A conta está errada mas, mas da certo.
A partir de então, passou a tratar assim todos os clientes. Dessa
maneira, seu trabalho já não lhe dava qualquer prazer, mas isso também tinha
perdido a importância. Além do aprendiz, contratou mais dois ajudantes e ficou
de olho neles, fiscalizando para que não perdessem um minuto. Cada movimento da
mão era estabelecido segundo um horário rigoroso, calculado até a fração de
segundo. Na barbearia do sr. Fusi foi pendurada uma placa com o recado:
TEMPO POUPADO É TEMPO DOBRADO
O sr. Fusi escreveu uma carta curta e seca para a srta. Daria, dizendo
que, infelizmente, não tinha mais tempo para visitá-la. Vendeu o periquito para
uma loja de animais. Colocou a mãe num asilo de velhos bom e barato, onde
passou a visitá-la uma vez por mês. Nas outras coisas também seguiu todos os
conselhos do homem cinzento, convencido de que eram suas próprias idéias.
Ele foi ficando cada vez mais nervoso e preocupado, pois achava
estranho, apesar de todo o tempo que economizava, nunca lhe sobrar tempo. O
tempo desaparecia misteriosamente e nunca mais voltava. Os dias foram ficando
cada vez mais curtos, a princípio sem ele se dar conta, depois ostensivamente.
Sem o sr. Fusi perceber, mais uma semana se passava, depois um mês, um ano,
outro ano e mais outro.
Como não se lembrava da visita do homem cinzento, devia ter se
perguntado seriamente para onde estava indo todo o seu tempo. Porém, essa
pergunta lhe ocorreu tão poucas vezes quanto para todos os outros poupadores de
tempo. Era como se estivesse tomado por uma obsessão cega. E, quando às vezes
percebia que seus dias estavam passando cada vez mais depressa, só fazia
redobrar seus esforços desesperados para poupar o tempo.
O que estava acontecendo com o sr. Fusi já acontecia também com muita
outra gente da grande cidade. Cada dia era maior o número de pessoas que
estavam começando a fazer o que chamavam de "poupar tempo". E quanto
mais aumentava seu número, maior era também o número das pessoas que as
seguiam; mesmo aquelas que não queriam acabavam sendo levadas a imitar as
outras.
Todos os dias a televisão, o rádio, a imprensa anunciavam e elogiavam os
méritos de novos expedientes para poupar tempo, deixando as pessoas livres para
viver uma "vida de verdade". As fachadas e muros cobriam-se de
cartazes que mostravam todas as imagens possíveis da felicidade. Embaixo, em
letras luminosas, lia-se:
OS POUPADORES DE TEMPO VIVEM CADA VEZ MELHOR! ou O
FUTURO PERTENCE A QUEM POUPA TEMPO! ou APROVEITE MELHOR A VIDA - POUPE TEMPO!