A Poção

Capítulo 6
A AULA DE DUELOS

         O sol já estava bem forte quando Carla acordou. Ainda estava com os olhos fechados, e parecia disposta a continuar deitada. Ficaria descansando se não sentisse uma aura estranha no local. Virou-se para o lado com muito cuidado. Sentiu que Draco estava sentado na cama, olhando para o nada. Podia senti-lo, e ficou mal quando percebeu que ele estava com uma enorme mistura de sentimentos, que incluíam, medo, paixão não-correspondida, e uma pequena raiva.

         Abriu os olhos devagar, com medo de alguma explosão do garoto. Ele não pareceu perceber que ela acordara, continuava perdido em pensamentos. Carla fitou-o. Ele estava com um braço sobre os joelhos, a mão solta. Seus cabelos estavam despenteados, sem aquele ar que Draco sempre tinha.

         Carla sentou-se, ainda olhando Draco. Ele percebeu o movimento, mas nada fez.

         - Draco, eu... – começou Carla, completamente sem graça.

         - Não precisa dizer nada. Eu já descobri. Você e Snape já se envolveram sim – interrompeu Draco, com a voz fria, o rosto impassível.

         - Não é o que você está pensando, Draco. Precisamos esclarecer algumas coisas, precisamos conversar – insistiu Carla, colocando sua mão sobre a de Draco.

         - Não há nada para conversarmos – respondeu friamente, mas sem tirar a mão dela sobre a sua.

         - Por favor Draco! – pediu Carla, segurando o rosto dele, fazendo-o encará-la.

         Então ela viu. Seu olhar era triste, e seus olhos pareciam prestes a jorrarem lágrimas. Começou a falar, mesmo sabendo que Draco não prestaria atenção.

         - Você me contou o seu segredo sem eu ao menos pedir. Me sinto em dívida com você, e acho que já está na hora de eu contar o meu segredo. Não pense que eu estou sendo obrigada a contar, mas já não consigo esconder de você.

         - Não quero saber seus segredos – retrucou Draco, desviando o olhar.

         - Mas eu quero que você saiba – disse Carla, o obrigando novamente a olhá-la. – A minha história é longa, e eu não sei por onde começar. Mas ok, vou começar pela lenda. Quando os quatro maiores bruxos fundaram Hogwarts, eles conviviam em harmonia. Mas essa harmonia acabou se perdendo, devido a grande rivalidade entre Slytherin e Griffindor.

         - Essa rivalidade estava ficando perigosa, e teria destruído a escola se não entrasse uma aluna lá. Ela tinha várias qualidades, e todos os bruxos a queriam em suas casas. No final, a briga ficou entre os dois rivais, que não queriam perder esse enorme talento. Ocorreu uma briga feia entre os dois, e eles teriam se matado se ela não impedisse. De acordo com a lenda, ou profecia, essa garota era a luz, o equilíbrio. Somente ela seria responsável pela calmaria entre os dois rivais, e a salvação do mundo bruxo.

         - De acordo com a profecia, que Helga Hufflepuff fez, - continuou Carla, com uma sensação estranha ao contar essa história – haveria outra luta entre o leão e a serpente, e a serpente ganharia, ao menos que a luz estivesse do lado do leão. Passando essa história para os dias atuais, Potter lutará contra Voldemort, e eu preciso estar ao lado de Harry para ele finalmente vencê-lo de uma vez por todas.

         - Você é a luz? – perguntou Draco, incrédulo e ao mesmo tempo interessado.

         - Sou – respondeu Carla, um pouco feliz por Draco ter prestado atenção. – Desde pequena, sempre tive alguns dons estranhos. Podia sentir, quando meus sentimentos se tornavam excessivos, a aura das pessoas, o que elas sentiam. A cada dia que passava eu sentia com mais freqüência. Quando entrei para Hogwarts, passei dois anos envolta 24 horas por dia em uma capa de invisibilidade, para que ninguém me visse. E ao mesmo tempo, tinha um treinamento excessivo, com muita magia avançada, incluindo magia negra.

         - Você sabe fazer magia negra? – perguntou Draco, cada vez mais surpreso.

         - Algumas sim. Cada feitiço é pior que o outro, e eu aprendi a fazer duas das maldições imperdoáveis – respondeu com remorso. Não gostava de falar sobre esse assunto, mas estava disposta a terminar.

         - Qual você não sabe?

         - Avada Kedavra. Dumbledore não permitiu que eu aprendesse esta, mesmo com Snape insistindo, dizendo que eu devia saber de tudo. De fato, eu senti na pele as duas maldições eu aprendi. É horrível... Mas voltando ao assunto...

         - Quando Remo veio dar aulas de DCAT, ele insistiu em me deixar viver a vida como qualquer outra pessoa, e eu tive permissão de assistir às aulas sem a capa. Mas continuava com o treinamento, sempre à noite, que estava cada vez mais puxado. No ano passado, nós lutamos contra Voldemort, e foi horrível. Eu torço para nunca mais lutar contra ele, mas sei que preciso, já que somente eu traria a vitória para o lado do bem.

         - Você sabe o perigo que está correndo em contar isso pra mim? – perguntou Draco, ainda abismado pela história que ela contara.

         Carla balançou a cabeça negativamente. Draco suspirou e começou:

         - Voldemort sabe tudo o que acontece comigo, e com certeza acabou de ouvir nossa conversa. Você não devia ter me contado, só estará correndo um perigo maior.

         - Há, não seja bobo Draco! – disse dando uma risada sombria – Voldemort sabe há muito tempo que eu sou a luz, e já tentou de tudo para me atrair para o lado das trevas. Já seqüestrou os meus melhores amigos da época, Fred e Jorge Weasley; eu estava quase caindo na armadilha, mas Dumbledore conseguiu me trazer de volta à razão.

         - Mas eu ainda não entendo por que me contou isso tudo. Eu não precisava saber! – protestou Draco, não querendo voltar a falar com a garota.

         - Claro que precisava! – exclamou Carla – Eu já não agüentava esconder isso, entende? Precisava contar para alguém, e ninguém melhor que você! – e deu uma pausa – Agora estamos com um pacto bruxo. Contamos nossos maiores segredos, e não vamos quebrar a promessa de sigilo.

         - Você só me contou para não ter como dizer o meu segredo? – perguntou Draco incrédulo.

         - Claro que não! – respondeu rispidamente – Eu queria contar, já te disse! E vamos logo! Estamos atrasados para a primeira aula!

         Draco concordou. Os dois arrumaram suas vestes e Carla pegou sua mochila, que estava atochada de livrões pesados.

         - Quais são suas aulas hoje? – perguntou timidamente. Ainda não esquecera o modo como ela o tratara na noite anterior, e parecia não querer dar o braço a torcer.

         - Bem... hoje é quarta. Então tenho Estudo das Runas Antigas, Transfiguração, Estudo dos Trouxas, Poções e Herbologia – respondeu separando os livros das matérias.

         - Estudo dos trouxas? – exclamou Draco – Não sabia que você fazia essa matéria!

         - De tudo um pouco – respondeu dando de ombros.

         E os dois se dirigiram para a primeira aula. O dia todo Carla e Draco não falaram nada além do estritamente necessário. Draco gostou da aula de Estudo dos Trouxas, mas não disse nada sobre isso.

         Poções fora a pior aula. Carla ficava com a mão trêmula, e não conseguia colocar os ingredientes com precisão. Snape também não ajudava nada, bufando de tempos em tempos no pescoço dela, e provocando os dois, dizendo coisas como eles estarem invisíveis e coisas do tipo.

         Foi um alívio para os dois quando as aulas do dia acabaram, e puderam rumar calmamente até o Salão Comunal da Grifinória, onde esperariam pacientemente pelas oito horas.

         Os dois continuavam a não se falar, e estava ficando cada vez mais desagradável ficarem nesse silêncio. Estavam no dormitório; Draco observava a paisagem pela janela e Carla somente observava o local, pensativa. Até que uma idéia lhe veio à cabeça.

         - Draco, se importa de sentar-se um pouco na cama? – perguntou Carla.

         - Não, por quê? – respondeu confuso, encarando-a com uma sobrancelha erguida.

         - Você logo verá – respondeu misteriosamente, caminhando até a cama, com Draco nos calcanhares.

         - Será que você pod...? – perguntou Draco, mas sendo interrompido pela garota.

         - Espere e verá!

         Carla gostou de ver a cara de impaciência de Draco, porque este era um dos seus objetivos. Ela sentou na cama, as pernas cruzadas, e ficou em silêncio, em algum tipo de transe. Draco estava prestes e perguntar novamente, mas se calou ao ver Carla ficar com um brilho acinzentado em volta de si.

         Então ouviu-se um estalido, e no lugar de Carla, apareceu um belo lobo cinza-claro, que estava de olhos fechados. Então virou para Draco, que soltou uma exclamação silenciosa e olhou em pânico para o animal. No primeiro momento não percebeu a pelagem cinza que variava em alguns tons diferentes, estava mais preocupado com os dentes afiados da criatura.

         E o lobo sorriu. Fez um gesto caloroso com a cabeça, que fez Draco perder um pouco do medo. E o lobo tentou voltar a ser humano, mas nada aconteceu. Ouviram-se vários estalidos mas nenhuma mudança na aparência.

         Carla soltou uma exclamação surpresa e ficou visivelmente furiosa. Tentou se comunicar com Draco, mas só conseguia soltar uivos baixos. Ele percebeu que algo estava errado, e tentou perguntar, um pouco incerto se ela entenderia.

         - Aconteceu alguma coisa?

         Ela fez que sim com a cabeça, e em uma última tentativa frustrada de voltar ao normal, suspirou, deitando com a cabeça sobre uma pata. Olhou em volta, pensando em algo que pudesse ajudá-la a se comunicar, mas não encontrou nada. Então tentou sua última chance, comunicar-se por telepatia, algo que era extremamente difícil e exaustivo.

         “Draco, você consegue me ouvir?” pensou, juntando todas as forças em Draco.

         - Como você conseguiu fazer isso? É telepatia? – perguntou surpreso, soltando uma alta exclamação.

         “Eu explico outra hora. Ouça, eu estou tentando me transformar novamente, mas acho que o idiota do Snape lançou algum feitiço de bloqueio, que me impede de voltar à forma humana. Vou ter que ficar assim até ele tirar as algemas” disse Carla, fingindo não ouvir as perguntas de Draco.

         - Você... é animaga? E nunca me falou? – perguntou espantado e triste ao mesmo tempo.

         “Ora Draco! Como queria que eu lhe contasse, se você nem ao menos olhava na minha cara direito?” perguntou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo “Mas preciso lhe pedir uma coisa: quando formos à sala de Snape, peça para ele tirar o feitiço, só isso, não deixe-o tirar a minha capa, se não estarei encrencada!”

         Draco por um momento pensou em não fazer o que ela pedira. Seria muito engraçado vê-la ser suspensa por ser animaga ilegalmente. Mas depois pensou no que sentia por ela, e decidiu aceitar, para não se meter em problemas maiores.

         - Tudo bem, mas como eu fico?

         “Depois que desfizermos o feitiço estará tudo bem. Você vai para o seu Salão Comunal, e eu para o meu!”

         - Isso não parece ser um final apropriado... – disse inseguro.

         Carla balançou a cabeça negativamente, mas conseguiu convencer Draco no final das contas. Ela deitou na cama, cansada demais para fazer outra coisa, com Draco sentado, olhando para o nada, e às vezes lançando olhares de esgueira para o lobo, que estava descansando, os olhos fechados.

         Até que bateram as oito horas. Carla levantou sobressaltada, e acabou assustando Draco. Ele pegou a capa de invisibilidade e os cobriu, pelo menos até saírem do Salão Comunal.

         A mulher gorda ficou muito indignada por dar passagem à alguém invisível, mas eles não se importaram. Quando passaram por um corredor vazio, Draco tirou a capa, deixando somente Carla envolta nela.

         Desceram até as masmorras, e em minutos estavam batendo na porta da sala de Snape, sempre medonha e fria. Ele abriu a porta, e deu um sorrisinho de desdém ao ver Draco, mas logo parou ao ver que Carla não estava com ele.

         - E onde a Srta. Wetts está? – perguntou letalmente, encarando Draco.

         - Está aqui, ao meu lado. Ela só não quer sair da capa de invis... – começou Draco, mas o professor logo o interrompeu.

         - Embaixo de uma capa de invisibilidade, não é? – perguntou astutamente. Em seguida ordenou: - Saia daí imediatamente senhorita Wetts, ou menos dez pontos para Grifinória.

         Não obteve resposta. Bufando de raiva, deu passagem para Draco entrar na sala. Em seguida fechou a porta. Pegou sua varinha e fez um feitiço expulsório, que fez a capa voar no ar e cair no chão.

         O que ele viu o deixou sem ação por alguns minutos. Um lobo, um lobo adulto, sentado no chão, olhando ameaçadoramente para Snape, deixando à mostra todos os seus dentes afiados, dando uma aparência medonha.

         - Ah, é claro – disse assim que encontrou novamente a voz. – Igualzinha ao Lupin. Transformando-se em animago sem conhecimento do Ministério, você estará muito encrencada, senhorita. Seus amiguinhos marotos conseguiram escapar, mas você não! Aa, não mesmo! E devo te dar uma detenção, isso definitivamente não está no regulamento da escola.

         O lobo rosnou. Snape ficou mudo novamente, então sentou-se em sua escrivaninha e anotou alguma coisa, continuando a falar, com ar superior.

         - Eu sabia que faria bem em colocar um feitiço bloqueador nessas algemas. E até que foi mais útil do que eu esperava!

         - Professor... será que o senhor podia retirar o feitiço? – perguntou Draco hesitante – É que já acabou a detenção, e eu queria muito ir jantar...

         O professor fitou Draco, uma expressão estranha no rosto, os olhos brilhando. Fez um gesto displicente com a varinha, como que sugerindo algo, então apontou-a para as algemas, falou um feitiço complicado e elas sumiram magicamente.

         Draco mexeu os pulsos. Pensou que nunca mais poderia sentir a circulação novamente. Carla, porém, não se importou com isso. Em um segundo, virou a garota de 16 anos novamente, e abriu a boca para protestar, mas Snape pareceu prever isso, então disse:

         - Estão livres. Em parte, devo completar. Malfoy, - completou, virando-se para Draco – vá para seu Salão Comunal, vá jantar, faça qualquer coisa. Está liberado. Mas eu ainda preciso combinar a detenção dessa lobinha desobediente.

         Ele lançou um olhar divertido à garota, que rosnou em resposta. Parecia o lobo furioso que fora visto em alguns minutos. Draco abaixou a cabeça, sabia que o professor não ia somente lhe aplicar uma detenção, aproveitaria para fazer outras coisas... Caminhou até a porta, e nem virou para trás quando Carla chamou por ele. Bateu a porta e saiu caminhando.

         - Agora, senhorita Wetts, vamos acertar algumas coisas... – disse Snape ameaçadoramente, andando até a garota, a varinha em punhos, para qualquer movimento suspeito dela.

         - O que o senhor quer acertar comigo? A detenção, eu espero – provocou Carla, andando cautelosamente para trás. Estava com muito medo, mas tentava não demonstrar. Sabia que qualquer deslize abriria vantagens para Snape.

         - Isso também. Mas antes, gostaria de saber desde quando a senhorita é animaga clandestina, e porque fez uma coisa dessas, desrespeitando muitos regulamentos da escola – começou o professor, se aproximando mais de aluna.

         - Isso não interessa ao senhor! – exclamou corajosamente. Snape a olhou ameaçadoramente, e ela continuou – Desde o ano passado, tenho me transformado para ajudar meu padrinho no período perigoso dele.

         - Eu duvido muito que seja só por isso – ele se aproximava cada vez mais, e seus rostos estavam quase colados.

         Carla tentava recuar, mas Snape sempre se aproximava mais. Até que, sem aviso, ele a agarrou pela cintura, colando seus corpos e seus rostos separados apenas por milímetros.

         - Ora, me solte! – exclamou Carla, surpresa pela atitude do professor.

         Ele não fez nada. Segurou-a com mais força, tornando qualquer tentativa de fuga impossível. Carla ainda tentava se livrar, e nem percebeu quando ele aproximou seus lábios ao dela. Somente se tocou do movimento quando eles se tocaram. Ela tentou resistir, mas Severo Snape conseguia tornar todos os momentos tão envolventes que era impossível evitar ou resistir.

         Os beijos estavam cada vez mais calorosos, e parecia haver consentimento de ambos. Até que houve um movimento repentino. Uma mão voando pelos ares. Um rosto estapeado, vermelho com as marcas dos dedos.

         Carla olhava Snape com raiva. Ele somente colocava a mão no rosto, tentando conter a dor. Os olhos da garota pareciam frestas de tão pequenos que estavam. Fez um movimento ameaçando outro tapa, e a voz trêmula e contida dela, bufando de raiva.

         - Olhe aqui... nunca... mais... tente... fazer isso... de novo, ok? Nunca mais!

         Ela virou-se, pegou a capa que estava no chão e saiu da sala, os pés batendo com estrépito no chão.

         O professor ficou parado ali, com a mão no rosto, tentando processar o que acabara de ouvir.

 

         Carla sumira. Não aparecera no jantar, o que despertou uma certa curiosidade em alguns alunos. O mais preocupado era Draco, que sabia que algo acontecera na sala de Snape. Lançou um olhar ao professor. Ele estava sério, de cabeça baixa, aparentemente escondendo alguma coisa em seu rosto, comendo rapidamente.

         Draco notou que ele saiu o mais rápido que pôde, nem esperou por sobremesa. Com certeza acontecera algo, e pelo que parecia, Carla dera um belo tapa no professor. Ele deu um sorrisinho satisfeito. Pelo menos Snape não conseguira o que queria, deixando o caminho livre para o garoto.

 

         A manhã seguinte foi cheia de tumultos, principalmente porque os alunos do 6º ano de todas as casas receberam corujas que avisavam sobre a nova aula, que aconteceria naquele mesmo dia, às oito da noite. Rebuliço total para saberem que matéria aprenderiam, e quem seriam os professores.

         - Eu aposto que vai ser o Lupin – disse Rony cheio de si. – Qual outro motivo ele estaria na mesa dos professores?

         - Mas qual matéria ele vai ensinar? DCAT eu duvido, já que Snape não abandonaria o cargo por nada – ponderou Hermione, pensativa.

         - Espero que seja uma aula boa – torceu Harry, esperançoso.

         Todos os alunos estavam comentando sobre essa aula, exceto Carla, que até o momento não tinha aparecido para o café da manhã. Ela somente apareceu bem no finzinho, quase no começo das aulas. Andava sorrateiramente, como se estivesse sobre rodinhas, e usava óculos escuros, algo que ninguém nunca tinha feito.

         Comeu rapidamente seu café, sob olhares preocupados – ou talvez somente espantados – de Draco e Severo. Ambos tinham notado sua ausência até o momento, e realmente achavam que algo tinha acontecido.

         Os alunos do 6º ano da Grifinória foram para suas aulas. As três primeiras, Herbologia, Trato das Criaturas Mágicas e História da Magia foram tranqüilas, e ninguém mandou Carla tirar os óculos. Hagrid ficou preocupado, perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que estava, e não quis dar mais informações.

         O grande problema foi a aula depois do almoço, aula que muitos queriam evitar. Defesa Contra as Artes das Trevas. Snape estava impassível, parecia pior que sempre. Nem se passaram dez minutos de aula e o professor já estava provocando os alunos, principalmente Carla, que há algumas aulas era seu alvo favorito.

         - Senhorita Wetts, o que está usando sobre os olhos? – perguntou em tom acusador, encarando a garota, que parecia nem ligar.

         - Óculos escuros, professor – respondeu indiferente.

         - Então tire estes óculos, garota – disse em tom autoritário. – É proibido usar esses artefatos trouxas na escola, então ordeno que os tire.

         - É mesmo? – perguntou duvidosa – Eu não lembro de nenhum regulamento dizer alguma coisa do tipo, professor.

         O lábio inferior do professor deu uma leve tremida, e ele murmurou algo sem sentido, até que levantou a voz e disse:

         - Menos vinte pontos para Grifinória, senhorita; devido sua falta de respeito com o professor. Agora tire esses óculos se não quiser ver o diretor! – a última frase ele falou saindo do controle, algumas gotas de cuspe voando da sua boca.

         Carla olhou com muita má vontade para o professor, e aos pouco foi tirando os óculos. Logo todos descobriram o motivo dela usá-los: tinha profundas olheiras e seus olhos estavam completamente vermelhos.

         - Satisfeito agora, professor? – perguntou em um misto de raiva e choro.

         - Certamente, srta. Wetts. – respondeu com desdém – Agora abram seus livros na página 390! – ordenou para o resto da classe.

         Mas a verdade era que o professor se arrependera de ter mandado-a tirar os óculos. Agora entendia. Ela provavelmente passara a noite toda chorando, e se esquecera de dormir. Sentiu uma pontada de remorso. Em parte a culpa era dele, por agir tão impulsivamente e deixá-la furiosa.

         A aula se arrastava e ninguém via a hora de acabar, até que depois de uma hora muito demorada ela acabou. Os alunos foram saindo da sala, comentando sobre a perda de pontos da grifinória, e alguns ficaram muito bravos com Carla, mas ela nem se importou. Colocou os óculos novamente e foi caminhando, um pouco longe de todos.

         - Hei! Carla, espera aí! – gritou Rony, correndo até a garota.

         - Pensei que não estava falando comigo... – comentou, mas virando para vê-lo.

         - Não mesmo, mas mudei de idéia ao ver essa aula – respondeu Rony dando de ombros. – Você foi muito corajosa em desafiar o professor, e acho que ninguém teve coragem antes.

         - Eu só não queria tirar os óculos, e ele insistindo. Alguma hora cansa! Não sei como você e o Harry agüentam o que ele diz...

         - Falando nesses óculos, por que vocês estava os usando? – perguntou Rony curioso – Eu vi que seus olhos estavam vermelhos, aconteceu alguma coisa?

         - Na verdade eu só não tive uma boa noite de sono – mentiu. Não agüentaria que alguém descobrisse o verdadeiro motivo. – Só não queria que todos ficassem perguntando curiosos, mas como sempre, aquele seboso faz questão de estragar tudo... – comentou com desdém.

         - Quem é seboso, senhorita? – perguntou uma voz fria atrás deles.

         Era o professor Snape. Ele estava com uma cara de profundo ódio, e só não atacava a garota ali para não perder seu cargo de professor.

         - Hum... ninguém professor – respondeu saindo o mais rápido que pôde.

         A aula de Transfiguração foi normal, e a professor McGonagall não obrigou Carla a tirar os óculos, o que foi um alívio.

         Quando a aula acabou, os alunos da Grifinória foram para o Salão Comunal, onde esperariam pacientemente pela aula secreta. Muitos não conseguiam fazer nada, tamanha a ansiedade. Outros, tentavam jogar partidas de snap explosivo para passar o tempo.

         Carla foi para o dormitório. Aquela agitação e energia excessiva estavam a deixando com náuseas. Passou o tempo lendo um grande livro, intitulado: “Formatura em Hogwarts, é ou não para se ter prazer em estudar?”. Nele falava todas as vantagens de estudar em Hogwarts, e no final do livro tinham as turmas na formatura de cem anos, indo até a turma do ano anterior, que tinha Fred e Jorge Weasley e Lino Jordan, grandes amigos da garota.

         Foi folheando as páginas de turmas até que parou em uma que lhe chamou a atenção. Correu os olhos para os alunos que acenavam alegremente, depois para a lista com os nomes. Viu os nomes dos pais, que acenavam muito felizes, ao lado dos marotos e Lílian Evans. Sentiu uma saudade enorme dos pais, e uma raiva maior ainda de Voldemort, que tinha os matado.

         Depois mudou de página. Viu a turma da Sonserina, do mesmo ano. Notou muitos jovens desconhecidos, e bem no centro da fotografia estava um Lúcio Malfoy muito mais novo, junto com os pais de Grabbe e Goyle. No outro lado estava Severo Snape, com seus cabelos oleosos e uma postura não como atualmente, parecia um adolescente mesmo. Começou a pensar se nessa época ele já era um Comensal, e se já sabia que sua vida se transformaria rapidamente, de um jeito que nunca poderia mudar.

         Fechou o livro com força. Pensar em Severo não era uma coisa boa, principalmente se já o beijara duas vezes, e fugira de maneiras surpreendentes cada vez. E ainda tinha Draco, que já dissera que a amava e ela não sabia o que fazer.

         Ficou perdida em pensamentos até que deram as oito horas.

         Os alunos foram caminhando excitados pelos corredores até chegarem no Salão Principal, onde Remo Lupin e Sirius Black os esperavam, grandes sorrisos estampados no rosto. Eles cumprimentaram todos os alunos, que olhavam curiosos para o local da aula.

         - Alunos do 6ª ano. É com muita honra que venho lhes dizer que nós dois – disse Lupin apontando para ele e Sirius – seremos os professores de duelos. Teremos aula toda 5ª feira, neste mesmo horário.

         Muitos alunos soltaram exclamações de surpresa. Não esperavam que a aula fosse de duelos. Tinham uma experiência não muito agradável quanto o tema, quando tiveram um clube de duelos no 2º ano, e o professor Lockhart definitivamente não sabia como comandar a aula. Ainda tiveram a desagradável surpresa de saber que Harry era ofidioglota, o que causou pânico em muitos alunos.

         - Muito bem. Vamos começar pelo básico – continuou Sirius, tirando todos de seu pequeno transe de horror. – Todos sabem qual é a posição antes de um duelo, não sabem? – perguntou jovialmente.

         Alguns alunos concordaram com a cabeça, outros continuavam desligados.

         - Vamos mostrar. Primeiro fazemos uma reverência assim – começou Lupin, fazendo a reverência, junto com Sirius – depois damos três passos e nos posicionamos. Existem várias posições de duelos, que dependem de como você segura a varinha e em que mão a usa.

         - Podem escolher duplas, vamos treinar os feitiços de desarmamento – completou Sirius, olhando para todos com um brilho nos olhos. – Escolham à vontade.

         Harry e Rony automaticamente se viraram. Hermione fez dupla com Neville, que suplicava ajuda. Os pares foram se formando e acabaram sozinhos somente Carla e Draco, que a muito contragosto se juntaram.

         - Então comecemos com um simples Expelliarmus. Não faremos nenhum outro tipo de feitiço, não queremos nenhum acidente – continuou Sirius.

         Os alunos se posicionaram. Ouviram um sinal de Lupin e logo começaram a desarmar os oponentes. Tudo corria bem até que Draco lançou um expelliarmus um tanto avançado, que fez Carla voar três metros e bater com força na parede, a varinha jazida no chão.

         Ela o fitou com raiva. Viu um trejeito de desdém percorrer os lábios de Draco, e logo entendeu o recado. Ele queria pegar pesado, mas não sabia com quem estava se metendo. Um finete de sangue escorria pelo rosto de Carla por baixo de seus cabelos, mas ela não se importava. Tirou um pouco de pó das vestes e caminhou até Draco, os olhos queimando de raiva. Posicionou a varinha e berrou:

         - Ventolomorra!

         Um jorro branco saiu da varinha de Carla, e um grande vendaval invadiu o salão, formando um furacão. Draco foi atingido em cheio, e bateu com força no teto, ficando preso no redemoinho, sem poder se mexer.

         - AGORA CHEGA! – berrou Remo caminhando até o local que Draco fora atingido – Carla Wetts, o que eu disse sobre SOMENTE DESARMAR O OPONENTE? E sobre nada de FEITIÇOS AVANÇADOS? – Remo gritava a plenos pulmões, totalmente fora de si.

         Carla nunca vira o padrinho tão irritado, e remotamente se arrependeu do feitiço que lançara. Sirius caminhou apressado até o local, e logo desfez o feitiço, fazendo Draco bater com o bumbum no chão.

         Várias risadas foram ouvidas. Rony e Harry estavam ajoelhados no chão, dando murros e gargalhando. Até Harry que nunca se dera bem com Carla agradeceu pelo feitiço que lançou em Draco.

         - Eu nunca pensei que iria dizer isso, mas desconto dez pontos de Grifinória! – disse Remo em um suspiro, completamente desapontado.

         Sirius viu que todos olhavam perplexos para o professor, e tentou contornar a situação.

         - Er... hum... para a próxima aula tragam uma redação sobre os feitiços mais usados em duelos, de categoria não-perigosa. Um metro de redação. Para a próxima aula... Estão dispensados, podem ir.

         Pouco a pouco os alunos saíram do Salão Principal, conversando sobre a aula ou sobre o duelo entre Draco e Carla, que todos achavam que estavam namorando. Agora qualquer idéia de relacionamento fora desmentida, já que os dois estavam quase se matando.

         Carla continuava parada no Salão Principal, a varinha ainda erguida. Não conseguia raciocinar direito. Remo nunca tiraria pontos de alguém, nunca o fez, mesmo com vários desrespeitos dos alunos. Ficou parada até que finalmente entendeu a informação. Saiu correndo para seu dormitório, os olhos cheios de lágrimas, completamente fora de si.

         Remo estava vermelho. Nunca imaginara que a afilhada faria alguma coisa contra o regulamento, e estava completamente desapontado. Sirius logo tratou de tirá-lo dali, tentando acalmá-lo.

         Ela passou a noite toda no dormitório, chorando. Não desceu para o jantar, nem parecia ter fome. Somente chorava por passar pela pior fase de sua vida.

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