Me vem a curiosidade de saber o que há no andar superior desta casa. Subo a escadaria lentamente, atento aos detalhes, entalhes da casa, da madeira e a luz que filtra do vitral de clarabóia no teto da casa. Um detalhe me chama atenção para os degraus desta escadaria: gavetas. Abro uma delas e há dentro dela um papel. Abro o papel e acontece que ele é um boletim meu de quinta série. Essa casa pode não ser minha, mas tem muito de mim. Tento colocar meu boletim de volta onde o encontrei, mas já não há gaveta e nem mesmo o boletim que eu estava segurando existe mais. Procuro não pensar muito nisso.
Prossigo subindo a escadaria. Ela é mais comprida do que eu imagino e, embora meu corpo seja bastante leve nesse estado de torpor e percepção em que me encontro, eu sinto um certo cansaço ao subir. No alto da escada, um boné jogado sobre o corrimão, boné que eu pensei em trazer para essa viagem e esqueci em Santos. Fico feliz em ter meu boné por perto e o coloco. O boné, no entanto, apesar de ser meu, é dez números maior que a minha cabeça e tem dentro dele um exemplar da revista Planeta do ano de 2012, com matéria de capa sobre Romero e as experiências com o chaquinam. Começo a folhear a revista a fim de ler a matéria, mas tudo o que encontro dentro são páginas em branco. Furioso, eu atiro a revista pelo vão da escada e pelo som musical resultante, noto que encontrou o piano em sua trajetória para o chão.
Ergo os olhos e acabo tendo que esfregar os dois: vejo a larva em cima de uma poltrona, ao lado do corrimão. A larva fuma tranqüilamente o seu narguilê e observa um globo terrestre com o mapa da África aceso somente na parte ocidental. Em volta dela e da poltrona, um monte de latas vazias de Pepsi jogadas no chão, formando bizarros labirintos de alumínio. Ela interrompe a observação do globo terrestre com o mapa da África aceso somente na parte ocidental para me observar.
Então ela dá um sorriso tão grande que forma um pequeno círculo com a boquinha minúscula, como uma aura em torno de sua cabecinha. Suas sobrancelhas também bem minúsculas remexem-se como persianas, iluminando o saguão superior da casa com grandes listras luminosas que se abrem e se fecham. Ao mesmo tempo, ela solta fumaça que vai se peneirando pelas persianas que suas sobrancelhas são.
"Nigéria", ela diz, "Angola, Mauritânia e Senegal. Camarões, Gabão, Togo, Benim, Libéria, Serra Leoa. Agora não falta mais nenhum."
"Você não anota nada?"
Ela riu, soltando fumaça em anéis que vão subindo lentamente, reforçados pela luz que filtra do vitral de clarabóia no teto da casa.
"Eu guardo de cor."
Aquilo tinha sido minha prova de Geografia no terceiro colegial. Fiquei em recuperação por causa daquilo que ela estudava agora. Se eu tivesse escolhido estudar a África Ocidental, eu teria passado direto. Caí, ao sabor das escolhas. Aquela casa era memória, aquela larva era memória. Eu queria recordar de onde a conhecia e saber o que ela fazia em todos os meus caminhos. Procuro evitar a fumaça densa que sai do narguilê e a que ela solta, mais densa ainda; eu tenho fresco na memória, o peso que me traz essa fumaça, as lembranças.
"Eu sabia que você viria."
Finjo estar surpreso.
"Sabia, é? Interessante!"
"O que é que você procura? Memória? Se é memória o que você procura, por que se afasta da fumaça? Ela pode ajudar você. Já não ajudou?"
"Eu não dependo de fumaça. Só de memória."
Ela se calava. Pareceu entender. A região que ela estudava no globo se apagou e o próprio globo se apagou. O globo não era mais do que a própria fumaça do narguilê. Fico analisando a larva e ela me analisa por sua vez. É uma lagarta colorida com textura de celulóide, parece uma criatura de desenho animado. Me apoio no corrimão e percebo o quanto estou cansado. O quanto a conversa com ela me deixa cansado, como se eu tivesse andado muitos quilômetros.
Percebo também que não há corrimão para me apoiar, que a escadaria não está mais ali, só o vão da escadaria a me engolir em minha fantástica trajetória de queda até o primeiro andar da casa e eu despenco exatamente como a revista por sobre o teclado do piano acionando todas as teclas ao mesmo tempo. A luz que filtra do vitral de clarabóia no teto da casa me mostra a fumaça que vem do narguilê da larva, cobrindo tudo. Só o que tenho tempo de ver em meio à fumaceira geral é a cabecinha da larva no alto da casa, parecendo me perguntar de maneira muda se tudo está bem comigo. Se eu estou precisando de algo. Depois, nada mais se vê, engolido pela névoa densa no interior da casa.