Sul, outono, água, sangüíneo, Fonte Ferruginosa Dr. Fernandes Pinheiro. Fico lembrando da cena do Romero tropeçando e isso quase quebra minha concentração. Estamos desta vez sob um céu ligeiramente encoberto por nuvens compridas e brancas que mudam constantemente de lugar, expondo zonas de céu estrelado ao se movimentar. Em Cambuquira, esses rasgos de céu estrelado entre as nuvens podem assumir formas fantasmagóricas, diferentes de tudo o que você já viu.
Na fonte, nós nos sentamos em torno da fogueira de madeirinhas que catamos pelo caminho. Romero recolhe água da fonte, água que sai da fonte a intervalos regulares como um geiser, com hora para correr e hora para parar. Na tradição das duas fontes que passamos, meu olhar se voltou para a estrutura tubular do teto da fonte, onde a visão das zonas descobertas de céu estrelado se torna mais evidente. Tudo fazemos em silêncio e só se ouvem os sons noturnos dos insetos e saparia nos gramados de canteiros próximos.
Paz. Tranqüilidade, por todos os lugares, calma absoluta daquela hora da noite, que a noite de estrelas cercava sem deixar qualquer dúvida. Volto minha atenção para a atividade de Romero quando uma nuvem tapa completamente o ângulo de visão que eu tinha naquele momento.
A água já ferveu e ele agora adiciona as folhas que trouxe numa pequena bolsa de brim. Jorge olha para ele e ele olha para nós dois.
"Agora é esperar ficar pronto."
Contemplamos o fogo em silêncio até que só ficaram as brasas. Braseado que a brisa da noite e o oxigênio deixam mais vivo, criando pontos de vermelho vivo e escuro alternadamente por entre os restos queimados dos gravetos.
"Podem beber o chaquinam."
Custo um pouco a pegar minha xícara, distraído com meus pensamentos, mas afinal bebo de um único gole, para não curtir o gosto do chá. Me sento num dos degraus do interior da fonte. O Jorge se senta um pouco mais perto do vertedouro marcado de ferrugem da água daquela fonte, repleta de sais de ferro.
Romero está em pé, considerando nós dois em silêncio total. Então eu mudo de posição e fixo meu olhar na copa de uma árvore próxima, agora que a nuvem termina de passar pelo meu ângulo de visão, descobrindo uma grande zona de céu estrelado.
O silêncio da noite me embala dentro da paz daquela hora avançada começo a relaxar quando um estado de torpor característico do chaquinam começa a tomar conta. A copa das árvores se reveste de luz diante do meu olhar fixo e distante como se fossem muitos diamantes brilhando sobre os galhos. Eu me viro para comentar com o Jorge o que eu vejo agora, mas já não estou mais na Fonte Ferruginosa Dr. Fernandes Pinheiro e nem ao lado de Jorge e Romero. Estou sozinho, sentado sobre um pequeno barranco próximo, à margem de uma estradinha de terra.
Olho para onde eu estava olhando antes e acontece dali haver uma copa de árvore exatamente igual àquela perto da fonte ferruginosa. Atrás de mim, um casario que começa a me dizer qual é o lugar: um cruzamento, birfurcação com uma placa indicando Congonhal. Lembro-me de onde estou mesmo tendo passado por aqui só uma vez de carro com Jorge e Romero. À direita, chega-se à tal subestação da CEMIG, à esquerda se vai até o Vale do Sol, para onde a placa Congonhal aponta.
Meu olho capta um movimento próximo a estes tufos de mato perto de mim. Um sapo de óculos aparece sem mais e outro, outro, e mais outro. E eles vêm me analisar bem de perto. Em estado normal, eu já teria vazado dali há muito tempo, mas acontece de eu estar altamente sensibilizado para essas coisinhas imateriais como sapos usando óculos. O que acontece de pior é que eles formam fila na minha frente e me pedem para eu limpar seus óculos. E não é que eu limpo todos eles mesmo? No estado de torpor e percepção em que me encontro, me parece a coisa mais lógica a fazer. E afinal de contas, amigo é pra essas coisas.
Eles saem de vista um por um à medida que entrego seus óculos minúsculos com as lentes novamente cristalinas da limpeza que fiz. Vão embora, aparentemente contentes com a nova clareza de visão. Novamente sozinho em meio à paisagem noturna, penso comigo: quem teria limpado seus óculos minúsculos se eu não tivesse aparecido? E que raio de pensamento idiota é esse que estou tendo? Melhor me levantar desse barranco e escolher nessa bifurcação o melhor de dois caminhos que me levem daqui.