A Poção
Capítulo 13
DESENTENDIMENTOS
Tinham se passado quase dez minutos desde o começo da prova, e Carla
continuava na primeira questão, tentando lembrar como se fazia uma poção
anti-rugas. Depois de forçar sua mente mais uma vez, desistiu, começando a ler
as outras questões, para ver se tinha mais sorte. Cada questão parecia mais
difícil do que a outra, mas também tinham algumas fáceis, que ela se
lembrava. As que chamaram mais sua atenção foram as seguintes:
4- Quais são os ingredientes mais importantes em uma poção
de esquecimento?
12- Quais podem ser as conseqüências se uma poção
redutora der errado?
21- Quais cuidados deve-se ter ao fazer uma poção do
Morto-Vivo?
E a última, que a garota achara a pior de todas:
30- Descreva, em detalhes, como é preparada uma poção da
impermeabilidade.
Com esta pergunta Carla se desesperou. Não fazia idéia de que poção
deveria ser aquela, muito menos como fazê-la. Lançou um olhar para o
professor, pensando que ele deveria ter feito aquilo de propósito, justamente
por ela ter faltado em tantas aulas. Achou que não seria mal se respondesse o
que estava em sua mente, e molhou a pena no tinteiro, começando a responder
aquela pergunta.
“Professor,
eu sinto muito, mas não cheguei a aprender essa matéria.”
Observou as palavras sumirem no pergaminho, e já estava prestes a responder a outra questão, quando viu novas palavras surgirem, exatamente no local onde as que ela escrevera estavam.
“A culpa não é minha, Srta. Esta matéria foi dada e não será anulada por causa da falta de um dos alunos.”
Reconheceu na hora a letra do professor de Poções, e sentiu-se possessa. Como tinha o despeito de falar assim com ela, principalmente depois do que fez por ela? Mais do que rapidamente, molhou a pena e voltou a escrever, com a mão tremendo levemente.
“Eu
teria comparecido às aulas se não tivesse ajudado um certo professor a se
recuperar.”
A resposta apareceu em seguida, e ela pôde perceber que a letra dele também estava menos trabalhada, como se tivesse pressa de responder.
“Esse argumento não é válido. Não pedi a ninguém para me ajudar.”
Como podia ser tão injusto! Estava salvando a vida dele, e ainda a tratava assim?
“O
senhor é realmente muito ingrato, antes tivesse te deixado morrer.”
Lhe doía escrever aquelas palavras, mas a raiva que sentia do modo como o professor a tratava, a dominava e fazia escrever o que estava entalado na garganta.
“Não iria morrer, sou mais forte do que um simples desmaio. E se estava nesse estado foi para salvar-lhe a vida, nada mais.”
“E agora joga-me na cara o que fez?”
escreveu Carla, cada vez mais brava. “Como
o senhor mesmo disse antes, não fui eu quem pedi para ser salva!”
Olhou para a mesa do professor. Um sorriso irônico perpassou o rosto dele, antes de voltar para o papel, e escrever uma nova frase.
“Não seja tola. Se eu não tivesse te ajudado, provavelmente não estaria mais aqui.”
“E por causa de um
breve desentendimento, irá prejudicar todos os alunos?”
“Só queria provar-lhe que fez algo inútil, e que foi sua culpa prejudicar seus companheiros de classe.”
“Como ousa?!” escreveu,
sua letra tremendo, tamanha raiva que sentia “Não
queira me desafiar, professor, sei muita coisa sobre você que poderia lhe
deixar em maus lençóis!”
A resposta demorou alguns segundos a mais para aparecer, e Carla sentiu-se por um momento, vitoriosa.
“Também sei muito sobre você, senhorita. E já não me intimido mais com ameaça alguma, ainda mais de uma simples aluna, como a senhorita.”
“Mas que mentira deslavada!” – pensou Carla, exasperada. Era claro que ele estava receoso com o que ela poderia contar, já que sabia de grande parte de sua vida.
“Professor,
receio dizer isso, mas o senhor é muito orgulhoso, não pode ao menos ficar
agradecido por eu ter salvo sua vida? E nem venha dizer que conseguiria sozinho,
pois todos sabiam que seu estado era grave.”
Quando
a resposta veio, não era sobre a provocação, mas sim uma proposta.
“Se quiser colocar tudo em pratos limpos, converse comigo civilizadamente, após a aula.”
Carla ficou muito brava. Será que para ele tudo seria um pretexto para
conversarem a sós? Lançou um olhar bravo para Snape, que deu aquele sorriso,
que tanto a deixara fora do sério. Viu-o repousar a pena ao lado do pergaminho,
revelando o fim do assunto.
Agora entendia... Enfeitiçara uma pena e uma prova especialmente para
ela, somente para ter a oportunidade de provocá-la, e aproveitou o momento em
que escrevera uma frase pessoal, que no momento nem pensou que isso poderia
acontecer, mas sim, ele dar um desconto na nota.
Aproximadamente dez minutos do fim da conversa, o professor levantou-se
de sua mesa, avisando que o tempo da prova tinha acabado. Carla não se espantou
com isso. Tinha certeza que ele iria prejudicar os alunos mais ainda, para poder
se vingar, não só dela, mas também dos alunos que não gostava.
Os alunos ficaram apavorados, visto que não tiveram tempo de responder
todas as questões. Nem Hermione Granger, que sempre fora a primeira a acabar,
tinha feito tudo, parando na questão vinte e dois. Snape nem quis saber, começou
a recolher todos os pergaminhos, e também as penas, de todos os alunos.
- A nota será dada na próxima aula – anunciou o professor, com uma
expressão de triunfo no rosto. Em seguida olhou para o relógio. Faltavam vinte
minutos para o final da aula. – Estão dispensados, podem ir.
Os alunos arrumaram seus materiais o mais rápido possível, querendo
logo ficar livres do professor, que parecia pior do que sempre. Assim que saíram
da sala, começaram a reclamar, enquanto iam até seus Salões Comunais. Carla
ficou por último, juntando seus materiais, e tentando controlar a raiva que
estava sentindo.
Quando o último aluno saiu, a porta fechou-se, deixando Severo Snape e
Carla Wetts sozinhos na enorme masmorra. Ele deu um sorriso de vitória, quando
viu a expressão da aluna, ao ver a porta fechar-se.
- Professor, deixe-me sair. Tenho mais o que fazer – disse Carla,
medindo as palavras,
- Ainda vamos deixar tudo resolvido, minha cara – a garota sentiu um
calafrio ao ouvir as duas últimas palavras, que revelavam um imenso sarcasmo.
– Não era o que você queria? – provocou, aproximando-se da garota.
- Não quero resolver nada nessa situação – respondeu Carla
friamente. – Não enquanto o senhor não conseguir enxergar a realidade!
- Não haverá outra oportunidade – sentenciou ele, chegando cada vez
mais perto.
- Só não espere que será resolvido à sua maneira, do jeito bruto –
alertou a garota, tentando se esquivar do professor.
Mas de nada adiantou o aviso. Sem ao menos perceber como, Carla sentiu-se
segura por Severo, que com suas mãos prendera os punhos da garota.
- Solte-me – sibilou a garota, olhando-o nos olhos, e tentando deduzir
o que se passava na mente dele.
- Acho que agora não, senhorita – respondeu divertido, mantendo o
olhar impassível.
- Solte-me agora – repetiu Carla, em tom que avisava perigo se
aproximando.
Severo não respondeu. Ao invés disso, aproximou rapidamente seu rosto
ao dela, beijando-a longamente. Carla se assustou, e por mais que tentasse
resistir, Severo tinha alguma coisa que a prendia, e também sua força era algo
que ela não conseguiria vencer. Ficou em um meio termo, nem respondia com a
mesma intensidade, nem tentava resistir.
Ele a beijava com desejo, como se pedisse perdão por tudo, em apenas um
gesto. Percebeu que ela desistira de lutar, e envolveu-a em um abraço, para
ajudar no beijo. Mas conforme a beijava, começou a sentir um gosto estranho em
meio à sensação gostava que aqueles lábios causavam... Um gosto que lembrava
estranhamente a...
- Sangue?! – perguntou Severo Snape, parando de beijá-la, e procurando
de onde vinha aquele gosto estranho.
Percebeu que o lábio inferior de Carla sangrava, e ela tinha um olhar
assustado, como se quisesse esconder alguma coisa.
- O que significa isso? – perguntou Severo, exigindo uma resposta.
- Como você mesmo disse, Severo, é sangue – respondeu Carla, mesmo
naquela situação, sem perder a chance de usar o sarcasmo contra ele.
- Que é sangue eu sei! – retrucou ele, impaciente – Quero saber de
onde surgiu esse sangue!
Carla não respondeu nada, virando o rosto para o lado, seus olhos
marejando. Severo, então, segurou-a pelo braço com força, exigindo uma
resposta.
- Me explique isso, Carla! – sua voz estava mais forte, em tom ameaçador
– Não fui eu quem fiz isso, não foi? Eu não a machuquei, não é?
- Não Severo, você não fez nada – respondeu, evitando olhá-lo nos
olhos.
- Diga olhando nos meus olhos – pediu, virando o rosto dela. – Fui eu
quem a machuquei?
- Não foi, Severo – disse Carla, lutando contra a vontade de chorar.
– Agora pare de me fazer essa tortura psicológica, e me deixe ir.
- Sua resposta não me convenceu – disse Severo sinceramente.
Carla estava quase perdendo o controle de si mesma, então soltou-se de
Severo e saiu da masmorra, correndo o mais rápido que podia. Ainda ouviu Severo
chamar seu nome, à porta da sala, mas ela não virou, nem diminuiu seu passo.
Correu até a enfermaria, sem conseguir segurar as lágrimas que caíam.
Entrou fazendo estrépito, sem se importar se tinha alguém ali. Teve o
azar de ser vista por Harry Potter, que saía do local no mesmo momento, e ele
se espantou em ver a garota chorando, e com o lábio sangrando. Pensou em
perguntar, mas ela passou rapidamente, indo para o final da enfermaria. Madame
Pomfrey a viu, e foi ver o que aconteceu.
- Carla, o que aconteceu?
- Ah Papoula! Severo, sempre Severo! – exclamou Carla, as lágrimas
correndo livremente pela face.
Ao mesmo tempo que Carla respondeu, uma pessoa, sem querer, ouviu a
resposta, e ficou do lado de fora ouvindo a conversa, interessado.
- O que aconteceu desta vez, querida? – perguntou a enfermeira,
preocupada.
- Severo, Papoula! Como sempre, o vil e injusto do Severo! – disse, em
um misto de tristeza e raiva.
A enfermeira pediu para Carla se sentar, e se acalmar um pouco. Passou um
pano sobre seus lábios, tentando estancar o sangue. Carla deu um suspiro, e
começou a contar, ao mesmo tempo que tentava se recompor.
- Papoula, aquele insensível sabia que estou com gripe de bruxos, e não
posso nem ao menos tocar em nada relativo à magia, e ainda inventa de fazer uma
prova! – começou, a raiva crescendo à medida que falava – Até aí tudo
bem, mas enfeitiçou as penas, para a escrita tornar-se invisível! Já tinha
percebido que algo daria de errado, e quando vejo, ele enfeitiçou também minha
prova, para poder se comunicar comigo!
- Mas por que ele iria fazer isso? – perguntou Papoula, preocupada com
o que viria a seguir.
- Queria ficar a sós comigo, como sempre! – exclamou, voltando a
chorar, agora silenciosamente – Ficou me provocando, dizendo que não pediu
para eu salvá-lo, e ainda me jogando na cara que foi ele quem me salvou!
Madame Pomfrey ficou estupefata, e a pessoa que escutava, também. A
enfermeira pensou em como Severo podia ser perverso, por magoar a garota daquele
jeito. Esperou Carla continuar, para concluir seu pensamento.
- No final da aula, ele nos trancou na sala, e não me deixou sair! Me
segurou pelos punhos, e me beijou, à força! – a pessoa que estava atrás da
porta soltou uma exclamação silenciosa – Era impossível eu me livrar, ele
é muito forte! E só parou quando sentiu o gosto de sangue, e eu já sabia que
algo viria a acontecer comigo. Ficou preocupado, pensando que foi ele quem me
machucou! E foi! Me machucou lá dentro, no meu coração!
- E o que você respondeu?
- Respondi que não foi ele, sendo que queria dizer justamente o contrário!
Em um momento, consegui me livrar dele, e fugi para cá! Ah Papoula, nunca fui tão
machucada antes! – assim que terminou, abraçou-se à enfermeira, precisando
de um ombro amigo.
- Não se preocupe, querida, não se preocupe – confortou Papoula,
dando palmadinhas na cabeça dela. – Severo tem um gênio difícil, mas é uma
boa pessoa, lá no fundo. Agora – completou, limpando as lágrimas da garota
-, você irá enxugar essas lágrimas, eu fareei esse sangue parar de correr, e
você irá arrumar toda essa história, que terá um final feliz.
- Obrigada Papoula, se não fosse você... – murmurou Carla, um pouco
aliviada.
Papoula passou uma pomada nos lábios de Carla, “uma pomada trouxa, não
terá nenhum efeito colateral” – comentou, quando ela perguntou. Depois
ajudou a limpar as últimas lágrimas da garota, e a fez dormir, o que aconteceu
em segundos.
Quando saiu de sua sala, deparou-se com uma pessoa, com uma expressão de
choque, mas que queria entender tudo o que ouvira. Papoula ficou assustada,
pensando se ele tinha ouvido toda a conversa.
Em sua masmorra, Severo Snape refletia sobre o que fizera em sua aula de
Poções, e duvidava se fora a coisa certa a ser feita. Culpava-se por ter feito
o lábio de Carla sangrar, e por mais que repita que a garota disse que não
fora culpa dele, tinha certeza que fora. Só tentava entender por quê.
Não podia ser o beijo, pensava. Sempre a beijou e nunca acontecera nada
parecido. Pulou então para os sentimentos que ela demonstrou no momento. Estava
muito magoada, pôde sentir, mas o sentimento que predominava era a raiva.
“Pensando bem, fui muito grosso e idiota com ela, também sentiria raiva se
fosse comigo”, ele acabou admitindo.
Queria pedir desculpas, mas nunca o fizera na vida, nem com seus piores
erros. “Houve uma vez, sim, mas a única” – disse para si mesmo, mas
tratando de afastar esses pensamentos de sua cabeça. A única vez que se
desculpara, fora para Dumbledore, quando finalmente admitira que agira errado em
se aliar a Lord Voldemort, e o diretor de Hogwarts achou que ele estava falando
sério, e decidiu o perdoar.
Agora teria que lutar contra seu orgulho, e decidir se pediria – ou não
– desculpas. Ficou absorto em pensamentos, sem chegar em nenhuma conclusão.
- Remo Lupin, o que faz aqui? – perguntou Madame Pomfrey,
recuperando-se do susto.
- Vim ver se estava tudo bem com Carla, já que os alunos foram
dispensados mais cedo e ela não foi nos visitar – respondeu Remo sério.
- E acabou por descobrir? – perguntou a enfermeira, com receio.
- Acabei a descobrir, ou melhor, confirmar, algo que eu não queria,
ouvir por terceiros; mas sim que ela me contasse – sua voz demonstrava
desapontamento.
- Tente entender a menina, Remo, ela está sofrendo com isso, e não
queria contar nada a ninguém antes da situação se estabilizar – ponderou
Papoula.
- Me diga o que Snape está fazendo com Carla que irei tirar satisfações
neste minuto – disse Remo, pela primeira vez, ficando muito bravo.
- O relacionamento dos dois é instável, já que ambos têm uma
personalidade forte, e muito difícil, também – considerou, pensando se devia
ou não contar. – Não sei quando começou, mas sei que desde então, ambos têm
se desentendido, e depois voltando às pazes.
- Do mesmo jeito, ela devia ter me contado – disse Remo, convicto. –
E além do mais, já tinha algumas suspeitas desde aquela reunião, em que ele a
defendeu.
- Provavelmente estava receosa, é fato notório que você e Sirius não
se dão com Severo – disse Papoula, tentando ajudar a garota.
- Papoula, há quanto tempo você sabe disso? – perguntou desconfiado.
- Fazem umas duas semanas, eu acho. Mas Alvo pediu que eu não contasse a
ninguém.
- Você pode me contar tudo o que sabe?
- Receio que não, meu velho amigo – lamentou a enfermeira, sentindo um
pouco de pena de Remo. – Acho melhor ficar sabendo de tudo pela boca dela,
acho que é o melhor a ser feito.
- Entendo – concordou, embora ainda com muitas perguntas na cabeça.
– Quando ela deve acordar?
- Não tenho certeza, mas antes do jantar eu acho muito difícil.
- Então diga a ela que precisamos conversar, por favor – pediu, antes
de cumprimentá-la, e se retirar da enfermaria, pensativo.
Assim que Remo Lupin saiu da enfermaria, Madame Pomfrey olhou para a
porta, apreensiva, pensando em como contar para Carla que seu padrinho
descobrira o romance com o professor de Poções. Mas o que ela não sabia, é
que uma outra pessoa escutara a conversa, escondida atrás de uma cortina...
Estava escurecendo rapidamente naquela noite, e os alunos se apressavam
para irem ao Salão Principal, onde seria servido um jantar especial, em
homenagem a um grande homem, que sempre ajudou no combate às Trevas: Alastor
Moody. O mesmo morrera em uma luta contra os seguidores de Voldemort, mas
trouxera grandes informações para o lado do bem. Os alunos estavam um pouco
tristes com a morte de um grande auror, mas fariam uma grande homenagem a ele.
Poucos alunos notaram a falta de uma pessoa do corpo docente, e quem fez
a observação foi Harry Potter.
- Snape não está na mesa dos professores.
- E qual é o problema? – perguntou Rony despreocupado.
- Ele tem estado muito estranho ultimamente – explicou Harry.
- Eu ainda não acredito que não consegui responder a todas as questões
daquele exame! – lamentou Hermione indignada, achando aquilo uma injustiça.
- Não estamos falando da prova, Mione – disse Rony, franzindo a testa.
- E eu não contei uma coisa a vocês, que eu vi hoje – disse Harry,
fazendo ar de mistério.
- Pois conte!
- Quando fui na enfermaria, vi Carla entrar lá dentro correndo, chorando
e com o lábio cortado. O engraçado é que foi exatamente depois da aula do
Snape – disse Harry.
- Você quer dizer que... – começou Hermione, pasma.
- O Snape é um maníaco sexual! – disse Rony em voz alta.
- Cale a boca, Rony – disse Hermione rispidamente.
- Não tenho certeza, mas são várias coincidências, não acham?
Primeiro o baile, em que foram sorteados como par, agora isso... Ao meu ver ela
tem uma queda com os sonserinos – concluiu Harry, pensativo.
- Mas o Snape? – perguntou Rony, descrente – O Malfoy tudo bem, é da
idade dela, mas o Snape? Deve ter no mínimo uns quarenta anos, é mais do que o
triplo da idade dela!
- O amor não tem preconceito, Rony – ponderou Hermione, mas intrigada
com as observações.
- Depois pensamos nisso, Dumbledore vai começar a falar – disse Harry,
fazendo os dois se calarem.
Estava tudo escuro na enfermaria. Tudo estava em seu devido lugar, e
nenhum ruído era ouvido. Carla estava deitada em um reservado, um pouco
sonolenta, mas prestando atenção ao que acontecia à sua volta.
Tentou se mexer, mas estava cansada demais para tanto, e permaneceu como
estava. Sentiu uma leve brisa, mas podia ser a janela, que fora esquecida
aberta. Depois sentiu alguém se aproximar, mas com certeza era Madame Pomfrey,
arrumando um lençol ou colocando alguma poção na mesa-de-cabeceira.
Sentiu a pessoa sentar-se ao seu lado, mas continuou de olhos fechados,
tentando dormir. Somente quando sentiu tocarem sua mão – um toque forte, que
ela já conhecia muito bem – foi que tentou abrir os olhos, mas temerosa, com
o que podia acontecer.
Teve que piscar um pouco até conseguir focalizar a imagem, e ter certeza
da pessoa que estava na sua frente. Viu dois olhos negros a encararem, de modo
frio, mas de um modo que a deixou nervosa, como se algo fosse acontecer. E ouviu
sua voz, mais gélida do que o costume, e com uma frieza que lhe deu um frio no
estômago.
- Temos que conversar – foi tudo o que disse.
- Sobre o que quer conversar? Não há mais nada a ser dito, já
conversamos – respondeu Carla, sentando-se, e sentindo uma pequena dor em seu
lábio inferior.
- Não conversamos direito, e tudo foi dito superficialmente, com as emoções
do momento – respondeu Severo muito sério.
- Já que insiste, conversaremos – Carla deu de ombros, tentando manter
o tom frio em sua voz.
- Mas não aqui, não quero que nos ouça.
- Em outro lugar, então – decidiu a garota, levantando-se, e
caminhando até um cabide, onde colocou um robe preto. Severo a seguiu com o
olhar, sem se mover.
- Não quer ir em outro lugar? Então vamos, não quero demorar tanto –
disse Carla, levemente apreensiva com a demora do professor.
Ele não respondeu. Levantou-se da cama, e caminhou até a porta,
esperando Carla ficar ao seu lado. Quando o fez, voltou a caminhar, com ela ao
seu lado. “Ele está frio e distante... Temo que algo possa acontecer nessa
conversa” – pensou Carla, enquanto o acompanhava.
Andaram por vários corredores, por vezes passando por um mesmo mais de
uma vez, deixando Carla apreensiva. “Para onde quer que esteja indo, trate de
ir logo, e parar de fazer esse suspense!”
Por fim pararam na entrada do castelo, e Severo os levou até o jardim.
Carla não conseguiu refrear o comentário que estava em sua boca.
- Que irônico! Aonde tudo aconteceu é onde você deseja ter a conversa?
- Não fique fazendo sarcasmo – disse rispidamente, sem ao menos olhar
para ela.
Carla ficou chateada. “Como pode ser tão frio? Realmente, quanto mais
fico sabendo sobre ele, menos o entendo” – pensou, enquanto se sentava ao
lado dele.
Ficaram em silêncio, um esperando o outro começar. “Ele quem me
chamou, então ele que comece a conversa!” – pensou Carla, mas ele não começava,
e decidiu ela mesma o chamar, fazendo-o começar o assunto “Mesmo que seja
contra o que eu normalmente faria”.
- Pode começar, estou ouvindo.
Ele não começou imediatamente. Ainda media as palavras a serem ditas,
pois seu coração disparava toda vez que estava perto dela, e era cada vez mais
difícil manter-se frio e imparcial.
- Por que decidiu aceitar a idéia biruta de Alvo? – perguntou ele,
olhando para o lado, e determinando o começo da conversa.
- Para quê quer voltar nisso, Severo? – perguntou Carla, mostrando
cansaço – Você sabe, fiz por que... – ela quase falou ‘porque te amo’,
mas não quis entregar o ouro tão facilmente – queria agradecer pelo que fez
por mim, e para você não ficar sem dar suas aulas.
- E sabe que com isso fez tudo o que eu passei para te salvar, se tornar
inútil?
- Não fale isso... – pediu a garota, deixando a pose de lado –
Nunca, em hipótese alguma, pensei em fazer isso contigo. Queria somente te ver
com saúde, afinal Voldemort quer matar a mim, não a você.
- Isso não justifica – retrucou, sério.
- Quer justificativa melhor? – desafiou Carla, fazendo-o olhá-la de
relance – O fiz pelo mesmo motivo que você decidiu me salvar daquela fecha.
- E por acaso sabe o motivo que me levou a te salvar? – perguntou
acidamente, achando impossível ela descobrir.
- Desconfio – respondeu ela, não querendo discutir novamente.
Ficaram em silêncio novamente; ela pensando em qual outro argumento ele
daria para estar tão frio, e ele pensando em como chegar no que mais
atormentava seus pensamentos.
- Quero que me explique a história do sangue.
- O que você quer que eu explique? – perguntou Carla, determinada a não
dizer nem uma sílaba enquanto ele a tratar com tamanha frieza.
- Quem sabe poderia começar dizendo por que aconteceu – sugeriu, ainda
olhando para o lago.
- Não direi nada enquanto não me olhar nos olhos, Severo – por um
momento pensou ter visto a armadura dele cair, mas devia ter sido só impressão,
já que ele continuava impassível.
- Para quê quer que eu olhe em seus olhos, se você é quem desviará o
olhar? – perguntou ele, esquecendo-se de usar sua voz letal, dando lugar a uma
dúvida, uma verdadeira dúvida, misturada com um pouco de receio.
- Não quero ver você mentir, nem quero mentir também – disse com
sinceridade, enquanto torcia para seus olhos não demonstrarem o que queria
fazer.
Severo permaneceu quieto. Carla, então, decidiu segurar seu queixo com
suavidade, tentando não fazer sua mão tremer, e conseguiu olhar nos olhos
dele. Quase não se conteve, ao ver que seu olhar demonstrava um vazio dentro
dele, e deu um pequeno sorriso, o encorajando.
Lentamente, ela tirou a mão do queixo dele, temendo que ele virasse o
rosto. Foi uma situação embaraçante, ficarem se olhando por alguns segundos,
cada um tentando esconder o que estava sentindo.
- Agora pode explicar – disse Severo lentamente, tentando controlar seu
corpo, que o traía, fazendo-o tremer.
- Na realidade a culpa foi sua – disse Carla, medindo as palavras. Viu
que os olhos de Severo se estreitaram.
- Minha? Mas você disse... – começou Severo, realmente surpreso com a
revelação.
- Eu sei que disse que não foi sua culpa, mas só o fiz para não
piorarem as coisas – explicou, se perguntando de onde arranjara coragem para
contar tudo a ele. – Foi tudo graças àquela prova que você deu, a começar
pelos feitiços. No começo não me liguei, mas você realmente queria fazer
aquilo para me atingir, não era? Se não, não teria arrumado essa, já que
ainda estou gripada.
- Nunca minha intenção foi te ferir – retrucou Severo, entrando em
retaguarda. – E em nenhum momento lembrei dessa gripe, só queria ter uma
chance de conversar.
- O que importa é que você o fez – interferiu Carla, fazendo-o se
calar. – Quando começamos a nos escrever, realmente fiquei com raiva, mas você
provocou!
- Estava bravo com você, era natural que fosse te provocar – retrucou
Severo, sério.
- Já comecei a me sentir mal no meio da conversa, e quando você trancou
a porta... pensei que desmaiaria naquele momento. E quando me beijou, então...
– mas ela parou, sentindo seu rosto corar por estar falando naquele assunto.
Percebeu que ele também ficara sem graça – Bem... já soube que algo viria a
seguir.
- Quer dizer que me culpa de tudo o que aconteceu? – perguntou, quase não
acreditando no despeito com que ela falava da situação.
- Digamos que sim... – respondeu incerta – Severo, o que queria que
eu fizesse? Sabe que sou fraca, e ainda me tortura deste jeito?!
- Este sou eu, não tenho culpa – retrucou friamente.
- Não pode ao menos tentar ser melhor? – perguntou Carla, com um fio
de esperança.
- Sabe que não posso – respondeu Severo, olhando-a, sério. – Ainda
mais agora, que sabe de meu passado.
- Quanto mais sei sobre você, menos entendo – disse Carla em um
suspiro.
- Não é bem assim – disse Severo, mexendo-se no banco.
Carla não respondeu. Com sua mão direita, procurou por uma das mãos de
Severo, e assim que a encontrou, tremendo levemente, fechou os olhos, apoiando-a
em seu peito, bem em cima do coração. Ele foi perguntar alguma coisa, mas ela
o calou, com um gesto da outra mão.
- Lembra-se quando me deu o colar? - começou ela, respirando rapidamente
– Você colocou minha mão sobre seu peito, sobre seu coração. Pude ouvi-lo
bater muito forte, e acreditei que dizia a verdade. Agora eu pergunto, Severo
Snape, o que você sente agora, ouvindo meu coração?
Severo encarou-a, estupefato. Sentiu seu coração disparar, e começou a
suar frio. Pela primeira vez sentira-se como um adolescente, um adolescente
apaixonado e apavorado, dando sua primeira declaração de amor.