A Poção
Capítulo 17
PACTOS E ACORDOS
Estava caminhando para sua aula de Poções, mas sem a mínima vontade de fazê-lo. Não sentia nem um pingo de atração em comparecer a uma aula em que o professor estava causando mais problemas agora do que quando era o frio e misterioso professor Snape. Faria de tudo para não ter de encará-lo, não ter de sofrer mais um pouco do que já estava sofrendo.
E, por incrível que pudesse parecer, seus pedidos foram aceitos. Ao entrar na masmorra, não se encontrou com Severo Snape, mas sim com Remo Lupin. Deu um pequeno suspiro de alívio, mas não deixou de se preocupar. Significava que ele ainda estava muito machucado para dar aulas e... Não queria nem pensar.
- Bom dia alunos. Eu estou substituindo o professor Snape por algum tempo, parece que ele pediu alguns dias de férias, não sei ao certo. Espero que eu consiga acompanhar a matéria que ele estava dando, sinceramente.
Muitos alunos comemoraram com a falta de Snape. Isto do lado Grifinório, claro, pois a Sonserina não parecia nada satisfeita com a notícia.
- Hoje vou dar apenas uma aula teórica, acho melhor começarmos com as poções na próxima, pois ainda não estou preparado para checar as poções. Gostaria primeiramente que copiassem isso da lousa, depois vou explicar o que é.
Ele fez um aceno com a varinha e a lousa ficou cheia de ingredientes e misturas de poções. Carla ficou no fundo da sala, sem a menor vontade de ter uma aula de Poções com o padrinho, ainda mais no estado de espírito que se encontrava.
A aula demorou a passar. Quando finalmente a sineta tocou, ela suspirou aliviada. Mas nem tanto assim. Ter aulas de Transfiguração também se tornara muito cansativo. Não conseguiu sair da sala, porém. Remo a chamou por uns instantes, e ela já até imaginava o que seria.
- O que houve Remo?
- Você está bem, pequenina? – perguntou preocupado, olhando-a fundo nos olhos.
- Sim Remo, estou muito bem – respondeu cansada.
- Você não me convence, sei que não está tudo bem. Discutiu com Snape ontem, não foi?
- Você já sabe, não faz diferença ficar repetindo – ela deu de ombros, indiferente.
- Sei que aconteceu o fato, mas ainda não calculei o tanto que essa conversa a machucou – rebateu Remo. – Você deveria confiar mais em mim e em Sirius. Saiba que pode contar conosco, não precisa guardar todas as emoções com você. Faz bem desabafar às vezes.
No lugar de uma resposta, sem aviso, Carla se jogou nos braços de Remo, chorando como criança. Ele deu batidinhas leves na cabeça da garota, entendendo tudo o que ela estava passando.
- Estou muito mal padrinho, muito mal mesmo – choramingou ela, ainda nos braços de Remo.
- Eu sei pequenina, eu sei.
- Você acha que as coisas vão se acertar entre mim e Severo? – perguntou, mas sem querer saber ao certo a resposta.
- Se depender do amor de vocês, sim. Mas se a cada obstáculo as coisas ficarem deste jeito acho melhor parar o mais breve possível.
Ela enxugou as lágrimas, movida de uma nova onda de esperança.
- Quem irá lecionar DCAT enquanto ele não volta?
- Não sei ainda, mas acho que será Sirius – ele deu de ombros. – E antes que me pergunte, não menti quando disse que ele pediu férias, foi realmente o que ouvi da boca de Dumbledore.
- Será que ele ainda está na enfermaria? – perguntou preocupada.
- Acho melhor dar tempo ao tempo. Espere as coisas esfriarem mais um pouco, por favor – pediu Remo, já imaginando o que a garota faria.
- Tudo bem Remo, eu entendo. Agora acho que devo ir até Transfiguração, a velha chata já deve ter começado a aula e eu não estou a fim de receber detenção.
- Você realmente não gosta da Min...
Ele mal pôde terminar a frase, Carla já dera um singelo beijinho em seu rosto e saíra corredor afora, com pressa de chegar em seu destino.
Não sabia onde estava ao certo. Sabia apenas que era um lugar sombrio e mal-cheiroso, cheio de teias de aranha. Normalmente não se sabia onde se encontrava, apenas seguia as ordens que a Marca dava aos seguidores de Voldemort. Como desta vez, onde estava sozinho com o Lord, cara a cara com ele. Nem Rabicho estava por perto, o que era muito estranho, mas muito estranho mesmo...
- E então Snape? Já cumpriu com a sua parte? – perguntou Voldemort em voz imperativa, encarando profundamente seu servo.
- Sim Milorde. Foi muito mais rápido do que eu imaginava, mas já está tudo sobre controle – respondeu friamente, quando na verdade queria dizer que não tinha a menor intenção de cumprir com o combinado, mas neste caso não dependia unicamente de sua vontade, havia outras pessoas no meio, mesmo que não soubessem disso.
- Você tem certeza? – questionou, seus olhos de cobra parecendo penetrar no interior de Severo – Saiba que posso muito bem descobrir se está falando a verdade ou não, e se estiver... Seu castigo será muito pior.
- Sim Milorde, eu sei.
- Agora você terá de descobrir um meio de me infiltrar no castelo, para que eu possa pegar a garota o quanto antes.
- Isso não estava no combinado! – retrucou Severo, alterando-se um pouco.
- Fui eu quem planejei o combinado, posso muito bem alterá-lo quando me for favorável – disse com superioridade.
Ele deu um longo suspiro. Já não agüentava mais isso, ter de ser mandado por Voldemort a fazer o que ele bem entendesse, e ainda mais; ter de agir contra as únicas pessoas que realmente tinha algum tipo de consideração: Alvo Dumbledore e Carla Wetts. E ainda aquele maldito feitiço de sigilo! Como iria prevenir a amada do perigo que corria? Já tentara uma vez contar a Sirius Black e Remo Lupin – isso antes do feitiço ser feito -, mas Dumbledore fizera questão de estuporá-lo antes que pudesse dizer qualquer coisa. Era muito azar, realmente.
- Quero ter notícias boas em nosso próximo encontro, entendido?
- Sim Milorde, farei o possível – respondeu Snape.
No instante seguinte, Voldemort desaparecera, e Severo Snape aparatara em sua masmorra em Hogwarts, forçando sua mente para descobrir algum meio de contar o que estava acontecendo.
“Que inferno! Francamente!” resmungava uma indignada Carla Wetts, ao jogar seu material com estrépito na parede de seu dormitório. Acabara as aulas daquele dia, e seus colegas de classe ficaram a afogando com perguntas curiosas e pessoais sobre Snape. Surpreendeu-se com a pergunta um tanto comprometedora de Neville, pessoa que ela não achava que tinha um pingo de percepção para esse tipo de coisas. A pergunta a atingira em cheio, e saíra como um foguete do campo de visão do grupo, rumando apressadamente para seu dormitório.
“Quando será que não serei barrada nos corredores por causa de Severo?” questionou a si mesma, inconformada. Uma voz em sua mente a respondeu de modo amargo. “Se quiser continuar uma relação com ele... nunca”. Realmente, se pensasse bem, teria de enfrentar muita discriminação por parte das pessoas, se quisesse mesmo construir algum tipo de relacionamento com Severo Snape. O mais complicado, em sua opinião, seria convencer o dito cujo a assumir o relacionamento perante todos. Isto é, se conseguisse fazer as pazes com Severo...
Deitou-se em sua cama, esgotada. Não conseguia entender seus sentimentos, tão contraditórios. Em um momento, está morrendo de amores pelo misterioso professor de Poções; no outro, é quem põe pé firme para darem um tempo no relacionamento. Não conseguia entender a si mesma! Involuntariamente, uma lágrima escorreu pelo seu olho esquerdo, revelando toda a insegurança que sentia naquele momento. Abraçou-se ao travesseiro, na inútil esperança de saber onde estava Severo, o que ele estava fazendo e, o mais importante... o que estava sentindo.
Adormeceu naquela posição, seu pensamento tentando encontrar o de Severo.
Sentia-se tonto, pesado, uma crescente onda de calor percorrendo seu corpo, algo que não conseguia identificar, algo que nunca experimentara na vida, e podia confirmar que não era nada agradável. Sua sala rodou, seus pés perderam o contato com o chão, e a última coisa que viu antes de perder a consciência foi o pé de sua escrivaninha, no mesmo lugar de sempre.
Eram os efeitos do combinado com Voldemort, as conseqüências por assinar mais um pacto com alguém que só queria mais e mais poder. O desejo de contar a alguém o que estava acontecendo, a necessidade de, pela primeira vez em sua vida, compartilhar toda a sua angústia e sofrimento, apenas faziam com que as dores piorassem.
Instantes depois, a porta da masmorra se abriu, e por ela entraram Alvo Dumbledore, Remo Lupin e Sirius Black, os dois últimos apenas acompanhando o diretor, por estarem tratando de outros assuntos pendentes.
- O que aconteceu com o Snape? – perguntou Sirius alarmado, apontando para o amontoado de vestes negras no chão.
Dumbledore se abaixou rapidamente, apoiando a cabeça de Snape e medindo sua temperatura. A resposta que teve foi alarmante, mas não deixava de ser esperada.
- Ele está com muita febre – informou, ainda com a mão fina tocando sua testa. – Sirius, por favor, peça à Madame Pomfrey um frasco de Poção Analgésica. Remo, chame sua afilhada. Precisaremos de todo o apoio possível.
- Mas o que ela tem a v... – começou Sirius, mas sendo interrompido por Dumbledore.
- Não há tempo! Apenas façam, depois lhes explico o que aconteceu – disse com urgência na voz, seus olhos sem o brilho habitual.
Os dois trocaram olhares preocupados, mas não contestaram os pedidos de Dumbledore, logo se retiram da masmorra.
Assim que viu-se sozinho com Snape, Dumbledore pegou sua varinha, murmurou meia dúzia de palavras e de sua ponta saíram fagulhas prateadas, que atingiram lentamente o rosto de Snape. Ele acordou, mas ainda parecia um pouco desnorteado.
- Severo, acorde. Temos pouco tempo disponível.
- Alvo, o quê...? – ele murmurou lentamente, tentando se levantar.
- Estou ciente do perigo que corre, preciso apenas que me diga o que julgar necessário, o espaço de tempo em que o Feitiço do Sigilo perde seu efeito é curto – o diretor parecia nervoso, ansioso.
- A escola corre perigo. O Lord invadirá as defesas do castelo. Seu objetivo maior é Carla, o Potter está em segundo plano. Ele também procura derrotá-lo... – dizia em voz baixa, como se cada palavra custasse um enorme esforço para ser proferida – E eu sou sua arma principal. Ele pode usufruir de minha pessoa do modo que quiser.
- Por que ele pode fazer isso?
- Fizemos um trato. Eu sofreria todo o impacto se cortasse relações com... com a pessoa que eu... que eu amo – disse em um suspiro, sendo atingido por uma forte dor de cabeça.
- Certamente não foi apenas por isso – constatou o diretor, encarando o professor de modo sério e calculista.
Severo apenas negou com a cabeça. A dor que sentia parecia além do que podia suportar, não pela dor em si, mas pela união de várias sensações conjuntas. A febre continuava alta, e sentia sua cabeça rodar, deixando-o cada vez mais tonto e com mal-estar.
Remo chegou ao Salão Comunal da Grifinória, com pressa de chegar ao dormitório feminino. Não deu importância à enorme exclamação de Lilá, ao vê-lo subir até o dormitório das garotas, aquilo não tinha importância nenhuma. Precisava levar Carla até a masmorra o mais rápido possível.
Se espantou, porém, ao entrar no dormitório. As outras garotas estavam rodeando a cama de Carla, todas aparentando muita preocupação.
- O que aconteceu aqui? – perguntou Remo com urgência.
- Ela começou a falar palavras desconexas, como se pedisse ajuda. Ela também está com muita febre – explicou Hermione em tom sério. – Não conseguimos decifrar nada do que disse.
- Isso realmente é algo com o que devemos nos preocupar!
- O que o senhor vai fazer, professor? – perguntou Parvati, curiosa.
- Levá-la para Dumbledore. Com licença garotas, preciso levá-la daqui.
Ele pegou a afilhada nos braços e a tirou do Salão Comunal , na maior velocidade que o peso da garota permitia. Sem contar os inconvenientes que surgiam no caminho, como ela se debater freqüentemente, sempre murmurando palavras ininteligíveis, e que pareciam muito desesperadas. Pelo visto o caminho até as masmorras seria longo...
Faltando apenas alguns metros para entrar na masmorra, Remo encontra com Sirius, que parecia ter corrido uma longa distância, pois ofegava levemente. Mas ao ver Carla nos braços do amigo, ficou muito preocupado.
- O que aconteceu com ela?
- Não sei. Fica murmurando palavras desconexas, acho que está delirando por causa da febre.
- Então temos de ir logo, pode ser alguma coisa séria.
Remo concordou com a cabeça, e Sirius o ajudou a carregar a garota, de modo que fossem mais rápido. Entraram na masmorra com bastante estrépito, e Dumbledore e Snape viraram o rosto para ver o que tinha acontecido.
- Alvo, Carla não está nada bem! – exclamou Sirius, a deitando em uma pequena poltrona de veludo.
- O que aconteceu? – questionou Dumbledore.
- Ela parece estar com muita febre, murmurando palavras desconexas... Suas colegas de quarto estavam tentando reanimá-la, mas sem muito sucesso... – explicou Remo preocupado.
- Vocês precisam tirá-la de perto de mim! – ofegou Severo, parecendo, de repente, muito desesperado.
- O que será que aconteceu com a Wetts? – perguntou Parvati, às amigas que estavam reunidas para discutir o ocorrido.
- Algo me diz que tem algo a ver com o professor Snape – disse Lilá pensativa.
- Mas por que você acha isso? Suas aulas de Adivinhação? – desdenhou Hermione, achando que fosse pouco provável descobrir o motivo da febre de Carla.
- E se for? – retrucou Lilá, sentindo-se ofendida.
- Não briguem amigas, por favor. Precisamos descobrir o que aconteceu com ela, só isso – disse Parvati, tentando evitar uma perda de tempo. – Vocês já repararam que ela é toda estranha, cheia de segredos e mistérios?
- Sim, isso é realmente muito estranho... – concordou Hermione.
- Gostaria de saber porquê ela é tão paparicada por todos os professores... Será que ela é especial? – disse Lilá com uma pontinha de ciúmes.
- Com certeza deve ser – disse Hermione, perceptiva.
- Por que essa agora, Snape? Está revendo seus conceitos? – provocou Sirius.
- Sirius, por favor. Nada de brincadeiras agora – repreendeu Dumbledore, falando aparentemente em tom sereno. – Por que tem essa exigência, Severo?
- Ela não pode ficar perto de mim, o Lord irá encontrá-la, você não pode deixar que isso aconteça, Alvo – disse Severo com urgência.
- Explique-se – pediu o diretor.
- Faz parte do trato... ele... me usará como um radar... se eu estiver próximo a ela... ele vai conseguir quebrar as proteções do colégio... conseguirá seu objetivo... E isso não pode acontecer, nem que para isso tenham de me matar.
- Já passou pela sua cabeça o quanto fará Carla sofrer se por acaso morrer? – questionou Remo, não agüentando permanecer em silêncio.
- A morte é inevitável numa guerra – retrucou Severo friamente. – Ainda mais em uma guerra contra Voldemort, quando se está profundamente envolvido.
- Então não tivesse entrado na guerra – disse Sirius furioso. – Se morrer, eu juro que nunca irei te perdoar, Snape...
- Por favor, não briguem agora. O nosso tempo é muito curto – pediu Dumbledore novamente, sua paciência se esgotando. – Severo, ouça bem. Os riscos de se morrer nesta guerra são os mesmos para todos, o que faz a diferença é o quanto cada pessoa quer viver, sua força de vontade. Sem isso, suas chances de falhar aumentam.
- Alvo, eu falo sério. Não tenho escolha, serei morto se não cooperar. E não quero viver tendo a culpa de que fiz as únicas pessoas que realmente importam para mim sofrerem e até morrerem.
- Nós não deixaremos que Voldemort o elimine – disse Alvo com convicção. – Ele terá de matar a todos nós antes. E, você é muito mais útil vivo do que morto, pode ter certeza.
- Acabe com isso, por favor. O tempo está acabando, ele logo chegará aqui – pediu Severo com urgência.
- Remo, Sirius, levem Carla para a enfermaria, e peçam para Papoula examiná-la. Ela não deve ter nada grave.
- Sim senhor – concordaram os dois, já se levantando.
- Esperem – disse uma voz fraca.
- Carla, descanse. Você não pode fazer nada agora – disse Dumbledore, a impedindo de se levantar por completo.
Ao ouvir a voz da garota, Severo estremeceu. Podia sentir o perigo que ela corria, só de estar próxima a ele. Voldemort saberia que eles estavam próximos, e isso faria parecer que não cumprira com o combinado. Não queria que a garota que amava sofresse a ira de Voldemort, já não bastava ele. Gostaria de poder tirá-la dali o mais rápido possível, mas não tinha forças para tanto.
- Me desculpe, Alvo. Não posso simplesmente descansar, sabendo que a pessoa que amo corre perigo de vida – disse com determinação, embora sua voz estivesse fraca.
- Não seja tola – disse Severo friamente. – Se continuar aqui, as coisas irão apenas piorar. E estará atrapalhando ao invés de ajudando.
- Se você acha que minha presença apenas atrapalha seu trabalho de herói, me desculpe. Vou deixar fazer o trabalho sozinho, peço apenas que não me faça sofrer – disse Carla com um olhar triste, levantando-se em seguida.
- Pequenina, está muito fraca, não pode fazer esforço!
Carla parou Remo com um movimento de sua mão. Sabia que não estava em condições de fazer aquele ato de heroísmo, mas não poderia fazer diferente. Se Severo Snape era tão individualista a ponto de não querer ajuda para continuar vivendo, não poderia fazer nada. Apenas lamentava de ter que sofrer com as imprudências do homem. Caminhou até a saída da masmorra, parando apenas para uma última olhada no professor.
- Te desejo boa sorte. Espero que consiga livrar seu pescoço do Lord.
Não tinha um destino certo. Seu primeiro pensamento foi ir à enfermaria. Sentia uma dor muito profunda dentro de si, mas não era uma dor por machucados ou qualquer outro ferimento. Era uma dor dentro de seu coração, que parecia estar sofrendo mais do que jamais sofrera a vida inteira. Era uma sensação terrível, e sentia que não poderia fazer nada para melhorá-la, a não ser rezar para Severo sair vivo desta guerra.
Não sabia o perigo real que ele corria, mas podia esperar qualquer coisa, tendo tido relações com o Lord das Trevas. Se ao menos pudesse fazer alguma coisa para ajudá-lo... Nem pensaria duas vezes.
E foi com esse pensamento de determinação que seguiu até a enfermaria.
Assim que chegou, encontrou o local completamente vazio, deserto. Possuía até mesmo um ar sombrio. Achou aquilo estranho. “Nunca soube de algum momento em que Papoula não estivesse na enfermaria, o que será que aconteceu?” pensou preocupada, enquanto adentrava lentamente na enfermaria. Instintivamente, enfiou sua mão no bolso para pegar sua varinha, e a segurou firmemente entre os dedos trêmulos.
- Lumus – murmurou, e sua varinha iluminou o local.
No instante seguinte em que murmurou o feitiço, desejou imensamente nunca tê-lo feito. Uma cobra enorme se esgueirava por entre as camas, com olhos tão vermelhos que pareciam lanternas. Um grito ficou preso em sua garganta, tamanha surpresa que tivera. Então, sem aviso, a cobra se transformou em um homem totalmente encapuzado, mas era possível ver seu sorriso torto na boca sem lábios. Era Lord Voldemort.
- O que houve, Severo? – perguntou Dumbledore em um sobressalto, ao ver o professor dar uma ligeira tremida e ter tomado uma postura diferente.
- A Marca... está queimando... – disse com dificuldade, apertando febrilmente seu braço esquerdo – O Lord está no castelo, Alvo.
- Como você pode ter certeza disso, Severo?
- Eu sinto... E Carla está em perigo, precisamos fazer alguma coisa!
- Você precisa descansar, ainda está muito debilitado. Se for realmente verdade que Voldemort invadiu o castelo, irei procurá-lo pessoalmente – disse Dumbledore determinado, com um brilho diferente em seu olhar.
- Eu preciso com o senhor... Ela corre perigo! – exclamou Severo, como se o diretor não tivesse ouvido sua última frase.
- Fique aí, Severo. Será melhor para todos nós.
- Ora, ora, ora... Carla Wetts! Não esperava vê-la tão cedo... – disse Voldemort sarcasticamente, caminhando lentamente na direção da garota.
Ela deu um passo para trás, sem pensar. As lembranças de seu último ano pareceram aflorar em sua mente, e apenas a menção de seus antigos encontros com o Lord lhe causavam arrepios.
- O que... o que você faz no castelo? – perguntou, sua voz trêmula.
- Pensei que soubesse, ‘pequenina’ – a garota sentiu seu sangue subir. – Há muito tempo tenho tentado encontrá-la, mas você parece sempre estar me evitando... – comentou friamente, com um meio sorriso.
- O que quer comigo? – perguntou determinada, mas tentando manter a maior cautela possível.
- Apenas conversar. Nada mais do que uma simples conversa...
Carla estava pronta para correr da enfermaria ao menor movimento de Voldemort. Ao ver que ele estava se aproximando cada vez mais, deu menção de virar para trás, ao mesmo tempo em que levantava a varinha em posição de ataque. Mas Voldemort foi mais rápido, com um simples movimento de sua varinha, fez com que a de Carla voasse longe.
No desespero de recuperar sua defesa, correu na direção em que a varinha jazia, mas um novo ataque fez com que ela parasse, assustada.
- Nem pense nisso, ‘pequenina’. Mais um movimento impróprio e não farei o favor de mudar o alvo – disse em tom imperativo, amedrontador.
Sem escolha, ela voltou à posição original, tendo o cuidado de manter seus braços à mostra.
- Assim é bem melhor – disse Voldemort com satisfação. – Podemos conversar mais civilizadamente.
- O que você fez com Severo? – perguntou rapidamente, não conseguindo conter a curiosidade.
- Severo? – ele perguntou, irônico – Não me lembro de ter se referido a ele como ‘Severo’ em nosso último encontro. Interessante como vocês ficaram íntimos em apenas meio ano.
- Você não respondeu à minha pergunta – disse com os dentes cerrados,
- Na realidade, eu não fiz nada a ele – Carla o olhou indagativa. – Ele fez algo a si mesmo, eu apenas ajudei.
A garota cruzou os braços, impaciente. Se Voldemort continuasse com aquela enrolação, poderia agir imprudentemente, tendo de encarar as conseqüências depois. Se ele ao menos baixasse a guarda por um momento... Poderia pegar sua varinha novamente, e estar de igual para igual, sem temor.
- Ele fez um pacto comigo.
- Que espécie de pacto? – questionou Carla, começando a se irritar.
- O que te levaria a crer que eu irei te contar tudo? – perguntou Voldemort sarcasticamente.
- O simples fato de que eu poderia chamar Dumbledore a qualquer momento? – sugeriu, dando um sorriso cínico.
- Como se eu morresse de medo daquele velhote – desdenhou o Lord. – Vou contar-lhe por um motivo, apenas: tenho um acordo para propor à senhorita.
- Que acordo? – perguntou desconfiada.
- Quer que eu conte o pacto ou o acordo?
- Os dois – respondeu friamente.
- Meu plano original era de pegar a senhorita, como já deve saber – começou, andando lentamente em torno da garota. – Mas as circunstâncias me fizeram mudar minhas prioridades. Severo já estava desconfiado, e se propusera a me impedir. Como não pretendo cair na mesma idiotice duas vezes, sei que ele seria capaz de se matar para salvá-la. E não estava enganado.
- Como aconteceu com Harry e sua mãe – disse Carla, lembrando-se da história.
- Exato – elogiou Voldemort. – Então decidi fazer um pacto com ele, uma espécie de acordo. Eu não tentaria nada contra você se ele me ajudasse a penetrar no castelo e cortasse qualquer laço para contigo. Isso aumentaria minha chance de pegá-la sem ele interferir.
Ela arregalou os olhos, não acreditando no tipo de acordo que Severo fizera com Voldemort. Certamente deveria ter tido algo mais, Severo não aceitaria uma coisa dessas sem algum outro tipo de ameaça. Mas mais óbvio ainda era que Voldemort só lhe contaria o que ele julgasse importante ou relevante. Odiava aquele tipo de situação, ainda mais com um homem ardiloso como o Lord das Trevas!
- Ele relutou muito. Disse que lutaria até a morte para salvar a sua vida, que o resto não importava. Muito romântico e heróico, não acha? – ele perguntou, irônico. Ela teve vontade de retrucar alguma coisa, mas teve de se calar – Mas finalmente concedeu. Como todo humano, Severo é fraco. Aceitou ficar submisso para salvá-la. No momento ele deve estar sofrendo muito, pois qualquer dano que eu impusesse a você, ele quem receberia e sentiria tudo. Também já deve ter avisado ao velhote, então não podemos nos demorar.
- E qual é o moral dessa história? – perguntou Carla, tentando se controlar. Já sentira seu rosto avermelhar-se, tamanha raiva que sentia daquele homem na sua frente.
- Bem... – ele pareceu pensar – Gostaria de ressaltar que, quando uma pessoa sente as dores de outra, os sentimentos e sensações pioram horrivelmente, então ele deve estar passando por uns maus bocados – sua voz era de quem comentava o tempo, tamanha indiferença na situação.
- O que você quer? – suas emoções pareciam sair do controle e sua voz começara a mostrar toda a raiva.
- É algo simples, que depende unicamente da senhorita.