A Poção
Capítulo 15
SUMIÇO E MISTÉRIO
- Pequenina, estou esperando – informou Sirius, olhando a garota
profundamente.
- E eu estou pensando – retrucou Carla, com um dedo na boca,
completamente nervosa.
- Pensando no quê? É só me contar o que há que eu fico satisfeito.
- Sirius, você não entende! – exclamou desesperada, tentando enrolar
o amigo.
- Não entendo mesmo, ninguém entende uma coisa que não sabe –
respondeu sério, ainda esperando uma resposta.
- Sirius, Sirius, é uma coisa muito complicada, não sei por onde começar
– a esta hora ela já andava de um lado para outro, mordendo a ponta dos
dedos.
Sirius não disse nada. Seguiu-a com o olhar, sem mudar sua idéia de
saber de tudo. Por fim, a garota rendeu-se, e decidiu falar.
- Sirius, eu e Severo estamos juntos! – revelou finalmente, em um
suspiro derrotado.
- Como é? – perguntou em voz alta, não acreditando no que ouvia.
- Não me faça repetir, já é ruim demais contar.
- Mas nunca você ficará junto daquele seboso! Vou tomar uma atitude
agora! – e antes que Carla pudesse impedi-lo de qualquer coisa, Sirius se
transformou no enorme cão preto e saiu da sala, correndo o mais rápido que
conseguia.
- Ah não, isso só pode piorar! – lamentou a garota, transformando-se
no lobo cinza, e tentando acompanhar o passo do cão.
Carla correu o mais rápido que pôde, e conseguiu alcançar Sirius
somente minutos antes de chegarem às masmorras. Já começava a suar e
sentir-se cansada, mas faria de tudo para não eclodir uma briga entre os
antigos rivais. Viu Sirius virar um corredor, e virou logo em seguida, mas
surpreendeu-se quando viu-o parado, olhando um homem, que estava parado à
frente de ambos.
- Não é prudente brincarem de pega-pega nos corredores de Hogwarts,
principalmente neste horário – a voz do diretor Dumbledore estava calma como
sempre, mas demonstrava que não estava de acordo com a atitude dos dois.
Como se tivessem combinado, transformaram-se em humanos no mesmo momento,
Sirius com uma expressão de profundo arrependimento e Carla preocupada.
- Vamos para minha sala, será mais confortável para conversamos.
Seguiram Dumbledore em silêncio, nem se atrevendo a trocarem olhares.
Aquela situação lembrava ao diretor uma das milhares de vezes que pegou Sirius
fazendo bagunças nos corredores, principalmente contra os sonserinos. Já Carla
lembrava sua mãe, quando saía escondida para encontrar o namorado, em uma das
masmorras inutilizadas.
Em pouco tempo chegaram à estátua enfeitiçada, e subiram a escada em
caracol, tudo no maior silêncio possível. Alvo sentou-se em sua cadeira, e
ofereceu cadeiras para ambos sentarem-se, mas preferiram ficar de pé.
- Pois bem, podem começar a explicar – pediu serenamente, encarando-os
por baixo dos oclinhos meia-lua.
- Eu corria atrás de Sirius porque ele... bem, ele descobriu um segredo
meu e queria contar para Remo, e eu não queria – Carla respondeu rapidamente,
nem dando chance para Sirius responder.
- É verdade o que ela disse, Sirius? – Dumbledore quis confirmar,
analisando os rostos de cada um.
- Alvo, eu queria dizer que...
- Que não irá contar o segredo para Remo, e eu não vou mais correr atrás
de você – Carla apressou-se em interrompê-lo, pois sabia que falaria alguma
besteira.
- É, tá certo – disse um pouco embaralhado.
- Era só isso mesmo?
- Só isso mesmo – confirmou Sirius, ainda tentando raciocinar direito.
- Então já podem ir – finalizou o diretor, e os dois se levantaram em
silêncio, só voltando a falar quando estavam bem longe da sala do diretor.
- Por que mentiu para Alvo? – questionou Sirius, um pouco bravo.
- Preferia que eu disse algo do tipo: “Dumbledore, eu corria atrás de
Sirius porque ele queria bater em Severo, só por saber de uma coisa boba”? Se
quer, eu volto lá e falo tudo – respondeu Carla emburrada, caminhando com
passos duros.
- Então só mentiu para evitar mais problemas?
- Claro Sirius. Já não basta o sermão que irá me dar, não queria que
você arrumasse confusão com Severo, e por minha causa!
- Pequenina, eu não ia bater naquele seboso idiota, ia ter uma conversa
com ele, só isso – explicou carinhosamente, mas sem deixar passar um insulto
ao companheiro.
Carla deu de ombros. Sirius passou um braço por detrás dos ombros dela
e a puxou para mais perto, guiando-a até a sala em que deveriam estar.
Assim que entraram, Sirius fez questão de trancar magicamente a porta,
para não serem interrompidos. Sentou Carla em um sofá e a encarou, seu rosto
impossível de se ler.
- O que houve, Sirius? – perguntou ansiosa.
- Sei que não adiantaria nada em proibi-la de namorar o seboso – começou
Sirius, falando diplomaticamente. Carla concordou com a cabeça. – Então
quero te desejar felicidades, e pedir que mantenha os olhos bem abertos para
quando estiver perto dele... Você sabe, ele é um Comens...
- Eu sei muito bem quem ele é, Sirius – interrompeu rapidamente, não
querendo relembrar do passado.
- Sim, eu sei que você sabe – concordou jovialmente, tirando do rosto
um punhado de cabelo que caíra em seu rosto. – E eu acho que ele não se
arrependeu, mas se ele realmente mostrar que é um homem diferente...
- Sirius, o que está insinuando? – perguntou Carla chocada, pondo-se
de pé.
- Sente-se, pequenina – disse levemente, mas em tom imperativo. –
Como já disse antes, ou pensei em ter dito, não apóio aquele seboso m... –
ele pensou em continuar, mas mudou a frase rapidamente – Mas quero saber o que
você acha dele, e como tudo aconteceu.
Carla encarou-o, incrédula. Realmente achava que ele teria no mínimo um
ataque, e que exigiria no mínimo uma conversa com Snape. Mas ficou realmente
surpresa com a atitude madura que tomara, parecia finalmente ter esquecido as
rivalidades de quase 20 anos atrás.
- Bem... tudo começou naquele passeio a Hogsmeade... – ela começou
receosa, mas disposta a contar tudo, até mesmo o que não contara para Remo –
ao menos tudo que ela lembrava.
Depois de tudo explicado, Sirius a fitou, uma sobrancelha erguida, mas
sua mente trabalhando rapidamente, para absorver um número enorme de informações.
- Então Remo foi falar com ele? – perguntou por fim, mas como se só
quisesse confirmar.
- Sim, e ele já devia ter voltado... não acredito que eles tenham
ficado tanto tempo conversando civilizadamente... – disse preocupada.
- Mas é claro! – disse Sirius de repente – Tranquei a porta, é bem
improvável que ele consiga entrar!
Com um movimento de sua varinha, a porta se abriu, e os dois conseguiram
avistar um Remo Lupin muito bravo parado bem na frente deles.
- Er, olá Aluado! – disse Sirius jovialmente, levemente intimidado com
a expressão no rosto do amigo.
- Sirius, quantas vezes já te disse para não trancar a porta com um
feitiço permanente? – perguntou Remo em tom sério, desaprovando a atitude de
Sirius.
- Desculpe, Remo! – disse impaciente, falsamente arrependido.
- Remo, estávamos falando sobre aquele assunto, e Sirius queria
privacidade... – Carla disse rapidamente, querendo evitar uma discussão dos
dois.
- É mesmo? – ele quis confirmar – Então tudo bem, desta vez estão
perdoados.
- Como Remo é piedoso! – zombou Sirius, imitando uma voz aguda.
Carla riu, e Remo mostrou uma expressão mortífera para o amigo. Logo
todos caíram na risada, não conseguindo contê-la.
- Acho que deveríamos descer para o jantar, daqui a pouco já é hora da
sobremesa – avisou Remo, checando o relógio da sala.
- Eu vou indo na frente – disse Carla, apressando-se até a porta.
- Acho meio difícil que você consiga falar com ele antes do término do
jantar – alertou Remo, em tom alto. Mas fora inútil, Carla já corria por
entre os corredores.
Como Remo previra, o jantar estava quase no fim, e muitos alunos já
tinham se retirado, conversando preguiçosamente com seus companheiros. Carla
sentou-se um pouco afastada de todos, e começou a comer rapidamente. Tentou por
duas vezes olhar para Severo, mas os olhares inquisitores de Harry e Rony a
impediam de olhar de maneira aceitável.
Snape saiu do salão principal no meio da sobremesa, o que a deixou muitíssimo
preocupada. Comeu sua torta de caramelo rapidamente, e saiu do salão em passos
largos, a caminho das masmorras. Foi barrada no meio do caminho por Alvo
Dumbledore, que mantinha uma expressão serena, mas sem o contagiante brilho nos
olhos.
- O que foi, Dumbledore? – perguntou Carla preocupada, parando de
andar.
- Não adianta ir até ele, Srta. Wetts – disse brevemente. – Um
chamado urgente, devo dizer. Não deve voltar antes da hora em que você deveria
dormir.
- Como? – perguntou incrédula, não absorvendo uma só palavra que o
diretor dissera.
- Um chamado... de Voldemort – disse em tom baixo, para ninguém
ouvir. – Você deveria ir para a enfermaria, descansar um pouco. Amanhã
conversa com ele.
Dumbledore realmente sabia como finalizar uma conversa, pensou Carla.
Concordou brevemente com a cabeça, e seguiu pelo caminho inverso, em direção
da enfermaria.
Demorou para dormir naquela noite ou, como parecia, nem chegara a dormir.
Teve um sonho muito estranho, em que um homem era torturado por outro, e parecia
sofrer muito com isso.
Acordou suando frio, muito assustada, e sem conseguir soltar uma palavra.
- O que aconteceu, querida? – perguntou Madame Pomfrey carinhosamente,
aproximando-se com um líquido borbulhante roxo.
- N-nada... – disse com dificuldade, limpando o suor com uma manga do
robe.
- Bem, tome esta poção – disse, colocando o líquido em sua boca. –
Se tudo der certo, depois do café você deve estar curada de sua gripe, e poder
fazer feitiços normalmente.
- Obrigada Papoula – Carla agradeceu, bebendo o líquido todo, que
lembrava estranhamente a sangue.
Vestiu-se rapidamente, um mau pressentimento apoderando-se dela. Seguiu
para o Salão Comunal, e pegou seu material daquele dia, percebendo que ninguém
havia acordado ainda. Desceu o mais rápido que pôde até as masmorras, que
pareciam mais gélidas que de costume.
Chegou à sala pessoal de Snape, e parou à sua porta. Forçou a maçaneta,
na esperança dela se abrir milagrosamente, mas nada aconteceu. Bateu algumas
vezes na porta, mas sem receber ao menos um murmúrio impaciente do outro lado.
Parecia apenas que a sala estava vazia, sem nenhum sinal de que poderia ter alguém
lá dentro.
“Vai ver ele está dormindo, muito cansado para me atender...” pensou
esperançosa, procurando uma boa desculpa para o sumiço do professor.
Como não tinha nada para fazer, seguiu para a sala de Remo e Sirius,
torcendo para eles estarem acordados, e poder
fazer alguma coisa enquanto não chegava a hora do café. Teve sorte; os
dois estavam treinando algum feitiço novo para a aula de Duelos, e ficaram
felizes ao vê-la ali tão cedo.
- Bom-dia, pequenina! – disse Sirius, correndo para abraçá-la –
Qual é a honra de sua visita?
- Bom dia, Sirius, Remo – Carla disse desanimada, cumprimentando os
dois com a cabeça. – O que estavam fazendo?
- Treinando um Impedimenta, vamos usá-lo na aula de hoje – explicou
Remo, percebendo a desolação da afilhada. – Aconteceu alguma coisa?
- Oh sim, várias coisas! – sua voz parecia embargada – Ontem não
consegui falar com Severo, parece que teve um chamado urgente de Vol... Você-Sabe-Quem.
Agora a pouco fui até as masmorras mas parece que ele ainda não voltou...
- Vai ver Voldemort resolveu acabar com a vida dele, então – comentou
Sirius zombeteiramente.
- Sirius! – repreendeu Remo, bravo – Olha Carlinha, não se preocupe
com isso – “Como se isso fosse possível” murmurou a garota com desdém -,
sei que não é fácil lidar com isso, mas essas reuniões de Comensais são
muito cansativas, ele provavelmente deve estar esgotado.
- Como sabe disso? Por acaso já assistiu a alguma delas? – troçou
Sirius, não perdendo a chance de encher o amigo.
- Sirius, por favor – pediu Carla suplicante -, deixe suas
brincadeirinhas de lado, estou preocupada.
- Estou falando sério, pequenina – defendeu-se Sirius, desta vez sua
voz deixando de ser brincalhona. – E Remo está certo, ele sempre está, você
não deveria se preocupar tanto, o seboso pode parecer um esquelético mas deve
ter alguma resistência por baixo daquela cara lambida...
- SIRIUS! – Remo e Carla disseram ao mesmo tempo, desaprovando os
comentários ácidos de Sirius.
- Só estou dando o meu ponto de vista! – defendeu-se, sorrindo
marotamente.
Mesmo com todo o apoio que Sirius e seu padrinho estavam mostrando para
sua preocupação, Carla não conseguia se aquietar. E ainda tinha aquele sonho,
uma voz lembrou-a astutamente. Tinha certeza que aquilo não poderia dizer nada,
mas não tivera coragem para contar aos dois sobre ele. E fora um sonho muito
confuso, meio sem pé nem cabeça...
Passou o tempo jogando xadrez com Sirius, mas pela primeira vez estava
levando uma surra, por não estar totalmente concentrada. Quando se deu conta, já
era hora do café, e seguiu o mais rápido que pôde para o Salão Principal, na
esperança de encontrar Severo lá, sorrindo para ela... Não, seria muito
improvável ele sorrir em pleno salão, o máximo seria dar um aceno com a cabeça...
Mas teve uma grande queda de volta à realidade: Severo não estava lá,
e havia um certo clima tenso entre os presentes professores. Carla sentou-se
tristemente em seu banco, completamente desolada. Ao menos Remo e Sirius
poderiam lhe contar se estivesse acontecendo algo, cogitou.
- Ei, Carla! Carla! CARLA! – dizia Hermione enfaticamente, tentando
chamar a atenção da garota, no meio da aula de Herbologia.
- Desculpe Hermione, não tinha te ouvido – disse Carla de repente,
parecendo ter notado que ela a chamava.
- É perceptível – comentou Rony sarcasticamente. Harry riu.
Hermione, porém, permaneceu com sua expressão séria, que deixou Carla
levemente preocupada.
- O que aconteceu? – Carla perguntou apreensiva.
- Você tem notado que algo está errado hoje? – perguntou Hermione
misteriosamente, e sua voz lembrou um pouco a voz etérea de Sibila Trelawney.
- Errado? – repetiu Carla, curvando-se um pouco sob o pretexto de pegar
mais um pouco de esterco de dragão.
- É, errado – assentiu Hermione, baixando o tom de voz. – Os
professores parecem preocupados com alguma coisa, você não percebeu?
Harry e Rony cochichavam também, mas em tom bem mais alto que as duas, e
o assunto parecia ser Quadribol.
- Não percebi nada – disse, depois de uns segundos em silêncio. Era
verdade que os professores estavam um pouco irrequietos na hora do café, era
verdade que Severo tinha sumido misteriosamente, mas Remo e Sirius pareciam
despreocupados... Mas eles não tiveram oportunidade de conversar com os outros
professores... lembrou uma vozinha dentro de sua cabeça. É, mas eles
certamente me contariam se tivesse acontecido alguma coisa, lembrou a si mesma,
tentando ignorar aquela voz – sua própria voz -, fazendo acusações sem
fundamento.
- Lupin não te falou nada? – insistia Hermione, aparentemente não
convicta com as respostas de Carla.
- Não, o que ele deveria me falar? – agora ela tinha quase certeza de
que Hermione sabia de alguma coisa que ela não sabia.
- Bem, se ele não te falou nada, não serei eu a falar – finalizou a
garota, concentrando-se agora em sua planta.
Carla ainda ficou remoendo as escassas informações que recebera,
tentando chegar a alguma conclusão, mas sem muito sucesso.
Assim que a aula de Trato das Criaturas Mágicas acabou, Carla seguiu o
mais rápido que suas pernas conseguiam suportar para o salão principal,
determinada a ter uma conversa com o padrinho e Sirius. Deu uma olhada esperançosa
para o lado esquerdo do salão, à procura de Severo, mas não o viu.
Remo e Sirius já estavam lá, e conversavam em voz baixa, no que parecia
ser uma conversa ultra-confidencial.
- Vocês dois, precisamos conversar! – disse ofegante, tentando
recuperar o ar.
- O que aconteceu, Carla? – perguntou Remo preocupado.
- Eu é que pergunto o que aconteceu! Todos os professores preocupados, ele
desaparecido, Hermione me fazendo perguntas muito suspeitas! Eu gostaria de
saber o que está acontecendo! – disse impaciente, começando a ficar irritada
com todo aquele mistério.
“O sonho, o sonho é a resposta de tudo...” martelava a voz em sua
cabeça, mas Carla não tinha tempo para ouvir pensamentos idiotas que não
paravam de lhe ocorrer, queria saber o que os dois tinham para lhe contar.
- Então Hermione percebeu, é? – perguntou Remo astutamente –
Obviamente quis descobrir maiores informações com você, estou certo?
- Remo, todos sabemos que você está sempre certo, não precisa nos
lembrar disso a todo momento – desdenhou Sirius, arranhando um garfo no prato
à sua frente.
- Sirius está certo, nós sabemos que você está certo – concordou
Carla, tentando entrar em um clima mais descontraído.
- O que importa é que provavelmente ela irá contar a Harry e Rony e
eles irão pegar informações com você, Sirius – Remo disse em voz baixa.
– Você não pode contar tudo a eles, entendeu? – seu tom agora era de
aviso.
- Eu sei minhas responsabilidades, não se preocupe – retrucou Sirius
de repente mal-humorado.
- Querem me dizer o que está acontecendo, ou seria muito difícil
explicarem isto para uma adolescente de 16 anos? – Carla já estava
irrequieta, estressada com o clima de mistério.
- O problema é que não sabemos muita coisa, Sirius – Remo disse
pensativo, não ouvindo a última pergunta de Carla.
- Remo, cedo ou tarde teremos de contar a ela, não temos escolha –
Sirius disse sério, olhando profundamente para o amigo.
Mas não puderam continuar o assunto. Dumbledore apareceu no meio deles,
dizendo para Carla voltar à mesa de sua casa, que o almoço já começara. A
muito contragosto, ela sentou-se perto dos Weasley, Harry e Hermione, e acabou
ouvindo um pouco da conversa deles.
- Não tivemos aula de Poções hoje – comentou Gina para os demais.
- Por que não? – perguntaram Rony e Harry juntos; o primeiro parecia
decepcionado que a sorte não tivesse acontecido na aula deles, e o segundo
querendo saber mais sobre esse fato suspeito.
- Parece que Snape está doente, ou algo assim – explicou a ruiva,
dando de ombros. – Tivemos uma aula com Sirius, foi muito engraçada!
- O que aconteceu? – perguntou Harry curioso.
- Bem, ele disse que ficar mexendo em um caldeirão o dia todo era algo
inútil e cansativo, então nos ensinou a colocar bombas de bosta nos caldeirões,
fizemos um estouro legal! – comentou divertida, rindo só de relembrar a cena.
- Bem típico de Sirius – disse Hermione séria, anotando alguma coisa
em um pergaminho, que já se estendia por alguns centímetros.
- Uma espécie de vingança para o Snape – deduziu Rony esperançoso.
– Gostaria de ver a cara do seboso quando visse a masmorra cheia de bomba de
bosta!
- Oh, não falem isso! – choramingou Carla, sua voz muito sentida.
- Por quê? – perguntou Harry desconfiado – Está com pena do Snape?
- Não – ela apressou-se a responder. – Só não acho justo ficarem
discutindo os problemas do passado, e de pessoas que nem são vocês, pessoas
desconhecidas!
- Isso só se enquadra no Snape – comentou Rony desdenhoso.
- Não consigo ouvir mais uma conversa dessas! – disse afetada,
levantando-se abruptamente do banco, e quase derrubando Neville.
- O que ela tem? – perguntou Gina confusa.
- Dor de cotovelo – respondeu Harry dando de ombros.
Foi um tormento para Carla assistir às aulas daquela tarde. Seus
pensamentos não paravam de vagar para algum lugar da Grã-Bretanha, à procura
de Severo. Na aula de Transfiguração, não conseguia se concentrar de modo
algum, e a professora McGonagall teve de expulsá-la da sala, para não
atrapalhar os outros alunos, depois de derrubar o segundo candelabro da sala.
Como era a última aula do dia, refugiou-se na biblioteca até a hora do
jantar, à procura de algum livro que a fizesse voltar a concentrar-se. Não
conseguiu muito sucesso, e quando deu por si, estava empurrando os livros com
tanta força que eles quase caíram, e Madame Pince não viu outra alternativa a
não ser mandá-la para fora.
- Que ótimo, expulsa de todos os lugares possíveis... – comentou para
si mesma, completamente desolada.
Já estava escuro, e as velas iluminavam os corredores vagamente, dando
um ar sombrio. Provavelmente estariam todos jantando, pensou Carla. Mas não
estava com a mínima vontade de comer, seu estômago parecia revirar só à menção
de comer alguma coisa. Estava muito preocupada com Severo, e deixou-se levar
pelos seus pés, absorta no problema.
Quando deu por si, viu que se encontrava em um corredor quase escuro, com
apenas uma ou outra vela acesa a intervalos longos. Já estava cogitando como
iria embora dali, quando viu um vulto se mexer em um canto escuro. Sua primeira
reação foi pegar sua varinha, torcendo incontrolavelmente para a gripe ter
passado. Sussurrou um fraco Lumus, e a luz iluminou o vulto – uma
pessoa visivelmente debilitada.
Em questão de segundos todo o medo esvaiu-se do corpo de Carla. Caminhou
firmemente até o vulto, que parecia não ter percebido o excesso de luz e a
presença da garota. Ela aproximou-se até ficar apenas meio metro da pessoa, e
percebeu que ela se apoiava na parede, determinada a chegar em seu objetivo.
Um vento soprou ao longe. Mais velas foram apagadas, e a única luz era a
da varinha de Carla. Por um instante fugaz viu o rosto da pessoa, e o grito
ficou preso em sua garganta. Ao invés disso, disse em um sussurro, sua voz
falha.
- Severo!
Ele a olhou, somente agora percebendo a presença da garota. Ela pôde
perceber que ele parecia esgotado, e parecia sofrer muito com aquele esforço.
Instintivamente aproximou-se para ajudá-lo a se apoiar, mas ele recusou
veementemente.
- O que houve, Severo? O que está acontecendo?
- Saia daqui, saia daqui – disse fracamente, sua voz cheia de rancor.
- Não saio até me dizer o que está acontecendo! – disse determinada,
fazendo uma nova tentativa de ajudar Severo.
- Já disse para sair! – ele bufou, mas sua voz não saiu mais alta que
o normal.
Carla notou que ele suava febrilmente; tentou medir sua temperatura, mas
ele empurrou a mão dela, com um grande esforço. Ela irritou-se. Se não
conseguisse uma resposta por bem, conseguiria por mal. Lágrimas involuntárias
brotaram de seus olhos, mas ela não as enxugou.
- Me diga Severo, o que está acontecendo? – sua voz saiu quase em uma
súplica, o desespero voltando a se apossar dela.
- Não se meta na minha vida! – disse Severo letalmente, seus dentes
trincando de raiva.
Carla deu um tapa no rosto de Severo. Ele cambaleou, suas pernas cedendo
com o choque. O rosto dela já estava manchado em lágrimas, e agora respirava
em arquejos, levemente descontrolada.
- Nunca pedi que me contasse seus segredos ou compartilhasse sua vida
comigo, só estou querendo saber o que aconteceu com você!
Ele ficou calado por alguns segundos, voltando a se levantar. Quando
disse, sua voz quase não saiu, tão fraco ele estava.
- Você não entenderia... Não faça mais perguntas, por favor...
Sua voz foi diminuindo conforme dizia, e ao final da frase, já não se
ouvia mais o que dizia. Com um rápido manejo de sua varinha, ele sumiu,
deixando apenas um som de estalido no momento em que aparatara.
Deixou Carla ali, no meio de um corredor escuro, lágrimas em seu rosto, e uma sensação de que estava confirmada uma das suas piores suspeitas.