A névoa grossa começa a sumir e começo a achar o ambiente familiar de novo. Estamos novamente na Fonte Gasosa Regina Werneck. Romero joga um pouco de água mineral no meu rosto. Me sento num dos degraus da escada da fonte e conto como foi meu caminho. Romero parece confuso com a recorrência de meus contatos com a larva e pede mais detalhes. Eu falo um pouco mais do que vi e pergunto:
"Será que ela pode me fazer algum mal?"
Ele coçou a cabeça.
"Não sei o que dizer, vou ser sincero. Há coisas muito estranhas que podem ser boas e pacíficas e há coisas que podem ser muito atraentes e familiares, mas que na verdade são só uma armadilha. Fuma narguilê, não é? É, bem estranho, mas isso nós já sabíamos que seria estranho de qualquer modo. Seja lá como for, vocês devem começar a se concentrar com mais firmeza em buscar um caminho pacífico e equilibrado, com mais serenidade, sem essa adrenalina toda das grandes cidades que gruda na gente desse modo. Acho que é assim que vamos chegar de verdade nas Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais, que não é o nosso objetivo, mas que indica claramente que chegamos a ele. Por ora, vocês precisam descansar."
Ajudamos Romero a recolher os restos da fogueirinha e subimos os degraus da fonte. Caminhávamos rápido pelas ruas de volta à casa de Romero e de vez em quando parávamos para pedir explicações sobre esta ou aquela estrela ou constelação, coisas que ele ia explicando com infinita paciência. Nenhum de nós foi dormir naquela mesma hora. Eu mesmo fiquei na rede da varanda, olhando o céu noturno, o céu estrelado se peneirando contra as duas torres da Igreja Matriz. Jorge, ao meu lado, é só silêncio.