A Poção
Capítulo 8
REVELAÇÕES
Seu par era Severo Snape.
Carla ficou alguns segundo parada, olhando abobadamente para a lista, na
esperança que tenha sido um mero engano. Mas não era. Deu um longo suspiro e
entrou no Salão Principal. Sentiu olhares sobre si, mas nem ligou. Foi
caminhando vagarosamente até a mesa onde estavam Sirius Black e Remo Lupin,
conversando animadamente.
- Carlinha, que surpresa! – exclamou Remo indo abraçá-la –
Sente-se, faltam apenas alguns minutos para o baile começar.
- Você está linda, pequenina! – disse Sirius sem vergonha nenhuma –
Mas por que está com essa carinha triste?
- Suponho que vocês não tenham visto quem é o meu par – respondeu
desanimada, apoiando a cabeça em uma das mãos.
Na verdade Carla não sabia se estava triste ou feliz com o seu par.
Ainda estava confusa quanto os seus sentimentos, mas estava começando a gostar
de Snape.
- Quem é o seu par? – perguntou Remo preocupado.
- Realmente vocês não sabem... – comentou dando um suspiro – Meu
par é Snape, diretor da Sonserina.
- COMO É? – disse Sirius quase em um berro. Remo o repreendeu e ele
abaixou um pouco o tom de voz – Você tirou Snape, o morcego seboso?
- É, não me faça ficar repetindo! – disse impaciente.
- Coitada, pequenina... – disse Remo passando um braço pelo ombro dela
– Não se abale, você vai conseguir ser forte, certo?
- Obrigada – disse dando um meio sorriso. – E quem vocês tiraram?
- Há! Almofadinhas tirou a professora Minerva! – disse Remo divertido.
Quem parecia não gostar do par era Sirius, que estava bastante emburrado.
- E Aluado tirou a professora Sinistra! – comentou Sirius tentando
deixar o amigo em maus lençóis também.
- Hahahaha! – Carla caiu na gargalhada – Pensei que somente eu tinha
tirado um par tão ruim!
- Que bom que nossos pares te animaram um pouquinho – disse Sirius
dando um tapinha no ombro da garota.
Carla nem teve tempo de fazer uma última provocação para Sirius.
Dumbledore levantou da cadeira onde estava e disse que o baile começaria
naquele momento. Sirius e Remo deram um beijo no rosto de Carla, animando-a e
aconselhando a não ouvir as bobagens que Snape possa vir a dizer.
Como era de costume, os homens é que tiravam as mulheres para dançar, e
Carla estava observando os pares se formarem, e até rindo de alguns, como o de
Harry e Sibila. Mas alguém parou na sua frente, e Carla até levou um susto.
Severo Snape estava parado na sua frente, com uma mão esticada,
esperando-a para dançar. Ela ficou impressionada, nem de longe parecia o temível
professor de Poções. Estava com o cabelo bem mais curto, e não estava tão
oleoso; no lugar de suas típicas vestes negras, ele usava vestes verdes bem
escuras, estava muito elegante. Ficou paralisada algum tempo com a imagem na sua
frente que nem percebeu que a música já começara a tocar.
- Vamos dançar, senhorita? – perguntou Snape ainda com a mão
estendida.
- Ah, claro – disse Carla voltando à realidade e segurando a mão
dele.
Os dois caminharam até um lugar um pouco longe de todos, bem no finzinho
do salão. Carla estava inconformada em como Severo dançava bem. Nem parecia
que ele era frio e injusto, parecia apenas um príncipe de um conto de fadas.
As duas primeiras músicas foram agitadas, e nenhum dos dois disseram nem
uma palavra. Eram observados por muitos presentes, já que não era comum Snape
participar dos bailes. Outros olhavam somente por ter dó de Carla, já que
achavam que os dois se adiavam.
A terceira música é que era um problema. Era bem lenta, e os casais se
aproximaram mais perto um do outro. Carla tremia da cabeça aos pés; já
estivera perto dele vezes demais, e em nenhuma delas teve um desfecho muito
agradável. Podia sentir o coração do professor bater, enquanto valsavam
calmamente.
- A senhorita está divina esta noite – cochichou Severo, bem próximo
ao ouvido dela, o que provocou calafrios.
- O senhor também não fica atrás – respondeu numa voz que ela
pensava ser descontraída.
Carla tinha ficado ruborizada com o comentário, mas como seus rostos não
estavam frente-a-frente, o professor nem percebeu. Foi um alívio quando esta música
acabou, e a próxima também era agitada.
Alguns minutos depois finalmente chegou a quinta e última música
obrigatória. Carla até que estava se acostumando a dançar com Severo, e já
queria que a música demorasse a acabar. Era novamente uma lenta, e ela
desconfiava que Dumbledore tinha alguma coisa a ver com isso. Carla arriscou lançar
um olhar a Snape, e este deu um sorrisinho irônico em resposta.
- Senhorita Wetts, menos cinco pontos para Grifinória por me olhar deste
jeito – disse em tom autoritário, mas bem baixinho para somente ela ouvir.
O queixo de Carla caiu. Como ele se atrevia a descontar pontos em pleno
baile, ainda mais que os dois dançavam compassadamente, sem nenhum erro nem pisão
de pé? Snape previu que ela ia reclamar, então continuou:
- E mais dez pontos para Grifinória por ser a mulher mais bonita do salão
e dançar magnificamente bem.
O queixo de Carla caiu de vez, e se fosse possível, chegaria até sua
cintura. Ela tentava dizer alguma coisa, mas abria e fechava a boca sem fazer
nenhum som. Severo sorriu. Provavelmente conseguira seu intuito, que era deixar
a garota sem ação.
Continuou a guiando pelo salão, dando sorrisos cada vez mais cativantes
e verdadeiros. Quando a música estava prestes a acabar, ele sussurrou:
- Me encontre no jardim, perto do lago. Saia depois de mim, não quero
deixar suspeitas.
Ele beijou a mão dela, em um gesto de cortesia e saiu do Salão, assim
que a música acabou. Carla ficou alguns segundos pensando se deveria ou não
ir, mas acabou cedendo graças à curiosidade. Saiu do salão e logo encontrou
Severo, que caminhava em passos curtos.
- O que...? – perguntou Carla.
- Calma, quieta. Você verá – disse colocando dois dedos sobre os lábios
dela.
Severo conduziu Carla com uma mão entrelaçada na dela. Seguiram em
volta do lago, passaram pela lula gigante, que dormia profundamente, e pararam
em um lugar que Carla nunca tinha visto antes. Lá tinha um balanço para duas
pessoas, e estava cheio de flores e passarinhos. Severo sentou Carla no banco e
ele sentou ao lado dela, olhando-a de um jeito estranho.
- A senhorita está linda, já lhe disse antes?
- Já – respondeu Carla corando.
- Eu te trouxe aqui para esclarecermos algumas coisas – Carla deu um
salto, espantada. Mas Severo a tranqüilizou. – Não vou tentar fazer nada que
não queira, não se preocupe. Só vamos conversar.
- Gostaria de perguntar alguma coisa para mim? – continuou fitando-a
demoradamente, como se tentasse ler seu pensamento.
Claro que ela tinha coisas a perguntar. Muitas, para dizer a verdade. Não
sabia por onde começar. Gostaria de perguntar por que ele a beijara duas vezes,
por que ela sempre fugia dele, o que ele sentia por ela... Tinha uma infinidade
de perguntas.
Decidiu pela primeira que veio à sua cabeça, e a mais recente.
- Por que tirou aqueles cinco pontos e creditou aqueles outros dez?
- Pelos motivos que eu já especifiquei antes, srta – respondeu
normalmente.
- Mas eu não entendo! – protestou Carla – Por quê? Eu não entendo!
- O motivo é simples, senhorita – disse diplomaticamente. – Não
faria sentido se eu creditasse pontos sem motivo aparente. Então tive que lhe
tirar aqueles pontos, para poder justificar.
- Como é...? – perguntou custando a acreditar.
- Todos os pontos tirados ou creditados são anotados no momento que o
professor os diz, em um livro mágico. São anotados o nome do professor, o
aluno que o perdeu e qual a justificativa da perda, ou do ganho, depende do
caso. É claro que somente Dumbledore tem posse sobre a lista, e vez ou outra
questiona o motivo desse ou daquele ponto.
Carla ficou perplexa. Nunca imaginaria que os pontos eram marcados assim.
Pensava que os professores anotavam em um caderno, e depois tiravam do placar.
- Tem alguma outra pergunta? – insistiu Severo.
- Não... acho que é só... – respondeu de cabeça baixa.
Severo deu de ombros. Sabia que ela queria perguntar mais coisas, mas
tinha vergonha de fazê-lo. Decidiu então que se quisesse chegar em algum
lugar, ele teria que dar a iniciativa.
- A senhorita desconfia por que eu lhe trouxe aqui?
- Não faço idéia – disse Carla sinceramente.
- Eu quero lhe dizer uma coisa, mas não lhe obrigo a fazer o mesmo nem
nada. Só não consigo ficar escondendo isso por mais tempo – disse Severo
olhando Carla.
Ela não disse nada, somente esperando o que ele ia dizer.
- O problema é que desde aquele dia em Hogsmeade, eu tenho sentido algo
diferente em relação o que eu sentia antes. No começo eu não sabia porque
dei aquele beijo em você, e continuei sem resposta por um longo tempo. Admito
que dei aquela detenção sem pensar nas conseqüências, mas estava louco de ciúmes
de Draco.
Carla soltou uma exclamação silenciosa.
- É verdade – continuou ele. – Nem pensava no que poderia acontecer
a vocês. Na verdade eu esperava o fim da detenção para falar com você, e
tive muita sorte em descobrir sobre sua forma animaga. Mas acabei saindo do
controle novamente, e levei o que merecia. Desde aquele dia venho pensado sobre
tudo e descobri que estou apaixonado por você.
- E é claro que Dumbledore desconfiou. Por isso ele decidiu fazer esse
sorteio. Os professores sortearam primeiro, e eu fiquei muito feliz em ter te
tirado. Decidi que iria tentar fazer algo para me desculpar, e eu não achei
nada melhor do que isso – disse pegando uma caixinha do bolso.
Ele entregou a caixinha para Carla, que estava tão perplexa com a
declaração dele, somente pegou a caixinha com as mãos trêmulas. O que havia
dentro fez ela dar um gritinho. Era um colar, muito lindo, feito de ouro com uma
linda pedra de esmeralda no meio.
Severo pegou o colar e colocou delicadamente em Carla, que estava muito
maravilhada para dizer qualquer coisa.
- Eu não quero que se sinta na obrigação de corresponder ao
sentimento, não quero te pressionar. Só estou desabafando o que estava me
sufocando – justificou Severo, colocando sua mão sobre a dela.
- Queria que, ao menos nós pudéssemos ser amigos – continuou ele,
agora corando levemente.
“Amigos?” pensou Carla atônica “Eu não quero ser sua amiga! Não!
Eu quero ser sua namorada, amante, ficante! Qualquer coisa, menos amiga! Isso já
não é suficiente para mim!”
Carla não deu nenhuma resposta, então Severo pegou sua mão e colocou
sobre seu peito, calmamente. Ela olhou confusa para Severo, que tinha um rosto
sereno, mas seu coração batia descompassadamente. Ela sentiu-se culpada por
fazer isso com ele.
- Pode dizer sua resposta. Estou preparado – disse fechando os olhos, não
conseguindo encará-la.
Ela ficou sem reação. Só de pensar que a resposta dela poderia
destruir o coração do professor, hesitou por um momento, e fitou-o
demoradamente. Só o fez porque ele estava de olhos fechados, e não podia vê-la.
Então sua resposta foi a mais inesperada. A mais inesperada para os dois, já
que ela agiu antes de pensar.
Carla se aproximou rapidamente de Severo, e deu um longo e terno beijo. O
professor ficou assustado, mas correspondeu o beijo. Passou os braços pelas
costas da garota e a abraçou, juntando-os.
Então ouviram um tintilar de talheres, e ouviram a voz grave de
Dumbledore percorrer o Salão Principal. Soltaram-se rapidamente, olhando
abobalhados e surpresos um para o outro. Severo foi o primeiro a se manifestar.
- Temos que voltar, logo sentirão a nossa falta!
- Tem razão – concordou Carla se levantando.
Severo segurou a mão da garota, fazendo-a parar e encará-lo.
- Gostaria que fosse ao meu escritório depois do baile, ainda precisamos
conversar. Fica em uma das masmorras, acho que já deve saber.
Carla ficou paralisada alguns segundos, tentando entender a informação.
Concordou levemente com a cabeça, ainda um pouco aturdida. Severo a soltou, e
ela correu para o salão, sem nem olhar para trás.
Dumbledore dava alguns avisos sobre o baile, e disse que a partir daquela
música, as pessoas que se sentassem à mesa e desejassem comer teriam um prato
para fazê-lo, com as melhores comidas dos elfos. Algumas pessoas logo foram
para diversas mesas, e o diretor somente chamou madame Pomfrey para dançar.
Carla entrou apressada no salão, olhando tudo à sua volta. Procurou por
Remo e Sirius, mas estes dançavam animados com seus pares, e no caso de Sirius,
com uma garota que ela nunca tinha visto antes. Procurou por Draco e viu que ele
sentava em uma das últimas mesas do salão, completamente sozinho. Ficou
surpresa ao ver que até Grabbe e Goyle dançavam com garotas da Lufa-lufa.
- Posso me sentar? – perguntou timidamente se aproximando.
- Claro, já estava sentindo sua falta – respondeu Draco gentilmente,
oferecendo uma cadeira ao lado dele.
- Obrigada – disse se sentando. Em seguida olhou nos olhos do garoto e
perguntou - Por que está sozinho se podia estar dançando?
- Não tinha ninguém decente por aqui. E aquela Chang é muito galinha,
mal acabaram as cinco músicas e já estava secando um carinha da Lufa-lufa –
respondeu amargurado. – Pelo visto Potter vai se ferrar com ela.
- Aa Draco, devia estar dançando assim mesmo! – disse Carla, segurando
uma risada, já que ela nunca gostara muito de Harry.
- Com quem? Pansy ou Emilia? Não, obrigado! – disse sombriamente – E
como foi com ele? Vi os dois saindo do Salão Principal – comentou mudando
para outro assunto.
- Bem, eu queria mesmo falar sobre isso – disse se aproximando mais.
– Nós conversamos, e ele disse que gostava de mim, e pediu para eu ir na sala
particular dele depois do baile...
- E você vai? – perguntou o garoto sentindo uma pontada incômoda de
ciúmes.
- Não sei... Acho que vai acontecer algo ruim lá... – respondeu
hesitante.
- Olha, por mais que eu goste de você, só quero que seja feliz. E como
já disse antes serei somente seu amigo. E qualquer amigo diria para você ir,
é melhor arriscar.
- Obrigada Draco! – disse Carla ameaçando abraçá-lo, mas ele a
repreendeu:
- Não aqui! O que eles podem pensar?
- Ah, claro – respondeu sem graça.
Logo os dois caíram na risada.
Já passava da meia-noite. Ainda tinham alguns alunos no Salão
Principal, bebendo suco de abóbora ou somente conversando. A música já
acabara, e poucos dos professores estavam no aposento, completamente bagunçado.
O professor Snape aparecera minutos depois que Carla dançara com Draco – sim,
os dois dançaram três músicas, o que deixou muitos assombrados, fazendo os
dois somente gargalharem – e nem soube da dança.
Carla ainda estava no local, conversava com Sirius e Remo, em uma
conversa que parecia não ter hora para acabar. Ficaram de bate papo até meia
noite e meia, quando o sono os atingiu de jeito e eles se retiraram, dizendo que
iam dormir. Severo não acreditou muito nessa desculpa, mas desconfiava que fora
a melhor que Carla encontrara.
Seguiu para sua sala, nas gélidas masmorras. Preparou tudo para ficar um
pouco mais receptiva. Reservara uma sala para os dois conversarem, com duas
poltronas de veludo verdes musgo e uma calorosa lareira, que somente disfarçava
o frio daquele lugar. Colocara duas taças e uma garrafa de vinho, tudo para
agradar a visita. A sala que ele reservara era a utilizada para preparar poções,
então ele teve que tirar todos os livros e ingredientes de lá, muitos voltados
para as artes das trevas.
E esperou por Carla... Esperou... Esperou... e esperou, quase por toda a
noite...
Era uma fria manhã de domingo. Carla se revirava na cama, derrubando os
lençóis para o lado. Sentou-se com a mão na cabeça. Estivera acordada a
noite toda, pensando em uma desculpa convincente por não ter aparecido na sala
de Severo. Até o momento não encontrara nenhuma boa o suficiente, e sabia que
com a que ela tinha ele descobriria que era mentira. Levantou desanimada, e
olhou pela janela.
O tempo realmente não ajudava em nada. O sol estava escondido, e ventava
muito, o que convidava todos a ficarem bem seguros embaixo dos lençóis. Ela
levantou com má vontade e se arrumou. Decidira que a única forma de se
desculpar era dando algum presente a ele, e marcando um novo ‘encontro’.
Passou pelo Salão Principal, que estava completamente vazio. “Ainda
deve ser muito cedo” pensou, enquanto caminhava lentamente até o portão de
entrada. Deu de cara com Filch, que suspeitava de fugas dos alunos.
- O que faz aqui? – perguntou o zelador em tom desconfiado.
- Hogsmeade – respondeu Carla dando de ombros.
- Qual o seu nome, menina? – perguntou ferozmente – Não pense que irá
passar, somente se o seu nome estiver na lista.
- Carla Wetts, sexto ano, Grifinória – disse Carla entediada. Já
estava farta das perguntas do zelador, e queria sair logo.
- Hum... pode ir – respondeu com muita má vontade, como se não
quisesse que ela passasse.
Carla passou pelo portão, impaciente. Caminhou em passos largos pela
trilha que levava ao povoado. A travessia demorou meia hora, e ela logo avistou
o Três Vassouras. Correu para lá. Mesmo cheia de cachecóis e luvas, uma
cerveja amanteigada faria muito bem.
Rosmerta olhou com desconfiança quando a garota pediu uma.
- Desta vez não vou te vender nada, você não tinha pago o suficiente.
- Madame Rosmerta, aquele dia eu estava em fossa, se Draco não
aparecesse eu podia ter feito alguma besteira. Eu só quero me esquentar um
pouco, e não se preocupe que vou pagar o que faltava – respondeu Carla
displicentemente.
Esta resposta não pareceu convencer a dona do bar, mas mesmo assim ela
fez o pedido, servindo uma caneca com a deliciosa cerveja amanteigada.
Carla saiu do bar alguns minutos depois, completamente esquentada. Mas
agora começava o seu problema: o que comprar para Severo. Nunca se interessou
pelos gostos do professor, e não fazia idéia do que ele gostaria.
Rodou pelo povoado por mais de duas horas, completamente atônica. Eram
umas onze horas quando começou a notar alguns alunos sonolentos caminhando aqui
e ali. Ela tentou se esquivar de todos, e decidiu que o único refúgio era a
livraria do povoado.
Uma luz iluminou-se no rosto da garota. Ela deu um sorriso contente e
seguiu para a livraria. Já que não sabia do que o professor gostava, daria um
bom livro, que com certeza ele não recusaria.
Carla parou na frente da livraria, e olhou atentamente para os
atendentes. Sabia que era errado o que ela ia fazer, mas mesmo assim o fez.
Ergueu sua varinha e disse bem baixinho “Imperio”. O Atendente
subitamente parou de arrumar um livro e caminhou lentamente pelo local, sem
saber o que fazer. Ela entrou na loja, e foi prontamente atendida.
- Boa-tarde senhorita, em que posso ajudar? – disse o rapaz sob a maldição.
Carla riu internamente, já que ainda era de manhã.
- Bom dia senhor. Gostaria de examinar alguns livros de poções e artes
das trevas – ela tinha certeza que Snape gostaria desses livros, então foram
os primeiros que procurou.
- Desculpe, mas eles estão na sessão proibida – respondeu o rapaz. “Leve
a garota até a sessão proibida” – uma voz ecoou em sua mente, com
tanta força que ele percebeu que se desobedecesse algo terrível aconteceria
– Por aqui, senhorita, vou lhe mostrar a sessão proibida.
Ele levou Carla até uma área isolada da livraria, que passaria
despercebida graças ao grande número de livros. Ele puxou um dos livros e uma
porta apareceu de dentro da estante. A garota soltou um ‘uau’ bem baixinho,
e entrou.
Sua visão seguinte foi assombrosa. Milhares de livros com os diversos
conteúdos de magia negra estavam enfileirados caprichosamente pelas estantes,
separados pelo grau de perigo e assunto. Aquela área poderia satisfazer os
sonhos de qualquer pessoa que quisesse utilizar as Artes das Trevas. O rapaz
observava cada movimento da garota, sem deixar nada despercebido. E então ouviu
novamente aquela voz “Deixe a garota sozinha na sala. Vá atender outras
pessoas”
- Senhorita, eu preciso atender outras pessoas, não se importa de ficar
aqui sozinha? – perguntou tremendo ligeiramente.
- Não, tudo bem. Pode ir – respondeu fingindo estar distraída.
O rapaz saiu e Carla pôde observar tudo com calma, uma grande onda de
excitação percorrendo todo o seu corpo “Será que faria algum mal olhar só
alguns desses livros? Estão tão chamativos...” - pensou distraidamente, mas
logo dando um tapa em sua própria testa “Não mesmo! O que pensa que está
fazendo? Desde aquela última aula aprofundada sobre as Trevas você prometeu a
si mesma nunca mais se interessar por isso!”. Ficou alguns minutos lutando
contra a vontade de comprar alguns livros para si própria e começou a procurar
por algum que interessasse Severo Snape.
Passou algum tempo rodando sem sucesso as infinitas prateleiras, e pensou
que provavelmente teria muitos daqueles livros, já que fora um Comensal.
Sim, Carla sabia que Severo fora um Comensal, e tentava constantemente
apagar isso de sua memória, mas era impossível. Ainda mais que Remo e Sirius
ainda faziam questão de lhe lembrar sempre que possível, somente aumentando a
raiva entre os marotos e os sonserinos.
Já se passavam de duas horas que estava naquela área da livraria, sem
sequer achar um livro que Severo considerasse interessante. Decidiu-se por um
exemplar grosso, intitulado “Das Trevas às Trevas: um estudo aprofundado
sobre a mais terrível das artes mágicas”. No entanto, o livro não era
para Severo; ela comprara para ler, já que não conseguiu segurar a
curiosidade.
O atendente abobalhado que a levou ao caixa “Dez galeões? Que livro
caro!” – exclamou Carla quando ele disse o preço, mas mesmo assim pagou.
Embrulhou o livro cuidadosamente e colocou em uma sacola preta, não queria que
ninguém visse o que carregava.
Já tinha perdido as esperanças quando passou pela loja de jóias, e uma
particularmente misteriosa chamou sua atenção. Era um lindo anel de prata, com
uma pedra preta no centro – uma grande ônix. Carla deu um suspiro. Finalmente
achara o presente para Snape. Entrou na loja e pediu pelo anel, e a moça
prontamente o mostrou, ressaltando todas as qualidades do objeto:
- Ele foi soldado à mão de grandes bruxos artesãos, e a pedra de ônix
foi encontrada em uma mina muito antiga e pura. O anel foi feito com o mais puro
dos metais, que tem o poder de se ajustar ao dedo do dono, e somente obedece a
quem foi presenteado.
- Certo, - disse Carla um pouco impaciente – vou levá-lo.
- Gostaria de embrulhar para presente e colocar as iniciais do
presenteado?
- Sim, sim – respondeu distraidamente.
- Quais são as iniciais? – perguntou a atendente.
- As iniciais? SS – respondeu misteriosamente.
Alguns minutos depois, a moça trouxe uma linda caixinha de veludo preta
com dois ‘SS’ gravados em prata, bem no meio da caixinha. Essas letras
lembraram remotamente à Carla duas cobras, mas não se importou.
Já se passavam das duas horas quando Carla chegou ao castelo. Estava
completamente exausta, porém feliz. Conseguira o presente de Severo e ainda
comprara um livro que certamente Remo ou Sirius nunca permitiriam que ela lesse.
Caminhou apressadamente até o dormitório feminino, que estava completamente
vazio. Deixou suas compras na cama e foi até a escrivaninha, onde encontrou sua
coruja piando baixinho, como se esperasse alguma correspondência.
- Ah, Grase, eu tenho uma carta para você entregar. Espere só um
pouquinho que eu só vou escrevê-la – disse Carla pegando um pergaminho e uma
pena.
A coruja deu um pequeno pio, como se concordasse. Carla molhou a pena no
tinteiro e começou a escrever, completamente concentrada. Assim que acabou,
ergueu a folha e releu, para ver se estava tudo certo.
“Caro Severo Snape,
Me desculpe por não ter aparecido em sua masmorra ontem à noite. Eu
realmente estava com muito sono e ainda tive que ouvir uma cansativa conversa de
Hermione sobre a história dos bailes de Hogwarts.
Gostaria de me desculpar, me encontrando com o senhor o mais breve possível.
Se não se incomodar, poderia ser hoje, às onze horas, naquele mesmo banco que
nos encontramos pela última vez. Espero uma coruja em resposta.
Atensiosamente,
Carla Wetts”
Carla olhou novamente para a carta, com uma sobrancelha erguida. Com
certeza não era uma desculpa convincente, mas em parte era verdade. Ela
encontrara com Hermione no Salão Comunal e ficaram conversando um pouco, não
necessariamente sobre a história dos bailes. Entregou o envelope para a coruja,
que piou alegremente.
- Grase, entrega isso para Severo Snape, professor de Poções, ok? –
perguntou Carla enquanto colocava a entrega na pata dela.
Grase piou alegremente, deu uma bicadinha carinhosa no dedo da garota e
saiu voando pela janela do dormitório, rumando para a parte sul do castelo.
Carla sentou-se em sua cama, pensativa. Teria que esperar uma resposta do
professor, que provavelmente iria se vingar da garota. Pegou seu exemplar recém-comprado
de “Das Trevas às Trevas: um estudo aprofundado sobre a mais terrível das
artes mágicas”, enquanto esperava decidida pelo horário da próxima
refeição.