A conta está errada mas, mas da certo.
Não há motivo para isso - retrucou suavemente o homem cinzento. - Nunca
é tarde demais. Se quiser, poderemos começar hoje mesmo. Vai ver como vale a
pena.
Claro que quero! - exclamou o sr. Fusi. - O que preciso fazer?
Meu caro senhor - e o agente ergueu as sobrancelhas -, estou certo de
que sabe como poupar tempo! É só trabalhar mais depressa e deixar de lado tudo
o que não é essencial. Em vez de dedicar meia hora a cada cliente, dedique
apenas um quarto de hora. Poupe o tempo que tem desperdiçado em conversas.
Reduza para a metade a hora que passa com sua mãe. Melhor ainda, mande-a para
um asilo de velhos, barato, onde tomarão conta dela, e estará poupando uma hora
inteira por dia. Largue esse periquito, que não serve para na-
,ja. Visite a srta. Daria só a cada quinze dias, se fizer questão. Acabe
com o quarto de hora que passa rememorando os acontecimentos do dia. Acima de
tudo, desperdice menos tempo com o coral, a leitura de livros e os seus
supostos amigos. A propósito, aconselho que coloque na barbearia um bom
relógio, bem grande, para poder controlar o trabalho do seu aprendiz.
- Está certo - disse o sr. Fusi -, posso até fazer tudo isso, mas, e o
tempo que eu economizo? O que faço com ele? Tenho de entregar para guardar? A
quem? Ou eu mesmo guardo em algum lugar? Como é que funciona a coisa?
O agente tornou a mostrar aquele ligeiro sorriso.
Não se preocupe com nada disso. Deixe tudo por nossa conta. Fique
descansado, pode ter certeza de que não deixaremos se perder um só momento do
seu tempo poupado.
Ah, então está bem - respondeu o barbeiro, boquiaberto. - Confiarei em
vocês.
Pode ter absoluta confiança, meu caro senhor - disse o agente, levantando-se
da cadeira. - Então agora posso cumprimentá-lo como novo membro da Associação
dos Poupadores de Tempo. Sr. Fusi, o senhor agora é de fato um homem moderno e
progressista. Meus parabéns!
Dizendo isso, apanhou o chapéu e a pasta.
- Um minuto! - gritou o sr. Fusi. - Não precisamos fazer algum tipo de
contrato? Eu não deveria assinar alguma coisa? Não recebo documento nenhum?
O agente XYQ/384/b, já na porta, virou-se, lançando para o sr. Fusi um
olhar ligeiramente contrariado.
- Para quê? A poupança de tempo é diferente de qualquer outro tipo de
poupança. É uma questão apenas de confiança, de ambas as partes. Para nós,
basta sua palavra. O senhor não pode voltar atrás, e nós nos comprometemos a
zelar pelas suas economias. O quanto o senhor poupa é problema apenas seu. Nós
não lhe impomos nenhuma obrigação. Passe bem, sr. Fusi.
Com isso, o agente entrou no seu elegante carro cinzento e partiu
ruidosamente.
O sr. Fusi acompanhou-o com o olhar e enxugou a testa. Pouco a pouco o
frio foi passando, mas ele se sentia fraco e indisposto. A fumaça cinza-azulada
do charuto do agente ainda flutuava na sala, em nuvens pesadas, e demorava para
se dissipar.
O sr. Fusi só se sentiu um pouco melhor quando a fumaça desapareceu. Ao
mesmo tempo foram também desbotando os números no espelho. Depois que sumiram
completamente, o visitante cinzento também se apagou da lembrança do sr. Fusi -
o visitante, mas não o resultado da visita, que ele agora atribuía a si mesmo.
A decisão de, a partir de então, poupar tempo, para em algum momento do futuro
poder começar uma vida nova, encravou-se em sua alma como um anzol.
Nisso chegou o primeiro cliente do dia. O sr. Fusi recebeu-o secamente,
fez o estritamente necessário e não conversou nada, de modo que terminou em
vinte minutos, em vez de levar a habitual meia hora.