Harry Potter e a Luz Sagrada
Capítulo 4
DE VOLTA À TOCA
Os dois dias seguintes demoraram um bom tempo para passar, mas quando
finalmente chegaram, Harry mal podia ver a hora que iria para A Toca. Acordou
cedo, arrumou seu malão, colocou os livros, o dever de História da Magia,
Transfiguração, Feitiços e até os de Adivinhação. Só notou que havia se
esquecido de algo quando fechou, com muita dificuldade, o enorme malão.
- Ah não! Esqueci o dever de Poções! Esse será um ótimo motivo para
Snape me dar uma detenção! Talvez Rony tenha feito, quem sabe ele me deixa
copiar tudo... – disse Harry pensativo.
Quando Harry estava abrindo a porta para tomar café, ouviu um ruído
abafado e se lembrou que esquecera Grymby enrolado em um monte panos. Voltou
correndo para a cama, desenrolou a pequena bolinha, que saltitava indignada.
Edwiges observava tudo com um olhar de indignação, talvez por um bicho tão
barulhento receber tanta atenção.
Desceu para tomar café muito mais feliz do que estivera há algumas
semanas. E é claro, seus tios perceberam, mas nenhum foi tão rápido quanto
Duda, que logo saiu cantarolando pela cozinha:
- Harry anda muito feliz ultimamente, pai. Acho que alguma coisa
aconteceu. Acho melhor você dar uma boa surra nele, para desaparecer esse
sorriso bobo na cara dele.
- Não se preocupe Duda, nem você vai conseguir estragar a minha
felicidade – respondeu Harry com os dentes cerrados.
- Ora moleque! Como ousa falar assim com o meu Duda? – rugiu tio Válter
– Duda, bata nele com a sua bengala.
Antes que Duda pudesse dar qualquer golpe na cabeça de Harry, este saiu
correndo de volta ao seu quarto sem ao menos tocar no seu bacon. Trancou-se no
quarto, mas logo se arrependeu por não ter comido nada. Seu estômago começou
a roncar, e desejou que os Weasley chegassem logo. Talvez nem pudesse almoçar,
porque Duda estaria preparado para dar umas bengaladas na cabeça de Harry.
Sentiu um leve desespero. Como eles chegariam desta vez? No seu segundo
ano, fugira da casa dos tios voando no velho Ford Anglia do Sr. Weasley, que
agora rondava pela Floresta Proibida de Hogwarts. No seu terceiro ano fugira da
casa dos tios, indo passar suas duas últimas semanas de férias n’O Caldeirão
Furado. No quarto ano, o Sr. Weasley aparecera de dentro da lareira da casa dos
Dursley, causando enormes estragos, sem contar nos caramelos incha-língua que
Fred e Jorge deram a Duda. A língua dele ficou com quase dois metros de
comprimento.
Começou a dar voltas pelo quarto, pensando em alguma maneira que o Sr.
Weasley poderia usar para ir buscá-lo à moda dos bruxos, mas cada idéia era
mais impossível que a outra. Resolveu se conformar e brincar com Grymby, que
insistia a ter uma partida de snap explosivo. Mas já que era proibido o uso de
magia por menores, tiveram que se conformar com um simples jogo de xadrez, já
que o de bruxo também era proibido.
Lá pro meio-dia o estômago de Harry começou a revirar, e começou a
sentir os óbvios sinais de fome. Desceu até a cozinha para pegar alguma coisa,
mas encontrou Tia Petúnia bufando de raiva, e gritando com a lava-louças nova,
que Tio Válter tinha comprado há uma semana, o que poupou Harry de lavar os
pratos. A tia acabou descontando a raiva em Harry, que teve que consertar a máquina,
e prometeu que só daria comida a ele quando estivesse perfeitamente consertada
e brilhante.
Passou quase duas horas trabalhando, e totalmente suado, pegou seu prato,
que desta vez era uma carne do dia anterior e um pouco de bacon cozido. Comeu
tudo em quatro garfadas e subiu correndo até o quarto, antes que Tia Petúnia
desse mais algum trabalho para fazer. Mas não tinha muito o que fazer. Não
podia usar nenhum de seus divertimentos, pois todos eram mágicos. E nisso
estava incluído seu novo jogo de quadribol.
Os minutos viraram horas, e Harry já podia sentir novos sinais de fome.
Olhou esperançoso para o relógio. 5 horas. Onde estaria Rony? Por que demorava
tanto para chegar? Passou os olhos pelo quarto em busca de alguma resposta, e
fixou seu olhar distraidamente na janela. Ouviu um pio, e logo olhou para
Edwiges, que dormia com a asa tampando o rosto. Ouviu de novo. Procurou algum
animal que pudesse emitir tal som, mas não encontrou. Viu Grymby pulando e
apontando para a janela, e logo percebeu: uma coruja minúscula voava em direção
da janela.
Ouviu-se um baque suave e a coruja mínima e cinzenta, que Harry logo
identificou como Píchi, a coruja de Rony, pousou na cama de Harry, quase caindo
no chão com o impacto. Uma onda de curiosidade despertou em Harry, que logo
pegou o pergaminho que estava preso à pata de Píchi e o desenrolou. O que
teria acontecido para tanta demora? Começou a
ler o bilhete, que fora escrito com uma letra garranchada, mostrando pressa.
“Harry,
Quando receber o bilhete, esteja pronto. Vamos passar aí
logo.
Rony”.
Harry sentiu uma ansiedade enorme. Em pouco tempo estaria indo embora da
casa na Rua dos Alfeneiros número quatro, e estaria indo para um verdadeiro lar
bruxo, que recebia o nome de A Toca. Empurrou o malão até a entrada do quarto,
arrumou Edwiges na gaiola e colocou Grymby num bolso do casaco. Ficou sentado na
cama esperando alguma aparição surpreendente, mas nada aconteceu.
Eram quase cinco e meia quando a campainha tocou. Harry não moveu um só
músculo, pensando: “a última alternativa que os Weasley viriam me buscar
seria tocando a campainha”. Foi Tio Válter que atendeu. Parados na porta
estavam um casal normal, com roupas sociais.
- O que querem? – perguntou Tio Válter bruscamente.
- Estamos procurando por Harry Potter. – disse o homem – Ele mora
aqui, não mora?
- Harry Potter? – perguntou tio Válter engasgando – Não, não mora
nenhum Harry Potter aqui, não voltem nunca mais! – gritou em seguida, batendo
a porta na cara dos dois.
Harry ouviu as últimas palavras do tio, e se surpreendeu por irem buscá-lo
pela campainha. Desceu as escadas correndo, e trombou com o tio bufando de
raiva.
- O que... você... pensa... em chamar... visitas estranhas... aqui? –
perguntou controlando-se para não pular no pescoço de Harry e lhe dar uma boa
surra.
- Não chamei, e se estavam procurando por mim, eu vou atender! –
gritou Harry, abrindo a porta principal, onde o casal continuava parado na
porta, olhando um endereço.
- Eu sou Harry Potter, quem são vocês? – disse voltando ao tom de voz
normal.
- Somos Sr. e Sra. Granger. Temos uma autorização escrita para buscá-lo
– disse o homem.
- E quem são vocês para quererem levar o moleque? – se intrometeu tio
Válter, ficando vermelho de raiva.
- Somos gente normal, como vocês. Só estamos fazendo um favor para um
amigo. Se duvidar, leia esta autorização – disse Sra. Granger entregando um
papel meio amassado.
“Eu, Alvo
Dumbledore, pela aqui presente, autorizo que o portador deste comunicado leve
Harry Potter para sua casa até o começo do ano letivo na Escola de Magia e
Bruxaria de Hogwarts”.
- Er... – cuspiu tio Válter, sem palavras. Olhou com amargura para
Harry e disse secamente – Vá logo pegar sua bagagem, moleque.
Harry não esperou segunda chamada. Arrastou o pesado malão até o fim
da escada, depois voltou e pegou Edwiges e sua vassoura, que teve que ficar de
fora por causa do excesso de material no malão. Enquanto isso, tio Válter
perguntou:
- E como vão levar o moleque?
- Pegamos esse carro emprestado com um amigo. Não se preocupe, Sr.
Dursley, Harry ficará bem – o Sr. Granger apontou para uma enorme limusine
estacionada na esquina da rua, que quando viu o sinal, parou bem na porta da
casa.
Tio Válter ficou sem palavras. Nunca esperaria que o sobrinho fosse
viajar numa limusine, que dava um banho no velho carro da companhia de Válter.
Sentiu uma raiva maior quando Harry chegou carregando tudo, e quase deu um chute
na vassoura de Harry, que recuou bruscamente. Deu um seco tchau e entrou em
casa, batendo a porta e começando a berrar com tia Petúnia sobre a limusine
que Harry viajaria. Harry estava contente demais para se importar.
- A Mione também está aqui? – perguntou ansioso.
- Ah, está. Na limusine estão alguns amigos seus, só estamos fazendo
um favor, como já dissemos. O Sr. Weasley achou que se aparecesse novamente
traria problemas para você, e Mione não queria trazer problemas, então pediu
para nós o buscarmos – respondeu o Sr. Granger, muito mais simpático do que
quando falava com tio Válter.
- E vocês também vão para A Toca? – perguntou cada vez mais
excitado.
- Ah, não querido. Temos que trabalhar, sabe, mas gostaríamos muito de
ver como os bruxos vivem. Seria uma boa experiência. Mione disse que a Sra.
Weasley é muito boa cozinheira, poderíamos trocar ótimas receitas – disse a
Sra. Granger.
O Sr. Granger ajudou Harry a colocar o malão no porta-malas, que parecia
magicamente enorme, o que, logo pensou Harry, era completamente possível. Os
dois entraram no banco da frente da limusine, que parecia um banco. Harry entrou
no banco traseiro, onde encontrou Rony, Hermione, Fred e Jorge, todos mostrando
um grande sorriso ao vê-lo.
- Harry! E aí, como foram as férias? – perguntou Rony animado.
- Harry, sentimos muito a sua falta! – disse Hermione contente.
- Quer uma batatinha, Harry? – perguntaram Fred e Jorge oferecendo um
pacote para Harry.
- Não, obrigado. – disse recusando o pacote – Estou bem, melhor
agora, e vocês?
- Estamos bem, e ansiosos para começarem as aulas. Estou curiosa para
saber quem será o próximo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas –
disse Hermione.
- Será que você só pensa em estudar? – reclamou Rony.
- Decerto teremos aulas com o Frankstein, já estivemos quase lá no ano
passado – comentou Jorge, que olhava distraidamente a janela.
- Ou talvez com uma múmia que lutou com terríveis bruxos/faraós das
trevas – sugeriu Fred, que comia sapos de chocolate.
- Não falem besteira! – reclamou Rony – Talvez algum professor velho
volte a dar aulas, eu gostaria que fosse Lupin.
- Ah, eu duvido muito! – discordou Jorge – Dumbledore não vai querer
contratá-lo depois de saber que ele é um lobisomem, e de um jeito ou de
outros, muitos pais de alunos não deixariam ter aulas com um bicho perigoso.
- Dumbledore sempre soube que Lupin era um lobisomem – comentou Harry,
sabendo que seria impossível o professor voltar, mas torcendo para essa
fantasia ser verdade.
- E vocês não ficaram com medo dele o ano todo, não é? Só porque é
um lobisomem não fará mal a ninguém injustamente – disse Hermione com ar de
quem sabe das coisas.
Continuaram discutindo a história dos professores por um longo tempo, até
chegarem na casa da família Granger. O Sr. e a Sra. Granger se despediram e a
limusine voltou a seu curso até à Toca. Harry se sentiu completamente feliz
quando pôde ver a Sra. Weasley acenando freneticamente para todos, e só
percebeu quando chegou, que o Sr. Weasley é que estava dirigindo.
Aquele ar deixava Harry confortável, e mais do que nunca pôde perceber
que seu lugar era ali, no mundo dos bruxos, e que nunca se sentiria tão normal
e querido por todos.