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A conta está errada mas, mas da certo.

Por: Michael Ende

A partir de então, passou a tratar assim todos os clientes. Dessa maneira, seu trabalho já não lhe dava qualquer prazer, mas isso também tinha perdido a importância. Além do aprendiz, contratou mais dois ajudantes e ficou de olho neles, fiscalizando para que não perdessem um minuto. Cada movimento da mão era estabelecido segundo um horário rigoroso, calculado até a fração de segundo. Na barbearia do sr. Fusi foi pendurada uma placa com o recado:

TEMPO POUPADO É TEMPO DOBRADO

O sr. Fusi escreveu uma carta curta e seca para a srta. Daria, dizendo que, infelizmente, não tinha mais tempo para visitá-la. Vendeu o periquito para uma loja de animais. Colocou a mãe num asilo de velhos bom e barato, onde passou a visitá-la uma vez por mês. Nas outras coisas também seguiu todos os conselhos do homem cinzento, convencido de que eram suas próprias idéias.

Ele foi ficando cada vez mais nervoso e preocupado, pois achava estranho, apesar de todo o tempo que economizava, nunca lhe sobrar tempo. O tempo desaparecia misteriosamente e nunca mais voltava. Os dias foram ficando cada vez mais curtos, a princípio sem ele se dar conta, depois ostensivamente. Sem o sr. Fusi perceber, mais uma semana se passava, depois um mês, um ano, outro ano e mais outro.

Como não se lembrava da visita do homem cinzento, devia ter se perguntado seriamente para onde estava indo todo o seu tempo. Porém, essa pergunta lhe ocorreu tão poucas vezes quanto para todos os outros poupadores de tempo. Era como se estivesse tomado por uma obsessão cega. E, quando às vezes percebia que seus dias estavam passando cada vez mais depressa, só fazia redobrar seus esforços desesperados para poupar o tempo.

O que estava acontecendo com o sr. Fusi já acontecia também com muita outra gente da grande cidade. Cada dia era maior o número de pessoas que estavam começando a fazer o que chamavam de "poupar tempo". E quanto mais aumentava seu número, maior era também o número das pessoas que as seguiam; mesmo aquelas que não queriam acabavam sendo levadas a imitar as outras.

Todos os dias a televisão, o rádio, a imprensa anunciavam e elogiavam os méritos de novos expedientes para poupar tempo, deixando as pessoas livres para viver uma "vida de verdade". As fachadas e muros cobriam-se de cartazes que mostravam todas as imagens possíveis da felicidade. Embaixo, em letras luminosas, lia-se:

OS POUPADORES DE TEMPO VIVEM CADA VEZ MELHOR! ou O FUTURO PERTENCE A QUEM POUPA TEMPO! ou APROVEITE MELHOR A VIDA - POUPE TEMPO!

 

Importante
 
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