8

Oeste

Sem chances. Esses cachorros não irão me deixar passar sem luta e eu não tenho a certeza de poder vencer nenhum deles, porque se eu estou em corpo astral, eles também estão. Vem daí a certeza de que tenho que descer, voltar o quanto antes. Se o Jorge e Romero me aguardam lá em cima, vou ter de dar o cano, porque pelo jeito não vou poder ir até o topo. Eu faço ainda algumas tentativas de pular até o topo do morro do Piripau, mas os saltos me conduzem sempre de volta ao mesmo lugar. Dou meia-volta e começo a descer o morro de volta.

De volta, meus passos acendem o chão batido em volta dos meus tênis que são de todo os modelos, cores e marcas possíveis cada vez que piso com um deles no chão. A Via-Láctea gira preguiçosamente ao sabor do meu movimento espiral morro abaixo e quando fixo nela os olhos, parece abrir a boca num bocejo universal que tanto me provoca risadas quanto me lembra o quanto deve ser tarde da noite nesse ermo da solidão das estradas astrais de Cambuquira.

Há na beira dessa estrada um minúsculo posto de gasolina para cavalos, deserto, com um exemplar do Correio de Minas datado de 7 de setembro de 1947 em cima do banquinho onde deveria estar o frentista. Recoloco o jornal sobre o banquinho e continuo minha descida, iluminado apenas pelas estrelas daquela noite sem comparação. Já posso ver a floresta de novo, vou me aproximando rápido, com meus passos elásticos que nem pegadas deixam no chão astral. A floresta me envolve como se eu estivese parado e ela viesse me cobrir com seu manto de galhos, cipós e folhas. Essa impressão fica em mim e quase chego a duvidar que eu esteja me movimentando.

Sigo agora por dentro da floresta; vejo árvores fazendo crochê, um tipo de ponto que com certeza já caiu em desuso através do tempo; essas mantas de crochê formavam uma colorida manta de retalhos que iluminava o interior escuro da floresta. Mais adiante, uma pequena faixa de luz iluminou a estrada de terra, partindo da floresta do lado esquerdo da estrada. O meu olhar se fixou na faixa de luz e eu a segui com os olhos até poder ver de onde viria. Claro que descobri que ela vinha do interior da mata fechada. Se eu quisesse saber o que era a tal luz, teria que adentrar a mata fechada e ver o que poderia ser aquilo na realidade.


Hosted by www.Geocities.ws

1