do Eurythmics disfarçada, fazendo um comercial. Depois do relógio de publicidade cantando o jingle do Regulador Xavier, tudo é possível. Mas lembro de que o grupo até acabou, por isso por que haveria Annie Lennox de vir disfarçada me encher o saco a essa hora da madrugada? Sei lá que hora é essa. Se ao menos o relógio de publicidade do Regulador Xavier estivesse aqui para eu ver as horas… Que estou dizendo? E que porra é essa? Essa larva me olhando?

"Eu acho Eurythmics muito bom. Ótimo grupo."

Decido tornar mais atraente a conversa. Saber o que é isso na minha frente. De onde poderia ter vindo isso.

"Você procura memória e é isso que eu posso te dar. Esta fumaça do narguilê. Sinta o aroma. Veja tudo por si mesmo."

Resolvo fazer o jogo dela, mais para saber o que está escrito no jornal que ela tem sobre a estante de revistas. Ponho os olhos no jornal enquanto finjo aspirar a fumaça. Difícil conter o meu espanto: há um aviso de missa de sétimo dia pela minha morte no jornal, data e tudo estampado num módulo enorme dentro da página de missas e obituários. Apavorado com aquilo, esqueço que estou fingindo aspirar a fumaça e aspiro tudo.

Sob o efeito da fumaça sufocante do narguilê, uma grossa névoa me envolve e caio no chão. Tudo vai se obscurecendo, a data do jornal vai sumindo na distância dos sentidos que estou perdendo, lentamente caindo numa região profunda de minha própria memória.


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