A Poção

Capítulo 14
NEM SEMPRE UM MAR DE ROSAS

         Carla permaneceu com os olhos fechados, com medo de encará-lo, e ver o que seus olhos poderiam transmitir. Sentia-se apreensiva, e era impossível manter seu coração em um batimento linear, ficando cada vez mais descompassado. Sentiu Severo abrir a boca para dizer alguma coisa, mas era óbvio que estava receoso.

         - Seu... seu coração... – começou Severo, com a voz levemente falha – Está descompassado... bate muito rápido.

         - É exatamente isso que acontece toda vez que estou perto de você – disse Carla, tremendo levemente, aliviada por ele ter sentido seu coração.

         - Acontece o mesmo comigo – revelou Severo, pegando a outra mão da garota, e fazendo o mesmo que fizera; colocou a mão sobre seu peito.

         - Não podemos arrumar isso? – perguntou, abrindo os olhos, e olhando-o, esperançosa.

         - Como sugere isso?

         - Poderíamos ajeitar nossa relação, e então nossos corações não ficariam deste jeito, bateriam forte, mas com alegria – explicou calmamente.

         - Nunca ficamos muito tempo em pazes – observou Severo, lentamente.

         - Nossas personalidades se chocam – completou Carla, ternamente.

         - Poderíamos tentar...

         - Será difícil...

         - Mas nosso amor pode superar os obstáculos – terminou Severo, com um meio sorriso.

         - Amor? – perguntou, espantada – Você... você me ama?

         - Naturalmente – respondeu suavemente. – Foi o único motivo por eu ter te salvo.

         - Eu também... – começou, com os olhos lacrimejantes – Eu também te amo, Severo, amo muito, mas muito mesmo.

         E então Severo estendeu os braços, fazendo com que Carla o abraçasse, com força. Não conseguia conter as lágrimas que corriam por seu rosto, era a primeira vez que um sentimento que ela sentia era retribuído na mesma intensidade. Ficaram abraçados por um longo tempo, e quando se separaram, Severo sorria, coisa que ninguém nunca vira acontecer antes.

         Mas seu sorriso desapareceu ao ver as lágrimas no rosto de Carla.

         - Por que choras? – perguntou preocupado, limpando algumas lágrimas com seu dedo indicador.

         - É choro de felicidade – tranqüilizou a garota, dando um sorriso. – Nunca amei ninguém antes, e quando o faço, tenho o sentimento retribuído. É muito bom para ser verdade!

         - Mas é verdade, não se esqueça disso – disse Severo, convicto.

         E como se tivessem combinado, juntaram seus lábios, no que selara o que ambos sentiam naquele momento: um amor que ultrapassaria todos os obstáculos.

         Assim que pararam o beijo, Severo tirou alguma coisa de seus bolsos, que atiçou a curiosidade de Carla. Quando viu o anel que dera a ele, ficou surpresa, temendo que ele fosse devolver o presente. Ele viu a preocupação da garota, e deu um selinho nela.

         - Não é nada do que está pensando – tranqüilizou, sorrindo. – Estava guardando o anel para ser você a pessoa a colocá-lo novamente em meu dedo.

         Carla suspirou, aliviada. Pegou o anel da mão de Severo e colocou em seu dedo, sorrindo. Beijaram-se mais uma vez, antes de decidirem voltar ao castelo.

         - Acho que você deve estar com fome. O jantar já acabou e acho que...

         - Não sei o que pretende, mas essa idéia não me cheira bem – interrompeu Carla, olhando-o desconfiada.

         - Só ia sugerir de jantarmos em meu quarto! – disse Severo, sorridente.

         - De um modo ou de outro, continuo achando que tem alguma segunda intenção nisso, Sr. Severo.

         - Não me faça uma acusação dessas! – disse, fingindo-se ofendido – Iríamos só conversar, enquanto comíamos o jantar.

         - Severo, irei confiar em você, espero que esteja falando a verdade – finalizou Carla, dando um abraço no professor, e juntos, caminhando até a masmorra.

 

         Quando já estavam acomodados em uma grande poltrona de veludo, em frente à lareira, deliciando-se com o jantar, começaram a conversar sobre os mais diversos assuntos, do modo mais agradável possível.

         - Carla, quando essa gripe será curada? – perguntou Severo, preocupado.

         - Não sei, Severo. Estava programado para semana que vem, mas a data nunca é exata – respondeu, acomodando-se nos braços de Severo.

         Ele ficou fazendo cafuné no cabelo dela, deixando-a sonolenta. Ela bem que tentou resistir, mas seus olhos começaram a ficar pesados, e acabou adormecendo nos braços de Severo.

         Ele a segurou nos braços, e levou-a até sua cama, onde nunca mulher nenhuma pisara o pé. Achou gozado aquela menina-mulher ser a primeira a adentrar em seu refúgio, seu esconderijo mais secreto. Deitou-a com cuidado, e a cobriu com seus lençóis, todos em cor escura. Deu um beijo em sua testa, e deixou-a dormir em paz.

         Passou a noite em claro, zelando pelo sono da garota.

 

         O clima naquela sala estava tenso. Andando de um lado para outro, estava Remo Lupin, que parecia uma pilha de tanto nervoso. Sentado em uma poltrona, pensando em alguma solução, estava Sirius Black, que começava a ficar irritado com o amigo.

         - Remo, se ficar andando de um lado para outro, não irá ajudar em nada, somente furar o chão! – comentou Sirius, irritado.

         - Sirius, você ainda não entendeu a gravidade do problema – disse Remo, parando de andar para encarar o amigo -, é minha afilhada, que não dormiu na enfermaria, muito menos em seus dormitórios na grifinória! Ela pode estar em qualquer lugar, e pior, junto com Snape...

         - O seboso? – perguntou Sirius, levantando uma sobrancelha – O que o Snape tem a ver com isso tudo?

         - Er... nada Sirius, nada – disse Remo rapidamente, e voltando a andar de um lado para o outro.

         - Nada disso, Sr. Aluado – disse convictamente, levantando-se. – Se mencionou o nome daquele seboso, alguma coisa tem!

         - Não é nada Almofadinhas – de seus pés começavam a subir fumaças de poeira do chão, de tanto que andava. – E de mais a mais, primeiro vou falar com ela, para depois ver o que vou fazer.

         - Se você realmente quer saber, vou à enfermaria e à sala de Alvo, alguém deve estar sabendo de alguma coisa – decidiu Sirius, caminhando até a porta, querendo livrar-se da inquietude do amigo.

 

         Carla despertou, achando muito confortável o lugar em que estava. Manteve-se de olhos fechados, aconchegando-se melhor na espaçosa cama. Ao seu lado, Severo pareceu despertar de um cochilo, e cobriu a parte que acabara de se descobrir. Deu um breve sorriso ao vê-la lutar contra a vontade de descobrir onde estava, ao mesmo tempo que ainda queria dormir. Com sua varinha, fez um farto café da manhã aparecer, e começou a cutucá-la, calmamente.

         - Ahn não Remo, me deixe dormir, hoje não tenho aula da gata chata, posso me atrasar – resmungava ela, remexendo-se na cama.

         - Vamos querida, acorde. Você tem aula hoje.

         Severo disse em tom de riso, quase se divertindo com o que ela falava. Assim que ouviu uma voz diferente da de seu padrinho, levantou-se assustada, olhando à sua volta.

         - Severo! – exclamou, assim que se localizou – O que faço em sua cama?

         - Acalme-se. Não aconteceu nada – ele a tranqüilizou. – Você dormiu em meu colo, e só fiz de te colocar para dormir. Só isso.

         - E você não dormiu?

         - É o óbvio. Fiquei zelando pelo seu sono.

         - Não devia ter feito isso! – disse em tom de desaprovação – E como dará aulas, com essas olheiras? – ela já estava no pé da cama, apontando para as olheiras abaixo dos olhos de Severo.

         - Isso não é nada. Já passei muito mais noites sem dormir – disse tirando as mãos dela de seu rosto, e beijando-as. – Mas não vamos discutir isso, aqui tem um café básico, não quero que passe fome nas aulas e me culpe depois.

         - Qual é minha primeira aula? – perguntou desligada, achando que ele saberia o horário dela.

         - Aula dupla de Poções, Srta. Wetts. Espero que não se atrase, a não ser que queira perder mais pontos para Grifinória, tornando impossível que ela se recupere – Severo disse em falso tom letal e perigoso, o que a fez rir.

         - Não se preocupe, professor Snape, serei uma aluna comportada – respondeu sorridente, o beijando em seguida.

         Depois de alguns beijos, ambos comeram o café, vez ou outra fazendo alguma brincadeira com a comida.

         Acabaram em cima da hora. Em dois minutos as aulas começariam, e Severo já deveria estar na sala. Deram um último beijo apressado, para depois Carla sair correndo até seu dormitório para pegar seu material.

 

         Os alunos já esperavam pelo professor, já acomodados em suas mesas. Harry, Rony e Hermione especulavam o motivo de Snape ter se atrasado, já que ele nunca o fizera antes. Ele logo chegou, parecendo levemente ofegante.

         - Abram seus livros na página 230 – ordenou, sentando-se em sua mesa.

         Vários resmungos foram ouvidos, e muitos alunos demoraram para abrir o livro, ou até mesmo para tirá-lo de sua mochila. Somente quando todos abriram seus livros, foi que Carla chegou na sala, respirando rapidamente.

         - Srta. Wetts, está atrasada – analisou Snape, em voz séria.

         - Me desculpe professor, mas não lembrava a senha de meu salão comunal – disse Carla, recuperando o fôlego.

         - Que isso não se repita.

         Harry e Rony entreolharam-se, desconfiados. Se fosse com qualquer um deles, com certeza o professor descontaria vários pontos, mas intimamente ficaram agradecidos por não terem suas chances de vitória mais diminutas.

         A aula corria bem, com Snape explicando a poção e mandando os alunos a prepararem corretamente. Mas no meio do segundo tempo, uma visita causou um certo rebuliço entre os alunos.

         - Com licença, Severo. Poderia falar com Carla Wetts?

         - Lupin, ela está no meio da aula, espere que ela acabe – respondeu Severo rispidamente, observando o colega com um mau pressentimento.

         - É importante – ele parecia sério, e sua voz não era mais calma como sempre.

         - Vá, então – disse Severo, fazendo um gesto para Carla se levantar.

         Ela levantou-se, analisando a situação. Caminhou até a porta, sem olhar para trás, mas também não olhando nos olhos do padrinho. Não sabia o que ele queria, mas com certeza levaria uma bronca.

         Assim que ela passou pela porta, Remo a fechou, e passou a caminhar pelos corredores, com Carla em seus calcanhares. Caminharam até a sala de Remo sem trocarem uma palavra, e somente quando ele fechou a porta, para dar mais privacidade, foi que ela perguntou.

         - Remo, por que me chamou no meio da aula? Aconteceu alguma coisa?

         - Aconteceram muitas coisas, na verdade – disse sério, seus olhos revelando uma bronca à caminho.

         Carla somente esperou. Não sabia o que realmente deixara seu padrinho assim, mas desconfiava de várias coisas. Ambos ficaram em silêncio por algum tempo, até que ele falou, sem rodeio nenhum, e ainda sério.

         - Quando começou a se relacionar com ele?

         Ela ficou boquiaberta. “Como Remo descobriu sobre Severo e eu? Será que alguém contou? Ah não, ninguém faria isso, mas e se...” pensava desesperada. Tentou manter sua voz o mais normal possível, em tom de fingida surpresa.

         - Do que está falando?

         - Não se faça de boba, Carla. Sei muito bem que está de caso com Severo Snape.

         - C-c-como? – perguntou com a voz falha. Ele realmente descobrira, pensava. Estava em uma grande encrenca.

         - Descobrindo. E além do mais, vocês estavam dando muito na cara, principalmente ele. Agora, pode dizer.

         - Re-remo, você tem que entender uma coisa – disse com urgência na voz.

         Ele não respondeu. Continuava a olhá-la sério, esperando explicação.

         - Na realidade não sei ao certo quando começou – mentiu. Era terrível ter que mentir para seu padrinho, quem ela amava tanto, mas não conseguia pensar em melhor solução. – Mas desde aquele dia em Hogsmeade algo entre nós estava estranho.

         - Por isso estava com a capa dele? – perguntou, perspicaz.

         - É, mais ou menos isso – concordou, balançando a cabeça. – Mas ficamos um tempo sem nos entender, nem pra mais nem pra menos. Acho que por ciúmes, ele inventou aquela detenção para mim e Draco.

         - Então ele fez de propósito?

         - É. Depois da detenção, ele tentou me beijar, e as coisas pioraram. Só fomos nos ajeitar no dia do baile. Mas só parcialmente. Estava indo tudo bem até que aquela fecha me atacou... Aí ele quis me salvar a qualquer custo, pois disse que me amava – seu coração se espremia de tanto remorso. Sentia muita culpa por ter ocultado tudo tanto tempo. – Quando fiquei boa, e descobri o que ele fez, quis ajuda-lo, pois ele não pode ficar sem dar aulas. E por isso fiquei com a gripe.

         - E agora?

         - Bem, acabamos tendo de conversar após uma prova surpresa, que fora armada para essa situação acontecer. No fim fizemos as pazes. E é só.

         - Onde passou a noite?

         - Com ele – respondeu, o que fez Remo levantar-se da poltrona. – Mas não aconteceu nada! – ela apressou a completar – Fomos jantar na masmorra dele, e acabei dormindo. Ele me colocou em sua cama e...

         - Já entendi – disse impaciente. – Então os dois estão namorando, não é?

         Carla empacou na resposta. Realmente, Severo não falara nada em namoro, nem ao menos sabia se continuariam do jeito que estavam. Com a demora para responder, Remo pôde concluir o que pensava: ele ainda estava com medo de começar um relacionamento sério.

         - Vou falar com ele, para se decidir do que quer fazer – disse, impassível.

         - Remo, por favor, não faça isso! – pediu a afilhada, com urgência na voz – Deixe que eu resolvo tudo!

         Ele não disse nada. Levantou-se, e caminhou até a porta, virando as costas para Carla. Ela estava nervosa, não sabia o que o padrinho estava pensando, e isso a deixava mais aflita, fora que ele descobrira tudo antes de ela resolver contar, o que ele não perdoaria tão cedo.

         - Carla, você é minha afilhada, por que não me contou nada? – ele perguntou, virando para olhá-la nos olhos. Ela percebeu que os olhos dele estavam tristes, e tinha olheiras profundas.

         - Remo, por favor, não fique bravo comigo. Só não queria preocupá-lo à toa. Ia contar, juro, mas só quando tivesse uma certeza do que estava acontecendo.

         Ela estava à beira de lágrimas, e isso fez com que qualquer gelo que houvesse entre eles acabasse. Remo abraçou-a, deixando-a chorar livremente. Acariciava sua cabeça, em um gesto de conforto.

         - Já me contou tudo, e fico feliz de não ter mentido. Só espero que Sirius seja mais compreensível, quando descobrir.

         - Ah não Remo, Sirius não pode saber – disse Carla, temerosa. – Se foi um tormento contar para você, que aceitou, imagina para Sirius, que nunca irá aceitar coisa dessas?!

         - Não concordo com essa relação, que isso fique bem claro – disse Remo, em tom sério. – Acho que Severo não a merece, mas se os dois se amam, não vou me opor. Espero que saiba o que está fazendo, pois não quero vê-la sofrer.

         - Mas o que vai fazer agora?

         - Falarei com ele. Quero saber realmente o que ele pretende fazer. Mas não se preocupe, manterei o nível civilizado – isso não adiantou para diminuir a cara de desconfiada que ela fazia, mas Remo não se importou. – Depois disso, resolveremos o que contar a Sirius, se ele não descobrir antes.

         - Remo, espero que não faça nada de errado.

         - Não farei, não se preocupe – disse sinceramente.

         - Bem, então voltarei para a aula – terminou Carla, caminhando até a porta.

         - Não perde um minuto sequer sem vê-lo, não é? – perguntou em tom brincalhão, mas que no fundo dizia o que ele realmente achava.

         - Ah Remo, não é isso – disse sem graça. – É que depois tenho aula com a McGonagall, e ela parece querer me estrangular a cada vez que me vê!

         - Tudo bem, vou fingir que acredito. Agora vá, se não ele te dá uma detenção.

         - Bobo! – disse mostrando a língua, antes de voltar correndo às masmorras.

 

         O final da aula de Poções correu normalmente. Carla não levou nenhum bronca por ter demorado muito, o que ela achou uma sorte. Mesmo com os dois namorando – ou o que se chamar o que eles estavam tendo -, ela não gostaria de ser chamada atenção no meio da aula.

         Assim que o sinal bateu, os alunos saíram rapidamente, e Carla enrolou o máximo que pôde, para ficar a sós com Severo. Quando o último aluno saiu, os dois se beijaram longamente, antes de ele perguntar:

         - O que Lupin queria com você? Garanto que não era coisa boa.

         - Tem razão Severo – concordou, infeliz. – Ele descobriu tudo sobre nós, só não sei como.

         - Descobriu tudo? – perguntou preocupado – Isso realmente é um problema. E o que disse?

         - Não concorda, mas também não discorda. Disse que vai conversar com você.

         - Comigo? – as sobrancelhas do professor se ergueram, em desconfiança.

         - Disse ele que manterá o nível civilizado, mas tenho minhas desconfianças...

         - Não se preocupe, não irei comprometer nenhum de nós – disse a abraçando.

         - Sevvie, pare, não aqui. Podem nos ver – disse Carla, o soltando.

         - Sevvie?! – repetiu, olhando aturdido para a garota.

         - Aaahh, inventei esse nome, achei bonitinho para te chamar – respondeu, corando até a raiz do cabelo.

         - Não estou reclamando. Só achei diferente – disse sorrindo, beijando-a. – E eu vou te chamar de...

         Mas ele não terminou. Vários alunos da Corvinal do primeiro ano entraram na sala fazendo barulho, o que fez Carla corar, e Severo ficar irritado com a interrupção. Ela deu um ‘até logo’ com a cabeça, antes de pegar seu material e sair cabisbaixa, com passos lentos. Ainda conseguiu ouvi-lo ralhar com os alunos.

         - Não entrem fazendo barulho na minha sala! Menos vinte pontos de Corvinal!

         Carla deu um pequeno sorrisinho, enquanto corria até a sala de McGonagall. Pensava que ele nunca iria mudar perante os alunos, mas perante a ela, ele já mudara, e para muito melhor.

         Teve que afastar seus pensamentos rapidamente, pois levava mais uma bronca da professora, que por pouco não descontara pontos de sua própria casa. Carla ficou calada o resto da aula, tentando acompanhar a dificuldade da matéria.

 

         Fora a aula conturbada de Transfiguração, o restante das aulas correram normalmente, e ela conseguia acompanhar melhor o que era dado, talvez por não ter um sentimento tão estranho com o professor. Quando a última aula acabou, ela guardou seu material com pressa no dormitório, e seguiu para as masmorras, para tentar chegar antes de Remo e Severo conversarem.

         Ainda teve que esperar uma turma lenta de alunos da Lufa-Lufa, para só depois entrar na sala. Queria correr e abraçar e beijar Severo, mas conteve-se, ao ver Remo já na sala.

         - Er... Já aqui? – perguntou Carla, sem-graça.

         - Sim, e gostaria de conversar com ele a sós – disse Remo, tentando parecer à vontade.

         - Certo. Vou esperar com Sirius – disse desanimada, saindo da masmorra.

         - O que realmente quer comigo, Lupin? – perguntou Severo sério.

         - Acho que minha afilhada já falou, Snape, que estou a par de tudo o que aconteceu com vocês. Superficialmente, claro, mas já é alguma coisa – disse Remo, no mesmo tom de Severo.

         - Isso eu já sei.

         - Ela também me disse, ou melhor, não disse, se vocês estão namorando. Quero saber o que realmente pretende com ela.

         - Olha aqui, Lupin – disse Severo, levantando-se de sua cadeira, sentindo-se ofendido -, já sou bem grandinho para saber o que eu quero fazer da vida. Não sou um adolescente bobo que gosta de se aproveitar das garotas. Acho que pensa da mesma forma que eu.

         - Somente na parte que você não é adolescente, mas sim. Só que ainda não ouvi o que você realmente quer.

         - Se quisesse brincar com ela, garanto que já teria a largado faz tempo. A começar, não teria feito o que fiz para aquela fecha se dissolver, muito menos continuado a enganá-la. Posso ser rotulado de insensível, mas não sou tanto assim.

         - Estou preocupado com ela, e você tem que entender que só quero o melhor para ela. E se eu souber que a fez sofrer, garanto que não irei responder por mim. Também não quero que apresse as coisas com ela.

         - Está me chamando de maníaco sexual? – perguntou Severo, em uma voz mais alta do que o normal.

         - Só estou dizendo que é adulto, e isso é normal com os adultos – contrapôs Remo, impaciente. – E ela ainda é adolescente, e menor de idade, não se esqueça.

         - Se veio me encher de insultos, pode se retirar, pois sei muito bem quais são minhas responsabilidades em uma situação dessas.

         - Espero que saiba mesmo – reforçou, ainda não totalmente satisfeito.

 

         Em outra sala, Sirius observava Carla andar para lá e para cá, formando buracos no chão, tamanha ansiedade.

         - Posso saber o motivo de tanta inquietude? – perguntou Sirius, relembrando-se da mesma situação, no começo do dia.

         - Sirius, Sirius, se eu te contasse, você não acreditaria – respondeu Carla pensativa, sem parar de andar.

         - E por que não experimenta? – desafiou o homem, parando-a com as mãos.

         - Não Sirius, é melhor não – finalizou a garota.

         Sirius não se deu por vencido. Em um estalo, transformou-se no enorme cão negro, e começou a cheirar a garota, que olhou-o surpresa.

         - Sirius! Que falta de educação! Pare de me cheirar! – reclamou, tentando se afastar.

         - Eu sabia! – revelou confiante, após voltar à forma humana – Você está com o cheiro do seboso, e aposto que Remo foi falar com ele!

         - Si-si-sirius? Como diz uma coisa dessas? – perguntou assustada, com os olhos arregalados.

         - Você realmente acha que sou tapado, pequenina? – disse Sirius, franzindo a testa – Posso ser o último a saber das coisas, mas tenho faro canino, reconheço o cheiro daquele seboso, e Remo estava uma pilha hoje, com certeza foi falar com ele. E tenho fortes motivos para desconfiar que você e ele têm alguma coisa.

         - Sirius, que suposições sem fundamento! – exclamou Carla, tentando fazer seu corpo parar de tremer, e forçando uma risada.

         - Olha aqui, pequenina – Sirius disse, sério, e olhando-a nos olhos. – Não me faça de idiota, ambos sabemos que não sou. Melhor contar tudo do que eu descobrir por outra pessoa. Isso acabaria com minha confiança em você.

         Carla engoliu em seco, olhando fundo nos olhos escuros do amigo. Só de olhar para Sirius sabia que ele depositava uma confiança muito grande na garota, e realmente aquele momento decidiria em que pé ficaria a amizade dos dois.

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