Eu olho para o Rodrigo, olho em volta e acho que a harmonia desta festa tem de ser mantida e acho que devo agir o quanto antes. Rodrigo não parece entender nada quando eu pego a larva que ele aparentemente não consegue ver, fazendo todo o possível para não chamar a atenção de nenhum de meus parentes. Carrego a larva e o seu narguilê para o andar de cima e a larva nas minhas mãos protesta com energia. Sei exatamente o que fazer com ela. Rodrigo me segue escada acima e eu pergunto a ele se já assistiu o vídeo que as crianças estão assistindo.
"Já, mas… O que…"
"Volta o vídeo até a parte em que a Alice encontra com uma lagarta em cima de um cogumelo."
"Como assim?"
"Agora não dá pra explicar, faz isso o mais rápido que você puder."
Furiosa, a larva morde minha mão. Procuro disfarçar a dor, sei que qualquer traço de preocupação pode perturbar o astral e me fazer voltar antes do tempo, mas isso é uma emergência. Seguro a cabecinha da larva com a outra mão, correndo o risco de deixar cair no chão o narguilê e queimar o carpete. Corro até o banheiro da casa em busca de uma escova de dentes e volto para o quarto.
Encontro Rodrigo e as crianças se perguntando o que faz Alice no vídeo conversando com o nada na tal cena do cogumelo. A larva morde minha mão novamente já que a outra está segurando a escova de dentes. Em meio à briga com a larva invisível para eles, peço ao Rodrigo que dê uma pausa no vídeo e mostro a escova de dentes para a larva.
"Você vai voltar para aquela estória. Já!"
"Não vou, não vou, não vou."
"Titio, o que você está fazendo com essa escova de dentes na mão?"
"Primo, o que você está fazendo com a minha escova de dentes na mão?"
A larva morde minha mão mais uma vez e juro para mim mesmo que será a última. Eu a coloco no colo e bato nela com a escova. Meu primo e sobrinhos ficam olhando sem entender enquanto a larva pula como minhoca louca até que, finalmente vencida, transpõe de volta o limite que separa o quarto do desenho animado de onde veio. Eu encosto no videocassete e solto a pausa quando a larva parece querer retornar ao quarto.
Agora tanto meu primo quanto meus sobrinhos conseguem ver o detalhe que faltava na cena: a lagarta que conversa com Alice, fumando tranqüilamente seu narguilê, presa exatamente no momento em que soltei a pausa no videocassete. As crianças, mesmo sem nada entender, riem e parecem felizes por eu ter completado a cena. Rodrigo sorri, parece finalmente ter entendido tudo. Deixamos as crianças sossegadas, entretidas com o desenho. Sinto dentro de mim a alegria de quem completou mais que um simples desenho animado. A alegria de quem aparentemente completou sua própria história.
Na varanda, sentado numa confortável cadeira de vime, conversas com meus parentes, com meu pai, meu primo e eu procuro conversar mais tempo quem já não se encontra mais convivendo comigo. O céu estrelado, a conversa geral, a música que vem suave de dentro das caixas acústicas me distrai e me embala e eu penso se realmente mereço toda essa felicidade. Até o final da festa, quando todos se despedem e a névoa começa a tomar conta, vivo os momentos mais bonitos que jamais experimentei em toda a minha vida. Agora, a névoa cobre a minha visão. Estou lentamente retornando à Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima.