A Poção

Capítulo 7
O BAILE

         A manhã do dia seguinte foi agitada. Muitos ainda comentavam o duelo entre Draco e Carla, pareciam não se cansar de rir do sonserino, que estava muito mal-humorado naquela manhã.

         - Quem não ficaria? – comentou Rony divertido – Depois de receber um feitiço daqueles, eu sumia da escola por uns dois dias.

         - Mas aquilo era magia avançada, Lupin mesmo disse – comentou Hermione pensativa. – Onde será que ela aprendeu?

         - Quem se importa? – perguntou Harry – O que importa é que ela deu uma lição no Malfoy que ele nunca vai esquecer.

         Os alunos falavam animados sobre o duelo, e esperavam ansiosos para a próxima aula. Depois do café, seguiram para suas aula matinais, mas ninguém nem viu um sinal de Carla, que parecia disposta a sumir novamente.

         - Acho que estão invertidos os papéis – observou Rony intrigado. – Draco levou o feitiço, e deveria ter sumido; e Carla que lançou o feitiço devia estar comemorando! Algo está errado.

         - Provavelmente ela não quis aparecer depois de perder mais pontos para Grifinória – respondeu uma voz fria atrás deles. – Se os senhores não sabem, sua casa está em último lugar na Taça das Casas

         Era Snape. Se seu rosto não estivesse tão impassível, eles poderiam jurar que estava querendo dar pulos de alegria. Nos últimos cinco anos Grifinória ganhara a Taça das Casas, o que deixou o professor profundamente irritado.

         Os três decidiram sair de lá o mais rápido possível, comentando a posição no campeonato. Precisavam descobrir um jeito de voltarem à dianteira, mas parecia impossível. Sonserina estava com cem pontos na frente, e eles teriam que ralar muito para conseguirem.

         Nas aulas que se seguiram, Hermione conseguiu vinte pontos para a casa, o que causou um grande rebuliço. Comentaram no almoço todo os pontos ganhos, e todos se esforçaram para conseguirem mais pontos.

         A próxima aula era Transfiguração, ou melhor, dois tempos de transfiguração, e somente nesta aula Carla resolveu aparecer, mais indisposta do que qualquer outro dia, usando novamente seus óculos escuros. Ela sentou-se na última carteira e não quis papo com ninguém.

         Os vinte primeiros minutos correram normalmente, com a professora Minerva ensinando como transfigurar objetos a partir de moléculas de ar. Era algo terrivelmente complicado, e foi um alívio quando bateram na porta e Dumbledore entrou na sala, carregando um saco azul-prateado.

         - Caros alunos, – começou o diretor, com sua voz serena – venho aqui trazer algumas notícias sobre o baile de amanhã.

         Alguns alunos começaram a cochichar, parando abruptamente quando o diretor continuou:

         - Estou trazendo aqui uma saca mágica, que contém o nome de todas as alunas do colégio. Será um sorteio – muitos deram suspiros derrotados -, mas se tiverem sorte, poderão tirar a pessoa que desejam, basta pensar nela. É claro que nem sempre se pode ter o que quer, portanto não fiquem desapontados se não for o par desejado.

         - Serão obrigatórias as cinco primeiras músicas, depois podem continuar com o par ou mudar para algum mais agradável – explicou McGonagall.

         - Isso mesmo, professora Minerva – concordou Dumbledore. – Agora, podem pegar um papelzinho aqui, garotos.

         Os meninos correram para pegarem um par bom. Durou alguns minutos uma enorme confusão, cheia de caras desapontadas e animadas. Quem não estava nem um pouquinho feliz era Carla. Com certeza ou Severo ou Draco iriam tirá-la, já que só bastava pensar muito na pessoa que queria tirar. Suspeitava que Dumbledore não faria isso sem motivo algum, e afundou na sua carteira, completamente infeliz.

         Os alunos passaram os próximos dez minutos discutindo os pares. Bem, só os meninos comentavam entre si, e as meninas ficavam insistindo para eles dizerem quem tiraram.

         - Quem vocês tiraram? – perguntou Hermione curiosa.

         - Ninguém – respondeu Rony enigmaticamente.

         - Como ninguém? – perguntou impaciente – Não pode ter tirado ninguém!

         - Claro que posso. E não se preocupe que não tirei você – comentou dando de ombros.

         Hermione pareceu levemente desconcertada, mas Rony não percebeu. Harry, ao contrário, deu uma pequena risada. A professora McGonagall estava ficando irritada, já que as conversinhas não paravam. Deu um longo suspiro e comentou, a voz trêmula.

         - Eu sei que vocês estão trabalhando duro para isso, mas vou ter que tirar vinte pontos de Grifinória, devido à grande falta de respeito com a aula.

         Os alunos pararam de falar. Sabiam que a professora não faria uma coisa dessas se já estivessem passando dos limites. Ficaram quietos o resto da aula, somente fazendo o que a professora pedia.

         E mais um dia de aula acabou. Os alunos somente recomeçaram a falar quando estavam no Salão Comunal, esperando o horário do jantar. Carla subiu correndo para seu quarto, ficar sozinha e longe de todos.

 

         Já passavam das nove horas. Remo Lupin estava em sua sala, anotando o tema das aulas seguintes, enquanto Sirius ia curar um pequeno ferimento na enfermaria. Quase não percebeu quando uma coruja cinza-claro aproximou-se da janela, dando bicadas no vidro. Ele viu o bicho furioso e abriu a janela, levantando de um salto. A coruja deu uma bicadinha na orelha de Remo e deixou uma carta na mesa, voando em seguida.

         Remo pegou a carta, curioso. Reconhecera a coruja como sendo de Carla, e pegou curioso a carta, que estava endereçada a Sirius Black. Ele ficou indignado, e resolveu abrir mesmo não sendo dele, já que a garota sempre comunicava os dois ao mesmo tempo.

         O pergaminho estava completamente molhado, graças às lágrimas que caiam dos olhos de Carla, e em alguns pontos ela teve que reescrever, de tão ilegível que estava a carta. Ele começou a ler preocupado.

 

“Sirius,

Eu estou muito mal, estou passando pela pior fase da minha vida. Estou completamente sozinha, sem nenhum amigo. Preciso desabafar com alguém, e como Remo está chateado comigo, preciso conversar com você.

Será que poderíamos nos encontrar o mais rápido possível? Pode marcar qualquer hora, eu me viro para te encontrar. Se quiser, pode ser em Hogsmeade, já que poderemos ir até lá amanhã e domingo. Só não comente nada com Remo, não quero que ele fique sabendo.

Sabe Sirius, eu estou muito arrependida pelo feitiço na aula de duelos, só queria revidar o que Draco tinha feito em mim. Não sei se vocês repararam, mas ele lançou um expelliarmus muito avançado, e eu voei longe, ainda estou com a cabeça sangrando um pouco. O pior foi que ele não perdeu nenhum ponto, e eu fui humilhada na frente de todos. Bem que ele mereceu o feitiço, já estava farta dele me provocando... Bem, isso não é o pior... Remo não vai querer falar comigo tão cedo... Ai Sirius, eu preciso de ajuda, estou tão mal! Eu não vou poder te contar tudo, como nunca contei tudo para Remo, mas grande parte eu preciso desabafar. Me mande uma coruja urgentemente.

 

Carla”

 

         Remo ficou comovido com aquelas palavras. Não imaginava que a afilhada estivesse tão mal, e sentiu-se culpado por ter piorado a situação, e entendeu o motivo dos óculos: ela não dormira essas duas noites direito. Ficou olhando para a carta, até que ouviu passos e guardou correndo a carta no envelope, colocando-o intacto na mesa.

         Alguns segundos depois Sirius adentra a sala, resmungando em alto e bom som. Remo tentou forçar uma risada, e perguntou:

         - O que aconteceu Almofadinhas? Você parece emburrado... – comentou Remo tentando parecer descontraído.

         - Há! – resmungou Sirius, sentando-se em uma poltrona – Madame Pomfrey queria me obrigar a ficar na enfermaria até amanhã! E só por causa de um pequeno ferimento!

         Mas Remo teve que concordar com Madame Pomfrey, já que Sirius tinha um grande curativo no braço esquerdo, lugar que ele sofrera um profundo ferimento de Bicuço, o hipogrifo que o ajudara a fugir três anos atrás.

         - Se Bicuço não tivesse ficado tão excitado ao ver Hagrid, talvez eu não tivesse essa droga de ferimento! – continuou resmungando, mais para si mesmo do que para o amigo – Mas então Aluado, tem alguma novidade?

         - Nada, somente uma carta para você. Pela coruja, parecia ser de Carla – respondeu tentando parecer indiferente. Entregou o envelope para Sirius, que o olhou intrigado e levemente preocupado.

         - Você tem notado que ela está um pouco abatida, não acha?

         - Sim... – respondeu sentindo uma grande pontada de culpa.

         Sirius concordou com a cabeça, e começou a ler. De aborrecido sua expressão passou para preocupado. Ele hesitou por um momento, e depois entregou a carta para Remo. Ele olhou-o intrigado, perguntando o que ele queria com esse gesto.

         - Leia Aluado. Diz respeito à você – respondeu Sirius, incentivando o amigo a ler.

         Remo pegou o papel, com as mãos trêmulas. Embora já tivesse lido a carta, leu-a novamente, para não deixar Sirius desconfiado. Segurou um soluço e devolveu o papel para Sirius, que guardou-o novamente no envelope.

         - O que você diz sobre isto? – perguntou Sirius sério, o que não era comum dele.

         - O que eu posso dizer? Que eu sou o culpado e deveria pedir desculpas? Ela também errou, não devia ter lançado aquele feitiço em Malfoy – respondeu tentando parecer convincente, mas sem muito sucesso.

         - Ora, vamos Aluado! Ela não teve culpa, até se desculpa! A coitadinha está passando por um mau bocado. E tudo por causa daquele seboso! – a última parte ele disse em um rosnado.

         - Mas como eu posso falar com ela? Dá a entender que eu nunca mais vou dirigir a palavra! – perguntou Remo desconsolado.

         - Você vai saber o que fazer. Eu vou conversar com ela, depois vocês conversam, ok? – Remo concordou com a cabeça – Ótimo. Vou mandar uma coruja para a pobrezinha, combinarei amanhã, às dez horas no Três Vassouras. Esteja lá às onze.

         Sirius pegou um pergaminho, escreveu um rápido bilhete e foi ao corujal, despachar o recado. Depois voltou para a sala, para ajudar Remo a terminar o planejamento.

 

         A manhã daquele dia parecia convidar todos os alunos a saírem da cama logo cedo, para darem um passeio no jardim ou apreciar a lula nadar pelo lago, invejosos pela sorte do animal. Outros prefeririam passar o dia em Hogsmeade, o povoado favorito de todos os alunos de Hogwarts.

         Com Carla não foi diferente. Ela levantou cedo, vestiu-se o mais rápido possível e rumou para o Salão Principal. Comeu um café simples, e foi para o povoado no seu maior passo. Estava apressada para conversar com Sirius, queria resolver pelo menos um dos seus problemas.

         Ainda eram nove e meia. Resolveu dar uma pequena volta pela Dedosdemel, na esperança de encontrar algum doce que lhe fosse saboroso. Decidiu por um sapo de chocolate, e seguiu para o Três Vassouras enquanto comia o sapo, que parecia muito menos saboroso do que sempre fora.

         Sentou em uma das últimas mesas, somente esperando por Sirius. E este não demorou a aparecer. Os dois deram um beijo no rosto de cumprimento e Carla começou a contar, a começar pela detenção de Snape. Contou os fatos mais importantes, como o sacrifício para assistir às aulas, sobre as provocações de Snape. É claro que não contou sobre o pequeno romance com Draco, sabia que o amigo teria um ataque. Também não contou sobre a descoberta do Mestre de Poções, levaria um sermão por ter se transformado na frente dos outros.

         Depois passou para a aula de duelos. Contou do feitiço de Draco, até mostrou o ferimento, e também sobre a reação que tivera quando entendeu que Remo lhe tirara dez pontos.

         - Remo estava errado! – exclamou Sirius displicentemente – Eu não faria isso! Daria uma detenção, mas nunca tiraria pontos da minha própria casa!

         Carla deu um pequeno sorriso de descrença, e Sirius deu um sorriso maior, deixando o tom de deboche de lado.

         - Mas falando sério pequenina, - começou ele, segurando as mãos de Carla – Remo está muito arrependido de ter tomado uma decisão precipitada. Acho que vocês dois deviam conversar.

         - Mas Sirius – retrucou a garota, com os olhos marejados – ele está muito chateado comigo. Eu o desapontei. Não tenho certeza se mereço outra chance – completou de cabeça baixa.

         - Isto só cabe a ele decidir, pequenina – comentou amigavelmente, com um tom de voz cativante. – Dê uma chance a ele, só te peço isso.

         - Obrigada Sirius – murmurou a garota o abraçando. – Muito obrigada mesmo!

         Sirius a confortou com um afago na cabeça, e logo em seguida pediu para a garota, um minuto, enquanto chamava por Aluado. Ele chegou minutos depois, com uma expressão triste nos olhos. Sentou-se no lugar de Sirius e fitou Carla demoradamente, até a garota dar a iniciada:

         - Remo, eu...

         - Não precisa dizer nada – cortou o padrinho, olhando-a com ternura. – Eu sei que você está arrependida, posso ver nos seus olhos. E eu também errei, não devia ter perdido a cabeça tão rapidamente. Então acho que estamos quites, não é mesmo? – terminou dando um pequeno sorriso.

         Carla desabou em choro, abraçando o padrinho bem forte.

         - Ai Remo! Você não sabe como eu senti falta de você! Estava tão sozinha, tão perdida... – comentava enquanto continuava abraçada ao padrinho.

         - Tudo bem querida. Já passou – disse dando pequenos tapinhas nas costas da garota, para evitar que ela chorasse mais.

         Carla pôde novamente sentir um abraço acolhedor, algo que não sentia há algumas semanas e pensava não saber mais como era.

         Como pedido de desculpas, Remo levou a afilhada até a Zonko’s e lhe comprou uma saca de bombas de bosta; depois passou pela Gemialidades e lhe presenteou com vários caramelos incha-língua, que Fred e Jorge pareciam muito orgulhosos em vender, tanto que até deram um desconto por Remo ser o melhor professor de DCAT que já tiveram e por Carla ser amiga deles.

         Os dois saíram bem felizes do Três Vassouras, uma hora depois, quando Remo pagou cerveja amanteigada para os dois. Depois despediu-se de Carla, que voltou a caminhar pelas lojas.

         Já eram umas duas horas quando sentiu a tristeza invadi-la novamente, pensando em Draco e Severo, os dois sonserinos que balançaram seu coração. Começara a se preocupar novamente, e sua mente se encheu de dúvidas e sentimentos ruins. Pensou em como aqueles dois conseguiam lhe trazer problemas.

         Caminhou vagarosamente e sem rumo algum pelo povoado, até que uma súbita idéia lhe passou pela mente. Adentrou o Três Vassouras novamente, sentou em sua habitual mesa no fundo do aposento, e pediu cervejas amanteigadas.

 

         Draco caminhava pelo povoado, sem saber ao certo onde queria ir primeiro. Sentiu uma grande sede e entrou no famoso bar da madame Rosmerta, a fim de tomar um suco de abóbora ou uma cerveja amanteigada. Caminhou entre as mesas à procura de um lugar vazio, e somente encontrou numa mesa bem no fundo. Mesa que tinha somente um habitante: Carla Wetts. Ele se aproximou devagar, hesitante, pensando se ela gritaria com ele.

         - Posso me sentar aqui? O resto do bar está cheio – perguntou timidamente.

         - Claro – disse fazendo um gesto vago com a mão.

         - Você está bem? – perguntou reparando melhor no estado da garota.

         - Sim – respondeu indiferente, seu olhar perdido em algum ponto do bar. – Na verdade não – completou colocando a caneca do que parecia a décima cerveja na mesa.

         - Você já bebeu tudo isso? – perguntou assustado – Não sabia que se beber cerveja amanteigada demais pode ter sérios problemas?

         - Ah, é claro, claro – respondeu chamando Madame Rosmerta. – Mais duas aqui, por favor.

         A muito contragosto Rosmerta deu mais duas cervejas, e Carla ofereceu uma para Draco, que ainda parecia impressionado com a idéia da garota tentar se embebedar.

         - O que foi? Eu não vou tomar as duas, pode tomar essa – respondeu olhando brava para Draco.

         - Eu só acho que você não devia fazer isso – respondeu com as sobrancelhas franzidas, mas bebendo um gole.

         - Há, como se mandasse em mim – comentou dando uma pequena risada. – Sabe Draco, eu queria que essas aqui tivessem álcool como as normais, mas é uma pena que tenha tanto pouco. Eu bem que tentei tomar uma boa dose de quentão, mas a Madame Rosmerta me impediu. Disse que só para maiores – comentou indignada. – Como pode? Já sou grande o bastante para saber o que faço.

         Ela ia começar a beber a outra caneca quando Draco segurou com força a mão dela. Carla olhou feio para o garoto, e em uma tentativa de soltar a mão dele, acabou derramando tudo nela própria.

         - Olha o que você fez! – reclamou soltando a caneca – Estou totalmente encharcada!

         - Venha comigo, você não está bem! – disse Draco bruscamente, a segurando com força pelo braço. Deixou alguns galeões pelas cervejas e levou Carla para fora dali.

         Ela continuava tentando se soltar, mas Draco não a deixaria fugir por nada. A levou até a floresta após o povoado, para um lago que ela nunca tinha visto, e teria apreciado muito se não estivesse naquela situação.

         Ela insinuou protestar, mas Draco foi mais rápido. Sem aviso nenhum, jogou Carla com força para dentro do lado, e a garota caiu sem poder ao menos se defender. Draco esperou pacientemente pelas bolhas de ar saírem da superfície e Carla aparecer bufando de raiva, resmungando e xingando Draco.

         - O que pensa que estava fazendo? – exclamou alto, para Draco ouvir o que lhe fizera – Como se não bastasse me tirar da minha fossa, me manchar de cerveja amanteigada ainda quer me jogar no lago?

         - Só estava te trazendo de volta à lucidez, burrinha – respondeu severamente. – E o problema não é meu se você estava curtindo uma fossa, só não queria que fizesse alguma besteira.

         - Aaa, desde quanto resolveu bancar o bom samaritano, Malfoy? – perguntou debochadamente, enquanto saía com dificuldade da água, que estava bem gelada.

         - Desde nunca, só não queria que você, que eu considero minha amiga, fizesse alguma bobagem – comentou rispidamente. – Eu posso garantir que se fosse o Potter ou seus amiguinhos, eu teria rido da cara deles.

         Carla olhou com deboche para o garoto, que não agüentou. Segurou com força os dois braços dela, fazendo-a gritar. E voltou a falar, a voz menos severa, somente levemente impaciente.

         - Vamos parar com essas briguinhas, Carla. Sabe que não vai levar a nada. Ainda estou disposto a ser seu amigo, mesmo sabendo de você e Snape.

         - Ora Draco, não insinue uma coisa dessas... – comentou ameaçadoramente.

         - Insinuo porque é verdade. Mas se você não quiser minha amizade, eu não ligo. Ou melhor ligo sim, mas não poderei fazer nada a respeito.

         Draco soltou Carla e começou a caminhar de volta ao povoado, mas um grito de Carla o fez parar. Ele olhou intrigado para a garota, que disse, em meio a lágrimas.

         - Não faz isso Draco... Eu sempre quis ser sua amiga, você que não via isso. Eu não posso, não quero perder sua amizade, é a única que tenho. E desculpa se eu não posso corresponder aos seus sentimentos, mas estou muito confusa, e ainda não sei o que fazer.

         Draco deu um sorriso – um sorriso verdadeiro que Carla pensou ter esquecido. Abraçou Carla ternamente, e ambos ficaram assim por alguns minutos, até que Carla disse, bem mais aliviada do que já esteve em um longo tempo.

         - Você não sabe o quanto isso me alivia Draco, não sabe mesmo.

         Draco concordou com a cabeça, e os dois começaram a conversar como se nada tivesse acontecido, rumo ao povoado e à estrada que levava de volta a Hogwarts, Carla contando o que acontecera nesses últimos dias e Draco ouvindo tudo atentamente.

         - Draco, posso te fazer uma pergunta? – perguntou Carla em certo ponto do caminho. Os dois andavam abraçadinhos.

         - Claro – respondeu ele olhando para o rosto dela.

         - Quem você tirou para o baile? – perguntou vermelhinha.

         - Aaa, o baile! – disse rindo – Não se preocupe, não tirei você.

         Carla pareceu levemente desapontada, mas perguntou quem ele tinha tirado.

         - Foi uma tal de Cho Chang, do 7º ano da Corvinal. Você a conhece?

         - Já ouvi falar – disse entre risadinhas.

         - Que foi? – perguntou Draco, pensando que a garota ria dele.

         - É que você não sabe – comentou sem parar de rir. – Essa menina é a que Potter está tentando sair desde o quarto ano, e você indo no baile com ela vai ser muito divertido!

         - Há, então o Potter vai ficar chupando dedo! – disse agora gargalhando.

         E os dois continuaram a travessia rindo de Harry e comentando algumas besteiras também, como o que vestiriam para o baile, se poderiam dançar uma música juntos...

 

         Chegando no castelo, os dois tiveram que se separar. Draco seguiu para as masmorras e Carla para a ala hospitalar – por mais que negasse tinha que tomar uma poção para reanimar, e uma contra resfriado também. O único problema era que Madame Pomfrey queria deixar a garota repousando até o final da noite, e Carla não admitia isso.

         - Ora, primeiro Sirius Black agora você! Não compreendem que precisam de cuidados médicos? – ralhou a enfermeira.

         - Eu não me importo de ficar na ala hospitalar, Madame Pomfrey, só não posso ficar hoje! Hoje é o baile, e eu não posso faltar! – retrucou Carla.

         - Ah, está bem. Tome essa poção e pode ir – disse contra seus princípios.

         Carla tomou uma poção verde-avermelhada, que estava muito quente e ela quase queimou a língua, mas conseguiu por pouco. Depois deixou a enfermaria, rumando calmamente até o Salão Comunal, o coração muito mais leve do que esteve em dias. Agora tinha somente uma preocupação: O par do baile.

         Ela olhou em seu armário todos os vestidos, mas nenhum se enquadrava na situação. Esperou pacientemente por um pacote do correio coruja, enquanto lia mais uma vez “Formatura em Hogwarts, é ou não para se ter prazer em estudar?”, completamente absorta.

         Lá para as cinco horas uma coruja cinza-claro adentrou a janela do dormitório, e passou rasante pela cabeça de Carla, colocando um grande embrulho sobre as pernas dela. Carla olhou espantada e triunfante ao mesmo tempo. Colocou o embrulho do lado da cama e deu alguns biscoitinhos para a coruja.

         - Obrigada Grase. Agora pode descansar, creio que esta viagem foi demorada – comentou acariciando de leve o bico da coruja, que deu uma bicadinha carinhosa no dedo da dona e saiu voando para o corujal.

         Carla deu um sorrisinho maroto. Estava feliz com a encomenda, e começou a se preparar para o baile, sem conseguir conter a felicidade.

 

         Eram oito horas. Os alunos conversavam enquanto caminhavam até o Salão Principal, que fora mudado para o baile daquela noite. Uma grande lista afixada na entrada dizia os pares sorteados, e as cinco primeiras músicas tinham que ser dançadas com eles. Harry, Rony e Hermione conversavam em um canto, próximos à lista.

         - Harry, eu não acredito que você tirou a Sibila! – exclamou Hermione perplexa.

         - É, nem eu acredito – disse Harry mal humorado. – Vocês têm sorte de tirarem um par bom, pelo menos são amigos.

         - Ora Harry, se anime! São só cinco músicas! – animou Rony dando um tapinha no ombro do amigo.

         Mas não adiantava. Harry estava inconsolável.

         Alguns minutos depois, Carla vai caminhando até o Salão Principal. Muitos alunos olhavam abobalhados para ela. Decididamente resolvera se produzir. Estava linda. Usava um longo vestido de veludo verde escuro, com um pequeno decote nas costas e um bem maior na perna direita, que ia quase até sua coxa. Usava uma pequena tornozeleira verde no pé direito. Tinha sapatos brilhantes da mesma cor, e seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, com alguns fios caíam propositalmente, cheios de brilhos verdes. Também tinha uma maquiagem da mesma cor, e parecia que queria matar alguém.

         - Caramba Carla! Você está linda! – exclamou Rony, e Hermione olhou feio para ele – Mas é claro que você também está linda, Mione!

         - Acho que você não devia ter se produzido tanto assim – comentou Harry. – Já viu quem é o seu par?

         - Não, quem é? – perguntou curiosa.

         - Aaa, não vamos ser nós que vamos te contar! – exclamou Hermione misteriosa.

         - Boa sorte, Carla! – disse Rony dando um tapinha no ombro dela.

         Enquanto caminhava pelo corredor até o Salão Principal, várias pessoas desejavam boa sorte à garota, e ela ficava sem entender. Passou por Draco, que deu um sorrisinho incentivador, mas nada disse. “Quem poderia ser o par tão ruim assim?” perguntou mentalmente sem pensar em alguém muito ruim.

         E o que ela achava mais improvável de acontecer, aconteceu. Ela quase caiu no chão ao ler o nome que teria como par.

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