A Poção

Capítulo 1
REALIZANDO SONHOS

         Era um grande dia em Hogsmeade. Podiam-se ver diversos tipos de pessoas andando pelas ruas movimentadas, comprando tudo o que podiam carregar. A loja mais tumultuada não era o Três Vassouras, com suas deliciosas cervejas amanteigadas, tampouco a Zonko’s, com todo o tipo de diversão. A loja mais tumultuada sem dúvida era uma bem no finzinho do povoado, que recebia o nome de “Gemialidades”.

         Nesta loja encontramos Harry, Rony e Hermione, olhando maravilhados para todas as prateleiras cheias de diversões e brincadeiras para deixar algum amigo furioso. Os três estavam no sexto ano de Hogwarts. Harry continuava como apanhador do time de Grifinória, levando ao time vitórias cada vez mais surpreendentes. Rony agora era o goleiro do time, e estava ficando muito bom nisso, pois era difícil algum artilheiro adversário fazer algum gol nele. Hermione era monitora, e estava cada vez mais responsável. Ralhava bastante com Harry e Rony, pois estes adoravam desrespeitar o regulamento.

         Os três estavam conversando e olhando todo o grande trabalho que foi feito na loja que nem perceberam quando trombaram com os donos da loja em pessoa: Fred e Jorge Weasley.

         - Vocês três estão tão maravilhados com nossa loja que até se esqueceram de olhar para frente? – perguntou Fred numa voz que ele fingia ser displicente.

         - Ou será que perderam alguma coisa nas prateleiras? – completou Jorge no mesmo tom.

         - Não é nada, é só que... Nossa, essa loja tá muito legal! – exclamou Rony, olhando em volta. – Onde conseguiram tanto dinheiro para abri-la?

         - Com uma pequena ajudinha... – disse Jorge piscando para Harry, de modo que Rony e Hermione não vissem.

         - Vocês realmente se superaram! – disse Harry, pegando um pequeno sapo azulado. – O que é isso? – perguntou examinando-º

         - Sapos de menta. Se você comê-los, vai ficar horas coaxando e pulando por todos os cantos. – explicou Fred, orgulhoso.

         - O que mamãe disse sobre a loja? Aposto que ela não gostou nem um pouquinho... – comentou Rony, olhando em volta à procura da mãe.

         - Ah, não mesmo. – disse Fred. – Levamos uma bronca dela, disse que isso não era trabalho para pessoas inteligentes como nós.

         - É, mas mesmo assim disse que viria na abertura. – emendou Fred.

         O local estava lotado de alunos de Hogwarts. Esse era um dos fins de semana que eles poderiam visitar o povoado, e muitos alunos deram uma passada na loja dos gêmeos, pois era muito queridos na escola.

         - E Lino Jordan? Não está com vocês nisso? – perguntou Hermione.

         - Ah, o Lino... – disse Jorge misteriosamente.

         - Ele agora é locutor de rádio, fica narrando as partidas de quadribol de times amadores. Mas é claro que nas horas vagas vem nos ajudar. E olha ele lá! – disse Fred apontando.

         Lino Jordan chegava com uma garota bonita, que logo todos reconheceram como Katie Bell, ex artilheira da Grifinória. Os gêmeos foram conversar com os dois e o trio voltou a caminhar pela loja.

         Estavam quase saindo quando viram uma cena que paralisou os três, em especial Harry. Pela porta entraram duas pessoas conhecidas e uma nem tanto assim. Harry ficou de queixo caído, não conseguia dizer nada. Rony e Hermione ficaram bastante espantados.

         Pela porta entravam ninguém menos que Remo Lupin e Sirius Black, e uma garota chamada Carla Wetts que estudava no mesmo ano que os três. Lupin estava com vestes melhores e uma aparência mais saudável, e Sirius usava vestes negras novinhas e tinha seus cabelos cortado até a altura do ombro. Ele tinha um enorme sorriso no rosto, que logo cativou os três.

         Harry sentiu um estalo na cabeça e logo entendeu. Se lembrava que o padrinho dissera alguma coisa que teria um novo julgamento, para decidirem se era culpado ou não, já que tinham pego Rabicho, o verdadeiro culpado. Logo descobriu que tinha sido inocentado, e logo correu para abraçá-lo. Sirius estava muito feliz, e deixou cair uma lágrima.

         - Harry, estou tão feliz! Finalmente inocentado! Eu esperei este dia desde quando você me salvou! – disse emocionado enquanto abraçava o afilhado.

         - Isso é muito bom Sirius! Eu também estava ansioso para este momento chegar! – disse Harry feliz. Se o que ele pensava fosse verdade, logo sua vida daria uma guinada definitiva para frente, mesmo com todos os problemas envolvendo Voldemort.

         - E sabe o que isso significa? – perguntou radiante. Harry fez que não com a cabeça, embora suspeitasse. – Você pode ir morar comigo! Isto é, se você quiser, claro...

         - É claro que quero! Você sabe que estou louco para sair da rua dos Alfeneiros! – disse Harry completamente feliz. Finalmente se livraria dos tios e de seu primo enorme, Duda. Essa era a melhor notícia que poderia escutar em anos.

         Depois desse momento, Harry cumprimentou Remo e Carla, mas esta ele o fez com má vontade, pois desde o ano anterior não tinha ido com a cara dela. Rony e Hermione também os cumprimentaram, e Sirius convidou todos para tomarem um sorvete, por sua conta. Aproveitaria a oportunidade de contar tudo o que acontecera.

         Todos estavam muito animados, menos Carla, que se sentia um pouco desconfortável com a presença de Harry ali. Tivera uma grande discussão com ele no ano anterior e ainda se sentia mal só de se lembrar. Ainda no ano anterior, tiveram que juntar forças para combater Voldemort, e nenhuma dessas lembranças era muito boa.

         - Com licença, mas vou dar uma volta por aí. Preciso comprar alguns livros. – disse se levantando.

         - Já vai Carlinha? – perguntou Sirius um pouco triste. – Fique mais um pouquinho, gosto de sua presença.

         - Me desculpa Sirius, mas eu realmente preciso ir. Depois eu volto. – completou sem mudar de idéia. Estava quase saindo quando Remo segurou levemente sua mão e cochichou:

         - Cuidado minha querida. Não queremos te perder, e você sabe bem disso. Não volte muito tarde.

         - Eu sei Remo, não vou me demorar. – disse se afastando.

         Ela sabia que Remo conhecia muito bem o motivo dela ter saído. Tinha nome e sobrenome: Harry Potter. Já era de conhecimento do padrinho – sim, Remo era padrinho de Carla – que ela nunca tinha ido muito com a cara de Harry, e depois do que acontecera no ano anterior tinha certeza disso. Mas, para alívio dela, ele não sabia o outro motivo de ter saído dali.

         Carla sentira uma presença estranha, algo que nunca sentira antes. Foi atraída por ela, e precisava descobrir de quem era. Seus instintos foram levando-a até a floresta que ficava depois do povoado, local onde Sirius já se escondera dois anos atrás. Caminhou até a entrada da gruta, onde parou abruptamente. A presença estava cada vez mais forte, e Carla pôde sentir uma outra presença bem familiar.

         Queria entrar e descobrir o que estava acontecendo, mas tinha medo de ver algo que não gostaria de ver. Depois de alguns minutos pensativa, resolveu entrar. Seguiu pelo pequeno caminho que levava ao final da caverna, e sentiu um cheiro muito estranho. Chegou na clareira e levou um susto. Severo Snape preparava uma poção em um enorme caldeirão, e ela podia ver um volto disforme saindo da fumaça.

         - Prof. Snape? – perguntou hesitante. Não tinha muita certeza se poderia estar ali.

         - Senhorita Wetts, o que faz aqui? – perguntou levando um susto, e tentando esconder o caldeirão com seu corpo.

         - Er... bem... Eu vi fumaça e vim ver se algo estava em chamas, mas vi que me enganei... – mentiu. O olhar acusador de Snape fazia com que ela se sentisse mais culpada ainda, e com medo da sua desculpa ser pouco convincente.

         - Fale a verdade. – disse com sua voz mais suave e letal.

         - É, foi basicamente isso. Mas também senti uma presença estranha e vim investigar. – disse remexendo as mãos. Snape conseguia deixar qualquer um pouco a vontade.

         - Investigar? – perguntou Snape. – Acho que isso é coisa do Potter. Ele é quem sempre investiga e desrespeita os regulamento da escola, e nunca sai com uma detenção sequer!

         Carla ficou calada. Percebeu na voz do professor que ele estava bastante irritado, e qualquer comentário poderia ser fatal, além do que já tinha interrompido a poção que ele estava fazendo.

         - E além do que, a senhoria não devia estar perambulando sozinha pelo povoado, ainda mais na floresta. Todo o sacrifício que fazemos para mantê-la segura seriam em vão, e realmente seria muito ruim se algo acontecesse. – ela pôde ver um leve trejeito de desdém na voz do professor.

         Snape batera em um ponto um tanto delicado. Como se já não bastasse ser lembrada no mínimo três vezes por dia de que não podia correr perigo, ainda era obrigada a suportar as brincadeiras do professor. Ficaram algum tempo em silêncio até que Snape começou a mexer novamente no caldeirão, e disse friamente.

         - Acho que a senhorita não tem mais nada a fazer aqui, Sra. Wetts. Se não se importa deveria se retirar.

         - Eu me importo sim, professor. E gostaria de saber o que o senhor está fazendo num lugar tão suspeito quando este, preparando uma poção escondido de todos. Creio que não está fazendo nada para Voldemort, ou está? – disse Carla com uma voz ameaçadora, que depois não soube de onde tirou esse tom.

         - Ora... sua garota intrometida. Não lhe diz respeito o que estou fazendo aqui. E nem se é algo para Voldemort. – disse Snape com uma voz um pouco mais descontrolada do que o normal, mas ainda muito letal. Carla agüentou firme. Se começara, teria que ir até o final.

         - Então por quê sinto a presença de Tiago Potter neste local? – sim, ela descobrira de quem era a estranha presença. Pôde reconhecer por causa da energia que Sirius e Remo emanavam quando falaram dos Potter. Sentiu-se muito mal e soube o que era perder um amigo, agora que podia ver a forma difusa de Tiago.

         - Tiago Potter? Não me venha com brincadeiras, menina. Tiago Potter está morto, bem morto, se me permite dizer. – disse em um tom irônico, mas não muito convincente.

         - Me desculpe professor, mas se eu muito me engano, esta é uma poção do espírito que renasce, que consiste em trazer a lembrança de uma pessoa morta ao mundo. Mas ela tem um preço muito caro... Para que o espírito volte, é necessário que uma pessoa sacrifique suas energias, e vejo que esta pessoa é você. – disse Carla astutamente.

         - Bela dedução, senhorita Wetts. Uma pena que seja tão arrogante e que não aproveite seus talentos. – comentou Snape. – E também não acertou completamente. Você pode sentir sua presença, o que é um dom muito raro no mundo dos bruxos, mas ainda não acabei a poção, pois você não pode vê-lo.

         - Então estou certa, não? – perguntou provocativamente.

         - Por suposto. – respondeu Snape friamente.

         - Só não entendo para quê o senhor traria a alma de Tiago Potter de volta, nem que seja por um curto período de tempo, sendo que é fato sabido que o senhor o odiava.

         - Isto já não é do seu interesse.

         - Claro que é, se não eu não perguntaria. – e antes que Snape pudesse dizer qualquer coisa, ela completou: - De um jeito ou de outro, acho um egoísmo da sua parte não compartilhar este momento com ninguém, muito menos com Harry.

         - Ele não deverá saber que isso aconteceu. E é claro que você também não. Então se não se importa, vou ter que apagar a sua memória. – disse pegando a varinha.

         - É claro que me importo. Afinal, a memória é minha! – protestou Carla. – E além do mais, já sou bem grandinha para encarar coisas desse tipo. – deu uma pequena pausa. Gostaria que pudesse ver, pelo menos uma vez, seus pais. – Mas se quer me apagar a memória, pelo menos deixe-me lutar por isso! – completou se posicionando.

         - Garota boba... Você sabe que não tem a mínima chance comigo. Sou seu professor e quase tudo que você sabe sobre feitiços e duelos fui eu quem ensinou. – disse Snape dando uma risada fria.

         Antes que Snape pudesse continuar, Carla apontou sua varinha na direção do professor e gritou “Expeliarmus!”. Snape voou com força e bateu na parede, caindo no chão em seguida. A sua varinha ficou no chão, e Carla logo a apanhou. Aproximou-se de Snape e se abaixou, estendendo a mão, com uma voz muito mais carinhosa do que usava antes quando se dirigia ao professor.

         - Agora deixe de ser egoísta e deixe que os outros te ajudem, começando por mim.

         O Prof. Snape a encarou duvidoso. E se fosse um plano, só para fazê-lo baixar a guarda? O final acabou cedendo e deixou Carla o ajudar a se levantar. Ela devolveu sua varinha carinhosamente e os dois começaram a mexer o caldeirão, evitando de se encararem.

         - No que consiste essa poção? – perguntou Carla algum tempo depois de estarem em silêncio.

         - A maioria das pessoas a utiliza para obter informações sobre algum caso de importância. Mas são poucas as pessoas que a conhecem, e menos ainda as que a utilizam, pois quase todos os ingredientes são muito difíceis de se achar. A época mais conveniente para se fazer é em outubro, e para utilizá-la é melhor no dia das bruxas, que é quando o portal para o outro mundo está mais aberto. – explicou Snape, mas desta vez em um tom de voz mais sereno, não muito ameaçador.

         - Mas o senhor está preparando agora... E é dia 15 de dezembro! – espantou-se Carla. – É uma data um pouco longínqua. Quais são os contras?

         - Eu não estou tendo muita escolha. Preciso dela o quanto antes. Não existem muitos contras, além de que as energias da pessoa se acabam duas vezes mais rápido do que o normal. – disse Snape. – Pegue aquelas lagartixas, por favor.

         - Claro, aqui. – disse entregando-as. – Mas professor...? Quanto tempo dura essa poção? – perguntou cada vez mais interessada.

         - Depende muito da pessoa que a usa. – disse Snape pensativo. – Em média uma hora para a pessoa ficar bastante cansada, e no máximo uma hora e meia até perder os sentidos.

         Carla afirmou com a cabeça, sem saber o que falar. E agora também não era oportuno falar, pois estavam na parte mais difícil. Era preciso total concentração nessa hora, pois alguns ingredientes iriam analisar as energias da pessoa, e determinar, em média, quanto tempo duraria a poção. Snape queria fazer sozinho, mas Carla o obrigou a deixá-la ajudar.

         Para concluir a receita mágica, os voluntários precisavam colocar uma mão dentro do caldeirão, e como eles eram dois, precisaram dar as mãos, para a energia dos dois se somar. Severo sentiu um calafrio quando tocou suas mãos, que eram tão pequenas e delicadas. Carla também o sentiu, por algum motivo não tinha medo nem desprezo pelo professor, mas algo que funcionava como um ímã, a puxando cada vez mais para perto dele. Sentiu o perfume adocicado lhe invadir e por um momento ficou nas nuvens.

         Mas esse momento durou muito pouco. Quando se deu conta, uma dor intensa lhe invadiu o corpo pela palma da mão. O caldeirão estava exageradamente quente, e sentiu que sua mão estava sendo queimada. “Então esse é o preço para se rever uma lembrança...” – pensou consigo mesma. “Eu sentiria isso mil vezes se fosse para meus pais voltarem à vida...”

         Algo em seu sofrimento deve ter transparecido em seu rosto, pois Severo apertou com mais força a mão de Carla, em um gesto de conforto. Ela olhou para ele, e se viu dando um sorrisinho de agradecimento. Severo somente concordou com a cabeça.

         Uma fumaça começou a sair do caldeirão, que misturava roxo, azul e vermelho. Uma enorme claridade invadiu o local, e Severo e Carla tiveram que tampar os olhos. Um vulto prateado saía do caldeirão e se tornava uma forma humana. Carla sentiu grande parte de suas energias irem embora, e por um momento perdeu a força nas pernas, caindo para o lado. Se Severo não estivesse ali para segurá-la, ela provavelmente cairia no chão.

         Demorou mais alguns segundos até o vulto prateado possuir as formas inteiras de um homem, que lembrava muito a Harry Potter. Finalmente Tiago Potter voltara ao mundo dos bruxos. Olhou um pouco confuso em volta, mas logo sua expressão melhorou um pouco ao ver um rosto amigo, mesmo que esse rosto fosse de Severo Snape, seu antigo rival. Cumprimentou-os com a cabeça e disse, e sua voz tinha um leve tom de sarcasmo:

         - Olá Snape. Que alegria te rever novamente. Deve estar muito feliz, não é verdade? Já não estou mais aí para lhe causar confusões. – disse pacificamente.

         - Não faz muita diferença. – respondeu Snape com desdém. – Você me fez o favor de deixar seu herdeiro aqui para me atormentar.

         - Ah, Harry, Harry, meu filho. – disse com a voz um pouco embargada. – Como ele está? Continua vivo, por suposto? Quantos anos ele tem?

         - Continua perfeitamente vivo, o que é uma sorte, eu lhe digo. Já conseguiu escapar cinco vezes de Voldemort, e isso é um fato histórico. Está com 16 anos, e ainda tem muitas forças para me desafiar nas aulas... – respondeu Snape.

         - Aulas? – perguntou Tiago contendo um sorriso de descrença. – Você? Severo Snape dando aulas? Não brinca!

         - Ele é um ótimo professor! – exclamou Carla sem pensar; depois, se arrependeu de ter se intrometido.

         - Ah, e quem é você? Para estar defendendo o seboso do Snape você deve ser namorada dele... – disse Tiago divertido. – É Snape, finalmente conseguiu alguma coisa decente, mas acho que a mocinha não sabe do seu passado, não é mesmo?

         Carla ficou calada, envergonhada. Snape soltava fumaça, e só não lançava um Avada Kedrava em Tiago porque este já estava morto. Mirou-o com seu típico olhar assassino e disse, com sua voz letal:

         - Não estou namorando a Srta. Wetts, e nem penso nisso. Ela é uma aluna e eu, professor. Acho que perdeu a noção do tempo, não é? Continua novo, enquanto todos envelheceram.

         - Falando nisso, você é professor de quê? Idiotices, talvez? – provocou Tiago. – Ou talvez de Defesa Contra as Artes das Trevas... Você era apaixonado pelo lado sóbrio.

         - Embora eu quisesse esse cargo, sou professor de poções. – disse Snape amargurado.

         - Poções? – gargalhou Tiago. – Não acredito! Severo Snape, o seboso número um de Hogwarts, professor de poções? Hahaha, conta outra, que essa não colou!

         - Ele é o melhor professor de poções que eu já tive! – disse Carla decidida.

         - Depois dizem que não são namorados... Tsc, tsc, tsc.. Mentir é tao feio... – caçoou Tiago.

         - Olha aqui, senhor super apanhador, não estou de bom humor hoje, então se não quiser voltar para o seu mundo, é melhor parar com isso! – disse Snape com os dentes cerrados.

         - Tudo bem, já parei. Mas só quero saber como está o Harry. Eu e Lílian sentimos muita falta dele... Por que não o trouxe aqui? Você é um ditador egoísta, Snape.

         - Se eu o trouxesse, os dois ficariam conversando até cairmos mortos no chão. – reclamou Snape, que não gostava do rumo da conversa.

         - Então estão usando a poção do espírito que renasce? – perguntou Tiago, já sabendo a resposta. – Muito criativa, mas pouca eficácia... Realmente, pensei que você arranjaria um jeito melhor de me chamar, não desse jeito que acabaria com você. – caçoou. Na época de escola Tiago sempre fora um pouquinho mais inteligente que Severo, e vivia se gabando por isso.

         - Não te trouxe do fim do mundo para ficarmos comparando nossos conhecimentos. À pedido do Ministro da Magia, Cornélio Fudge, que não concorda de nenhum modo que Black seja inocentado, quer saber quem foi o fiel do seu segredo. – disse muito mais formalmente.

         - Fudge? – perguntou Tiago impressionado. – Não acredito que aquele inexperiente virou Ministro! Mas o que aconteceu? Por que Sirius foi condenado?

         - Em resumo, ele era o fiel do seu segredo e seguidor de Voldemort. Disse onde vocês estavam e Voldemort os matou. Depois ele matou Pettigrew e mais doze trouxas no meio da rua. Foi condenado à prisão perpétua em Azkaban mas fugiu, e este ano foi inocentado. – disse Carla rapidamente, ficando sem fôlego.

         - Hã, - disse com desdém – Sirius nunca ousaria a passar para o lado das trevas, morreria antes disso. Eu ia tornar Sirius o fiel, mas no último momento ele fez com que Pedro fosse o escolhido. Aceitei depois dele muito insistir. E duvido que Sirius mataria Pedro, ele nunca faria isso com ninguém. E realmente Pedro andava muito estranho ultimamente... – Snape fez um ruído engraçado com a boca, e disse, a muito contragosto.

         - Então Black é mesmo inocente... Já deve estar livre comendo ossos e mordendo crianças indefesas...

         - Mas... como você sabe? – perguntou Tiago surpreso.

         - Dumbledore me contou. Já estamos sabendo que os Marotos eram animagos.

         Eles continuariam conversando (ou discutindo, tanto faz) mais se Carla não começasse a cambalear e caísse no chão, com Snape a segurando bem em tempo. Ela se sentou no canto da caverna um pouco tonta e muito fraca.

         - Ela não devia ter te ajudado a me trazer aqui... – lamentou Tiago. – Não merece se esgotar por causa de um ditador como você.

         - Potter, deixe as brincadeiras para depois. Vamos ter que te mandar de volta, talvez ela não agüente muito mais. – disse Severo preocupado, tirando a pulsação dela.

         - Também acho melhor... – disse triste. – Mas diga, qual o nome dela? Qual o motivo dela estar aqui com você?

         - Me chamo Carla Wetts, e sou afilhada de Remo, ou Aluado, mas ele não sabe que estou aqui. – disse Carla com a voz hesitante.

         - Wetts... Éramos muito amigos da sua família... Mas o que aconteceu com seus pais? – disse Tiago amigavelmente.

         Carla abaixou a cabeça, e Snape logo despachou Tiago, um tanto irritado:

         - Conversaremos depois, Potter. Aproveite bem sua morte. Dumbledore ficaria feliz em conversar com você novamente. Vou acabar com o efeito da poção agora.

         - Foi bom ter revisto algum rosto conhecido. – disse Tiago triste, pois teria que voltar.

         Severo levantou Carla e a conduziu até o caldeirão, que borbulhava, mas com menor intensidade do que quando a poção começou. Pegou a mão que não fora colocada no caldeirão e a colocou, mas não antes de entrelaçar a outra na sua. Colocaram a mão na mesma hora e Tiago começou a desaparecer, pedindo para Severo cuidar de Harry por ele.

         Na mesma velocidade que tudo começou, o lugar voltou a ficar escuro, somente com a luz de um lampião aceso. Severo colocou Carla no chão e percebeu que ela estava fria. Tirou sua capa e a enrolou, tentando deixá-la bem quente, mas não adiantou muito. Ela tremia muito.

         - Srta. Wetts, você está bem? – perguntou todo preocupado.

         - Frio... frio... – murmurou. – Me abrace, por favor.

         Severo hesitou por instantes, mas a abraçou fortemente. Ela deu um pequeno sorriso. Quanto tempo fazia que era acolhida em um abraço tão quente, tão protetor. Sentiu-se protegida de verdade pela primeira vez em anos. Abraçou Severo o mais forte que pôde, com medo dele sumir dali e ela ficar desprotegida, morrendo de frio.

         Severo soltou-se do abraço. Sentia algo estranho no peito, que não deixava ele se afastar dela, sentia um carinho enorme que há muito tempo não sentia. Foi aproximando lentamente o rosto no de Carla, e podia sentir sua respiração ofegante. Ela também começou a se aproximar, os dois se olhando nos olhos, até que se beijaram.

         Quando seus lábios se tocaram levemente, sentiram-se estranhamente bem, como não se sentiam quando estavam sozinhos. Começaram a se beijar no que era um misto de medo e desejo. Estava ficando cada vez melhor, mas de repente Carla pára e se solta dos braços dele.

         - O que aconteceu? – perguntou Severo confuso. - Você não queria?

         - Não podemos fazer isso! – disse apressada. – Você não devia ter me beijado! – completou tentando se soltar dos braços de Severo, o que era difícil, pois ele era muito forte.

         - O que quer dizer com isso? – perguntou sem soltá-la.

         - Não podemos Severo, não podemos. – disse quase suplicando. Por um momento Snape parou. Nenhum aluno nunca o chamara pelo nome, ela era a primeira. Ficou abobado uns segundos, mas o suficiente para Carla se soltar dos braços dele e sair correndo da caverna.

         Ela ainda cambaleava, mas correu o mais rápido que pôde. Snape levantou-se correndo e tentou alcançá-la, mas não conseguiu. Não tinha percebido até então, mas gastara muita energia conversando com Tiago Potter. Não pôde fazer nada a não ser vê-la sumir na direção do povoado, com o sol se pondo de fundo.

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