Boletim Mensal * Ano VI * Janeiro de 2008 * Número 57

     

 

FADO TAMBÉM É CULTURA  (15)

 

Alfredo Antunes

 

 

        Compadres. Anunciei na última vez que, hoje, falaria de coragem. E por quê? Porque, na última crônica, somente falei de um dos dois grandes troncos étnicos que estão na raiz do “ser Português”: os Celtas. Faltou falar do segundo: os Lusitanos.  Estes Lusitanos eram um povo forte, aguerrido e notavelmente corajoso. De estatura mais alta do que a dos Celtas (estes ligeiramente morenos, e de estatura média), os Lusitanos habitavam já a faixa que vai do rio Mondego ao Tejo, quando os Celtas chegaram. Sua região se chamava, por isso: Lusitânia. Estes dois grandes povos foram-se fusionando, aos poucos, durante cinco séculos de convivência. Como os Lusitanos eram mais aguerridos e dominadores, com o tempo, toda a região, que hoje corresponde a Portugal, passou a chamar-se: Lusitânia. Mas, repito, dentro deste povo - agora único – pulsam duas almas, duas etnias, duas formações psíquicas, duas vertentes de uma misteriosa unidade que a História conhece como Lusos, Lusíadas ou Lusitanos. Somos nós - os Portugueses de agora – onde se conjugam, harmoniosamente, o lirismo com a bravura, a melancolia com o otimismo, a tristeza com a exaltação, a saudade com a esperança,  a ternura com a valentia.(O nome “Portugal” veio, séculos mais tarde, originado de Portus calis - um porto de cal, que se situava onde é hoje a zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia:  “Daqui houve nome Portugal”, diz o Cronista). Mas continuemos.

            Depois de 5 séculos de fusão destas duas grandes etnias numa raça única - a qual já poderíamos chamar de “Portuguesa” – os Romanos conquistam a Grécia (cerca de dois séculos a.C.) e, quase ao mesmo tempo, a nossa Lusitânia-Portugal. E dá-se aqui um fenômeno raro, que é traduzido pelo famoso verso de Horácio: “A Grécia cativa cativou Roma”. Ou seja, a Grécia, ao ser conquistada pelas armas, conquistou Roma pela Cultura, pela Filosofia e pela Religião. O que significa que a alma e cultura gregas, imediatamente, dominaram todo Império Romano. E, dentro dele, também a nossa Terra, onde se demoraram por 7 séculos.

            E eis-nos, assim, chegados, finalmente, ao entroncamento decisivo que nos pode dar uma explicação  definitiva para o  Fado Português: - o encontro da nossa identidade céltica com o fatalismo grego, que nos chegou no bojo da invasão romana. Já expliquei, nas minhas três primeiras crônicas, que, nós Portugueses, herdamos dos gregos a profunda crença na existência de um Fatum, um Destino, um Sina, dos quais não podemos fugir. Este  Fatum, ou Fado,  já nasce com cada um, marcado  pela “Moira”. Com a dominação duma cultura fortíssima, como a greco-romana, sobre a cultura rudimentar dos Lusitanos, logo estes assimilaram os valores e princípios espirituais dos invasores. Sem deixar sua própria identidade, passaram a ter também alma de gregos e passaram a introjetar as mesmas crenças e a mesma visão de mundo e de vida. Por fim, aceitaram o Cristianismo e a cultura judaico-cristã, que a expansão do Império possibilitou. Tornaram-se, numa palavra: Portugueses ! Tornaram-se o que hoje somos: um misto de lirismo celta, de bravura lusitana e de fatalismo greco-romano, que ainda perduram no nosso psiquismo e inconsciente.

            E entre estas raízes milenares: - o Fado! O Fado, que é tão antigo, e tão nosso, como a nossa Raça. Tão antigo, e tão nosso, como a nossa História. Tão antigo, e tão nosso, como o próprio Portugal. Por isso, Amigos, deixem-me repetir: o Fado não nasceu . Não teve pai nem mãe. Não começou com os Árabes, não se formou nas Navegações, não surgiu com alguma das grandes tragédias pátrias, não nasceu das Modinhas portuguesas ou do Lundum dos negros; não nasceu no Brasil; não é, sequer, uma expressão do 2º Romantismo português, simbolizado na Severa e no Vimioso. O Fado é tudo isso; e muito mais. O Fado é a nossa História. O Fado é Portugal e cada um dos Portugueses. O Fado faz parte da nossa natureza. É constitutivo do nosso ser. É ôntico, e não periférico. Quando a Severa dizia: “O Fado sou eu!”, ela estava certa; como certa estava a Amália quando, ao dar de frente com o lendário Alfredo Marceneiro, numa viela de Lisboa, lhe grita: “Alfredo, tu és o Fado!”. Estava certa a Amália, e certo estará  qualquer Português que diga o mesmo.”No fundo todos nós somos fadistas”, diz Eça de Queirós, em “Os Maias”; e Antero de Quental, em 1871, diz quase o mesmo: “A nossa fatalidade é a nossa História!”. Mas Mário Sáa vai ainda mais longe ao escrever, ali pelos idos de 1800: “O Fado já era no tempo de Viriato”. E tinha razão! Afinal, Viriato  foi o primeiro herói português, enquanto Povo. Nele estava já Portugal inteiro. É Fernando Pessoa quem o confirma, em seu poema “Viriato”. Depois de dizer que a este se deve o sermos  “raça”, “povo” e “nação”, o Poeta termina com aquele verso, meio arcaico: “Assim se Portugal formou”.Pessoa parece, aqui, ecoar A.L.Vieira, que, já antes, dizia ser o  Fado : “ a velha voz d’Homeros desgraçados!”.

            Pois é, meus Amigos. Para terminar, e resumir, faço meus, os versos de Mascarenhas Barreto quando, em 1970, escreve:

“O fado é tão português

Que, de arnez,

Bateu-se em Fez;

Esteve em Alcácer Quibir;

Arrostou o mar profundo

E ao Mundo,

Na senda de descobrir!

Esteve em Malaca e Ormuz

 E,à luz

Do signo da Cruz,

Construiu impérios novos,

Da Guiné a Timor, 

Com ardor,  

Foi defensor

Do Destino d’outros povos!

Fé-lo Deus aventureiro:

Foi guerreiro;    

Missionário, ou de má-rês

E – vá ele p’ra onde for -

Cante a dor,

Ou cante o amor,    

O que canta é Português”.

 

Até à próxima, Amigos!

Hosted by www.Geocities.ws

1