A Poção

Capítulo 2
CONFLITO DE SENTIMENTOS

         Carla continuava cambaleando pela pequena trilha que levava a Hogsmeade. Sentiu um profundo cansaço e um enorme peso caírem sobre ela, e não agüentou. Caiu no chão, completamente derrotada. Estava quase anoitecendo, e o sol já estava se pondo. Lançou um olhar suplicante para os lados, mas ninguém o retribuiu. Acabou por murmurar bem baixinho:

         - Aluado, Almofadinhas, me ajudem, por favor. – e em seguida desmaiou.

         Remo e Sirius, que estavam se despedindo de Harry, Rony e Hermione, olharam para os lados, nervosos. Trocaram olhares e começaram a andar, se distanciando cada vez mais do povoado.

         - Você também sentiu? – perguntou Sirius andando depressa.

         - Senti. Ela estava pedindo ajuda. – respondeu Remo preocupado.

         Quando estavam longe do povoado, se transformaram com um estalo; Sirius em um enorme canzarrão preto e Remo em um lobo cinza-escuro. Remo ainda era um lobisomem, mas graças a uma poção que fora descoberta recentemente, ele podia se transformar na hora que quisesse, como se fosse um autêntico animado, exceto nas noites de lua cheia, que era obrigado a permanecer na forma de lobo.

         Foram correndo e farejando algum sinal de Carla, até que avistaram um pequeno montinho de vestes pretas, que logo identificaram sendo Carla. Transformaram-se em humanos novamente e a seguraram no colo, dando leves sacudidelas, para acordá-la. Ela abriu os olhos hesitando, e abriu um pequeno sorriso quando os viu.

         - Que bom, eu sabia que vocês iam me achar.

         - O que aconteceu, Carlinha? – perguntou Remo preocupado.

         - N... nada. – respondeu com a voz trêmula. Não teria coragem de contar aos melhores amigos sobre Severo e a poção.

         - Espere um pouco. – disse Sirius desconfiado. Ouviu-se um estalo e ele se transformara no enorme cão, e cheirava Carla. Voltou à forma humana e disse: - O que as vestes de Snape fazem com você?

         Carla ficou sem fala, e mais ainda sob o olhar acusador do “padrinho”. Ele não era realmente padrinho dela, mas o considerava como sendo um, e junto com Remo, eram os únicos amigos que ela tinha, sem contar talvez com os Gêmeos Weasley e Lino Jordan.

         Ela já se via sem saída para uma desculpa convincente, quando alguém se aproxima, com uma cara de extremo mal-humor.

         - O que está acontecendo aqui? – perguntou Snape com sua voz letal.

         - Ah, que bom que o seboso em pessoa resolveu aparecer! – disse Sirius irônico. – Será que poderia explicar porque minha afilhada está com as suas vestes?

         - E no que lhe interessa, Black? – perguntou indiferente.

         - Ora, é meio suspeito! Ela aparece no chão, completamente sem forças, e ainda usando suas vestes! Exijo explicações!

         - A Srta. Wetts estava passando frio e ofereci minha capa, e ela aceitou. Não sei o que ela estava fazendo aqui. – respondeu com maus modos, mas extremamente letal.

         - Certo Snape. Obrigado pela informação. Estamos indo. – disse Remo levantando Carla e levando-a até o povoado. Sirius fuzilava Severo com o olhar, e este retribuía o olhar talvez até com mais ódio que Sirius. Remo fez sinal para Sirius segui-los, o que muito a contragosto ele fez.

         - Eu não vou tolerar o Snape nem por um segundo mais! – bufou Sirius enquanto ajudava Remo a levar Carla, que estava extremamente cansada. – Agora que tenho permissão para usar minha varinha, vou lançar o pior feitiço que souber naquele morcegão seboso!

         - Tenha calma, Almofadinhas. Provavelmente ele só estava querendo te provocar. – ponderou Remo.

         - Provocar? – perguntou irônico. – Se eu fosse ele não me provocaria, pois depois de 12 anos em Azkaban eu fiquei muito menos piedoso do que quando era antes. Aquele seboso... – resmungava.

         Sirius passou boa parte do caminho de volta reclamando e xingando Snape dos mais diversos nomes. Remo tentava acalmá-lo, mas sem muito sucesso, então teve que aturar as reclamações até chegarem no castelo.

         - Acho melhor levarmos-na na enfermaria. Madame Pomfrey deve saber o melhor jeito dela se recuperar rapidamente. – sugeriu Remo. Sirius resmungou alguma coisa mas a levou para a enfermaria.

         Lá Madame Pomfrey deu uma breve examinada em Carla, vez ou outra dando muxoxos de desaprovação. Remo e Sirius não entenderam, mas resolveram que era melhor perguntar quando a examinada acabasse. Mas nem precisou, ela tocou no assunto primeiro.

         - Sinceramente, Srs. Lupin e Black! Esperava mais de vocês! Como podem submetê-la a um feitiço tão perigoso como esse? – ralhou a enfermeira.

         Sirius e Remo se olharam confusos. Não faziam idéia do que a enfermeira estava falando. Limitaram-se a dar olhares confusos para ela, que deu outro muxoxo.

         - Como não sabem? São mandados para tomar conta dela e nem sabem o que lhe aconteceu!? – ralhou Madame Pomfrey.

         - Não sabemos. – explicou Remo. – Ela saiu para comprar alguns livros e só depois que fomos encontrá-la.

         - Mas que feitiço poderoso foi utilizado nela? Não foi uma maldição? – perguntou Sirius preocupadíssimo.

         - Não, não... – respondeu pensativa. – Mas tão poderoso quanto... Se eu muito me engano, foi algum feitiço ou poção para renascer pessoas mortas.

         Sirius deu uma careta. Pelo que sabia era impossível alguém renascer. Remo, porém, ficou pensativo, com as sobrancelhas levemente franzidas. Sirius o olhou como que pedindo explicações, e ele começou:

         - Existem poucos métodos para trazer uma lembrança até nós. Uma é um feitiço complicadíssimo, que só pode ser executado à meia noite de 31 de outubro. O outro é uma poção realmente complicada, que tira as energias da pessoa mais rápido do que qualquer outra coisa. – explicou. – Mas não sei se foi o feitiço ou a poção...

         - Snape! – exclamou Sirius sem pensar. – Foi ele! Por isso que ela estava usando as vestes dele! O seboso a obrigou a tomar a poção para ele falar com qualquer morto da vida! Tudo se explica! Aquele sonserino sujo! Não é pra menos que é um comensal!

         - Você tem certeza disso, Sirius? – perguntou Remo duvidoso. – Não podemos acusar ninguém sem provas. – Madame Pomfrey concordou.

         - E já não temos provas suficientes? Carla com a capa dele, ele ser o professor de poções. Está tudo na cara! – dizia Sirius freneticamente. Um ódio se apoderava dele.

         - Melhor perguntarmos para os dois, mas só depois, ela precisa descansar. – interviu Madame Pomfrey. – Devo dizer que ela se esforçou muito, e pode demorar a se recuperar. Vou dar essa poção para reanimar e talvez ela tenha que passar o domingo aqui.

         - Se pelo menos ela ficar melhor, ela pode ficar o tempo que for necessário. – concordou Remo. Depois puxou Sirius e disse: - Obrigado Papoula, é muita sorte termos uma enfermeira tão competente. – ela ruborizou.  – Venha Sirius, vamos para os dormitórios. – completou o puxando para fora.

         Papoula acordou Carla, que estava dormindo. Deu um pouco de um líquido fumegante que estava em um cálice para ela, que quase queimou a língua. Depois a obrigou a dormir e a descansar, pois no dia seguinte teria que responder a muitas perguntas. Carla dormiu quase instantaneamente.

 

         Severo Snape andava de um lado para o outro em sua masmorra. Pensava em tudo o que acontecera neste dia, principalmente no beijo com Carla Wetts, sua aluna. Não sabia ao certo porquê acontecera aquilo, mas sabia que tinha que ter acontecido. Sentou-se em sua poltrona esgotado. Ainda não se recuperara, e estava se sentindo esgotado. Decidiu que iria à enfermaria tomar um pouco da poção reanimadora, mas esperaria até ficar bastante escuro. Não queria correr o risco de encontrar nenhum aluno, seria terrível se este contasse a toda a escola que o professor andara na ala hospitalar.

         Saiu lentamente de sua masmorra. Parecia que deslizava pelos corredores do colégio. Chegou bem rápido à ala hospitalar, mas não encontrou Madame Pomfrey. “Talvez seja muito tarde”- pensou. Bateu de leve na porta da sala onde ela dormia, esperando não acordá-la. Ela abriu a porta um pouco sonolenta, e se espantou ao ver Severo Snape parado ali na porta.

         - Hum... Er... Te acordei, Papoula? – perguntou inseguro.

         - Não Severo! Imagine! – disse um pouco mais contente. – Diga, no que posso te ajudar?

         - É que estou me sentindo um pouco indisposto. Gostaria de saber se há alguma poção para reanimar. – disse, como se fosse impossível ele precisar de coisas assim.

         - Ah, sim, sim, sim! – disse correndo ao armário e pegando um cálice fumegante. – Acho que o precisa pelo mesmo motivo que ela, não é? – perguntou apontando a cabeça para uma cama, onde só agora Snape percebeu que Carla dormia profundamente.

         - Hum... – disse incomodado. – Como sabe?

         - Os Srs. Black e Lupin a trouxeram aqui e chegaram à conclusão que você é que tinha feito a poção.

         Snape se sentiu realmente incomodado e desconfortável. Bebeu a poção em um gole só, e disse, um pouco mal-humorado:

         - Será que poderia não comentar com ninguém que estive aqui? – perguntou receoso. – Não quero que fiquem espalhando boatos.

         - Claro. – respondeu se fazendo indiferente. – Boa noite, Severo. – disse entrando em sua sala.

         - Boa noite. – respondeu seco.

         Estava quase saindo quando parou abruptamente e olhou a cama onde Carla dormia. Acabou se sentando na beirada da cama, e segurou suavemente sua mão. Ficou horas ao lado dela, somente pensando no que poderia sentir por ela. Agora que estava tão perto dela não pôde deixar de pensar em sua mãe. Era muito bonita, e estudou em Hogwarts na mesma época que ele, apesar de casas diferentes.

         Era uma grifinória, não podia negar. Nunca teve muitas amizades, mas as que teve eram incríveis: Thomas Wetts, que seria seu marido, Remo Lupin, Sirius Black e Tiago Potter. Ela não gostava muito de Tiago no começo, mas com o tempo aprendeu a gostar dele. Carla era muito parecida com a mãe, os olhos eram idênticos, e o formato do rosto também. O que era parecido com o pai era o cabelo, um pouco indisciplinado mas muito bonito.

         Snape se afogou em lembranças. Ficou relembrando seu tempo em Hogwarts, mas quando começou a se lembrar da época que era Comensal, quis expulsar esses pensamentos o mais rápido possível. Depois começou a pensar realmente no que sentia por ela. “Não posso estar gostando dela. É uma grifinória, sonserinos e grifinórias nunca podem se relacionar... Mas se a lenda for verdadeira, talvez ela fosse uma sonserina... Ora, já não sei o que pensar!”

         Snape ficou na ala hospitalar até um pouco antes do sol nascer. Achou melhor sair dali o mais depressa possível, pois de acordo com suas suspeitas, Black iria visitá-la logo. Dirigiu-se às masmorras, sem ao menos desconfiar que Madame Pomfrey o vira ao lado de Carla a noite toda.

 

         Eram dez horas quando Carla acordou, ainda um pouco sonolenta. Olhou para os lados e se viu na ala hospitalar, e logo as lembranças do dia anterior invadiram sua mente. “Eu não quero nem saber o que vai acontecer se Sirius souber o que aconteceu... Provavelmente vai querer enforcar Severo com as próprias mãos...” - pensava. Mas parou quando se viu dizer Severo. Nunca tratara o professor assim, e começou a pensar no significado daquele beijo.

         Ficou perdida nesses pensamentos até que a porta da enfermaria se abre, e vê Remo e Sirius andando apressados em sua direção. Cada um deu um forte abraço nela e se sentaram em cadeiras, a olhando como um pai olharia para um filho que fez algo errado.

         - Pode começando a explicar, senhorita. – disse Sirius sério. Carla sentiu um nó na garganta. Ele nunca a tratara assim, nem quando fez algo errado.

         - Explicar o quê? – perguntou cautelosa. Não queria explicar o que acontecera entre ela e Snape, mas parecia ser isso mesmo que ele queria saber.

         - Você sabe muito bem. Pode começar com Snape e a poção. – respondeu Sirius. Parecia estar contendo a vontade de pular no pescoço de Snape e provavelmente, no seu também.

         - Bem... o que quer saber exatamente? – Carla disse tremendo.

         - Tudo! – Carla engoliu seco. Teria que contar, não iria ter jeito.

         - ... Eu estava caminhando pela orla da floresta, e senti um cheiro estranho. O segui até àquela caverna onde você ficava escondido. – Eu vi um caldeirão borbulhando e Snape o mexendo. Eu perguntei o que ele fazia e ele realmente ficou muito irritado comigo ali. Ele me explicou que era uma poção do espírito que renasce, mas depois quase me expulsou de lá. Eu realmente queria ver quem ele ia chamar, e fiquei, mesmo contra a vontade dele. Eu já sabia que se não fosse feito no dia das bruxas, a pessoa perderia muita energia, e quis ajudar, pois ele disse que era importante, e precisaria conversar bastante com a pessoa.

         - Você se ofereceu para ajudá-lo? – gritou Sirius, descontrolando-se. Remo o repreendeu e pediu para Carla continuar.

         - Eu quase não acreditei quando vi um vulto se formar uma pessoa, e me espantei mais ainda ao ver que era Tiago Potter. – continuou um pouco tímida, com medo de uma nova explosão de Sirius. Desta vez foi Remo que gritou:

         - Snape chamou o espírito de Tiago?

         - Aham... – respondeu cabisbaixa. – Começou a conversar com ele, aí eu quase desmaiei. Não achava possível conversar com alguém... hum... morto.

         - Como é que aquele seboso invoca o espírito de Tiago e nem nos chama? – berrou Sirius. Agora sentia mais raiva de Snape do que nunca.

         - Bem... Tiago falou de vocês, disse que sentia saudades... – disse Carla receosa.

         - E o quê exatamente Snape queria com Pontas? – perguntou Remo.

         - Queria saber se Pedro fora mesmo o fiel do segredo. Não pareceu gostar muito em saber que Sirius era inocente. – respondeu dando de ombros.

         - Aquele seboso... – Sirius xingou Snape de uns dez nomes que fizeram Madame Pomfrey aparecer ralhando.

         - Sr. Black! Melhor lavar a boca antes de entrar aqui novamente!

         - Perdoe Sirus, Papoula. Está muito inconformado com tudo o que aconteceu. – desculpou-se Remo.

         Papoula pensou seriamente em contar que Severo passara a noite toda zelando por Carla, mas achou melhor não fazê-lo, pois poderia arranjar mais confusão. Se retirou dali sem comentar mais nada.

         - Almofadinhas, precisamos ir, vamos falar com Dumbledore, lembra? – perguntou Remo dando um olhar significativo para Sirius, que pareceu não entender.

         - Como é? – perguntou confuso.

         - Dumbledore, reunião... – disse entre dentes.

         - Não estou lembrado de nenhuma reunião... – disse Sirius com a mão na cabeça.

         Remo quase gritou com Sirius, tentando fazê-lo entender. Apontou a cabeça na direção da porta, onde um jovem esperava os dois se retirarem. Parecia que finalmente ele tinha se tocado.

         - Ah, é mesmo! Carlinha, vamos à uma reunião, depois voltamos para te ver, ok? – disse se retirando junto com Remo.

         Carla olhou divertida para os dois. Depois olhou para a porta, tentando descobrir o motivo da saída repentina dos dois. Foi quando viu Olívio Wood se aproximando timidamente da sua cama, com um embrulho vermelho entre as mãos. Deu um abraço nela e disse:

         - Estivemos muito preocupados com você. Tinha sumido do dormitório. Logo pensamos que alguma coisa tinha acontecido. – disse preocupado.

         - Ah, eu só passei mal ontem à tarde, mas agora estou bem melhor. – comentou Carla sorridente. Olívio era o novo professor de quadribol, e tinha muito carinho por Carla. Os dois eram grandes amigos, mas não tanto quanto Fred e Jorge Weasley.

         - Olha, aqui. Presente de natal adiantado. Como vou para a casa dos meus pais, queria te entregar. – e entregou o presente, muito envergonhado.

         - Oh, Olívio! Não precisava! – era uma foto com todo o time de quadribol do ano anterior, onde os sete jogadores e Olívio – que virara treinador do time de Grifinória – acenavam alegremente na foto. Também tinha uma blusa de lã vermelha com o emblema da Grifinória.

         - Pensei que ia gostar. – respondeu sem graça.

         - Eu amei! É muito lindo mesmo, Olívio! – disse o abraçando impulsivamente.

         Os dois ficaram sem graça. Não falaram nada por alguns minutos, até que Olívio começou.

         - Bem, é que... Eu preciso ir, vai ter uma reunião com os professores e eu também fui chamado. – disse bastante constrangido.

         - Ah, tudo bem... – disse um pouco triste.

         Olívio se despediu e saiu, e ambos estavam levemente ruborizados.

 

         Carla ainda passou o resto da manhã na ala hospitalar, e só saiu depois do almoço. No dia seguinte os alunos voltariam para suas casas, pois era Natal. Poucos alunos continuaram em Hogwarts, e estavam incluídos Carla, Harry, Rony, Hermione, Draco e seus capangas.

         O feriado do natal foi muito tranqüilo, e Carla nem ao menos encontrou com Snape nos corredores, para alívio, ou não, dos dois. Ela ficou uma tarde, a véspera do começo das aulas, pensando no que realmente sentia pelo professor.

         - Eu não posso estar gostando dele. Definitivamente preciso descartar essa possibilidade. Ele é bem mais velho do que eu, e além do mais é professor, e diretor da Sonserina. Ninguém admitiria que eu tivesse alguma coisa com ele. – dizia para si mesma, enquanto dava voltas pelo dormitório. – E além do mais, ainda tem o Olívio... Mas acho que já não gosto mais dele, agora só o considero meu amigo. Tudo por causa do Snape, não acredito! – deu um soco na parede que pôde ser ouvido de longe.

         Resolveu deixar de lado esse assunto, precisava se distrair um pouco. Decidiu dar uma volta pela escola, pegou sua Nimbus 2001 no malão e seguiu até o campo de Quadribol. Se alguma coisa conseguia a deixar fora do mundo, essa coisa era voar. Se sentia estranhamente livre, como se conseguisse fazer tudo o que quisesse.

         Ficou uns dez minutos sobrevoando o campo, dando piruetas e fazendo manobras que não faria em um treino do time, sem ao menos perceber que estava sendo vigiada por alguém que não era possível identificar. Alguns minutos depois, deu conta que alguém mais estava no campo. Lançou um rápido olhar para o chão, só para ver se era alguém indesejado.

         E era. Harry Potter voava bem próximo ao chão, com sua Firebolt. Carla lançou um olhar de desprezo ao garoto, um olhar que só reservava para ele, e ninguém mais. Esse olhar não usava nem com o Prof. Snape, ainda mais agora que estava tão confusa em relação aos seus sentimentos.

         Harry Potter deu uma guinada e posicionou sua vassoura para cima, impulsionando-a na direção de Carla. Ela esquivou-se, e parou no ar para ver o que ele queria. Harry se aproximou e disse, em um tom quase autoritário.

         - O que está fazendo aqui? Não se pode usar o campo nos fins de semana.

         - Eu sei muito bem disso, Potter. – respondeu Carla com aspereza. A pessoa que os observava sorriu. – Sou monitora, ou o senhor não sabia? – completou com um ar de superioridade.

         - É, sei sim. – respondeu Harry indiferente. Seus olhares tinham desprezo embutido. – Mas o que estava fazendo? Observando pássaros?

         - Não, mas bem que você gostaria. Estava simplesmente voando, sem pensar em nada. – respondeu friamente.

         E antes que Harry pudesse responder qualquer coisa, três pessoas voavam na direção dos dois. Harry deu um sorriso ao ver Rony e Hermione, mas logo fechou a cara ao ver a outra pessoa, que usava vestes verdes, e era...

         - Malfoy. – disse Harry inconformado. Duas pessoas insuportáveis em um dia era demais.

         - Potter. – disse Malfoy em superioridade. Olhou à volta e continuou. – Weasley, Granger e... hum... Wetts.

         - O que quer aqui, Malfoy? – perguntou Hermione.

         - Não é óbvio? – perguntou com desdém. – Vim treinar Quadribol, como vocês.

         - Olhe que situação perfeita! – exclamou Carla, com um leve sorrisinho nos lábios. – Todos viemos treinar quadribol. Por que não jogamos contra? – sugeriu inocentemente.

         - Malfoy estaria em desvantagem... A não ser que ele se importe. – disse Rony olhando para Draco.

         - Ou a não ser que alguém passe para o time dele. – emendou Carla, sorrindo triunfante.

         - Você não quer dizer que... – perguntou Hermione não acreditando.

         - Hum... Sim! – disse normalmente.

         - Você vai ficar no meu time? – perguntou Draco incrédulo.

         - A não ser que você não queira. – respondeu displicentemente.

         - Bom... Melhor ter você no meu time do que jogar sozinho. – respondeu Draco.

         - Eu não acredito que ela seja uma grifinória! – exclamou Harry com amargura. – Está mais para sonserina!

         - Aahh, você não sabe nada sobre ela, definitivamente. – respondeu Hermione misteriosamente.

         E o jogo começou. O objetivo? O time que pegar primeiro o pomo ganha. Mas não há goleiros nem artilheiros. Só há batedores que tentam dispersar os oponentes, e os apanhadores, que pegariam o pomo. Mas se a pessoa quisesse ser batedor e apanhador, não tinha problemas, e tinham vários apanhadores.

         Carla era a batedora para o time “Sonserina”(que fora apelidado assim por Harry), e Hermione era para a Grifinória. Logo no começo do jogo, Carla lançou um balaço com toda a força em Harry, que desviou por um triz. Hermione lançou o outro em Draco, que quase foi pego também.

         Harry e Draco estavam se marcando bem próximos, e seus cotovelos se trombavam. Rony estava um pouco longe de tudo, somente procurando o pomo. Depois de quase dez minutos de partida, Draco vê algo se movendo nas balizas adversárias, e impulsiona sua vassoura com toda a força para lá. Harry percebe o movimento e segue Malfoy, mas um pouco atrás.

         Desviaram de um balaço de Carla, depois de outro de Hemione, e quando estavam quase alcançando o pomo, foram atingidos em cheio por um balaço que Carla arremessou com tudo. Se dispersaram e logo perderam o pomo de vista. Estava sendo uma partida disputada. Todos voavam muito rápido, tentando confundir seus inimigos.

         Carla deu um sinal a Draco e os dois se impulsionaram para as balizas de seu próprio lado. Harry e Rony pensaram obviamente que tinham visto o pomo e voaram na mesma direção, mas deram uma guinada para o alto e despistaram os dois. Um balaço lançado por Hermione estava indo à direção de Draco, mas foi uma sorte Carla estar perto para rebatê-lo em Harry, que tentava alcançá-los. Eles se separaram e começaram a procurar o povo, com Carla ocasionalmente lançando mais balaços em Harry e Rony.

         Foi quando ela viu. Um minúsculo reflexo dourado brilhava bem próximo do chão, e Carla impulsionou toda sua força para baixo, fazendo a vassoura deslizar e ir em direção do pomo. Draco e Harry foram atrás dela, mas o balaço que Hermione tinha jogado em Draco errou o alvo e acertou a barriga de Harry, jogando-o longe. Ela estava cada vez mais próxima dele, e se aproximando mais e mais, até que... um metro antes de bater no chão, ela agarrou o minúscula bola, que tentava inutilmente se livrar.

         Ergueu o pomo e logo caiu no chão, rolando uns vinte centímetros, mas com um enorme triunfo estampado em seu rosto. Draco desceu atrás dela e lhe abraçou. Pela primeira vez ganhara de Harry Potter, e se sentia muito grato por isso.

         Harry estava inconsolável. Nunca perdera uma partida sem nada ter lhe acontecido, e não podia suportar de ter perdido para Malfoy e para Wetts. Os dois pulavam juntos e quem não soubesse poderia jurar que eram amigos e que pertenciam à mesma casa.

         Os três derrotados foram caminhando lentamente até o salão comunal, sem comentar nada, até que Hermione comentou, contra seus princípios.

         - Acho que temos que admitir gente... Mas merecemos isso. Quer dizer, ficamos desprezando eles mas eles jogaram melhor que nós, e temos que parabenizá-los por isso.

         - Há, cala a boca! – reclamou Harry. – Eles se merecem, são sonserinos!

         - Tem razão. – disse uma voz atrás deles. – Eu devia estar na Sonserina.

         - E ainda admite? – perguntou Rony irônico. – E eu que achava você legal!

         - Admito, e é uma pena que não me ache mais. O chapéu disse que eu poderia fazer parte das duas casas, e eu só escolhi Grifinória por causa dos meus parentes e que Sonserina forma um número absurdo de bruxos do mal. – respondeu, e nem esperou resposta nem comentário, foi logo se dirigindo ao salão comunal.

         Ela foi até o seu dormitório. Não se importava que o famoso trio a odiasse, ou no fundo, se importava sim. No final estava feliz, pois conseguiu a amizade de alguém que todos achavam impossível alguém ter. Tomou um banho e logo se deitou, queria que aquele dia acabasse logo. E no dia seguinte seria o começo das aulas, e ela mal podia esperar por isso.

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