A Poção
Capítulo 11
DESCOBRINDO O PASSADO, ENTENDENDO O PRESENTE E MOLDANDO O FUTURO
- Carla, eu gostaria de saber o que está acontecendo – disse
Dumbledore analisando a garota por baixo de seus oclinhos de meia lua.
- Er... o quê exatamente? – perguntou ela aflita, apertando os nós
dos dedos.
- Sobre a senhorita sair da enfermaria e acidentalmente encontrar Severo
nos corredores.
Carla ficou sem palavras. Dumbledore sabia que ela desrespeitara o
regulamento, e pior, arriscara a própria vida saindo dos cuidados da enfermaria
no estado que se encontrava. Ficou pensando em alguma resposta boa, mas o
diretor a ajudou, com uma voz serena, porém decidida.
- Sei sobre seu relacionamento com Severo, e suspeito que isso tenha
alguma coisa a ver com esses acontecimentos.
- Como sabe? – perguntou surpresa. Dumbledore podia ser um homem que
sabia de tudo que acontecia no mundo mágico, mas invadir a privacidade dos
outros já era demais.
- Não se preocupe. Severo me contou antes de aceitar te ajudar.
- Me ajudar? – perguntou confusa – Severo... foi ele quem me salvou?
- Com certeza – concordou Dumbledore. – Não me diga que ele não lhe
contou?
- Não... – respondeu um pouco abobalhada – Quando perguntei, o
senhor chegou junto com Sirius e Remo, ele não respondeu à pergunta...
- Entendo... – e fez uma pausa – Poderia então explicar o que
aconteceu?
- Bem... Acordei no meio da madrugada, e não vi ninguém ao meu lado.
Pensei em ir ver Severo, achei que o deixaria feliz. Mas antes de ir às
masmorras, fui até o Salão Comunal da Grifinória, para pegar minha varinha e
minha capa de invisibilidade. Chegando lá, a Mulher Gorda não me deixou
entrar, visto que não sabia a nova senha. Segui desolada até as masmorras, e
bati na porta de Severo. Não obtive resposta. Tentei então abrir a porta, e
milagrosamente ela estava destrancada.
“Fiquei apavorada quando entrei. Ele estava jogado no chão,
inconsciente. Pensei que ele estava... bem, aí concluí que ele estava somente
desmaiado, e decidi trazê-lo até a enfermaria. Para isso usei a varinha dele
para chamar minha capa de invisibilidade, e o que aconteceu foi muito estranho.
Assim que toquei na varinha, senti minha mão queimar, e tive que executar o
feitiço com muita dificuldade”
- A varinha queimou sua mão? – perguntou Dumbledore com uma expressão
estranha no rosto, e muito preocupado.
- Sim. Achei muito estranho, e toda vez que toquei na varinha senti a
mesma coisa – e percebendo o olhar do diretor, mostrou a mão direita, que
estava queimada, quase em carne viva.
- Estranho... – comentou o diretor para si mesmo – Pode continuar.
- Consegui trazer a capa com muita dificuldade. Com um feitiço de silêncio
absoluto, trouxe-o até certo ponto. Mas ele acordou, e queria por tudo que eu
deixasse-o ali, e voltasse para a enfermaria. Eu não o fiz e ele começou a
apertar meu pulso, me obrigando a obedecê-lo. Então não vi outra escolha,
tive que estuporá-lo. Foi o único jeito de trazê-lo até aqui – concluiu
ela, dando um suspiro ao relembrar.
- Entendo... – o diretor fez uma longa pausa, analisando o que diria a
seguir – Foi muito digno ter arriscado sua vida ao trazê-lo até a
enfermaria, mas não deixo de reprová-la por ter saído da enfermaria no estado
em que se encontra.
- Me desculpe – disse Carla de cabeça baixa.
- Isso não importa agora – disse em tom tranqüilizante. – O
importante agora é você se recuperar, só assim poderá ajudar Severo.
- Diretor, eu... – disse um pouco insegura – queria saber que
sentimento Severo usou para me salvar.
- Achei que já soubesse – Carla balançou a cabeça negativamente, e
ele continuou. – Severo sente muito amor por você, e nenhum outro sentimento
seria capaz de salvar sua vida.
- Amor? – perguntou engasgada – Ele... ele me ama?
- Sim – concordou com a voz calma. – E não existe sentimento mais
forte do que o amor... É claro que o ódio, por ser o oposto, é igualmente
forte, mas isso não vem ao caso.
Carla ficou quieta, somente tentando absorver o que acabara de ouvir.
Dumbledore se levantou, e estendeu a mão para ela.
- Venha. É melhor você descansar. Não vai adiantar nada você ficar
acordada, isso só deixaria Severo preocupado.
- Tem razão – concordou Carla, segurando a mão do diretor e sendo
levada até a enfermaria.
- Alvo, se me permite, acho que essa garota precisa descansar! – disse
Madame Pomfrey esganiçada – O professor Severo é muito forte, e muita
energia deve ter sido gasta nesse percurso! Francamente! Como pode sair da
enfermaria assim?
- Sim Papoula, ela irá descansar – concordou o diretor, apertando
levemente os ombros dela.
Carla foi deitada em uma cama e se aconchegou nos lençóis. Mas nem em
pensamento tinha vontade de dormir. Madame Pomfrey pareceu perceber isso, e
obrigou a garota a beber uma poção azul-céu.
- Que poção é issa, Papoula? – perguntou Dumbledore.
- É uma mistura de poção do sono e a poção da cura. Ela irá dormir
e ao mesmo tempo irá se curar, mas lentamente – explicou a enfermeira. – É
o único jeito dela dormir, duvido que com tanta inquietação conseguiria.
- Concordo. E como está Severo?
- Nada bem, diretor – disse em desaprovação. – Está desnutrido, e
não come há dias! Será uma recuperação demorada, e teremos que aplicar soro
nele, se não as chances poderão diminuir.
- Soro? – perguntou Dumbledore, não conseguindo acreditar – O caso
está tão grave assim?
- Infelizmente está, Alvo. Ele pode piorar a qualquer momento, e o soro
é uma maneira de contornar a situação.
- Então não há cura? – perguntou com um traço de preocupação na
voz.
- Sempre há – disse Madame Pomfrey. – Umas mais rápidas, outras
mais lentas... Essa depende somente dele, e pelo estado em que se encontra,
podemos dizer que ele não sente nenhuma vontade de melhorar... E é claro que o
soro irá somente trazê-lo de volta à consciência, já que só receberá os
nutrientes necessários quando tomar vergonha na cara e se alimentar direito...
- Realmente Severo não estava se preocupando com a alimentação
ultimamente... – concordou o diretor, pensativo – E você poderia ministrar
uma poção para a queimadura de Carla?
- Posso sim, qual seria?
- Poção 32, sessão de auto-proteção e magia das trevas. Uso primário
– explicou o diretor. – É um pouco difícil de fazê-la, mas garanto que
você consegue.
- Oh, Alvo! – exclamou a enfermeira chocada – Como... como pôde
isso?
- Eu não sei... Somente Severo poderá nos explicar...
Madame Pomfrey ficou chocada por algum tempo. Depois despediu-se de
Dumbledore e começou a ministrar a poção, ainda não acreditando em como
poderia ter acontecido.
Era uma bela manhã de quinta-feira. Os raios de sol começavam a invadir
as janelas do castelo, e Carla já sentia-se incomodada por ela. Abriu
lentamente os olhos e, para seu desgosto, viu que encontrava-se na enfermaria.
Olhou para sua mão, que estava enfaixada, e sentia uma ardência em seus dedos.
Procurou à sua volta, e viu Severo deitado em uma cama um pouco distante,
envolto por cortinas. Seu olhar se tornou triste, e não pôde evitar as lágrimas
de vê-lo naquele estado. Agora entendia, ele se sacrificara por ela, e se não
fosse por ela ele não estaria daquele jeito.
- Ah, você acordou! – exclamou uma voz se aproximando – Vamos cuidar
dessas ataduras!
Carla não protestou. Já não se importava com seus ferimentos, muito
menos com a dor em seu peito que insistia em incomodá-la. Somente desejava
estar no lugar dele, privando-o de tanto sofrimento. A enfermeira retirou as
ataduras do peito, e passava um líquido gelatinoso no local, antes de tornar a
enfaixá-lo.
- O que aconteceu, garota? – perguntou ternamente – Muito preocupada
com seu amor?
- Como sabe? – perguntou virando-se para ela, que lhe sorria – Quero
dizer... – completou, percebendo que dissera muito – ele vai ficar bom, não
vai?
- Não precisa se preocupar. Seu olhar diz tudo. E eu também não
contaria a ninguém, sei como é ter um amor – tranqüilizou-a. – E...
bem... ficar bom ele ficará, mas não sei quando.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer por ele? – perguntou Carla
fitando-o com pena.
- Sempre há – respondeu enquanto desenfaixava a mão dela, colocando-a
em uma bacia muito quente.
- Ai! Está quente! – reclamou Carla.
- Eu sei, esta é a intenção – respondeu dando de ombros. – Mas
voltando à sua pergunta, sempre há meios de se ajudar alguém enfermo,
principalmente alguém que amamos, como você já pôde comprovar... Mas é
preciso muito sacrifício, e muitos não conseguem...
- Eu faço qualquer coisa para salvá-lo, mas qualquer coisa mesmo
– disse com convicção. – O que está ao meu alcance?
- Existe uma coisa... mas não posso permitir que o faça, é muito
perigoso... e, não! Dumbledore nunca permitiria!
- O que eu nunca permitiria? – perguntou uma voz serena se aproximando.
- Alvo, esta garota quer ajudar na cura do professor – explicou a
enfermeira com uma ligeira desaprovação na voz.
- Entendo... posso conversar com ela um pouquinho? – perguntou o
diretor, mas desta vez a voz estava muito mais serena, embora o brilho nos olhos
não existisse mais.
Ela concordou, e deixou Carla seguir o diretor até sua sala circular.
Ele sentou-se na sua cadeira e ofereceu uma outra para ela sentar. Fitou-a com
um olhar estranho, que lembrava vagamente a pena, por alguns segundos, e começou
a falar.
- A senhorita que ajudar Severo, certo?
- Sim senhor, mais do que qualquer coisa no mundo – disse convicta.
- Pois bem. Antes de lhe dizer como, vou lhe contar algumas coisa. Você
sabe que Severo é um Comensal da Morte, não sabe?
- É? – perguntou desesperada – Quer dizer, soube que ele foi
um, mas no passado, nunca pensei que ele continuasse...
- Não, isso já é o bastante – cortou o diretor. – Mas acho que
nunca soube o que ele fez enquanto Comensal, estou certo?
- Torturou e matou gente inocente? – arriscou, temendo aonde aquilo
iria chegar.
- Basicamente isso – concordou o diretor, alisando sua barba. – E por
acaso soube que ele já foi para Azkaban?
- QUÊ?? – perguntou Carla totalmente surpresa – Não! Quer dizer,
como?!
- Vou lhe explicar toda a história – tranqüilizou Dumbledore, fazendo
um gesto com a mão para ela se acalmar.
“Severo Snape se tornou um Comensal da Morte aos dezessete anos, em seu
último ano em Hogwarts, por intermédio de seu amigo, Lúcio Malfoy. Na
realidade ele não apoiava as idéias de poder que Voldemort abraçava, mas o
Lord percebeu o potencial do garoto, e em troca de sua lealdade, ele ofereceu a
coisa que Severo mais desejava no mundo. Ele ofereceu Lílian Evans, somente
para ele”
- Então Severo realmente ama Lílian? – perguntou Carla chorosa,
sentindo ciúmes.
- Amou, amou. Agora Lílian é uma lembrança, assim como tantas
coisas... – corrigiu Dumbledore.
“É óbvio que ele aceitou. Nunca conseguiria Lílian por métodos
normais, já que ela e Tiago Potter estavam namorando. E então seu período das
trevas começou. Voldemort prometeu que, depois que cumprisse todas as ordens
que ele dava, teria Lílian consigo. E ele obedeceu. Após Hogwarts, os ataques
e mortes estavam cada vez mais freqüentes. E com o tempo, Severo acabou
perdendo sua identidade, seus sentimentos”
“Fazia somente o que Voldemort mandava, e já não sabia mais o que era
certo e errado. O fazia só por fazer, já que não tinha mais um motivo de
viver. Mas então, em um desses ataques, os Comensais foram surpreendidos pelos
membros da Ordem da Fênix, a qual ele agora faz parte. Ironia do destino, não
acha? Nessa luta ele se deparou com Líllian, agora Potter, lutando ao lado do
marido, Tiago. Sentiu-se completamente inútil, sem um objetivo a seguir. E
sentiu um ódio maior do que tudo. Percebeu então que perdera Lílian. Desta
vez para sempre”
- Odeio esse tipo de história – resmungou Carla, enxugando as lágrimas
que cismavam em escorrer pelo seu rosto.
“O ódio dominou-o. Passou a odiar a tudo e a todos. Isto o deixou mais
imparcial, e o sangue frio que matava suas vítimas era surpreendente. Voldemort
percebeu isto, é claro, e Severo Snape foi conhecido como um dos maiores
seguidores das Trevas. Mas nem tudo era tão perfeito... Os Comensais foram
pegos em cheio em uma emboscada dos aurores, e Severo foi mortalmente ferido”
“Não estaria curado se não fossem os conhecimentos de Magia Negra dos
Comensais. Teria ficado com uma cicatriz no peito, na altura do coração, mas
Voldemort não o deixou. Não queria que seus seguidores, quanto mais Severo,
seu melhor servo, ficasse com nenhuma marca, a não ser a Marca Negra. Nada, nem
uma marca, nem uma cicatriz, nada que lembrasse o passado, nada que lembrasse
sentimentos bons. A única coisa que eles precisariam se lembrar era a vingança,
a sede de poder”
“Mas Severo percebeu o que estava fazendo. Começou a sentir seu coração,
tudo o que fez de mal à humanidade. Sentiu culpa, sentiu dor. Sentiu-se a pior
das criaturas. Acovardou-se. Ficou envergonhado pelo que era. Decidiu se
redimir. Arriscou sua vida e veio me procurar, mesmo sabendo que eu poderia
entregá-lo ao Ministério. Já não tinha nada a perder, já que a vida tinha
perdido no momento em que entregara o braço para Voldemort o marcar”
“Me espantei ao vê-lo ali. Ele me contou sua história, e eu pude
perceber que seu arrependimento não era fingimento. O jeito com que narrava os
fatos, a voz, os atos, e principalmente, seu olhar diziam que estava
arrependido. Pronto para tentar viver a vida novamente. Me comovi. Aceitei-o de
volta. Ele seria espião de Voldemort, e ajudaria o Ministério, sem que este
soubesse”
- O senhor é muito bom, sempre acreditando nas pessoas... – comentou
Carla, já com o rosto lavado de tantas lágrimas, que ainda não tinham
acabado.
“Infelizmente de nada adiantou Severo se redimir. Ele continuava ativo
no círculo dos Comensais, e foi pego em um dos ataques. Ele e mais três
companheiros. Foram levados para o tribunal, condenados sem julgamento, e
receberam pena em Azkaban. Não tinham certeza do que fizeram, mas concederam
dois anos de prisão para cada um, já que só os viram roubando uma loja”
“Severo desesperou-se. Achou que eu não tinha cumprido com a minha
palavra. O pior era que eu não pude fazer nada, a não ser diminuir a pena. Ele
nunca comentou sobre sua estadia lá, mas eu percebi o suficiente pelo modo como
ele voltou. Estava pior do que quando Comensal. Seu olhar era frio, sem
sentimento algum, e seu estado piorou ao saber que os Potter tinham sido mortos.
Eles tinham sido mortos por Voldemort, menos o pequeno Harry Potter, que
sobrevivera tão misteriosamente”
“Sentiu-se acabado. Não participara dos planos do assassinato dos
dois. Estivera preso enquanto eles planejavam. Foi libertado somente um ano
depois da morte dos dois, e se arrependia mais do que nunca por tudo que fizera.
Houve um julgamento para esses Comensais. Ajudei a livrar Severo de mais uma
estadia em Azkaban. Concordei em deixá-lo sob minha proteção. Sempre foi fato
notório que ele era ótimo em Poções, então decidi dar o cargo de professor
a ele. Você não sabe o quanto ele me agradeceu. Vem feito tudo o que pôde
para me ajudar. Nunca mais fraquejou perante a mim. Aprendi a confiar nele, e
agora não o desconfio dele nem que seja uma grama”
- Diretor, eu... eu... – disse Carla com a voz engasgada – não sabia
que Severo... que ele... tenha tido um passado tão doloroso...
- Ninguém nunca saberia... E posso afirmar que as experiências pelas
quais passou o tornaram um homem frio, insensível, e parece-me que você
conseguiu derreter um pouco desse gelo. Ele está receoso em ter algum
relacionamento com você, temendo cair em tentação novamente – disse
Dumbledore, também comovido.
- Eu nunca faria uma coisa dessas com ele! Eu o amo, Dumbledore! Descobri
isto agora, e farei de tudo para fazê-lo se sentir uma pessoa melhor!
- Eu entendo, Carla. E sei que você está disposta a oferecer sua vida
em bem ao próximo. Mas eu pergunto: tem certeza que quer ajudar a curá-lo?
Esta decisão precisa ser tomada em perfeita sanidade, já que implicará em
graves conseqüências.
- Eu... eu quero ajudar! Faço de tudo para vê-lo melhor! Nem que eu
tenha que sofrer no lugar dele! – disse Carla decidida.
- Bem... – balanceou Dumbledore, aceitando a idéia – Você conhece
uma gripe de bruxos?
- Gripe de bruxos? Não sei muito, só sei que é pior do que uma gripe
de trouxas.
- Pois bem, vou explicar. Uma gripe de bruxos é muito perigosa, já que
além de deixar a pessoa com uma gripe normal, fragiliza todo e qualquer tipo de
magia existente na pessoa.
- Quer dizer que... – arriscou Carla, entendendo o que viria a seguir.
- Exato. A pessoa passará a ser um trouxa, se formos falar por alto, e
qualquer magia que acertar esse indivíduo poderá multiplicar a força em até
cinco vezes. Ou seja, se, por exemplo, a pessoa for atingida por um Cruciatus,
ela certamente irá morrer.
Carla engoliu em seco. Aquilo parecia pior do que ela imaginava. Tentou
permanecer imponente na presença do diretor mas não conseguiu. Fraquejou antes
mesmo dele dizer aonde esta gripe entraria.
- Você ainda tem certeza que quer continuar?
- Te... tenho – a voz tremia um pouco, mas mesmo assim ela estava
determinada a correr este risco.
- Sabe que de acordo com sua situação atual a gripe se estenderá por
duas semanas, e não uma, como é o normal, não sabe?
- S... sim diretor, mas nada irá me fazer mudar de idéia. Faço tudo
pelo bem de Severo – ela disse com firmeza, usando toda sua coragem que a pôs
na Grifinória.
- Muito bem. Vamos até a enfermaria. O processo será rápido, mas não
sei se irá doer.
Dumbledore a conduziu até a enfermaria, onde Madame Pomfrey os esperava.
Ela perguntou se Carla realmente iria fazer aquilo, e ela concordou com a cabeça.
Dumbledore a fez segurar firmemente as mãos se Severo, e fechar os olhos, como
precaução. Ele pegou sua varinha, concentrou-se nos dois e disse, apontando a
varinha para Carla, com muita firmeza:
- Transferus Fatalus!
Carla abriu os olhos, não conseguindo mantê-los fechados. Sentiu sua
visão embaçar, cada músculo do seu corpo parecia se contrair de fúria.
Sentiu seus pés perderem o chão e caiu, completamente inconsciente.
Levou um bom tempo até Carla tornar a abrir os olhos, um pouco zonza e
desorientada. Assim que conseguiu focalizar a imagem, viu um par de olhos negros
profundamente irritados a fitar em total desaprovação.
- Por que fez isso? – perguntou bravo.
- Só queria te ver bom – respondeu Carla ainda um pouco desligada.
- E você realmente acha que me veria bom sacrificando sua vida desse
jeito?
- Severo, não me venha reprovar pelo que eu faço, ao menos não sou tão
descuidada ao ponto de não me alimentar – retrucou ela com impaciência, mas
sem conseguir demonstrar alguma severidade na voz.
- Se não me alimentei foi só para te salvar! E de que adianta eu te
salvar de uma coisa se você já arranja outro jeito de adoecer?
- Eu não... – ela não conseguiu terminar a frase, graças um espirro
que ela não conseguiu segurar – Eu... eu não arranjei outro modo de adoecer,
só queria te ver curado! Ou o que acha que eu senti quando te encontrei na sua
sala, completamente desacordado!?
- Era melhor eu ter trancado minha sala, assim você não teria tido
essas suas idéias idiotas!
- E nem teria te salvado! – disse aumentando o tom de voz – Se o teu
orgulho é tão grande ao ponto de não me agradecer, tudo bem, eu compreendo,
mas não precisa me repreender por te salvar!
- Você também não me agradeceu por salvar sua vida! – Severo disse
aumentando igualmente o tom de voz, ou até falando mais alto.
- Ah, é claro! Como eu ia saber que você salvou minha vida sem
você ao menos ter me contado!? Mas já que você precisa ouvir isso para
continuar o dia, MUITO OBRIGADA por salvar minha vida, e eu te perdôo por ser tão
estúpido comigo, entendeu?
- O que está acontecendo com vocês dois? – perguntou Madame Pomfrey
em desaprovação, se aproximando dos dois – Severo, achei que você tinha
mais auto-controle! Carla, achei que você não iria se descontrolar graças à
sua saúde!
Os dois pareciam querer retrucar no mesmo momento, mas a enfermeira foi
mais rápida.
- Severo, se me dá licença isto é uma enfermaria, e não é lugar de
berros aqui! Carla, você não devia se exaltar deste jeito, está com gripe de
bruxo!
Severo quase deu a luz ao ouvir aquela frase. Foi preciso Madame Pomfrey
expulsá-lo da enfermaria antes que começasse outra discussão. Quando voltou,
viu Carla chorando compulsivamente, com um lenço no nariz.
- O que foi? Por que está chorando? – perguntou gentilmente.
- Depois... snif... de tudo que... snif... eu fiz por ele... snif... ele
ainda... snif... me trata assim? – disse ela entre o choro, ao mesmo tempo que
assoava o nariz – Não acredito... snif... como possa... snif... ser tão...
snif... incensível!
- Ora Carla, não chore, você vai ver, é só esperar ele esfriar a cabeça
que ele vai te pedir desculpas, e os dois ainda vão fazer as pazes! –
consolou a enfermeira, oferecendo mais lenços à garota.
- Não sei... ele pareceu tão firme quando disse... odeio quando
as pessoas agem como se estivessem sempre com a razão! – resmungou ela,
diminuindo um pouco o choro, m as ainda muito abalada.
- Bem, tome esta poção, você vai se sentir melhor. E descanse um
pouco, amanhã você terá sua partida de quadribol, precisa estar pelo menos
com condições de assiti-la.
Carla bebeu a poção e adormeceu quase instantaneamente, sem pensar em
mais nada que pudesse preocupá-la.
A discussão que acontecia na sala do diretor era uma das piores que já
acontecera naquela sala.
- Alvo, sinceramente, da onde você tirou a idéia de fazer Carla
passar por esse feitiço? – dizia Severo em voz alta, sem conseguir conter seu
desaprovamento.
- De nenhum lugar Severo, somente fiz o que ela pediu – respondeu
Dumbledore tentando manter um bom nível na conversa.
- Você não podia ter feito isso com ela! Francamente, por que diabos
fez ela pegar uma gripe de bruxos?
- Você sabe melhor do que eu que é o único modo de curar uma pessoa
muito querida.
- Não interessa! Preferia que fosse eu doente do que ela! E por que não
me lembrou dessa droga de feitiço quando ela foi atingida pela
fecha-das-trevas?
- Queria poupá-lo Severo, se você ao menos intendesse...
- Entendesse que você faz as coisas sem medir as conseqüências? Bem,
isso eu entendo completamente! – disse Severo quase berrando.
- Anextesius – disse Dumbledore suavemente, fazendo Severo parar
de gritar, e deixando-o sentado, sem poder se manifestar. – Ao menos deixe-me
explicar o que a fez tomar essa decisão.