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Leste

Leste, verão, fogo, colérico, Fonte Gasosa Regina Werneck. Aponto minha lanterna para a fachada e leio a inscrição em letras vermelhas, Fonte Gasosa Regina Werneck, Gava, COMIG. Eu sigo o Jorge e Romero, a descida pelos grandes degraus até o interior da fonte. Estruturas tubulares em vermelho, apoiando tanto o teto quanto incontáveis ramos de roseiras, avencas, samambaias e rendas portuguesas que vejo enroscadas nessa estrutura tubular do teto da fonte. Fico lembrando da minha bela cena tropeçando e isso quase quebra minha concentração.

O interior dessa fonte é bem mais amplo e aberto. Fico contemplando o céu estrelado e a Via-Láctea que desaparece nos limites do telhado da fonte lá em cima. Existe calor aqui, da própria regência desta fonte que o interior azulejado suavemente reflete de volta e alivia. Nos aproximamos da "pia" da fonte e noto três diferentes vertedouros nela, marcados com os números 1, 2 e 3. Observo Romero se aproximando com a chaleira na mão. Quero ver com que água ele vai encher sua chaleira, mas Romero mistura a água dos três vertedouros em partes mais ou menos iguais.

Depois de pronto o chá, ou infusão como ele preferia chamar, bebemos e sentamos em torno das brasas e gravetos. Eu olhava para a fonte como que olhando para um quadro, só que era um quadro vivo com o movimento da água descendo dos três vertedouros. Olhos fixos no quadro que a fonte formava, não pude determinar o momento exato em que a água foi se congelando como se fosse a sua própria fotografia. Firmei a vista na fonte. Tinha mesmo se congelado. Desloquei os olhos para um canto da fonte e me surpreendi ao ver ali uma moldura de quadro. Tirei os olhos da fonte e ela não era mais que um quadro sobre uma parede enorme, dentro de uma casa muito grande. Eu estava no saguão de entrada dessa casa. Voltei os olhos para o quadro com a imagem da fonte, mas ele tinha desaparecido.


Meu olhar percorre o interior do saguão. Uma foto de minha mãe, o olhar contrariado, me olhando diretamente nos olhos, enquadrada em um madeiramento de poster preso à parede, móveis escuros de jacarandá, cheios de entalhes, frisos, desenhos, divisórias em treliças que filtram a poeira que levanto do chão a cada passo em setas de luz em forma de pequeninos losangos coloridos, luz que deve vir dos postes da rua, mas não tenho certeza disso. Um piano silencioso e imóvel num dos recantos do saguão que de repente abre sua tampa e inicia uma melodia familiar, que minha tia-avó costumava tocar e que eu gostava muito de ouvir.

Ouço a voz de minha mãe me chamando assim que o piano se fecha em seu silêncio novamente e me viro na direção de sua voz. De onde estou, vejo que a fotografia dela se movimenta falando comigo. Me aproximo e ela começa uma lamentação sem fim por conta de minha ausência em Ribeirão Preto. Eu dou umas desculpas idiotas em voz baixa e vou me afastando da fotografia com pequenos saltos que me levam de um ponto a outro do saguão.


No lugar, existe uma escadaria enorme que leva ao segundo andar da casa e cruzando o início da escada, um corredor com uma fileira de quatro portas fechadas. Minto. Na verdade, há três portas fechadas e uma aberta, iluminada por dentro, projetando no chão escuro e astral do corredor um retângulo de luz do formato da porta.

A escadaria e o saguão são iluminados por uma luz filtrada por um vitral de clarabóia, espécie de teto solar de uma casa antiga como aquela. Tudo me parece familiar à visão, tudo me parece estar sendo visto pela primeira vez. Cada vez que volto o olhar pelo saguão descubro novos objetos e novos detalhes, tudo muito diferente da última vez que meus olhos passaram por ali.


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