A Poção
Capítulo 12
SEMANA CONTURBADA
- Severo, preste atenção no que vou lhe dizer, pois é muito importante
– começou o diretor, fitando Snape serenamente. – Contei à Carla sobre seu
passado...
- Você o quê? – berrou Severo, levantando-se da cadeira.
Dumbledore se espantou. O feitiço que fizera não tinha dado nenhum
efeito prolongado no professor, como era o comum. Fora somente um efeito
imediato, passando rapidamente. Arregalou os olhos e perguntou:
- Por que meu feitiço não lhe fez efeito?
- É uma auto-defesa do meu corpo. Passei a tê-la após um longo tempo
com Voldemort – respondeu sério, tentando controlar o que sentia.
- Auto-defesa? – repetiu o diretor, surpreso – Como conseguiu isso?
- Um dos inúmeros feitiços que Voldemort aplica em seus servos. A reação
depende da pessoa, e algumas ficam mais vulneráveis aos feitiços. Mas é claro
que com a convivência constante acabamos nos acostumando. A mesma coisa
acontece com o Cruciatos – explicou amargurado, sentindo-se mal por contar
sobre seu passado.
- E nunca me contou, Severo? – perguntou Dumbledore, analítico –
Qual foi sua intenção com isso?
- Pretendia me preservar Alvo, se me entende. E também, ninguém nunca
saberá tudo sobre mim, nunca deixaria – disse impassível, olhando o diretor
com firmeza.
- Entendo... – disse vagamente – Mas agora a questão não é essa.
- Por que diabos você contou à Carla sobre mim? Com quê autorização?
– perguntou bravo, com explícita reprovação na voz.
- Entenda Severo... Ela sentia-se mal por ter feito você sofrer, um
sentimento muito digno, se me permite dizer. Ela queria ajudar, e quis fazê-la
ter certeza do que estava fazendo. Tenho que admitir que me arrependo
brevemente, não esperava aquela reação dela...
- O que aconteceu? Ela ficou magoada? Triste? – perguntou preocupado,
esquecendo, por um momento, a raiva que sentia.
- Não... não... – tranqüilizou Dumbledore – Ela não sabia mais da
metade do que contei, embora pensasse que soubesse mais, por causa de Remo e
Sirius...
- Aqueles grifinórios... – resmungou Severo.
- Ela ficou horrorizada, e entendia porquê de tanta amargura da sua
parte. Ficou mais disposta ainda a ajudar, já que soube que você nunca ajudou
ninguém – Severo ia protestar, mas Dumbledore continuou. – Fraquejou com a
conseqüência, mas estava disposta a fazer de tudo para retribuir o que você
fez.
- Ainda lhe reprovo totalmente por ter feito isto com ela – disse
Severo convicto.
- Foi o único meio que encontrei de ajudá-lo, amigo... E de mais em
mais, ela decidiu passar pelo feitiço justamente para não impossibilitá-lo de
dar suas aulas, já que você precisa de seus dons mágicos.
- Não me importo com essas aulas enquanto não vê-la bem – insistiu
Severo, indisposto a dar o braço a torcer.
- Você precisa cumprir com seus deveres... E nem tente reclamar. Está
feito e você nada pode fazer – finalizou Dumbledore, levantando-se. – E
acho melhor preparar sua aula.
Severo ainda bateu o pé antes de sair. Francamente... Não admitia que
Carla sofresse, ainda mais que ele se sacrificara por ela... Caminhou até a
enfermaria, mas não quis entrar. Não daria por derrotado, e ela que teria que
pedir perdão. Em passos lentos, caminhou até sua masmorra.
Carla acordou depois de um longo sono. Odiou a si mesma por ainda estar
naquela enfermaria, sentindo-se fraca e inútil. Olhou nos lados. Já
escurecera, devia ser tarde. Procurou com o olhar Madame Pomfrey, mas ela
demorou a aparecer. Conformou-se em deitar melhor na cama e ficar mexendo no
colar que ganhara de Severo, pensando.
Pensou primeiramente no jeito frio e impassível de tratar as coisas.
Depois, em tudo o que sofrera em sua vida. Sentiu pena. Queria ter dividido a
dor que ele teve. Era fraca, ela sabia, mas não conseguia ver os outros
sofrendo sozinhos. Em seguida pensou no que ele dissera algumas horas atrás.
Ficou com raiva. Achava que ele tinha que se desculpar, afinal ela só queria
ajudar, e deixá-lo com disponibilidade de continuar com suas aulas.
Ficou perdida em pensamentos, e levou um susto quando viu Madame Pomfrey
parada em sua frente.
- Ah! Madame Pomfrey, me assusta assim! – exclamou Carla.
- Desculpe querida – disse carinhosamente. – Consegui pegar um pouco
de comida do salão principal, acho que deve estar com fome – e ofereceu um
prato muito apetitoso, com tudo o que ela mais gostava.
- Como conseguiu? – perguntou enquanto comia uns petiscos.
- Dumbledore me deu permissão para lhe trazer as comidas, já que ficará
alguns dias aqui, ainda. Como você ainda está muito fraca, irei te acompanhar
no jogo que quadribol amanhã – explicou serenamente.
- Eu queria jogar, Madame Pomfrey, queria mesmo! – lamentou Carla
chorosa.
- Pode me chamar de Papoula, querida. E sei como gostaria, mas optou por
salvar seu amado, e isto vale muito mais do que um jogo.
- Sinto-me com o coração partido com o que ele disse.
- Imagino como deve estar, querida, mas você precisa superar –
consolou a enfermeira. – Um dos dois terá que ceder ao orgulho, já que ambos
são as pessoas mais cabeças-duras que já conheci! – disse com um
sorrisinho, o que fez Carla sorrir brevemente – Só tome cuidado, ele é uma
pessoa muito vingativa quando quer.
- Vingativo? Severo? – perguntou Carla custando a acreditar.
- Muito vingativo – concordou Papoula. – Então aconselho acertar as
pazes o mais rápido possível... – e fez uma pausa – Mas coma! Se não a
comida esfria! Vou ver Draco Malfoy, ele chegou aqui completamente marcado e
ferido.
- D... Draco? – perguntou se engasgando – O que aconteceu com ele?
- Não sei, ainda vou examiná-lo direito... Mas por que o interesse?
- Papoula, posso falar com ele? – perguntou em uma súplica.
- Acho que agora não é um bom momento... – disse receosa.
- Por favor! É importante! – implorou Carla.
- Tudo bem... – cedeu Papoula – Venha até aqui, mas seja breve, ele
não pode ficar fazendo esforço.
Ela conduziu Carla até uma cama isolada, envolta por cortinas. Pelas
sombras viu Draco deitado, encolhido e de costas para elas. Papoula deixou Carla
sozinha, e foi tratar de outras coisas. Carla abriu a cortina e se aproximou
cuidadosamente. Ele não percebeu sua presença até ela tocar levemente seus
ombros, fazendo-o se contrair.
- Desculpe... – murmurou trazendo a mão para perto de si.
- O que está fazendo aqui? – perguntou com a voz pesada, virando-se
para olhá-la. Ela pôde perceber que seu olhar era fundo, e que parecia não
dormir há dias.
- Queria conversar... Saber o que aconteceu... O que aconteceu com você
– enfatizou a última palavra, para ele entender bem.
- Estou bem, somente um pouco de mal-estar – mentiu, sem conseguir olhá-la
nos olhos.
- Papoula disse que estava completamente machucado – disse séria. –
Vamos Draco, não minta para mim, sabe que posso ajudar – completou, virando o
rosto dele para conseguirem se olhar nos olhos.
- Você não parece nada bem – observou Draco, olhando-a sério.
- E você também – retrucou continuando a fitá-lo.
- Está bem? – perguntou, demonstrando que estava preocupado.
- Sim, somente uma gripe de bruxos mas tudo bem – disse com
simplicidade.
- E você ainda acha isso tudo bem... – disse em reprovação, balançando
a cabeça com incredulidade.
- Draco, não fuja do assunto. Conte o que aconteceu – disse Carla
voltando a ficar séria.
- Não aconteceu nada, está tudo bem.
- Deixe-me ver – disse am ameaçando tocá-lo, mas ele se esquivou. Com
um movimento brusco, ela conseguiu puxar a blusa que ele usava, e a tirou com
facilidade.
Não conseguiu conter uma exclamação de surpresa com o que viu. Cada
centímetro de seu corpo estava vermelho, e em vários locais haviam feridas,
como alguém que levou uma bela surra. Com os olhos arregalados, revezou seu
olhar entre o rosto e o corpo do garoto.
- Agora... explique... o que... aconteceu... – disse com a voz falha,
ainda passada com o que vira.
- Não posso – disse Draco com a voz embargada.
- Tem razão, você deve contar.
- Carla, não entende que não posso? Nem quero? – perguntou quase em
uma súplica.
- Entendo perfeitamente, Draco. Mas quero saber. Não foi Voldemort que o
fez, não?
- Também – murmurou em tom quase inaudível.
- Quem mais? Draco, me conte! Não me deixe mais aflita! – disse
ficando nervosa.
- Meu pai... Bem... eles não ficaram satisfeitos por eu não... não
ter... não ter conseguido concluir a tarefa que eles propuseram...
- Que tarefa? Draco, está conseguindo, vamos – incentivou, um pouco
mais gentil.
- Eles... eu... me mandaram... atirar... a flech... ah Carla, eles
queriam que eu te matasse! – revelou enfim, caindo nos braços da garota, sem
conseguir que as lágrimas não saíssem de seus olhos.
- C-co-como? – perguntou gaga, abraçando-se a ele.
- A fecha... – foi tudo o que ele conseguiu dizer.
Ficaram um tempo abraçados, até Madame Pomfrey chegar até o reservado.
Com dificuldade, ela conseguiu separar os dois, e fez com que Carla voltasse
para sua cama, mas ela queria a todo custo saber em detalhes o que aconteceu.
Draco prometeu que em breve contaria, mas que tinham que obedecer a enfermeira.
Carla foi para sua cama, e a muito contragosto, dormiu em poucos minutos.
Já era de manhã. Quase todas as áreas verdes de Hogwarts estavam
povoadas de alunos que conversavam, enquanto iam até o campo de Quadribol,
assistir a mais uma emocionante partida: Grifinória x Lufa-Lufa.
Carla caminhava lentamente, sendo seguida de perto por Madame Pomfrey.
Estava agasalhada da cabeça aos pés, e seu nariz estava vermelho. A todo
momento ela fungava o nariz, infeliz. Junto com a enfermeira, sentou-se em uma
das arquibancadas vermelhas, remoendo-se de remorso por não estar voando
naquelas vassouras, ajudando o time...
E o jogo começou. Passados alguns minutos, já era possível ver quem
estava com a vantagem. Embora o time da Grifinória fosse melhor, estavam
perdendo por uma diferença de trinta pontos, tudo por causa do outro batedor do
time, Dênis Creevey, que não conseguia dar jeito nos dois balaços em campo.
- Onde está o outro batedor do time? – berrou Parvati Patil – Dênis
não consegue sozinho!
- Por acaso o outro batedor do time está aqui, incapaz de ao menos
segurar uma vassoura – disse Carla secamente por trás da garota.
- O que quer dizer? – perguntou a outra curiosa.
- Isto já não interessa – retrucou, voltando sua atenção ao jogo.
- Ela está com uma gripe de bruxos, Srta. Patil – respondeu Madame
Pomfrey polidamente.
- Uma o quê? – disse quase em um berro – Isso é contagioso!!!!
- É claro que não é – respondeu Carla secamente. – Essa é
diferente.
Mas não adiantou muito. Parvati queria distância da garota, o que,
pensou ela, poderia ser algo bom.
O jogo continuou. Grifinória tentava a todo custo reverter a situação,
mas estava ficando cada vez mais difícil. O time da Lufa-Lufa aproveitava a
falta de um batedor e jogava balaços, que impediam o time de marcar gols. A
partida já se estendia, e Lufa-Lufa ganhava de 90 a 30. Harry estava
apreensivo, procurando pelo pomo o mais rápido que podia. Foi então que ele
viu.
Mirou sua Firebolt para o céu e impulsionou toda a velocidade que ela
possuía, com um só objetivo: pegar o pomo. O apanhador do outro time nem teve
tempo de localizar o pomo. Ele já estava seguro nas mãos de Harry.
A torcida do leão vibrou. Invadiu o campo para abraçar Harry. Ficou
quase totalmente vazia, a não ser por duas pessoas que estavam nas
arquibancadas, olhando. A mais velha levantou-se, e estendeu uma mão para a
mais nova.
- Carla, vamos logo. Não fará bem para você ficar tomando essa
friagem. É melhor entrarmos – disse suavemente.
- Ao menos Grifinória ganhou – disse Carla desolada, levantando-se e
seguindo Madame Pomfrey.
- Viu? Você é importante, mas eles conseguiram contornar a situação
– consolou Papoula.
- Dênis é um inútil! Não conseguiu contornar a situação! –
exclamou inconformada, enquanto já entravam no saguão de entrada.
Madame Pomfrey somente assentiu, divertida. Levou a garota até a
enfermaria, e foi cuidar de Draco. Carla foi deitar-se, mas ouviu uma voz fraca
a chamando, e mudou de idéia.
- Draco...? O que foi? – perguntou cautelosa, se aproximando do leito
do outro.
- Quero saber quem ganhou o jogo – disse dando um meio sorriso.
Carla aproveitou que Papoula foi buscar uma poção e pôde conversar com
Draco em paz.
- Grifinória, mas o jogo estava apertado.
- Como? Os grifinórios, que sempre se gabavam de serem os melhores no
quadribol perdendo da Lufa-Lufa? – perguntou incrédulo – Eis a decadência
do mundo.
- Mas Grifinória é o melhor time – disse Carla. – E sem mim
no time, eles estavam fracassando, e se não fosse o esp...
- Especial e poderoso Potter para salvar o jogo... – desdenhou
Draco, imitando voz de garota.
- Exatamente! – disse rindo – Como roubou minha fala?
- Na realidade você que roubou minha fala – corrigiu, fazendo-se de
bravo.
Os dois começaram a rir.
Em uma má hora, por sinal, já que uma pessoa se aproximava para
observar silenciosamente o que estavam fazendo. Ficou possesso com o que viu, e
se retirou rapidamente.
- Draco... – começou Carla, voltando a recuperar o fôlego – Quero
que explique melhor o que aconteceu para você estar assim – agora sua voz era
séria, nem parecia que estivera rindo segundos atrás.
- Já expliquei... o que quer mais? – retrucou sério, perdendo a paciência.
Pelo olhar da garota soube que teria que continuar – Certo, certo. Eles
queriam que eu acabasse com você logo, pois você iria atrapalhar, e muito, os
planos do Lord... Meu pai sugeriu que o fizesse o serviço, pois era o único
Comensal a estar dentro do castelo, e ele concordou prontamente...
- Você... é Comensal? – perguntou surpresa, com mais uma nova informação.
- Sou – respondeu brevemente. – Então tive que fazer. Mas é claro
que eu não quis, e ele me obrigou, prometendo que depois me daria uma boa lição.
E aqui estou – terminou o garoto, impaciente. – Satisfeita?
- Em parte – respondeu, medindo as palavras. – Só não me conformo
como aquele.. aquela cobra pode ser tão cruel...
- Agora já está bom! – exclamou uma voz se aproximando – Acho que já
deixei os dois conversarem muito, não deixei? Agora Carla, por favor, deixe-me
cuidar de Draco, ele precisa de repouso.
Carla parecia pouco disposta a concordar, mas assim o fez por respeito à
enfermeira. Teve a leve impressão que Draco parecia aliviado por não terem
terminado o assunto. Ela foi para sua cama, pensando em como sua vida estava uma
bagunça.
Era uma reunião importante na sala do professor Dumbledore. Todos os
professores estavam reunidos, e muitos pareciam apreensivos. O diretor pediu silêncio,
e todos obedeceram. Havia uma grande mesa circular na sala do diretor, e os
professores se sentaram em seus lugares, já predeterminados.
- Todos já sabem o motivo desta reunião, espero – começou o diretor,
com a voz um pouco mais formal do que o normal. – Estamos fazendo isto por
causa de uma observação de um professor.
Os professores estavam com opiniões muito diferentes entre si. A
professora Minerva e o professor Severo eram os maiores opostos. McGonagall
parecia confiante, disposta a lutar com unhas e dentes pelo que defendia. Já
Snape parecia aflito, e muito pouco à vontade com a situação. O diretor
continuou:
- Creio que esse assunto leve um bom tempo para ser resolvido. Queria
ouvir, então, as opiniões dos diretores das casas.
- Alvo...? – perguntou a professora Sprout – Sobre o quê é essa
reunião?
- Essa reunião é para decidirmos se a aluna Carla Wetts irá perder o
ano ou não, devido suas freqüentes faltas – respondeu Dumbledore, e alguns
professores puderam perceber que ele franzira ligeiramente suas sobrancelhas.
Os diretores das casas começaram a dar suas opiniões, começando por
Minerva.
- Alvo, eu acho que ela deveria perder o ano sim – começou ela,
imponente. – As faltas já estão comuns, e ela nunca conseguiria recuperar a
matéria que perdeu, nem com aulas particulares da Srta. Hermione.
- Eu discordo! – disse Snape se levantando abruptamente, causando
espanto dos outros professores, e um risinho de incredulidade de Sirius.
- Severo, por favor, espere sua vez de falar – disse Alvo calmamente,
pedindo para Snape se sentar.
- Isso é um insulto, Alvo! Ela é perfeitamente capaz de recuperar as
matérias perdidas, e também ela não tem culpa! – continuou Snape em tom
alto, ignorando o pedido do diretor.
- Severo, Severo, acalme-se – pediu Dumbledore novamente. – Deixe-a
dar sua opinião, como você também dará a sua.
A muito contragosto, Severo se sentou, completamente irritado e com um
olhar assassino. A professora McGonagall terminou de dar sua justificativa, e o
próximo a dar sua opinião era o professor Flitwick, que ensinava Feitiços.
- Eu acho que não devemos julgar ela pelas faltas, e sim pelo que a fez
faltar. Temos que considerar que Você-Sabe-Quem está atrás dela desde o ano
passado, e ela não tem culpa disso. Acho que deveríamos a deixar acompanhar as
aulas e fazer os exames no final do ano, e se ela não passar, repetiria o ano.
Estaríamos então dando a chance dela se recuperar.
- Muito bem sugerido – disse Dumbledore, começando a considerar.
A próxima foi a professora Sprout.
- Eu concordo com o professor Fitwick, Alvo – começou ela, sem olhar
para Minerva, que queria matá-la com o olhar. – Acho que ela tem o direito de
provar que pode completar o ano mesmo com as faltas. Se ela conseguiu atacar Você-Sabe-Quem
com aquela eficiência... – a professora tremeu só de lembrar -, deve
conseguir fazer os exames.
- Mas ela só conseguiu lutar contra Voldemort por ter aprendido a lutar
como ele, com os ensinamentos de Artes das Trevas que o professor Snape ensinou
– contrapôs Minerva McGonagall, levantando sua voz e lançando um olhar de
esgueira para Severo.
- Vamos manter a calma – disse Dumbledore se levantando. – Guardem os
comentários para vocês. Severo, agora é sua vez de dar sua opinião.
- Não acho justo ela perder o ano – disse em tom grave, controlando
seus sentimentos ao máximo. – Não que ela seja minha aluna favorita – e
sentiu um olhar cintilante de Alvo por detrás dos oclinhos meia-lua -, mas
qualquer aluno merece uma chance, pois as circunstâncias são extremas. E também
não acho justa a observação da professora McGonagall quanto a minha pessoa
– completou, olhando a companheira de trabalho com seu olhar letal.
O diretor parou por um momento. Sabia que Severo e Carla tinham discutido
por causa da gripe de bruxo. Achou que ele estava dando muito a perceber que
estava interessado por ela, já que nunca faria uma coisa dessas por nenhum
aluno, principalmente grifinório. Notou que Remo Lupin também percebera alguma
coisa, enquanto Sirius Black ria da defesa do professor. Decidiu continuar com
as votações.
Por enquanto poucas pessoas votaram a favor da repetição, sendo somente
Minerva, Sibila, a professora Sinistra, de Astronomia, e a professora Vector, de
Aritmancia. De resto, a maioria votou para dar a chance de fazer os exames. O
problema se agravou quando foi a vez de Remo e Sirius dizerem suas opiniões.
- Alvo, com certeza ela não tem culpa e, embora eu nunca ter suportado o
Snape, tenho que concordar com ele, e ela merece passar de ano, fazendo os
exames – disse Sirius do jeito mais formal que conseguiu.
- Eu já acho que ela deve ter a segunda chance, sim – disse Remo em
seguida -, mas, se no caso de não passar, receber aulas no período de férias,
para recuperar o tempo perdido. Acho que nenhum professor será contra isso.
Vários murmúrios foram ouvidos, alguns em aprovação outros em
desaprovação. O diretor pediu silêncio e deu sua decisão final, depois de
quase vinte minutos de discussões por parte dos professores.
- Então será decidido que a aluna cursará o resto de ano normalmente,
fazendo os exames e, caso seu desempenho não seja agradável, terá o período
de férias com aulas de reforço, que os professores darão de acordo com sua
disponibilidade, para ela passar de ano e acompanhar seus companheiros de classe
– disse Alvo Dumbledore. – E isso é só. Podem se retirar.
É claro que não foram todos os professores que concordaram, e a
professora Minerva parecia prestes a atacar Snape, de tanta fúria.
- Severo, você foi o responsável por isso! A regra deveria se aplicar a
todos! – berrou, gotas de cuspe voando de sua boca.
- Pare de criancices, McGonagall – retrucou Snape, com sua voz de
desprezo – Não é porque você nunca admitiu que ela, com perspicácia para
as Trevas, tenha caído em sua casa, que irá humilhá-la desse jeito.
- Se você quer saber, é sim, justamente por isso! Grifinória não é
lugar para pessoas com queda para as Trevas, essa é a SUA casa! – gritou,
completamente fora de controle.
Saiu pisando duro, enquanto os outros professores olhavam a tudo
abismados. Severo Snape virou-se, girou sua capa em volta de si, e saiu
caminhando, com ela esvoaçando às suas costas.
- Não pensei que uma aluna pudesse causar tanto desentendimento entre as
casas – comentou Sirius surpreso, olhando enquanto os dois diretores rivais saíam
em lados opostos.
- O pior disso é que essa aluna é Carla – lamentou Remo, pensativo.
– Sirius, reparou em como Snape protegeu Carla com unhas e dentes?
- Aquilo foi somente um jeito de tentar parecer agradável, Remo, não se
preocupe! – disse despreocupado, sem conseguir frear uma bela risada.
- Falo sério Sirius. E ainda Minerva disse que ela devia estar em
Sonserina, estou preocupado – disse sério.
- Só não entendo por que McGonagall é tão contra a menina, coitada!
Ser odiada pela diretora da própria casa, é demais para ela! – disse Sirius
com pena – E se falássemos com ela?
- Depois, Sirius, depois... – respondeu Remo ainda pensativo, disposto
a tirar aquela história a limpo.
Carla ficou ainda os dois dias após o jogo na enfermaria, se recuperando
um pouco, e ganhando forças para voltar a assistir às aulas. Na quarta-feira
de manhã, recebeu uma visita inesperada: Remo Lupin e Sirius Black, que
estiveram ausentes por um bom tempo.
- Pequenina! Está tudo bem com você? – perguntou Sirius
carinhosamente, abraçando-a com força e bagunçando seu cabelo.
- Estou Sirius, mas estava com saudades! Vocês sumiram! – respondeu
Carla, sorrindo verdadeiramente, coisa que não acontecia a uns dias.
- Estivemos ocupados – respondeu Remo. – Mas estivemos morrendo de
preocupação com você! Está bem? E essa gripe de bruxos, aonde conseguiu?
- Uma pequena conseqüência daquela fecha... – respondeu incerta,
temendo que o padrinho descobrisse a verdade.
- Espero que fique boa logo – disse Sirius sinceramente.
- Mas não viemos exatamente por isso. – interrompeu Remo, não muito
confortável em continuar naquele assunto – Queríamos comunicar sobre uma
reunião que tivemos há dois dias atrás...
- Reunião? – perguntou Carla desconfiada – E desde quando vocês me
contam suas reuniões?
- Desde quando ela é por sua causa – disse Sirius, agora muito sério.
- Sobre mim? – perguntou não acreditando – E qual seria o motivo?
- Descobrimos que a professora Minerva queria que você perdesse o ano,
por causa das suas faltas freqüentes – disse Sirius baixinho, não querendo
que Madame Pomfrey ouvisse a conversa deles.
- Sirius! – repreendeu Remo – Nem temos certeza se foi ela!
- Você não tem, mas eu tenho! – retrucou Sirius fazendo uma careta.
- Espera um pouco... – disse Carla lentamente, tentando absorver o que
ouvira – Vocês querem dizer que a professora McGonagall queria que eu
repetisse?
- E se não bastasse, ela ainda não gosta de você só porque você tem
uma “queda para as Trevas”, como ela mesma disse – disse Sirius em tom de
falsete, imitando a voz da professora.
- Ela não disse isso! – exclamou Carla, não acreditando numa história
dessas.
- Não estamos mentindo – replicou Remo. – E ainda tem Severo, que te
defendia como se fosse o Malfoy, o aluno favorito dele.
- Severo?! – perguntou se engasgando com o ar que inspirava – Quer
dizer, Severo Snape, professor de Poções? – arrumou, percebendo o que
dissera.
- Esse mesmo – afirmou Sirius. – O seboso realmente parecia ter algo
com você, e é melhor você ter cuidado. Com ele e com Minerva.
- Você tem aulas com eles ainda hoje? – perguntou Remo.
- Sim... – resmungou ela, relembrando o horário – Logo após o almoço
tenho Transfiguração, e depois, dois tempos de Poções.
- Coitada da pequenina! – disse Sirius, abraçando-a, e fingindo aquilo
ser uma calamidade mortal.
- Sem gracinhas, Sirius – repreendeu Remo. – Carla, tenha cuidado, e
não tente fazer nada que desagrade nenhum dos dois. Depois das aulas venha nos
ver, estaremos preparando a aula desta noite.
- Tudo bem, padrinho, eu irei – disse cabisbaixa, temendo o que poderia
acontecer nessas aulas.
- Você vai conseguir, nós acreditamos – confortou Sirius, abraçando-a
em seguida. Remo repetiu o ato, e logo os dois se retiraram.
- Querida, trouxe seu almoço – disse Papoula suavemente, algum tempo
depois de Remo e Sirius irem embora.
- Ah, obrigada Papoula, deixe aí – respondeu desligada, voltando à
realidade.
- Está tudo bem com você? Parece pensativa... – observou a
enfermeira, olhando-a ternamente.
- Remo e Sirius me disseram que Severo votou a meu favor no Conselho...
Acho que ele quer se vingar de algum modo – disse com o olhar perdido na
parede.
- Não se preocupe. O provável é que ele quer o seu bem, mesmo com vocês
brigados – supôs Madame Pomfrey.
- Tem razão – concordou Carla, ainda um pouco incerta. – Acho melhor
começar a comer, quero ir ao Salão Comunal antes de todos irem para lá.
- Isso mesmo, querida – concordou, se retirando em seguida.
Carla acabou de almoçar logo, e já estava juntando suas vestes,
trocando-as por uniformes de Hogwarts. Dumbledore viera avisar para ela usar o
uniforme sem nenhum emblema de casas, ao menos por enquanto, mas sem revelar o
motivo.
Ela foi o mais rápido que pôde ao Salão Principal, que estava quase
deserto, a não ser por alguns alunos do 1º ano, e alguns do 6º ano, incluindo
Harry, Rony e Hermione. Passou sem falar com ninguém, e desceu com seu material
o mais rápido possível. Caminhou pelos corredores sorrateiramente, e quem a
visse poderia dizer que era um fantasma, envolto por vestes negras esvoaçantes,
ou até mesmo Snape, com sua capa negra.
Entrou na sala de Transfiguração. Não havia ninguém lá, a não ser a
professora McGonagall. Carla engoliu em seco, e dirigiu-se até o final da
classe, sob um olhar assassino da professora. Ela ficou intimidada, e começou a
ler o livro de Transfiguração, tentando se localizar na matéria.
Pouco a pouco os alunos foram entrando e a professora começou a dar a
matéria. Ela não dirigia nenhuma palavra a Carla, nem ao menos parecia que ela
estava na classe, já que nenhum aluno percebeu sua presença. Foi uma das
piores aulas que teve na vida. Guardou mentalmente para ter uma conversa séria
com o padrinho e Sirius, para ser transferida para Sonserina, ao menos não
teria uma diretora que a odiasse. Mas ainda não era um bom negócio. Não sabia
ao certo se o professor Snape a odiava, mas ao que parecia, sim. Decidiu então
ir para Lufa-Lufa, o único lugar onde poderia ser aceita, já que era a pior
casa, na opinião dela.
A tortura acabou, e ela pôde suspirar em paz. Seguiu rapidamente até a
masmorra de Poções, que mesmo ela usando vários casacos, lhe parecia mais
fria que o normal. Passou sem ao menos olhar para o professor, com o corpo
tremendo da cabeça aos pés. Ele, aparentemente, nem se importou com a chegada
da aluna, continuou a escrever em seu pergaminhos. Sentou-se no último lugar,
novamente.
Quando todos os alunos chegaram, o professor levantou-se, segurando um
punhado de pergaminhos em uma mão, e várias penas verdes em outras. Começou a
falar, com sua voz ultra-tela e perigosa, causando calafrios nos alunos.
- Alunos, hoje faremos uma prova surpresa, que valerá como nota
trimestral.
Vários alunos protestaram, inconformados. Não achavam justo uma prova
surpresa, ainda mais que a matéria estava cada vez mais difícil. Até Draco
Malfoy e seus capangas pareciam surpresos, sendo realmente uma prova surpresa.
- Não reclamem, seus bobinhos – retrucou Snape, com um sorriso irônico
nos lábios. – Será uma prova com a matéria que vocês tiveram desde o
primeiro ano – os alunos protestaram mais alto ainda. O professor aumentou o
tom de voz – Serão trinta e cinco questões, cinco de cada ano letivo.
Só faltava os alunos lançarem pragas no professor. Alguns, como Harry
Potter e Rony Weasley, que levantaram-se dos seus lugares. Snape deu um
sorrisinho de prazer e vingança.
- Quem não quiser fazer a prova, está livre para sair, mas perderá 20
pontos para sua casa, além de ficar com zero – os alunos calaram-se
abruptamente, formando um silêncio colossal. – E para garantir que ninguém
colará da senhorita Sabe-Tudo Granger, usarão essas penas enfeitiçadas, que
faz com que o que vocês escreveram se apague, tornando-se somente visível a
mim.
Em seguida distribuiu uma pena e um pergaminho – na realidade, quatro,
pois eram muitas questões – para os alunos, e fez questão de lançar um
sorrisinho malicioso para Carla, que teve que acatar a provocação, não
querendo arranjar confusão.
“Ele fez de propósito. Tenho certeza. Fez isso só para me prejudicar, e de quebra, todos os outros alunos que ele não gostava, incluindo Harry Potter. Como pode... como pode?” – pensava Carla amargurada, enquanto folheava as folhas, e arregalava as sobrancelhas, tentando forçar sua mente a se lembrar de alguma coisa que aprendeu em todos esses anos.