Boletim Mensal * Ano VI * Janeiro de 2008 * Número 58

     

 

Padre António Vieira, O sonhador do V Império

Nasceu há quatro séculos (6 de Fevereiro de 1608)

 

         Quatro séculos depois, é fácil reconhecer o talento, a visão, a eficácia política e até a razão na utopia do Padre António Vieira. E também a sua alma portuguesa que o fez herói a brandir a palavra e o fez sonhar com um V Império que correspondesse em poder e riqueza ao que Portugal fizera com os Descobrimentos.

            A História deu-lhe razão: o País viveu uma nova Idade do Ouro com a exploração dos minérios no Brasil, mas Portugal estava irremediavelmente em declínio e como observa o historiador Eduardo Galeano, no seu livro 'As Veias Abertas da América Latina' acabou por ser a Inglaterra que fez a revolução industrial com as riquezas brasileiras e durante dois séculos construiu e usufruiu de um império mundial.

            O Padre António Vieira nasceu faz hoje quatro séculos, viveu 89 anos e deixou uma obra literária valiosa e imensa. Há menos de um século, Fernando Pessoa chamou-lhe no poema 'Mensagem' o imperador da língua portuguesa. Antes, Camilo Castelo Branco considerara que "são os sermões do Padre António Vieira uns riquíssimos minérios do mais fino ouro pelo que respeita à linguagem".

            Literatos e historiadores reconhecem que ele foi isto e muito mais. Primeiro que tudo, um bravo português que, por exemplo, em 1638, quando o reino ainda estava sob domínio espanhol e os holandeses (flamengos da Companhia das Índias Ocidentais) voltavam a ameaçar a Bahia, fez naquela cidade, então capital do Brasil, um sermão 'Pela Vitória das Nossas Armas' que empolgou a valente resistência militar.

            Pela cultura e profundo humanismo cristão, o Padre António Vieira foi um incômodo para muitos oportunistas do seu tempo.

            Ele tinha um sonho de grandeza para Portugal e um conhecimento eficaz das realidades do seu tempo que lhe davam uma visão correta do futuro. Ele deixou uma curiosa 'História do Futuro' e antecipou o pensamento do Século das Luzes, ao desenvolver nas suas utopias o sentido da razão. Era um ávido de conhecimento - o mais seguro instrumento de mudança das sociedades - e tinha idéias muito avançadas até no campo da economia.Foi por sua insistência que o rei D.João IV, seu admirador e protetor, criou em 1649 a Companhia Geral do Comércio do Brasil, capaz de desenvolver economicamente os bens da única colônia que Portugal realmente explorou, ainda assim sem resultados muito produtivos. E isto ao mesmo tempo que defendia os índios das barbaridades dos colonos e reclamava tratamento digno e humano para todos os escravos.

            O Padre António Vieira sonhava com outro mundo. Patriota, ele juntou até as famosas profecias de Bandarra, poeta e sapateiro de Trancoso, à sua visão de uma nova idade do ouro e ao desejo de cristandade universal. Pelo imaginado V Império que pensou a partir da Bíblia e dos tempos vitoriosos e ricos do rei da Babilônia, Nabucodonosor li, construiu uma utopia de um império português na linha dos da Assíria, Egito, Pérsia e Roma.

 

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