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A conta está errada mas, mas da certo.

Por: Michael Ende

 

A realidade, entretanto, era muito diferente. De fato, os poupadores de tempo vestiam-se melhor do que as pessoas que moravam por perto do velho anfiteatro. Ganhavam mais dinheiro e, assim, podiam gastar mais. Mas tinham a fisionomia mal-humorada, cansada ou amargurada e o olhar hostil. Naturalmente, não conheciam a expressão: "Ora, vá falar com Momo!" Não tinham ninguém que os ouvisse de modo a torná-los lúcidos, conciliadores ou até felizes. Mas, ainda que tivessem acesso a uma pessoa assim, era pouco provável que a procurassem, a não ser que o assunto pudesse ser resolvido em menos de cinco minutos - senão achariam que era perda de tempo. Do ponto de vista dos poupadores, mesmo suas horas de folga precisavam ser aproveitadas ao máximo, fornecendo-lhes o mais depressa possível o máximo de diversão e prazer.

Assim, já não podiam comemorar direito os feriados, nem os alegres nem os sérios. Sonhar era quase um crime. Mas o que menos toleravam era o silêncio. Quando estava tudo quieto, ficavam apavorados, pois percebiam, na verdade, o que estava acontecendo com suas vidas. Por isso, sempre que sentiam a ameaça do silêncio, faziam barulho. Não era um barulho alegre, como se ouve num recreio de crianças; era um barulho irritado, agressivo, que se tornava cada dia mais alto na grande cidade.

Já não tinha importância alguém gostar de seu trabalho ou fazê-lo com prazer. Pelo contrário, isso acarretava perda de tempo. A única coisa importante era que cada um trabalhasse o mais possível no menor tempo possível.

Por isso, foram colocados letreiros nas fábricas e nos escritórios, dizendo:

Avisos semelhantes foram afixados nas paredes atrás das mesas dos chefes, das cadeiras dos diretores, nos consultórios médicos, nas lojas, nos restaurantes, até nas escolas e jardins de infância. Ninguém escapou.

Por fim, a aparência da própria grande cidade foi mudando cada vez mais. Os bairros antigos foram demolidos e construíram-se novas casas, deixando-se de lado tudo o que fosse considerado supérfluo. Já não havia a preocupação de que as casas fossem adequadas às pessoas que morassem nelas, pois isso tornaria necessário construir muitas casas diferentes umas das outras. Era muito mais barato e, sobretudo, mais rápido construir todas as casas iguais.

No lado norte da grande cidade já se espalhavam imensos bairros residenciais novos. Prédios de apartamentos para alugar dispunham-se em fileiras intermináveis, tão iguais quanto um ovo é igual ao outro. E, como todas as casas se pareciam, também as ruas acabavam se parecendo. Essas ruas todas iguais cresciam cada vez mais, estendendo-se em linhas retas até o horizonte: um deserto ordenado! A vida das pessoas que moravam lá transcorria exatamente da mesma maneira, em linha reta até o horizonte. Tudo era calculado e planejado, cada centímetro e cada instante.

Ninguém parecia notar que, ao poupar tempo, na verdade estava se poupando de outra coisa. Ninguém queria admitir que sua vida estava se tornando cada vez mais pobre, mais monótona, mais fria. Quem mais sentia isso eram as crianças, pois ninguém mais tinha tempo para elas.

Mas tempo é vida. E a vida reside no coração.

E quanto mais as pessoas poupavam tempo menos tempo elas tinham.

Importante
 
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