Embora pareça estranha como tudo mais, a luz emana uma calma que não posso explicar. Não acredito que possa ser algo ruim. Não há uma trilha no meio da mata, tudo é mata fechada, embora isso não seja problema algum para o meu corpo astral já tão leve da matéria de que os sonhos são feitos. À medida que vou avançando por entre as árvores, a luz parece se multiplicar em várias outras que vão assumindo lugares diferentes, formando figura geométrica que me lembra o trapézio. Árvores e bromélias, gigantescos fetos arbóreos e samambaias pelo caminho, sinais de mata primária no lugar.
A certa altura do caminho, eu paro para olhar algo caído no chão que posso ver claramente apesar da escuridão: a carteira de trabalho de meu pai. Eu fico ali, emocionado, recordando o dia em que ele se foi, tudo aquilo que eu senti me volta numa seqüência vertiginosa que não posso controlar nem evitar. Recolho a carteira em meu bolso, mudo de idéia e remexo o bolso para pegá-la de volta e deixá-la onde estava. Nada. Nem sinal. Como se nunca tivesse estado ali. Prossigo em meu caminho, um pouco atordoado, mas firme em meu propósito de descobrir a origem da tal luz.
E, mais adiante, eis que a encontro: é uma casa. Daqui de onde estou, começo a ouvir sons, música, vozes, sons de uma festa em andamento, mas quem que iria manter uma festa, quanto mais uma casa no meio dessa mata fechada? Se é que essa festa e essa casa realmente existem, realmente estão aqui. Entendo que tudo se passa em minha memória, como se sempre tivesse estado ali.
Me aproximo da casa. Vejo pessoas em torno, reconheço silhuetas, modos de andar e falar. Tudo me parece familiar. Tudo. Lembro-me do vento frio de final da tarde quando chegamos ao Alto do Piripau, no mesmo dia em que cheguei à Cambuquira. Esse vento não ronda mais o lugar, mas minha memória o traz de volta agora, na mesma proporção que varreu naquele dia o topo da montanha que eu hoje desisti de alcançar. Vento que me trazia a recordação de todos com quem convivo e convivi. Eu paro a meio caminho da varanda da casa quando meu corpo astral parece ter se congelado.
"Chegou quem estava faltando!"
É meu pai em pessoa quem se aproxima para dar as boas-vindas. Não respondo, boca aberta e o suor frio que escorre pela testa e me diz o quanto de espanto tem dentro de mim, como se eu já não o estivesse sentindo por mim mesmo.
"Não vai me dar um abraço?"
Esqueço o suor frio, o espanto, tudo e corro para abraçar meu pai. Falo de saudades, de tudo o que aconteceu nesses longos anos em que ficamos sem nos ver. A conversa se estende até que ele se lembra da festa acontecendo em nossa volta.
"Mas venha para a a festa. Todo mundo está te esperando. Por que demorou?"
Tento explicar, mas não há mais tempo. Já pela varanda encontro parentes e amigos, vivos e aqueles que há muito se foram desta vida. É impossível descrever esse sentimento de abraçar e novamente poder conversar com aqueles que se foram. Me pergunto quantas pessoas podem passar por isso com a lucidez de quem está acordado. Porque isso não é sonho, é vivência pura, experiência direta e eu não sei o que fazer. Talvez nem seja melhor fazer. Talvez seja melhor viver. Viver o momento que eu não sei se um dia terei de volta. Uma alegria inexplicável. Talvez possa até ser explicada, mas de que adiantaria isso?
Música suave vem de dentro da casa e todas as conversas são suaves, um tom de harmonia aonde quer que se vá. A lua vem saindo de dentro de nuvens esticadas no céu estrelado, perolando os arbustos e árvores em meu redor, trazendo uma sensação que eu nunca antes tinha experimentado.
Eu encontro Rodrigo, primo-irmão meu, desaparecido num acidente na Régis Bittencourt anos atrás. Sinto vontade de perguntar o que se passou, mas tudo isso me passou como curiosidade que nada tinha a ver com a harmonia daquele momento único. Por que estragar tudo isso com perguntas bestas? Meu primo-irmão sorri, um sorriso que me remete a dias felizes que passamos juntos e me digo que bom seria que esse momento não passasse nunca mais. Dias em que estivemos tão próximos ao topo do mundo, ou pelo menos do nosso mundo, porque teriam de sumir do jeito que sumiram, quanta saudade, quanta memória debaixo daquele céu estrelado ilimitado que a Lua ilumina de um modo tão raro.
Rodrigo me leva a conhecer a casa. No andar superior, encontro meus sobrinhos assistindo um vídeo, o desenho de Walt Disney para o clássico de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Um deles, como Rodrigo, estava no carro sinistrado e se foi junto com ele. Eu sinto uma imensa ternura e uma grande vontade de chorar que consigo conter com muito esforço. Rodrigo percebe minha situação e se volta para mim, sorrindo com simplicidade e me estendendo um lenço.
"Nem tudo pode ser como a gente quer", disse simplesmente.
Me deixo ficar ali por uns instantes com meus sobrinhos e meu primo, mas não é para a tela que eu olho, é para aquele momento que me deixa tão feliz e que cedo ou tarde vai ser tirado de mim. Já não sei se gostaria de estar aqui. Por que amar as pessoas se um dia vamos ter de deixá-las? E mesmo assim, amamos e nos despedimos e nos encontramos nas espirais do tempo?
Desço, junto ao Rodrigo e já estamos de volta à varanda, quando me ocorre de saber que disco é esse tocando de música tão suave e sugestiva. Paro a meio caminho: um arrepio me corre pela espinha ao ver o que há sobre uma das caixas acústicas. A larva e seu narguilê, diante de uma lata de Pepsi, olhando e sorrindo para mim. O sorriso da lagarta. Fico preocupado com aqulio, uma sombra passa pelo meu rosto e Rodrigo parece notar, embora aparentemente não esteja vendo o que eu vejo.
"O que há de errado?", ele pergunta.
"Não é nada."
Ele parece se satisfazer com a resposta, mas eu já não estou satisfeito com isso. Por que tem essa larva de estar em todos os meus caminhos? Ela me olha com seu estranho sorriso e solta fumaça em anéis, como eu já a tinha visto fazer em outros carnavais. Novamente uma preocupação, eu que achava ter chegado a um ponto de equilíbrio. Enquanto Rodrigo me sugere voltar para a varanda, fico parado sem saber o que fazer.