A Poção

Capítulo 16
SOFRIMENTO FÍSICO E PSICOLÓGICO

         Ela passou a noite inteira em claro, pensando em Severo Snape. Vez ou outra era necessário enxugar algumas lágrimas persistentes que não paravam de cair, revelando que ficara muito sentida com o que acontecera no corredor, e o modo como ele tentava se esquivar dela.

         Não conseguiu ir até a sala de DCAT para arrancar explicações dos amigos, sabia que eles fariam de tudo para não contar o que com certeza sabiam. Nem quis ir jantar, seguiu diretamente para seu dormitório, incapaz de ouvir qualquer comentário de Hermione Granger, bombardeando-a de perguntas estranhas.

         Já se passava das quatro da manhã, e inconscientemente, Carla pegou um livro em seu malão, o livro mais improvável para se ler numa situação daquelas “Das Trevas às Trevas – Um estudo aprofundado sobre a mais terrível das artes mágicas”. Folheou-o desinteressadamente, mas sem prestar atenção em nenhum dos tópicos que passava. Jogou-o para o lado, completamente irritada. Decidiu vestir-se e dar uma volta nos jardins, na esperança de encontrar alguma distração.

         Vestiu-se silenciosamente, não querendo acordar nenhuma de suas companheiras de quarto. Pegou sua capa de invisibilidade e saiu do salão comunal sorrateiramente, fazendo o mínimo de barulho possível. Passou pelos corredores rapidamente, querendo chegar logo em seu destino.

         Assim que chegou nos jardins, procurou pelo banco escondido onde tivera tantas conversas com Severo, e decidiu ficar por ali. O lugar tinha uma visão linda do nascer do sol, que não tardaria a começar. Não conseguiu conter as lágrimas, quando lembrou que ele estava perdido em algum lugar, sem forças para manejar uma varinha corretamente. Uma voz começou a martelar em sua mente. “O sonho, é tudo graças ao sonho...” era o que ela dizia de maneira persistente.

         - O que esse sonho inútil tem a ver com Severo?! – berrou irritada, xingando seu próprio pensamento.

         Então uma coisa lhe ocorreu. Pareceu juntar todas as peças do quebra-cabeça de uma vez só, e ficou surpresa com o resultado. Seu sonho agora fazia completo sentido, parecia se encaixar perfeitamente na situação. Sonhara com Voldemort, torturando um de seus servos. E esse servo era Snape, por isso o motivo dele aparecer completamente esgotado.

         Foi tomada de uma idéia obsessiva, e não descansaria até cumpri-la. Levantou-se rapidamente, e seguiu quase correndo até a enfermaria, único lugar provável para ele encontrar-se.

         Batia na porta insistentemente, que pela primeira vez desde que entrara em Hogwarts parecia trancada. Madame Pomfrey veio apressada ver quem era, e pareceu não gostar muito ao constatar que era Carla quem batia incansavelmente.

         - Desculpe querida, mas não posso abrir a porta – avisou a enfermeira, olhando a garota por uma pequena abertura.

         - Por que não, Papoula? Tenho certeza de que Severo está aí, e eu tenho a obrigação de vê-lo! – disse acusadoramente, inconformada com o que a outra dissera.

         - É por isso mesmo que não posso deixá-la entrar, é algo muito importante! – ela insistia, sua voz tremendo um pouco.

         - Eu QUERO entrar nessa enfermaria, e eu VOU entrar aí! – disse irritada, afastando-se da porta e pegando sua varinha.

         - Carla querida, não faça isso! Você pode apenas prejudicar as coisas! – ela pedia desesperadamente, como se aquilo valesse o seu emprego.

         Ela não ouviu. Sentia uma dor enorme em seu peito, que parecia existir graças a dificuldade de ver seu amado. Foi tomada de uma grande força, e sua varinha formigava em sua mão, mas não parecia incômodo o bastante. Mirou-a firmemente para a porta da enfermaria, e parecia faltar pouco mais de um segundo para berrar o feitiço. Madame Pomfrey parecia à beira de um ataque de nervos, e não viu escolha a não ser abrir a porta.

         - Carla, acalme-se. Não precisa explodir a enfermaria, tudo bem, eu deixo-a entrar, peço apenas que faça silêncio – disse temerosa.

         Ela concordou com a cabeça, abaixando lentamente sua varinha. Parecia acordar de uma espécie de transe, onde nada mais importava a não ser a necessidade de adentrar na enfermaria.

         Madame Pomfrey levou-a até uma cama afastada, completamente coberta por cortinas. Deixou a garota sozinha, mas sem deixar de lançar olhares preocupados de tempo em tempo.

         Carla abriu as cortinas, temerosa com o que poderia encontrar ali. Viu Severo Snape deitado em uma cama, seu corpo completamente amarrado em talas fortes, que pareciam prendê-lo na cama, incapaz de fazer qualquer movimento. Dava a impressão de que ele tentara se debater, e a enfermeira não teve outra escolha não ser prendê-lo firmemente, de uma maneira que parecia machucá-lo muito. Sua cabeça estava enfaixada, e parecia que tinha sangrado muito, graças a um pequeno filete de sangue que escorria por sua testa. Seus olhos estavam fechados, e parecia estar em profundo sono.

         Sentiu uma sensação incômoda em seu peito, como se o estado dele fosse culpa inteira dela. Sentou-se numa cadeira próxima à cama, e sentiu sua visão ficar embaçada, devido o grande número de lágrimas que se formaram em seus olhos. Limpou-os rapidamente com uma das mãos, e aproximou-se mais do corpo inerte de Severo, notando que ele estava gravemente ferido. Reparou que, por baixo dos lençóis, dava para ver que estava sem camisa, o peito completamente enfaixado. Notou também que o local onde a Marca Negra estava parecia estar em carne viva, com a tatuagem brilhando intensamente.

         - Acho que já viu o bastante – sentenciou uma voz atrás dela, que logo reconheceu como sendo a de Alvo Dumbledore.

         - Dumbledore, eu... – ela disse com a voz embargada, tentando formar uma frase coerente.

         - Não precisa dizer nada, garota. Peço apenas que o deixe descansar, passou por uma provação terrível esta noite – disse serenamente, mas em tom sério.

         - Sim, eu... eu vou – concordou brevemente, levantando-se da cadeira.

         Pegou em seu colar com força, como se ele fosse dar forças para continuar o dia, e saiu lentamente da enfermaria, cabeça baixa e passos desanimados.

 

         Não soube ao certo para onde ir, parecia que sua vida perdera o sentido, ao ver o homem que amava no estado em que se encontrava. Viu-se parada à porta da sala de seus padrinhos, e parecia incerta se deveria bater ou não.

         A porta abriu-se, e do outro lado dela, Sirius olhava para a “afilhada” de maneira confusa, questionando o que ela fazia parada na porta de sua porta.

         - O que houve, pequenina? Seu olhar parece distante, aconteceu alguma coisa?

         - Por que vocês não me contaram? – perguntou chorosa, adentrando na sala e trancando a porta.

         - Contamos o quê? – perguntou Remo, aproximando-se.

         - Se eu soubesse não estaria pedindo explicações – respondeu mal-humorada, sentando-se em uma poltrona.

         - Aconteceu alguma coisa, Remo, isso é fato consumado – concluiu Sirius, olhando para Carla de modo piedoso.

         - O que aconteceu com Severo? – perguntou ela em voz alta – E não venham me dizer que não sabem de nada, pois eu o vi na enfermaria!

         - Papoula te deixou entrar na enfermaria? Mas Dumbledore na...

         - Sei que Dumbledore não permitiu, Remo, mas ameacei destruir aquele local se não entrasse – respondeu a garota emburrada.

         - Você o quê?! – o padrinho perguntou completamente espantado.

         - Remo, acho que você é o único que não percebeu que ela tem uma queda para as Trevas... – analisou Sirius pensativo.

         - Não venham me acusar numa hora dessas! – protestou – Eu quero saber o que aconteceu com Severo!

         Ambos ficaram em silêncio por algum tempo, deixando os nervos de Carla chegarem à flor da pele. Depois, lenta e cautelosamente, Remo começou a falar, seguido de Sirius.

         - Ninguém sabe ao certo o que lhe aconteceu,

         - E ele nunca iria nos contar tudo.

         - O que sabemos é apenas o que Alvo nos contou.

         - O que ele achou prudente nos dizer, já prevendo que iria nos questionar sobre isso.

         - Querem parar de falar como Fred e Jorge? Não vêem que está me deixando irritada? – disse a garota brava, já começando a perder o pouco de paciência que lhe restara.

         - Tudo bem, vamos falar tudo o que sabemos – considerou Remo, dando um olhar de esgueira para Sirius, que confirmou com a cabeça. – Parece que Snape foi convocado para uma reunião com Voldemort.

         - Ele queria alguma informação valiosa do seboso, que ao que parece não deu ao Lord, deixando-o profundamente irritado. Depois propôs um acordo, algo bem absurdo, ao imagino.

         - O problema foi que Snape não aceitou, e foi torturado por Voldemort, isso em duas noites seguidas.

         - Pelo que ficamos sabendo, ele passou a manhã de ontem inteirinha na enfermaria, mas depois fugiu. Madame Pomfrey ouviu ele dizer alguma coisa em seu sono, algo que parecia ter de cumprir uma promessa. Algo muito suspeito, se me permite dizer – disse Sirius, não deixando passar batida a oportunidade de duvidar de Snape.

         - Então ele foi. Voltou no meio da madrugada, e estava muito perturbado – continuou Remo, agora mais sério do que nunca. – Veio nos procurar antes de mais nada, não foi, Almofadinhas? Achamos na hora que algo estava errado.

         - Muito errado – completou Sirius, desta vez também sério. – Estava desesperado, dizendo a todo momento que tinha de nos contar uma coisa, algo que era vital, sobre alguém que estava em perigo.

         - Mas o que era, afinal? Não me deixem mais nervosa! – exclamou Carla aflita, toda a raiva sumindo em um segundo.

         - Não ficamos sabendo – respondeu Remo desolado. – Dumbledore apareceu, e obrigou Snape a ir para a enfermaria, mesmo que ele lutasse febrilmente contra a vontade do diretor.

         - É claro que Dumbledore o estuporou, mas o efeito não foi tão longo, acho que ele acordou na metade do caminho, e parece que a briga foi feia – terminou Sirius, cogitando seriamente se a informação era verdadeira.

         - Dumbledore, às vezes acho que ele tem minhoca na cabeça! – exclamou a garota inconformada – Como pode estuporar Severo, quando ele ia contar uma informação importante?!

         - Nunca entenderíamos os motivos dele, ele realmente sabe o que faz – ponderou Remo.

         - Remo, convenhamos que muitas vezes não concordamos plenamente com o que ele diz – contrapôs Sirius, sentando-se ao lado de Carla.

         - Isso não vem ao caso, Sirius – respondeu ele. – E muitas vezes estamos errados, e ele permanece certo... sempre.

         - Isso é um absurdo! – disse Carla pondo-se de pé – Nada me impedirá de saber o que Severo queria contar, e irei invadir aquela enfermaria, nem que seja a última coisa que eu faça! – disse determinada, um brilho obsessivo em seus olhos.

         - Tome cuidado, pequenina – alertou Sirius temeroso. – Alvo não acharia muito legal se você invadisse a enfermaria, não depois de ordens explícitas para você ficar longe de lá.

         - Sirius tem razão, você não pode fazer isso – concordou Remo.

         - Às vezes acho que vocês dois estão contra mim e do lado de Dumbledore! – disse ofendida, seu rosto em  completo desapontamento.

         - Estamos do lado mais correto, é diferente – justificou Remo. – E nem sempre esse lado é a favor de você, querida.

         - Não me interessa o que vocês acham, interessa que eu vou ver Severo, mesmo que eu falte a todas as aulas! – disse irritada, pegando sua varinha e destrancando a porta, batendo-a com estrépito.

         - Se ela ao menos nos entendesse... – lamentou Sirius, olhando-a sumir num corredor.

 

         Estava possessa, completamente irritada com tudo e todos. Seus passos faziam estrépito no chão, e mesmo que suas pernas reclamassem das passadas longas e rápidas, ela não parecia se importar com nada, apenas continuava andando, sem enxergar realmente para onde ia. Conhecia aquele caminho muito bem, então não precisava ficar prestando atenção aos corredores. Sua varinha já estava empunhada, para acabar com todos aqueles que aparecessem em seu caminho.

         Teve sorte de não trombar com ninguém enquanto andava, e logo estava na porta de seu destino. Chutou-a com força, e causou mais barulho quando a empurrou novamente, para abrir caminho para passar. Madame Pomfrey a olhou assustada, e nos olhos de Carla era possível ver todo o ódio que a dominava naquele momento.

         - O que está fazendo, Carla? – perguntou assustada, dando dois passos para trás.

         - Desta vez ninguém vai me impedir, EU QUERO VÊ-LO! – sibilou lentamente, tentando controlar tudo o que sentia.

         - Você está irritada, por favor, acalme-se! Estamos numa enfermaria! – a enfermeira pedia desesperada, nem querendo imaginar o que aconteceria se ela resolvesse utilizar sua varinha.

         - NÃO HÁ MOTIVO PARA TER CALMA! JÁ AGÜENTEI ISSO POR MUITO TEMPO, AGORA NÃO CONSIGO MAIS! – ela berrou, completamente fora de si.

         Rapidamente, ela sentiu alguém segurá-la com força pelas costas, prendendo seus dois braços. Tentou se livrar, e desferiu vários chutes em quem a segurava. No instante seguinte, sentiu lançarem um poderoso feitiço contra si, que a impediu de fazer qualquer movimento, e por um momento tudo à sua volta parecia lento e disforme. Perdeu o controle sobre suas pernas, e caiu no chão com força, vendo apenas uma grande quantidade de vultos a segurarem antes de tudo ficar escuro.

 

         Sentia-se sem movimento algum, como se cada músculo de seu corpo estivesse sendo prensado por um quantidade enorme de chumbo, impossibilitando-a de se mover. Abriu os olhos lentamente, e não conseguia enxergar nada, sua visão inteira parecia embaçada. Tentou berrar, gritar por alguma ajuda, mas seus lábios pareciam colados. A única coisa que parecia querer funcionar em seu corpo todo era seu cérebro e, remotamente, seus ouvidos.

         Ainda de olhos abertos, distinguiu vultos caminharem de um lado para o outro, mas não conseguia ver quem era, suas vistas doíam muito. Longinquamente, ouviu uma conversa, que parecia diminuir a cada palavra.

         - Como ela está? – perguntou uma voz preocupada.

         - Nada bem, recebeu o máximo de sedativos que uma pessoa pode receber.

         - Quais exatamente? – perguntou uma terceira voz, assustada com o que acabara de ouvir.

         - Feitiço do corpo preso, amarrada firmemente com várias talas, poção quebra-sentidos e uma grande dose de calmantes – explicou a segunda voz, enumerando as medidas tomadas.

         - Mas é muita coisa! Ela não irá agüentar! – exclamou a primeira voz completamente chocada.

         - Ela irá agüentar sim, mas será demorado até passar o efeito de tudo – interviu uma outra voz, mais calma do que as outras. – Enquanto isso pode refletir sobre todos os acontecimentos.

         Fechou os olhos com força. Não queria ouvir mais do que aquilo. Já estava sendo ruim demais ter de pensar naquilo tudo, e ainda encarar aquela situação como castigo? Era mais do que podia suportar. E como se não bastasse, uma nova onda de dor incômoda parecia se apoderar de seu peito, tornando as coisas apenas mais difícies.

         Aquele dia prometia ser longo, muito longo...

 

         Tomou consciência de que acordara, mas sem ter a mínima vontade de fazê-lo. Não sentia mais nenhuma calma em seu ser, parecia que a raiva que sentia a faria explodir se não a colocasse para fora urgentemente. Abriu os olhos preguiçosamente, e teve a felicidade de constatar que conseguia enxergar normalmente. Continuava presa, porém, e aquilo a atormentava profundamente. Julgou que já pudesse falar normalmente, parecia que o efeito da poção quebra-sentidos já havia acabo, e pediu por ajuda.

         Não esperava, porém, que vários rostos fossem se aproximar, alguns muito desagradáveis.

         - Me recuso a falar com esse monte de gente – disse entre dentes, sua voz carrancuda e brava.

         - Deixem-nos a sós, por favor – pediu a voz serena de Alvo Dumbledore, e aos poucos os outros se afastaram.

         O que ela menos ansiava naquele momento era uma bronca de Dumbledore. Já estava ruim de mais sem ser repreendida pelo que quase fez.

         - Quero sair daqui, Dumbledore. Não sou um animal para ficar trancafiada – rosnou a garota, no que não parecia um pedido, mas sim uma ordem.

         - Só poderá sair quando fazer por merecer – respondeu calmamente, como se não estivesse nem um pouco preocupado.

         - Por favor! Sei que errei, e errei muito feio, se quer saber, mas não consigo mais sofrer com isso! Por favor, me tire daqui! – sua voz era mais do que uma súplica, e lhe doía muito ter de admitir que errara.

         - Gostaria de esclarecer algumas coisas primeiro, Srta. Wetts.

         - Livre, por favor.

         - Terá de me prometer que não fará nada perigoso – disse Dumbledore seriamente.

         - Prometo! – exclamou cansada, farta de repetir a mesma coisa.

         Ele então a soltou das talas, e ela conseguiu sentar-se na cama, seu corpo dolorido nos locais em que fora mais pressionado pelas talas.

         - Gostaria de saber por que desobedeceu minhas ordens e insistiu em invadir a enfermaria – indagou em voz séria, sem nenhum brilho em seus olhos.

         - Queria ver Severo, ninguém iria me impedir – disse com voz desafiadora.

         - Somente isso? – questionou, obviamente sabendo de algo mais.

         - Oras, sim! – disse rapidamente, sentindo-se ofendida. Depois parou para pensar um pouco, e concluiu que não – Não... me senti fora de mim, apenas uma idéia absurda em minha mente, senti que não deveria fazer nada além daquela idéia... – disse lentamente, apenas naquele momento percebendo o que fizera – Desculpa – murmurou sem graça, tomando naquele momento real conhecimento do perigo que causara para todos os habitantes do castelo.

         - Andou lendo material das Trevas ultimamente? – perguntou ternamente, a postura séria e distante diminuindo um pouco.

         - Sim... – disse cabisbaixa, nova onda de culpa a invadindo – Perdoe-me Dumbledore, tinha me esquecido completamente disso...

         - Não deixa de ser errado o que fez, Carla, mas é um grande progresso ter admitido o erro para este nunca mais acontecer.

         - Como... como estive? – perguntou receosa, com medo do que poderia ouvir.

         - Lembrava vagamente a um Comensal – disse com sinceridade. – Mas todos entenderam quando os expliquei o que deveria ter acontecido, menos uma pessoa.

         - Que pessoa?

         - Severo Snape.

         - QUÊ? – ela perguntou alarmada, pega de surpresa pela resposta do diretor – Como... como Severo se ele estava de cama, completamente imóvel?

         - Ao que parece ele acordou com seus gritos, e tentou te segurar. Mesmo estando fraco ele conseguiu sair da cama e tentar te impedir de cometer algum ato impróprio, mas parece que você conseguiu acertá-lo em cheio.

         - Mas, mas... Severo não podia ter feito isso! Ele, ele... ele está fraco e ferido! Nunca vou me perdoar por isso!

         - Não fique se culpando por isso, jovem – consolou Dumbledore. – Ele somente levantou-se pois se lembrou da época em que ele era Comensal, quando não tinha mais nenhum pensamento a não ser a missão que lhe era concebida, ele sentiu-se mal por isso.

         - Eu... posso falar com ele? – perguntou receosa, sem saber ao certo se era o melhor a se fazer.

         - Pode, mas não tente entrar rapidamente no assunto que mais quer saber. Conversei com ele, e ele me revelou que se sente culpado pelo que aconteceu, por a ter feito se interessar pelas Artes das Trevas – confidenciou o diretor, cauteloso.

         - Ele não pode se sentir culpado! – exclamou inconformada – Ele... ele não tem culpa, a culpa é minha! Toda minha!

         - Para conviverem bem vocês precisam aprender a confiar mais um no outro – alertou Dumbledore. – Não podem querer colocar todas as responsabilidades sobre si, acho que já pôde comprovar que isso só piora a relação.

         - O que quer dizer? – questionou Carla.

         - Exatamente o que ouviu – respondeu amigavelmente. – Acho que devo ir, suponho que a conversa dos dois vá ser longa.

         O diretor se levantou e caminhou para fora da enfermaria, deixando Carla em sua cama, decidindo se iria ou não conversar com Severo e, por fim, acabar com a tortura que estava passando.

         Decidiu que iria conversar com ele, não queria mais adiar algo que seria inevitável. Depois de ter consciência do perigo em que colocara grande parte dos estudantes, tentou controlar mais seus sentimentos, para não explodir novamente e causar mais escândalo, ainda mais que desconfiara que Harry Potter assistiu ao vexame que fizera.

         Caminhou lentamente até o mesmo cortinado no fundo da Ala Hospitalar, e lentamente empurrou as cortinas, para encontrar a cama em que Severo Snape repousava. Notou que ele parecia um pouco melhor do que da última vez que o vira, ao menos não estava amarrado na cama. Seus ferimentos, porém, pareciam no mesmo estado de outrora, e sua cabeça estava enfaixada com uma nova atadura.

         - Severo...? – ela o chamou lentamente, receando se ele estivesse dormindo.

         - Estou acordado – respondeu friamente, esforçando-se para sentar-se na cama, ficando da mesma altura que Carla, quando sentada na cadeira.

         - Acho que precisamos conversar – disse timidamente, não sabendo ao certo como deveria proceder na conversa.

         - Pois fale – Snape disse secamente, encarando-a de modo frio e distante.

         - Como está?

         - Muito bem, obrigado – disse sarcasticamente.

         - Não venha com sarcasmo, sei que não está nada bem – ela o repreendeu, começando a se irritar com a postura indiferente que ele tomava.

         - Posso estar de cama e ferido, mas não estou sendo controlado por minhas emoções e atacando gente inocente – disse fria e letalmente, sabendo que tocara em um ponto delicado.

         - Olha aqui, eu não ataquei ninguém inocente! – Carla disse furiosa, seus dentes trincando enquanto falava.

         - Não atacou porque a impedi a tempo – revidou Severo, encarando-a de modo provocativo.

         - Eu nunca atacaria Madame Pomfrey! – exclamou em voz baixa, lutando contra a vontade de meter um soco no rosto zombeteiro de Severo Snape.

         - É o que todos dizem – explicou friamente, cruzando os braços levemente. – Mas quando acontece, as coisas são bem diferentes, você não sabe diferenciar culpado de inocente; aos seus olhos qualquer um que não ajudá-lo prontamente a cumprir sua missão deve morrer, sem dó nem piedade.

         - Não me venha dizer uma coisa dessas! Eu... eu não sou como você foi há anos atrás, eu não me ofereci para servir a Voldemort! – disse com a voz embargada, seus olhos enchendo-se de lágrimas.

         - Nunca mais fale isso! – disse em tom imperativo, sua voz ultra perigosa.

         - Encare os fatos, Severo... – disse Carla com voz melosa, enxugando as lágrimas com as mãos – Nunca vamos para frente desse jeito, só sabemos ofender e machucar um ao outro... Isso não pode dar certo, não enquanto continuarmos a mexer em feridas que não cicatrizaram... Eu não quero continuar desse jeito, e duvido que você também queira... – sua voz voltara a embargar, e mais lágrimas surgiram, impossibilitando-a de continuar.

         - Assim faz entender que quer terminar tudo – disse acidamente, seus olhos frios como o gelo.

         - Não quero, realmente não quero – disse sinceramente. – Mas não consigo sustentar uma relação onde nenhum de nós dois se respeita... onde sentimos prazer em machucar o outro cada vez mais e mais... Não sei o que te aconteceu enquanto estava com Voldemort, talvez nunca vá a saber, apenas sei que não te reconheço mais, não consigo ver nada por baixo de sua máscara fria e impassível.

         Ela pusera-se de pé, e ficara de costas para ele. Não conseguia mais olhá-lo nos olhos, ver que não havia nada em seu olhar, não sentir nada na aura dele... Não sabia o que dizer, sabia apenas que não conseguiriam permanecer do jeito que estavam, ela precisaria saber o que Voldemort fizera com ele...

         - Carla, espere – pediu Severo lentamente, vendo que ela começara a andar.

         - Não sei se quero ouvir o que tem para me dizer, Severo, realmente não sei. Acho melhor deixarmos as coisas esfriarem, e você pensar se deve ou não me contar o que está pretendendo nesse momento. Não vamos complicar mais as coisas.

         Ela disse sem olhar para trás, mas parando de andar. Em seguida não esperou resposta, voltou a caminhar para longe dali, não querendo fraquejar novamente com aquele assunto.

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