A Poção

Capítulo 10
 QUANDO NEM TUDO DÁ CERTO

         Severo Snape estava sentado em uma cadeira ao lado da cama de Carla. Tinha um pouco do líquido branco-borbulhante – agora em vermelho-sangue – na ponta de seus dedos. Tirou sua capa rapidamente e a deixou de lado. Ameaçou tirar o resto da roupa, mas a voz de Madame Pomfrey o impediu de continuar.

         - Francamente, Severo! – exclamou ela em desaprovação – Se vai tirar a roupa, pelo menos faça isso em uma cortina! Tome – disse entregando uma muda de roupas dobradas -, vista isso.

         - E o que é isso? – perguntou Severo asperamente.

         - Roupas, o que mais seria? – respondeu Madame Pomfrey irônica – É uma calça de trouxas, e uma blusa. Assim você pode ficar com o peito descoberto e quando precisar é só colocar a blusa.

         - Eu não vou vestir vestes trouxas – protestou Severo decidido.

         - Não vai, é? – desafiou a enfermeira – Então fique pelado! – e saiu batendo o pé.

         Severo lançou um olhar carrancudo à roupa. Se quisesse ajudar Carla teria que deixar seu orgulho de lado, e se sujeitar às vestes trouxas. Tratou de fazê-lo o mais rápido possível, já que todo segundo poderia ser crucial.

         Quando saiu de trás das cortinas, nem parecia o temível professor de poções. Usava uma calça social preta, com um cinto na mesma cor, com somente o abotoador cinza, dando um belo contraste. A blusa estava pendurada na cadeira, e se a colocasse, pareceria um grande empresário trouxa, disfarçado perfeitamente.

         Sentou-se na cadeira e esfregou uma quantidade generosa do líquido em suas mãos. Em seguida esfregou em todo o peito e braços, dando a impressão que suara bastante. Sentiu uma sensação estranha em seguida. Pareceu estranhamente vazio, somente com uma grande força que fazia seu coração bater. Ficou algum tempo fazendo a mesma coisa, até achar que já tinha feito o bastante. Pegou um pequeno frasco da cabeceira e recolheu o que estava escorrendo. Cuidadosamente despejou o líquido no local em que a flecha atingira Carla. Massageou o local calmamente, e sentiu algo sair de suas mãos, caminhando até Carla.

         Aquela noite parecia ser longa, e Severo continuou fazendo o mesmo processo várias vezes, até o amanhecer.

 

         Era mais uma exaustiva aula de Poções. Faltavam dez minutos para a aula acabar, e Snape fazia a chamada, que milagrosamente se esquecera de fazer no começou da aula.

         Quando chamava o nome, olhava para a sala com uma expressão indecifrável e anotava alguma coisa no pergaminho. Seguiu normalmente até chegar no nome que seria o de Carla. Ele olhou vagamente para a sala, deu um suspiro, mexeu em alguma coisa na mão esquerda – um anel, coisa que os alunos nunca viram o professor usar – e rabiscou alguma coisa no pergaminho.

         Deu uma pequena lição de casa. “Diga quais as propriedades de uma poção intoxicante e seus efeitos” Em seguida liberou os alunos, dois minutos antes do sinal. Harry, Rony e Hermione guardaram seu material e saíram conversando, rumo à aula de Feitiços.

         - Vocês viram que estranho? – comentou Harry, intrigado – Snape não nos mandou fazer dois rolos de pergaminhos, não descontou pontos da Grifinória e ainda nos liberou mais cedo!

         - Ele está muito estranho, definitivamente – disse Rony sério.

         - E não foi só nos atos. Reparam como ele estava com uma aparência ruim? Está com grande e profundas olheiras, a pele mais pálida que a neve, a mão tremendo compulsivamente, sem ter acontecido nada, uma expressão vaga nos olhos, e ainda mexendo naquele anel toda hora?! Ele parece péssimo – analisou Hermione astutamente.

         - Nossa, acho que você repara mais em Snape do que em mim – resmungou Rony ofendido.

         - Não é isso, Rony – respondeu ela bruscamente. – Só que qualquer um com um mínimo de visão e senso crítico descobriria que ele não está bem!

         - E não o vejo nas refeições desde semana passada – completou um Harry pensativo, procurando alguma resposta para o problema deles.

         - Pior que não é só ele que anda estranho – disse Rony displicentemente, visto que Draco Malfoy passava por eles, abraçando os livros com força, e sendo praticamente arrastado por Crabbe e Goyle. – Quer dizer, Malfoy está com cara de quem está prestes a cair no choro.

         - Nossa Rony! Agora que você falou, vejo que é verdade! – exclamou Hermione perplexa – Nem tinha reparado em Malfoy!

         - É Rony, pelo visto o negócio dela é o Snape mesmo... – zombou Harry com uma voz calma.

         - Srs. Potter, Weasley e Granger, poderiam parar de conversar à porta da classe e entrar? – disse uma vozinha próxima a eles. Viram o miúdo professor Flitwick os olhar em tom de reprovação.

         - Desculpe professor – eles balbuciaram, e logo sentaram-se em seus lugares.

         Naquela aula nenhum dos três teve oportunidade de voltar a comentar o assunto. O professor Flitwick parecia um ímã, sempre estava olhando na direção deles.

         Ao final da aula todos os alunos seguiram para o Salão Comunal para almoçarem. Menos Rony, Harry e Hermione. Rony, tomado de súbita inspiração, disse que precisava ir em algum lugar urgentemente, e os amigos tinham que ir junto. Hermione e Harry mal sabiam aonde iam, e só reconheceram o caminho quando já estavam à porta da sala de DCAT, atualmente ocupada por Remo Lupin e Sirius Black.

         Rony bateu na porta, e algum tempo depois ela abriu sozinha, dando entrada para os visitantes. À uma mesinha estava sentado Lupin, anotando alguma coisa num pergaminho, e assim que viu os três, tratou de esconder rapidamente.

         - A que devo a visita de vocês? – perguntou cordialmente.

         - Professor Lupin, eu gostaria de saber o motivo de vocês estarem tão preocupados – disse Rony displicentemente.

         - Vocês quem? – perguntou ele analisando a situação.

         - Você, o Sirius, o Snape e o Malfoy.

         - Snape e Malfoy? – perguntou Lupin intrigado. Depois, consertou a frase – Não sei do que está falando, Rony.

         - Vocês todos estão muito estranhos, parecem preocupados com alguma coisa, e sei que é a mesma coisa.

         - Decididamente não sei do que está falando – respondeu secamente. – E se fosse vocês iria logo para o Salão Comunal, ouvi Dumbledore dizer que vai diminuir o tempo de almoço hoje.

         - E o senhor? Não vai almoçar? – perguntou Harry.

         - Vou depois – disse impaciente. – Preciso... terminar algumas coisas.

         Depois dessa os três saíram da sala, já que estavam praticamente sendo expulsos dela. Seguiram em silêncio até o Salão Principal mas, ao virarem um corredor, Hermione tentou recomeçar uma conversa.

         - Rony... – disse cautelosa.

         - Agora não – respondeu ele de olhos fechados.

         - Rony... – insistiu ela pouco depois.

         - Que é? – perguntou abrindo os olhos e encarando-a.

         - Não sabia que estava tão bom em investigar casos assim. Nem eu reparei em como Lupin e Sirius pareciam cansados e preocupados – disse Hermione com voz contida, mas calculada indiferença.

         - Ah, já que estava sem nada para fazer, resolvi observar melhor as pessoas – respondeu Rony dando de ombros, mas Harry pôde ver que ele corara até os cabelos.

         - Você daria um belo auror – comentou Harry. – Quem sabe trabalharemos juntos?

         - É – respondeu ele, corando agora até parecer um pimentão.

         E os três seguiram até o Salão Principal, dando preferência a assuntos mais leves, como Quadribol e, no caso de Hermione, tarefas.

 

         Snape caminhava até a enfermaria na calada da noite, como era de praxe. Carregava em uma das mãos um pequeno frasco com uma poção e, na outra, sua capa negra. Começara a apreciar o modo dos trouxas se vestirem, então adotou as roupas por enquanto, colocando somente um sobretudo para lecionar as aulas.

         E foi justamente para vê-la que ele estava indo para a enfermaria. Assim que chegou, fez um breve aceno para Madame Pomfrey e sentou-se na cadeira que já estava ao lado da cama. Lentamente tirou a capa que vestia e a blusa trouxa, deixou-as repousando nas costas da cadeira e começou a mexer com a poção da bacia, que mudava agora constantemente de branco para prateado, vermelho sangue e vermelho claro.

         Deu um suspiro antes de começar a passar a poção no corpo, lembrando-se amargamente quando fora proibido por Dumbledore de ficar ao lado de sua amada 24h por dia. As imagens ainda estavam nítidas em sua mente, e ele só sentia mais desprazer de dar aulas enquanto lembrava.

 

         - Severo, eu sinto muito, mas não vou te deixar ficar sem dar suas aulas – disse Dumbledore com a voz firme.

         - Mas Alvo, se não me entende, eu preciso salvá-la! E pouco me importo em dar ou não aulas para aqueles alunos irresponsáveis! Só seria uma dor de cabeça a menos folgar pelo menos essa semana! – protestou Snape em tom decidido.

         - Não posso permitir isso, Severo. Você não está se cuidando direito, não comparece a nenhuma refeição, não posso me dar ao luxo de te fazer adoecer, você sabe que isso poderia ser muito perigoso.

         - Eu sei me cuidar – respondeu Snape levemente ofendido.

         - Sei que sabe, mas nessa situação não estou acreditando muito. Se continuar a não comer, poderá até desmaiar e...

         - Francamente Alvo! Desmaiar? Eu nunca desmaio... – disse em tom irônico, mas como se tivessem lhe ferido o orgulho.

         - Não adianta Severo. Está decido. Irá dar suas aulas normalmente e, após elas, poderá cuidar de Carla – cortou o diretor decidido.

         Snape saiu da sala batendo o pé, e bufando de raiva. Sabia que o diretor só queria o bem dele, mas naquele momento achou que ele só queria que a recuperação de Carla fosse mais lenta, como se não soubesse que qualquer deslize poderia ser fatal.

 

         Os primeiros raios de sol começavam a chegar a Hogwarts. Na enfermaria não seria diferente, e logo a luminosidade invadia os olhos dos presentes. Não se tinha sinal de movimento no lugar. Madame Pomfrey estava em sua sala, provavelmente ainda dormindo. Severo havia escorregado da cadeira, e se encontrava no chão, a cabeça apoiada no colchão da cama e a mão esquerda segurando levemente a mão de Carla.

         Ela não estava muito diferente de todos. Dormia profundamente. Mas de alguma forma a luz em seu rosto a estava incomodando, fazendo-a se mover incomodada, sem querer abrir os olhos. Se não sentisse um leve toque em suas mãos, continuaria deitada ali, sem se mover mais.

         O problema era que aquele toque lhe era familiar, e a curiosidade estava aguçada para saber de quem era. Ficou alguns minutos piscando até conseguir focalizar o que estava à sua frente. Sentiu-se dando um sorriso, ao ver Severo Snape dormindo próximo a ela. Mas depois sentiu uma pontada de remorso, ao ver o estado em que ele se encontrava. Pensou em deixá-lo dormindo, mas não podia deixá-lo no chão. Tentou pensar em um jeito de resolver a situação, mas o que viu lhe fez perder o fio do pensamento.

         Severo acabara de acordar. O olhar estava fora de foco, sobre profundas olheiras. A pele pálida, os cabelos mal cuidados, sem camisa, e ainda com os olhos lacrimejantes. Ela teve vontade de pular em seus braços e chorar desesperadamente, mas achou que isso iria preocupá-lo.

         - Carla? Você está bem? – perguntou, assim que conseguiu focalizá-la.

         - Estou, Severo. Mas vejo que você não está – respondeu Carla em tom reprovativo.

         - Não se importe comigo. Vou sobreviver – disse Severo forçando um sorriso. – É muito bom te ver acordada novamente. Pensei que... bem, deixa pra lá.

         - O que aconteceu, Severo? Como vim parar aqui? – questionou ela.

         - Não lembra o que aconteceu? – Carla respondeu negativamente – Bem, estávamos caminhando até o castelo e...

         - Isso eu já sei. Lembro-me até a parte que vi alguma coisa reluzente no gramado.

         - Ah, sim – concordou ele. – Você... foi atingida... – lhe dava um nó no coração dizer isso, pois era o mesmo que admitir que não cuidara bem dela – por uma... flecha-das-trevas.

         - Uma o quê? – perguntou atônica.

         - Flecha-das-trevas – repetiu ele mal-humorado. – Uma antiga e maléfica arma, somente usada por quem quer matar de uma maneira dolorosa. A flecha penetra sua carne, e se instala perto do coração. Se não retirada rapidamente, ela pode continuar fazendo seu percurso, podendo perfurar órgãos vitais ou somente causar mais dor.

         Carla ficou em silêncio. Era terrível demais para acreditar. Esperou o que viria a seguir. E Severo quis se livrar da responsabilidade, então falou de uma vez.

         - O único meio de cura conhecível é a doação de um sentimento muito forte e positivo, que consegue destruir a flecha, e depois é só retirar os restos pelo sangue. Mas é claro que exige muita força de vontade e...

         - E quem que me salvou? – perguntou Carla cortando a fala de Severo.

         Mas não obteve resposta. Pela porta da enfermaria entraram Dumbledore, Sirius, Lupin e Madame Pomfrey, que tinha uma expressão de triunfo no rosto. Sirius logo emburrou a cara ao ver os dois ali, mesmo se não estivesse nada acontecendo.

         - O que faz aqui, Snape? – perguntou Sirius amargamente.

         - Assistindo aos pássaros voarem garanto que não estou, Black – respondeu Severo rispidamente, os olhares de ódio dos dois se cruzando.

         - Severo somente veio ver se Carla estava bem, Sirius – disse Dumbledore passivamente.

         - Já estou indo então, Alvo – disse Severo se levantando, sob uma concordância de Dumbledore. – Melhoras, srta. Wetts – completou ele, sem ao menos olhar para Carla.

         Ela pensou se Severo estava somente fazendo uma visita descompromissada a ela, mas não tece tempo para pensar mais no assunto. Sirius e Remo começaram a bombardeá-la com perguntas que ela nem sabia a qual responder primeiro.

         - Não sou vinte, tenham calma! Falem um de cada vez, se não eu não consigo responder nada!

         - Acalmem-se senhores – disse Dumbledore serenamente. – Podem conversar com Carla, só não perguntem sobre a noite, acho que ela não vai se lembrar. E daqui a pouco Papoula irá examiná-la, certo?

         - Droga, justo porque eu ia perguntar isso... – resmungou Sirius.

         - Sirius, pare de pensar nisso! – repreendeu Remo – Como você está, pequenina?

         - Estou bem, Remo – respondeu ela. – E vocês? Como estão?

         - Estávamos um pouco preocupados com você, mas agora estamos melhor – respondeu Remo. – Mas só não entendo como é que ainda usam e fabricam flechas-das-trevas! Pensei que o Ministério tivesse dado um jeito nisso! – completou com explícita indignação.

         - Como se o Ministério prestasse para alguma coisa... – disse Sirius irônico. Carla bem que tentou, mas não conseguiu segurar uma risadinha.

         - Mas lembre-se Sirius, se não fosse pelo Ministério você não estaria livre – contrapôs Remo.

         - Ah, é claro! Fudge queria era me jogar nos dementadores antes de qualquer julgamento! Se não fosse pelos aurores da Ordem, eu ainda estaria em Azakaban – disse Sirius emburrado.

         - Só que você não pod...

         - Fiquem calmos – disse Carla, tentando impedir uma discussão que estava prestes a começar.

         - O Ministério não faz nad...

         - Acalmem-se – ela tentou de novo, mas sem muito sucesso.

         - Você está general...

         - Não percam a cabeça... – tentou novamente, já perdendo a paciência.

         - É claro que não! Fudge é um...

         - FIQUEM CALMOS! – gritou Carla, sendo finalmente ouvida pelos dois – Eu não quero saber da discussão de vocês sobre a droga do Ministério! Quero conversar com vocês, saber como foram os dias, como estão todos... aliás, há quanto tempo estou aqui?

         Carla ainda pôde ouvir Sirius murmurar algo muito parecido com “O Ministério realmente não sabe o que faz, e sei que Carla concorda comigo”, mas resolveu não dizer nada. Os dois começaram a contar sobre a semana, as aulas de Duelos que ela perdeu, de tudo um pouco.

         - E há quanto tempo estou aqui? – perguntou ela algum tempo depois.

         Sirius e Remo se olharam antes de responder, e quem o fez foi Sirius.

         - Bem... é... você ficou um bom tempo... é... – disse embaraçado.

         - Fale logo! – disse impaciente.

         - Nove dias – disse Sirius finalmente.

         - QUÊ!? NOVE DIAS? – berrou Carla – Não acredito! É provável que eu perca a partida da Grifinória com Lufa-Lufa no sábado! – choramingou em seguida.

         - E pelo visto vai mesmo. Nem em sonhos você está em condições de jogar quadribol – disse Madame Pomfrey gentilmente, trazendo uma enorme agulha em uma mão e uma poção na outra.

         - O que é isso? – perguntou olhando para a agulha, deixando o choro de lado para uma grande preocupação.

         - Oras, é uma agulha para a seringa e uma poção! O que mais seria?

         Carla teve vontade de responder “É claro que eu sei que é uma agulha e uma poção, só quero saber para que são”, mas conseguiu se conter. Madame Pomfrey colocou a agulha na seringa, junto com um líquido verde borbulhante. E a resposta para a pergunta de Carla foi quase imediata. Aproveitando que ela estava sentada, Madame Pomfrey aplicou a injeção sem dó nas costas da garota, provocando um grande grito da parte dela. Era como se uma espada afiada e fina penetrasse sua pele.

         Depois da dor inicial da injeção, a enfermeira obrigou-a a tomar a poção, o que amenizou um pouco a dor.

         - O que vai acontecer agora? – perguntou Sirius preocupado.

         - Ela irá perder os sentidos. Terá um longo trabalho pela frente, já que vai passar por uma das piores dores da vida dela – respondeu Madame Pomfrey misteriosamente. – A primeira parte da cura foi indolor, e somente o doador que sofreu. Agora está na hora dela fazer alguma coisa, e provar que realmente quer ficar boa, e vai ter que sofrer um pouco.

         - E quanto tempo isso vai durar? – perguntou Remo tão preocupado quanto.

         - Isso depende de cada pessoa. Mas acho que uns cinco dias...

         As vozes foram sumindo aos poucos, e Carla não conseguia ouvir mais nada, parecia que não conseguia mais pensar. Com dificuldade encostou-se nos travesseiros, e antes que mais alguma coisa acontecesse, caiu no sono, começando a sentir uma incômoda dor no abdômen.

 

         O ambiente estava completamente escuro, e se não fosse pela luz da lua no céu, estaria impossível de se enxergar. O silêncio era total, e até uma respiração inconveniente seria ouvida. Carla estava deitada em sua cama na enfermaria, e acordara com uma insuportável dor no peito.

         Tentou se sentar, mas o máximo que conseguiu foi se encostar nos travesseiros. Ficou olhando a lua por alguns minutos, pensando no que fazer, e sentiu-se intimamente triste ao não ver Severo zelando por ela. Mas depois pensou estar sendo egoísta, já que ele sempre a protegeu de tudo, e realmente deveria estar cuidando da vida.

         E então foi tomada de uma idéia maluca, porém brilhante. Com dificuldade se sentou à beira da cama, e só então percebeu o que usava: uma fina camisola de seda azul-claro, e seu peito estava enfaixado, certamente onde fora atingida. Aquela roupa era muito fina para sair perambulando pelo castelo, mas mesmo assim resolveu ir. Pegou um robe azul-claro, também de seda, da cabeceira da cama e colocou chinelos de dormir, que estavam aos pés da cama.

         Levantou-se. Decidira ir visitar Severo, o que certamente o deixaria feliz. Mas antes iria passar no Salão Comunal da Grifinória para pegar sua varinha e capa de invisibilidade. Ela não conseguia andar por aí sem varinha, e a capa era uma preucação para a vigilância nas masmorras, e também por Pirraça, o poltergeist.

         Saiu da enfermaria fazendo o mínimo de barulho possível, mas era difícil, já que os chinelos eram muito barulhentos. Conseguiu chegar até o quadro da Mulher Gorda sem problema nenhum, mas ela ficou muito brava em ser acordada no meio da noite.

         - Senha?

         - Fortunasmento? – disse insegura. Fazia tempo que não entrava no Salão Comunal, e não tinha certeza da senha.

         - Senha? – perguntou novamente, fazendo um sinal negativo com a cabeça, dizendo que estava errada.

         - Como não é? Era a senha de duas semanas atrás! Sou da Grifinória! – disse desesperada, apontando para o local onde ficaria o emblema da casa.

         - Não vejo nada além de um robe azul, senhorita – zombou a Mulher Gorda.

         - Como pode?! – disse se irritando – Não se lembra de mim?! Sou Carla Wetts, da Grifinória.

         - Sinto muito senhorita. Não pode entrar sem senha. E se insistir terei que chamar o diretor.

         A simples menção do nome do diretor fez Carla tremer. Estava andando pela escola de madrugada, sem uniforme, e ainda mais doente. Seria um banquete perfeito para ficar o resto do ano em detenção.

         Ela concordou com a cabeça, e saiu caminhando tristemente até as masmorras, sem varinha e sem capa. Estava completamente desprotegida de qualquer perigo iminente, e vulnerável demais para reagir de qualquer forma. Voldemort ficaria feliz em vê-la naquele momento...

         O mais rápido e silenciosamente que pôde, ela foi até as masmorras. Demorou um pouco até chegar na sala de Severo. Bateu na porta, tremendo de frio. “Nas masmorras é mais frio do que em qualquer outro lugar do castelo, não sei como ele consegue” – pensou.

         Não obteve resposta alguma. Bateu algumas vezes, sem parecer que tinha alguém lá dentro. Então arriscou abrir a porta. Era totalmente improvável que Severo deixasse a porta da sala aberta, mas mesmo assim resolveu tentar. Girou a maçaneta e estranhamente conseguiu abrir a porta. Achou que fora somente esquecimento, mas provou o contrário assim que entrou na sala.

         O professor estava caído no chão, em um ângulo amendontrador. Estava caído de bruços, parecia não respirar e... Carla desesperou-se. Escorregou ao lado dele e o virou. Estava mais pálido do que de manhã e parecia mais abatido ainda. A primeira coisa que fez foi sentir seu coração, e seu desespero diminuiu um pouco ao ver que ele ainda estava vivo.

         Parecia somente desmaiado, mas isso poderia significar muita coisa. Não tinha certeza, mas achava que ouvira Dumbledore comentar que alguém precisaria levar comida para Severo, já que estava sem comer há dias.

         Sem pensar muito no que estava fazendo, Carla pegou um sobretudo de Severo na escrivaninha e vestiu-o. Devia estar com muito frio, já que estava sem blusa nenhuma. Agora o problema seria levá-lo até a enfermaria. Pensou na capa de invisibilidade, e aos poucos o nó começou a se desenrolar. Procurou nas vestes de Severo pela sua varinha, e a pegou.

         Sentiu uma sensação estranha ao tocá-la, parecia que seus dedos ardiam em brasa, e a varinha parecia se debater. Mais do que rapidamente disse:

         - Accio capa de invisibilidade!

         Esperou, a dor em seus dedos se tornando insuportável. E muito lentamente ouviu um farfalhar. A varinha estava vindo. Acabou soltando a varinha, e de seus dedos saíam fumaça. Teve que ir até o final do corredor para pegar a capa, já que ela parou no momento em que soltou a varinha.

         Voltou à sala, e segurou Severo pelo braço. Ele era demasiado alto e forte para ela carregá-lo, e ainda com as dores incômodas que sentia por todo o corpo, percebeu que seria uma tarefa difícil voltar até a enfermaria. Ela pegou a varinha caída no chão e sentiu novamente seus dedos queimarem. Concentrou-se com toda força em um único feitiço e disse em voz baixa:

         - Quietus totalus.

         Agora ela não ouvia seus passos no chão, nem a capa de Severo se arrastar. Colocou a varinha dele de qualquer jeito num bolso das vestes, cobriu-os com a capa de invisibilidade e rumou para a enfermaria lentamente.

         Quase trombou com Pirraça no meio do caminho, e foi uma sorte ele estar tão distraído e eles não fazerem barulho. Depois de muito arrastar Severo, Carla percebia que estava quase chegando, e iria mais rápido se não sentisse o corpo inerte ao seu lado pesar cada vez mais. Olhou para os lados assustada. Severo a encarava com um olhar indagativo e aterrorizante. Seu rosto estava tão magro e pálido que parecia uma caveira, e seus olhos negos quase não tinham vida.

         - Severo! – chamou ela em reprovação – O que aconteceu?

         - Para onde está me levando? – perguntou com dificuldade.

         - Para a enfermaria, onde mais? – respondeu Carla brava – Eu te encontro desmaiado na sua sala, queria que eu fizesse o quê?

         - Você... não devia... ter saído... da... enfermaria... – disse ele ofegante.

         - Não me diga o que fazer! – sibilou ela – E fique quieto! Assim posso te levar mais rápido.

         - Carla, pare! – disse ele com voz firme, segurando o pulso dela com força – Você não consegue me arrastar até lá, imagino quanto deve ter demorado! Me deixe aqui, e volte em segurança para a enfermaria. Volte para a enfermaria – as últimas palavras ele repetiu para deixar bem claro o que queria.

         - Não vou! – retrucou ela retornando a andar, e tentando não sentir a força da mão dele em seu pulso – Me solta Severo, está machucando!

         - Só se prometer me deixar aqui e voltar para a enfermaria.

         - Não! – disse ela com firmeza – Não me obrigue a...

         Com a mão livre, Carla pegou a varinha de Severo do bolso. Ele ficou pálido, e ela fechou os olhos por causa da dor, que estava mais forte ainda. Murmurou um “Me desculpe Severo”, e gritou:

         - Estupore!

         Severo ficou sem reação. Como já estava fraco, só desmaiara mais uma vez. Carla se esforçou o máximo para continuar levando-o até a enfermaria, e logo tratou de deixar a varinha longe de seu alcance, bem segura no bolso de Severo.

         Meia hora depois ela chegou à enfermaria, completamente ofegante e suada. Madame Pomfrey já a esperava na entrada, com uma cara de quem poderia fazer um grande estrago. Ela tirou a capa de invisibilidade e fechou os olhos, preparada para ouvir uma bronca. Mas, ao ver Severo junto com ela, no estado em que ele estava, a postura dela mudou totalmente.

         - O que aconteceu com o professor Severo? – perguntou preocupada.

         - Ele... está... desmaiado... encontrei... nos corredores... – disse Carla ofegante, tentando fazer seu coração não sair pela boca.

         - Oh Céus! – exclamou a enfermeira – Mas ele está estuporado! – completou examinando-o melhor.

         - Tive que fazê-lo – lamentou Carla. – Ele não queria que o trouxesse, mas só no finzinho do caminho, é claro...

         - Oh, vamos colocá-lo em uma cama, me ajude! – disse apressada – O que é isso em sua mão? – perguntou observando a mão da garota.

         - Ah, isso – disse desanimada. – Não sei, na realidade, mas a varinha de Sev... er... Snape parecia louca, não queria que eu executasse nenhum feitiço.

         - É, bem... não sei o que é, mas vamos ter que fazer alguma coisa com isso – disse levemente desconcertada; provavelmente não esperava uma resposta dessas.

         Madame Pomfrey mandou Carla voltar para a cama, mas ela estava aflita demais com o estado de saúde de Severo que não conseguia se deitar. A situação só piorou quando Dumbledore entrou na enfermaria, com uma expressão séria e calculista no rosto, deixando Carla paralisada, sem ação nenhuma. Engoliu em seco quando ele disse que queria falar com ela em particular.

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