A Poção
Capítulo 5
FIM DA DETENÇÃO E ALGUNS SEGREDOS
Draco abriu a porta da sala, e deparou-se com um Snape bastante irritado,
e alguns alunos se esquivando no final da sala. Deu um suspiro e se sentou numa
das últimas carteiras, o mais longe possível do professor. Carla se sentou em
uma cadeira ao lado de Draco, e tentou evitar o olhar de Snape, pois tinha quase
certeza que ele estaria a matando com o olhar. E não estava errada, ele
realmente parecia prestes a pular no pescoço dos dois.
- Hoje falaremos sobre dementadores. Abram o livro-texto na página 361
– disse Snape, olhando para todos os alunos com desprezo. – Alguém sabe do
que um dementador se alimenta?
Carla levantou a mão abruptamente, sem ao menos se lembrar que estava
invisível. Acabou levantando justo a mão presa à Draco, e ele levantou a mão
também, completamente atônico, olhando surpreso para Carla. O professor Snape
deu um sorrisinho e perguntou:
- Senhor Malfoy, pode dizer a resposta.
- Er... hum... – disse completamente sem graça. Carla apontava
freneticamente para uma anotação no caderno, mas era inútil, Draco não
conseguia vê-la. Tocou na mão dele e murmurou, tão baixo que ele quase não pôde
ouvi-la.
- Sentimentos bons.
- Er... Eles se alimentam dos sentimentos bons das pessoas? – arriscou
Draco, sabendo que Snape provavelmente vira Carla lhe dando cola, e daria um
belo zero para os dois.
- Correto – disse torcendo os lábios, em completo descontentamento.
O resto da aula foi chata como sempre. Passaram a aula toda anotando
dados sobre os dementadores, com Snape bufando no pescoço de um ou outro aluno.
Quando a aula acabou, foi um tremendo alívio para os dois.
- Há, finalmente! Livres do Snape pelo resto do dia! – comemorou
Carla, se espreguiçando enquanto caminhavam pelos corredores, um pouco atrás
de todos.
- É, agora temos que trocar de lugar, as algemas estão começando a
reaparecer – alertou Draco, olhando para as algemas.
- Então vamos para a sala de Remo, é menos suspeito trocarmos lá –
sugeriu Carla, puxando Draco para a sala.
Os dois chegaram na sala de Remo e Sirius, e Draco bateu na porta. Quem
atendeu foi Sirius, que fez uma careta ao vê-lo, acabando com todo o seu
bom-humor.
- O que você quer? – rosnou Sirius, olhando desconfiado para Draco.
- Eu preciso usar a sala por um momento... – respondeu o olhando com
desdém.
- Onde está a Carla? – exclamou Sirius, vendo que ela não estava com
ele.
- Sirius, pára de infantilidade. Estou aqui. É pra isso que precisamos
da sala – disse uma voz ao lado de Draco.
Sirius fez um muxoxo de desaprovação, mas deixou que os dois entrassem.
Carla tirou a capa, e estava suando dentro dela. Remo apareceu de uma sala, e
ficou surpreso ao ver os dois dentro da sala.
- O que aconteceu? Por que estão aqui?
- Viemos só trocar de lugar. Não vamos demorar – disse Carla
rapidamente.
- Como foi o dia? – perguntou Sirius, tentando parecer descontraído,
mas era um pouco difícil, pois não gostava da presença de Draco.
- Cansativo. Principalmente a aula de Snape. Parecia que ele estava me
vendo – comentou Carla, infeliz. – E o pior é que ainda tenho aula com ele
amanhã, antes dele tirar essas algemas...
- Espero que fique tudo bem – disse Remo, duvidando um pouco que isso
pudesse acontecer. – De qualquer jeito, vão logo, Dumbledore logo vem nos
visitar.
Os dois assentiram. Carla tirou de suas vestes dois frascos da poção da
invisibilidade, e entregou-os a Draco. Ele os colocou dentro de suas vestes. Ia
começar a passar nas algemas quando ouviram passos se aproximando. Correram
para a capa de invisibilidade o mais rápido possível, enquanto Remo abria a
porta, cauteloso.
Era Dumbledore.
- Remo, que bom que atendeu. Preciso falar com você e com Sirius –
disse alegremente enquanto cumprimentava Remo.
- Sinta-se à vontade, Alvo – disse Remo, fazendo um gesto cortês ao
diretor, que logo adentrou a sala.
Carla empurrou Draco com força, fazendo-o gemer. Os dois saíram da sala
o mais rápido que puderam, mas não adiantou muito. Dumbledore ouvira os dois,
e comentou com Remo e Sirius.
- Parece-me que os dois estão enfrentando uma provação muito difícil
com essa detenção proposta por Severo.
- Alvo, você não sabe o quanto ela está sofrendo com isso – disse
Sirius. – Você não poderia cancelar essa detenção? Ninguém merece passar
por isso.
- Mesmo que eu pudesse, Sirius, não o faria. Acho que isso fará bem
para ela, conviver com as dificuldades – respondeu Dumbledore. – Acho que
sempre a protegemos muito, é bom que ela aprenda a tomar conta de si mesma.
- É, o senhor tem razão – disse Remo começando a concordar.
Carla e Draco caminhavam pelos corredores desertos do colégio, ainda
envoltos pela capa de invisibilidade. Carla estava guiando Draco até o banheiro
da Murta-Que-Geme, já que era o único lugar que poderiam ficar sem ninguém os
atrapalhando. Quando pararam na porta e viram a placa de banheiro feminino,
Draco exclamou:
- Você não está pensando que eu vou entrar num banheiro de garotas, ou
está?
- Draco, sinceramente! Você precisa aprender mais sobre a escola, ainda
mais você que se achava o garoto-que-sabia-mais-do-que-qualquer-outro – disse
Carla abafando uma risadinha. – Este é o banheiro da Murta-Que-Geme, ninguém
nunca vem aqui, a não ser, talvez, o famoso trio grifinória.
- Eles vêm aqui? – perguntou Draco espantado.
- Sim, vieram principalmente no 2º ano, mas se eu te contasse o que eles
faziam aqui você ficaria de queixo caído – comentou procurando alguma coisa
nos boxes.
- O que você...?
- Só estava vendo se a Murta estava aqui. Agora ande logo! Precisamos ir
para o Salão Comunal logo, ainda não fiz o dever de poções – completou
apressada.
Draco pegou um vidrinho com a poção, que estava mais viscosa do que
nunca. Passou um pouquinho pelas algemas, que sumiram em fração de segundos.
Pegou mais um pouco e espalhou pelo braço. Sentiu enormes calafrios, como se
estivesse sendo congelado de dentro para fora. Sentiu-se tonto, e cambaleou um
pouco.
Carla segurou-o por um triz. Draco quase bateu a cabeça em uma pia.
Ajeitou o corpo desfalecido sobre suas pernas, e começou a chamá-lo baixinho,
com muito cuidado. Não obteve resposta. Começou a sacudi-lo de leve, mas nada
adiantou. Tocou-lhe de leve no rosto, e percebeu que estava muito gelado. Sentiu
uma onde de desespero percorrer o seu corpo. O que aconteceria a Draco agora? O
que poderia fazer para ajudá-lo? Essas eram perguntas freqüentes em sua cabeça
confusa.
- Draco... Draco... Draco, por favor, acorde. Não faz isso comigo, por
favor! – começou a dizer freneticamente, acariciando o rosto pálido de
Draco, lágrimas correndo por seu rosto.
Ouviu passos se aproximarem. Desesperada, a primeira coisa que fez foi
pegar a capa, e cobri-los desajeitadamente, enquanto com uma mão segurava a
cabeça de Draco. Os passos estavam cada vez mais próximos, e Carla ouviu a
porta do banheiro abrir, e três pessoas entrarem sorrateiramente por ela.
Ela foi andando para trás o mais rápido que pôde, abraçando Draco
furtivamente, o desespero tomando conta do seu ser. Bateu na parede, mas não se
importou, ficou encolhida com Draco em seus braços.
Harry, Rony e Hermione entraram em um boxe do banheiro, e logo saíram
sorridentes. Preparavam uma poção, e parecia ser bem poderosa, pois tinha um
cheiro super forte. Trouxeram um caldeirão para fora, e contemplaram a substância
viscosa que borbulhava.
- E então Mione, já está pronto? – perguntou Harry ansioso.
- Quase. Ai Harry, não devíamos estar fazendo isso, com certeza alguém
vai nos pegar, podemos entrar em uma grande encrenca. – dizia Hermione
enquanto mexia o caldeirão freneticamente.
- Claro que devíamos. O Malfoy sempre arranja um jeito de ficar livre de
qualquer coisa. Desta vez, vamos acabar com os capangas dele e ainda vamos ter o
prazer de ver a cara dele quando ver que está sozinho – respondeu Rony, com
contido triunfo no rosto. – Nunca vou esquecer quando ele marcou um duelo com
nós dois à meia noite e amarelou, quase nos colocando em uma grande encrenca.
- É, e ele ainda me paga por ter ganho naquele jogo de quadribol –
completou Harry, com os dentes cerrados.
- Tudo bem. Ela deve ficar pronta até a meia noite. Depois do jantar
vamos voltar aqui, para ver se está pronta – concluiu Hermione.
- Então vamos jantar! Estou morrendo de fome! – disse Rony com a mão
na barriga.
Os três saíram quase da mesma maneira que entraram: sorrateiramente.
Carla tirou a capa assim que eles saíram. Enrolou-a em Draco, a fim de
aquecê-lo. Continuava a tentar de tudo para acordá-lo, mas nada adiantava.
Tentou sua última idéia, mas achava que não ia adiantar muito.
- Por favor Draco, acorde com isso!
Aproximou-se o máximo que pôde e deu um beijo nele, um beijo carinhoso,
mas que demonstrava muito desespero. Sentiu seus lábios completamente frios,
como se estivessem congelados. Dracp forçou os olhos, tentando abri-los, mas não
conseguiu. De suas vestes caíram sua varinha, e Carla iluminou-se.
- Ah, é claro! – disse pegando a varinha de Draco – Como pude me
esquecer? – continuou irônica – Sou uma bruxa, um simples feitiço basta!
– apontou a varinha para Draco e disse – Enervate!
Draco abriu os olhos com dificuldade. Estava recobrando os sentidos, mas
muito lentamente. Focalizou Carla, que ainda deixava algumas lágrimas rolarem.
Deu um pequeno sorriso e com a mão trêmula segurou a de Carla, apertando-a o
mais forte que pôde.
- Dr... Draco...? Você está bem? – perguntou Carla com a voz
falhando.
- A... acho que estou... – respondeu ainda fraco.
- O que aconteceu Draco? Por que desmaiou de repente? – perguntou agora
mais preocupada ainda.
- Não sei... – respondeu indiferente, tentando se sentar, mas sem
muito sucesso – Acho que foi essa poção. Por que não me disse que era tão
ruim assim?
- E... eu... Eu não achei que fosse assim... Eu só senti muito frio,
depois perdi a sensibilidade, mas não cheguei a desmaiar... – respondeu
cautelosa.
- O mais provável é que você seja mais forte do que eu... – comentou
forçando um sorriso – Aaaa, me ajude a me levantar.
- Não mesmo! – respondeu Carla – Você está fraco, precisa
descansar. Acho melhor te levar à Madame Pomfrey, ela deve saber o que fazer
– completou tentando levantá-lo.
- Não, por favor! – pediu ele, segurando o braço dela com força –
Eu odeio ir à enfermaria ou a qualquer lugar assim, não me faça essa tortura.
- Então vamos inverter, eu continuo invisível e você fica aparecendo a
todos, assim não precisa passar mal, e você está pálido e muito frio, não
vou te deixar passar por isso! – exclamou Carla, inconformada com a atitude de
Draco.
- Carla, preste atenção: não é a primeira vez que passo mal sem
motivo aparente, e quero que saiba que sei me cuidar direito. Além do mais –
continuou, pegando a mão de Carla e a colocando sobre seu peito, na altura do
coração – ouça meu coração, e diga, o que você consegue perceber? –
perguntou.
- Ele... ele está batendo bem forte... – disse a garota completamente
confusa, sem saber o que fazer.
- Exatamente – concordou Draco, serenamente. – E enquanto meu coração
estiver batendo forte, continuarei vivo, mesmo que meu corpo não responda por
mim. E eu já estou acostumado a sofrer provações, e mais uma não irá acabar
comigo – completou, tentando novamente se levantar. Conseguiu se sentar, mas
com muita dificuldade.
- Draco, mas por favor, não precisa passar por isso. Eu te levo na área
hospitalar e estará tudo bem... – Carla tentava persuadi-lo, mas era impossível
alguém tirar uma idéia da cabeça de Draco.
- Já te disse: pare de se preocupar comigo. Preocupe-se com você mesma,
eu sei me cuidar – contrapôs o garoto, encostando sua cabeça no ombro de
Carla.
Carla concordou com a cabeça, e começou a acariciar o cabelo de Draco,
sem argumentos para convencê-lo a mudar de idéia. Ouviram um barulho de relógio,
o que representava que faltava apenas meia hora para acabar o horário do
jantar. Os dois levantaram a cabeça, alarmados.
- Precisamos jantar logo, antes que acabe o horário e passemos fome –
disse Carla, olhando para Draco e observando se ele teria condições para o
mesmo.
- Certo, acho que estou mesmo com fome – concordou Draco.
Ele abriu a capa, pegou um vidrinho nas vestes e ofereceu à Carla. Ela
pegou curiosa o vidro e observou. Viu que era a já conhecida poção da
invisibilidade.
- Draco, o que...? – ia perguntando Carla, mas Draco a atropelou.
- Eu quero que você passe, nas algemas e no meu braço. A essas horas já
deve estar passando o efeito, e eu não consigo passar isso – disse ele lançando
um olhar à poção, que brilhava à luz da lua.
- Draco, eu não vou fazer isso! – exclamou Carla, em profunda
desaprovação.
- Aa, vai sim! – retrucou Draco, pegando a mão que estava com a poção
e colocando com força no seu braço.
Esse ato causou um grito de dor em Draco, e ele começou a apertar os
dedos furtivamente, tentando lutar contra a dor. Carla tentava ajudar de alguma
forma, mas estava muito desesperada para tanto. Draco apertou a outra mão com
força nas vestes, e Carla a pegou, assim os dois poderiam sofrer juntos.
- Carla, por que demora tanto? Passe o resto, não vou agüentar muito
tempo! – pediu Draco, o rosto estampado de dor.
Carla não pensou duas vezes, passou logo tudo o que tinha que passar.
Passaram mais alguns minutos de dor e sofrimento até que Draco parou de se
debater, mas continuava pálido e frio. Ela o abraçou com todas as forças,
chorando.
- Por que choras? Já passou, estou bem – disse Draco, enxugando as lágrimas.
- Ai Draco! Por que você faz questão de sofrer? Seria muito melhor se
você não fizesse tudo isso! – disse ela, à beira de chorar em prantos.
- Acalme-se Carlinha, já passou, pare de chorar – pediu Draco,
soltando-a do abraço e a fitando, com um olhar triste.
- Draco... – foi a última palavra que disse antes de seus lábios se
tocarem, em um beijo caloroso, revelando uma explosão de sentimentos.
Algum tempo depois os dois foram até o Salão Principal, Draco já
envolto na capa de invisibilidade. Sentaram-se no fundo da mesa da Grifinória,
e Carla começou a comer o jantar, colocando um pouco de bacon em um guardanapo.
Saiu faltando um minuto para acabar o jantar, e levou seu prato quase totalmente
cheio para fora. Colocou dentro da capa enquanto caminhava por um corredor
deserto, para Draco segurar.
Chegaram no corredor que dava ao retrato da mulher gorda. Ela pediu a
senha, e Carla a deu prontamente (“fortunasmento”) e os dois entraram
no Salão, neste momento lotado de alunos fazendo o dever de casa ou conversando
à beira da lareira. Carla subiu sorrateiramente até o dormitório feminino e
sentou-se em sua cama, suspirando aliviada.
- Ótimo. Estamos com o dormitório vazio, mas somente por enquanto –
ela levantou-se e foi até a porta, trancando-a. – Teremos um pouco de paz até
umas onze horas, quando todos começam a dormir.
- Nossa, seu Salão Comunal é muito melhor que o meu! É bem quentinho e
aconchegante – reclamou Draco, desembrulhando os bacons.
- Aa Draco, mas não se esqueça que estamos falando da Sonserina, e de
Salazar Slytherin. Não sei se você sabe, mas ele não era lá muito bom... –
comentou Carla, observando o dormitório, à procura de algo suspeito.
- Eu sei que ele era um bruxo das trevas, não precisa me lembrar! –
retrucou o garoto, parando de comer e olhando para Carla. Depois comentou
baixinho – E é por isso que estou na Sonserina.
- Não fale assim, Draco! – disse Carla passando uma mão em seu ombro
– Você não é mal, é só por causa do seu pai... – e parou abruptamente,
pensando na besteira que tinha falado – Desculpa... – completou, com a cabeça
baixa.
- Você sabe do meu pai? Quer dizer, o que ele é? – perguntou Draco
completamente surpreso.
- Desculpa, sei sim... – respondeu Carla ainda de cabeça baixa –
Posso dizer que sei desde sempre... Remo e Sirius viviam dizendo sobre as
diversas famílias de bruxos, e me alertou sobre a sua – continuou agora
completamente vermelha. – Disse que há várias gerações estão na
Sonserina, e muitos foram para o caminho do mal...
- Se é assim... Não vejo porque te esconder meu segredo. Meu maior
segredo – disse Draco, com uma expressão de profunda tristeza no rosto. –
Confio em você o suficiente, e sei que você não contaria a ninguém.
- Você não precisa me contar isso, Draco. Só se você quiser, não se
force a nada – disse Carla colocando uma mão sobre a do garoto.
- Não! Eu quero! Preciso... – exclamou alarmado – Quero mesmo!
- Então vá em frente. Estou toda ouvidos – convidou a garota, fazendo
um gesto com a mão.
- Bem, como você sabe... meu pai é... hum... comensal – era
difícil para Draco dizer uma coisa dessas – e está ao lado de Voldemort
desde muito tempo. Quando eu nasci, Voldemort viu que eu teria grandes poderes,
e que seria útil aos planos dele. É claro que meu pai quis agradar seu mestre,
então me ofereceu a ele. Pois bem... – Draco deu um suspiro. Doía muito
contar essa história – Voldemort lançou um feitiço muito complexo, que eu
nunca pensei que existiria. É um feitiço Vitalus.
- Oh, Draco! – exclamou Carla, sentindo muita pena do garoto, e abraçando-o
– Eu realmente não sabia... desculpa... eu...
- Não precisa sentir pena de mim. Em parte eu mereci isso – respondeu
frio, soltando-se do abraço. Carla olhou-o espantada.
- Mas... Draco... – tentou dizer Carla, mas sendo atropelada por Draco.
- Não fale! Espere eu terminar! – pediu com um olhar distante, a voz
parecendo gelo – Esse feitiço torna quem o recebeu em dívida eterna com o
autor do feitiço, e este pode comandar todos os sentimentos e dores da pessoa,
podendo matá-lo se preciso – Carla soltou uma exclamação de horror
silenciosa. – Às vezes eu sinto uma dor terrível, como se estivesse sendo
aberto e alguém tirasse todos os meus órgãos. É claro que ele faz isso com
uma certa freqüência, para ver o quanto sou forte. É muito pior que um Cruccio,
acho que nunca morri por acreditar que algum dia eu poderia me livrar. Por isso
que sou tão mal com todos, ele me comanda, e faz com que eu seja assim.
Principalmente com o Potter, mas dele eu não gosto mesmo...
Carla ficou com os olhos completamente marejados, tentando imaginar o
sofrimento que Draco sempre teve que passar. Ameaçou abraçá-lo, mas ele
recuou, os olhos agora fora das órbitas.
- Draco! – berrou a garota, entrando em pânico – Draco! Me responde!
Devolva o Draco agora! – rosnou para alguém além de Draco.
O garoto ficou todo duro. A boca estava entreaberta, e parecia um cadáver.
Esticou uma mão e apertou com força o pescoço de Carla, na intenção de
enforcá-la. Ela gemia de dor, e tentava dar pontapés mal mirados no garoto,
que parecia estar fora de si.
Carla deu um berro, querendo que alguém a ajudasse. Mas ninguém poderia
ouvi-la. Estava sozinha, e teria que vencer sozinha. Concentrou-se com todas as
suas forças em um pensamento feliz “Draco é uma garoto bom, ele nunca me
faria mal, Draco não é mal!”. Aos poucos uma aura dourada começou a envolvê-la,
e Draco foi obrigada a soltá-la, as mãos ardendo.
Ela começou a respirar em arquejos descontrolados, tentando recuperar o
oxigênio perdido. Olhou com ódio para o corpo em sua frente, com certeza
aquele não era Draco, era algum espírito ruim. A aura em volta dela aumentava
cada vez mais. Draco abriu a boca para falar, mas não saiu a sua voz
normalmente fria, mas sim uma voz grossa, que lembrava muito uma outra pessoa...
- Garota tola... Não adianta me olhar com este olhar determinado que
lembra tanto seus pais. Não adianta fugir, você ainda morrerá da maneira mais
cruel do mundo. E não pense que agirei sozinho. Seu amiguinho Malfoy me ajudará,
e você nada poderá fazer. Caso ele não concorde, não estará mais entre nós
para dizer que é bonzinho, pois não adianta. Um Malfoy será sempre um Malfoy.
E todo Malfoy é mal, sem coração. Com Draco não será diferente...
Prepare-se garota, quando menos esperar você e seu amiguinho Potter irão
morrer, se encontrar com seus paizinhos... – e então Draco deu uma risada
fria, mas com vingança embutida, e isto não parecia comum dele.
Então ficou tudo em silêncio, que só era cortado pelos arquejos de
Carla, que ainda respirava com dificuldade. Então Draco parou. Voltou a
amolecer, e os olhos voltaram às órbitas. Parecia estar voltando de um
profundo transe, mas não um transe normal, um transe cheio de dores. Ouviu-se
um grito agonizante e Draco caiu na cama, suando frio e respirando com
dificuldade.
- Draco... É você? – perguntou Carla receosa.
- Sim, sim... – respondeu com dificuldade – me vire de barriga para
cima, por favor – pediu, quase em um fio de voz.
Carla obedeceu. Reparou que Draco parecia estar sem respirar, e fazia uma
enorme força para consegui-lo. Ela mirou-o apreensiva, e em um ato impulsivo,
beijou-o, com todas as forças que lhe restavam.
Pareceu funcionar um pouco. O garoto deu um sorriso forçado, mas
verdadeiro, e começou a respirar com um pouco menos dificuldade. Ficou alguns
minutos em silêncio, até que disse, ainda com a voz fraca:
- Ca... Carla... desculpe... eu... eu... não queria... fazer...
aquilo...
- Shhh – pediu Carla, colocando dois dedos nos lábios dele. – Eu
sei, eu sei. Não precisa dizer nada...
- Mas eu preciso... Não quero que pense... que pense... que eu sou como
Voldemort. Eu realmente não sou. Ele... tomou conta de mim, não pude fazer
nada – continuou Draco, não atendendo ao pedido de Carla.
- Tudo bem Draco, só não fale mais nisso, ok? – pediu Carla mais uma
vez, agora com os olhos fechados, lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto.
- Carla, você não entende? Eu preciso dizer, ele vai me comandar até a
minha morte! Não posso simplesmente deixar passar as oportunidades enquanto as
tenho! Voldemort pode me matar na hora que lhe for mais propícia, preciso...
aproveitar... todas... as... oportunidades – ele sibilou a última frase,
entoando cada palavra com ênfase, para Carla não perder nada.
- Draco... pare, por favor! – sibilou Carla, não agüentando aquela
tortura.
- Olhe para mim enquanto falo – pediu Draco, segurando o queixo dela e
forçando-a a olhar para ele. – Eu te amo, ok? Te amo e sempre vou amar, não
importa o que aconteça. Se algum dia eu fizer algo de mal a você, garanto que
não será em sã consciência, Voldemort estará me controlando, não tenha dúvida.
E se algum dia isso acontecer, por favor, mate-me. Prefiro morrer a servi-lo, não
conseguiria viver desse jeito.
- Draco... – Carla já não conseguia falar. Já esperava que ele fosse
dizer algo do gênero, mas não estava pronta para ouvir, e sentia-se culpada
por não poder corresponder na mesma intensidade.
Ficaram olhando-se por alguns momentos, Draco esperando uma resposta, com
a mão sobre as mãos trêmulas de Carla; Carla segurando o choro, soluçando
muito e pedindo que alguém a ajudasse.
Ouviram batidas repentinas na porta. Olharam para o relógio; ele marcava
meia-noite. Carla levantou-se rápido, e jogou a capa sobre Draco, o pânico
invadindo os dois.
- Ora, abra essa porta! Queremos entrar! – berrava Parvati, socando a
porta.
- Estou indo! – gritou Carla em resposta, certificando-se que Draco
estava bem escondido e destrancando a porta.
- O que pensa que estava fazendo? – berrou Lilá, que nunca fora com a
cara de Carla, e ela igualmente.
- Estava fazendo coisas pessoais, se não se importa – respondeu
friamente. Seus olhos estavam vermelhos ainda, mas mais parecia raiva do que
choro, devido a situação atual.
- Da próxima vez que for fazer coisas desse tipo, - comentou Parvati com
desdém, olhando o quarto à procura de um garoto – faça-o em um motel, não
na escola, ok?
O queixo de Draco caiu. Nunca pensara que Parvati Patil falaria uma coisa
dessas, e ainda mais nesse tom. Carla caminhou até sua cama, que era no fundo o
aposento, e afundou nela, bufando de raiva, até esquecendo a presença de
Draco.
- Carla... Você está aí? – perguntou uma voz receosa do lado de fora
do cortinado vermelho.
- Sim Hermione. O que foi? – perguntou Carla abrindo o cortinado e
olhando para fora, fitando Hermione com um olhar de impaciência.
- Podemos conversar? – perguntou timidamente.
- Ah, claro. Sente-se. Mas, por favor, não demore muito, realmente estou
cansada – disse se lembrando que Draco estava com profundas olheiras.
- Não, tudo bem. Serei rápida – apressou-se Hermione em dizer,
sentando-se na ponta da cama, e abaixando o tom de voz. – Por acaso você está
se envolvendo com Draco Malfoy? Quer dizer... todos estão achando isso... E seu
repentino sumiço...
- Como é? – exclamou Carla, perplexa – Não, não estou me
envolvendo com Draco, que besteira! – Draco sentiu-se triste em ouvir isso –
E só porque aquela maldita poção do Snape não me fez bem e eu tive que
passar esses dois dias na ala hospitalar, os fofoqueiros de plantão resolvem
inventar um absurdo desses! Francamente! Agora só faltam dizer que o Snape está
apaixonado por mim!
- Calma Carla, só estava perguntando! – avisou Hermione, já que ela
falava tão alto que Lilá e Parvati já estavam prestando atenção – E como
sabe que estão dizendo isso? – perguntou espantada.
- O QUÊ? – berrou Carla, não conseguindo se controlar – Agora, onde
que inventaram essa história? Eu nem conheço Snape direto, como ele pode estar
apaixonado por mim? Não, isso é brincadeira, só pode ser!
- Eu não sei, mas ouvi a Parvati dizer que ele te olhava de um jeito
estranho na última aula – disse Hermione em quase um sussurro.
- Há, qual será a próxima? Que eu estou grávida do Flitwick? –
perguntou irônica.
- Não, na verdade é do Hagrid – comentou Lilá se aproximando.
- Ah, saiam daqui! Vocês três! Não quero ninguém me enchendo o saco!
Se quiserem falar comigo, marquem horário com a minha coruja! – berrou
empurrando as três companheiras de quarto para longe, e fechando o cortinado
bruscamente.
Deitou-se na cama, chorando. Mas desta vez de raiva, ou talvez uma
mistura de sentimentos. Draco não tirou a capa, pensou que poderia levar também,
mas perguntou, timidamente, mas com uma enorme curiosidade, e medo da resposta:
- Por que desmentiu que não estamos nos envolvendo?
- E você acha o que? Que eu ia dizer que estamos tendo alguma coisa? Eu
não sou louca, sabia? Não ia agüentar um bando de curiosos perguntando sobre
minha vida pessoal! Como o próprio nome diz, é pessoal, só diz respeito a
mim, entende? Só! – respondeu brutamente, mas alto o bastante que as meninas
ouviram, achando que ela estava louca, mas que, de fato, se envolvia com alguém.
- É por causa do Snape, não é? – disse Draco em um sussurro.
- Não, não tem nada a ver com ele! E se já não bastasse todo o colégio,
ainda mais você! Não acredito! – disse incrédula. Depois parou alguns
segundos – Boa-noite – disse friamente, virando para um lado.
Draco sentiu-se muito mal, mas acomodou-se na outra metade da cama, e
dormiu, com vários pensamentos confusos na cabeça, mas que chegavam a um fim
em comum: algo estava errado entre o relacionamento dela com Snape.
Carla, porém, não dormiu a noite toda. Ficou se mexendo na cama,
pensando sobre os últimos acontecimentos desde o Natal. Estava confusa sobre
tudo, mas não podia deixar de sentir raiva de Draco por achar também que Snape
gostava dela. Essa era a coisa mais sem cabimento do mundo! Um beijo não faria
tudo isso com ele, não mesmo... mas a raiva foi diminuindo conforme seus
pensamentos vagavam ao feitiço Vitalus. Sentiu muita pena do garoto, e
pensou se poderia ajudá-lo de alguma forma.
Estava perdida em seus pensamentos quando, no meio da madrugada, sentiu
uma presença estranha ao local. Não conseguiu perceber de imediato quem era,
pois estava com um tipo de interferência; provavelmente não era bem-vindo na
Grifinória. Sentiu-se observada, e remexeu-se um pouco na cama, virando para o
lado da aura, mas tomando o cuidado de manter os olhos fechados.
A pessoa recuou. Queria apenas observá-la, enquanto ela dormia. Pôde
sentir melhor a aura da pessoa se estivesse virada para ela, e sentiu uma espécie
de medo na pessoa. Provavelmente não devia estar ali. Foi quando reconheceu a
aura.
Era Snape.
Ele observava-a cautelosamente, sem pronunciar nenhuma palavra ou som.
Ela sentiu algo estranho no professor, algo que nunca tinha sentido nele antes.
Ele levantou a varinha. Carla estremeceu. Ele não podia estar tentando matá-los,
não debaixo do nariz de Dumbledore.
Preparou-se para uma possível defesa, mas Snape nada vez. Abaixou a
varinha, pensando melhor, e sumiu do dormitório, com um estalo. Ela respirou
aliviada, e foi então que percebeu: ele lutava consigo mesmo para desfazer o
feitiço cadeado, mas o orgulho acabou falando mais alto.
Carla ajeitou-se melhor no travesseiro, respirando brevemente, ocupada
demais com pensamentos para se preocupar com outra coisa.
Foi somente quando o sol começava a invadir as janelas que ela pegou no
sono, com os pensamentos completamente desordenados, sem nem saber como olharia
para a cara de Draco na manhã seguinte.