A conta está errada mas, mas da certo.
A realidade, entretanto, era muito diferente. De fato, os poupadores de
tempo vestiam-se melhor do que as pessoas que moravam por perto do velho
anfiteatro. Ganhavam mais dinheiro e, assim, podiam gastar mais. Mas tinham a
fisionomia mal-humorada, cansada ou amargurada e o olhar hostil. Naturalmente,
não conheciam a expressão: "Ora, vá falar com Momo!" Não tinham
ninguém que os ouvisse de modo a torná-los lúcidos, conciliadores ou até
felizes. Mas, ainda que tivessem acesso a uma pessoa assim, era pouco provável
que a procurassem, a não ser que o assunto pudesse ser resolvido em menos de
cinco minutos - senão achariam que era perda de tempo. Do ponto de vista dos
poupadores, mesmo suas horas de folga precisavam ser aproveitadas ao máximo,
fornecendo-lhes o mais depressa possível o máximo de diversão e prazer.
Assim, já não podiam comemorar direito os feriados, nem os alegres nem
os sérios. Sonhar era quase um crime. Mas o que menos toleravam era o silêncio.
Quando estava tudo quieto, ficavam apavorados, pois percebiam, na verdade, o
que estava acontecendo com suas vidas. Por isso, sempre que sentiam a ameaça do
silêncio, faziam barulho. Não era um barulho alegre, como se ouve num recreio
de crianças; era um barulho irritado, agressivo, que se tornava cada dia mais
alto na grande cidade.
Já não tinha importância alguém gostar de seu trabalho ou fazê-lo com
prazer. Pelo contrário, isso acarretava perda de tempo. A única coisa
importante era que cada um trabalhasse o mais possível no menor tempo possível.
Por isso, foram colocados letreiros nas fábricas e nos escritórios,
dizendo:
Avisos semelhantes foram afixados nas paredes atrás das mesas dos
chefes, das cadeiras dos diretores, nos consultórios médicos, nas lojas, nos
restaurantes, até nas escolas e jardins de infância. Ninguém escapou.
Por fim, a aparência da própria grande cidade foi mudando cada vez mais.
Os bairros antigos foram demolidos e construíram-se novas casas, deixando-se de
lado tudo o que fosse considerado supérfluo. Já não havia a preocupação de que
as casas fossem adequadas às pessoas que morassem nelas, pois isso tornaria
necessário construir muitas casas diferentes umas das outras. Era muito mais
barato e, sobretudo, mais rápido construir todas as casas iguais.
No lado norte da grande cidade já se espalhavam imensos bairros residenciais
novos. Prédios de apartamentos para alugar dispunham-se em fileiras
intermináveis, tão iguais quanto um ovo é igual ao outro. E, como todas as
casas se pareciam, também as ruas acabavam se parecendo. Essas ruas todas
iguais cresciam cada vez mais, estendendo-se em linhas retas até o horizonte:
um deserto ordenado! A vida das pessoas que moravam lá transcorria exatamente
da mesma maneira, em linha reta até o horizonte. Tudo era calculado e
planejado, cada centímetro e cada instante.
Ninguém parecia notar que, ao poupar tempo, na verdade estava se
poupando de outra coisa. Ninguém queria admitir que sua vida estava se tornando
cada vez mais pobre, mais monótona, mais fria. Quem mais sentia isso eram as
crianças, pois ninguém mais tinha tempo para elas.
Mas tempo é vida. E a vida reside no coração.
E quanto mais as pessoas poupavam tempo menos tempo elas tinham.