Boletim Mensal * Ano V * Agosto de 2007 * Número 53

           

 

         

FADO TAMBÉM É CULTURA  (11)                

Alfredo Antunes

 

 
Comadres e Compadres. Se algum dia alguém lhes pedir que sugiram um único fado que possa “resumir” todos os milhares existentes na nossa tradição, sugiram, por exemplo, o clássico “Há festa na Mouraria”, de António Amargo. Sobre ele,  vou hoje falar. E fá-lo-ei em três momentos. Que Deus me guie!
1) O bairro da Mouraria. Para nos situarmos, imaginem os Amigos que estão, no Rossio de Lisboa,  bem de frente para a “Pastelaria Suíça”, e olhando o Castelo de São Jorge, lá no alto da colina. Descendo os olhos pela esquerda da encosta, temos o Bairro da Mouraria. Como vêem, este bairro situa-se entre o Castelo, lá no alto, e o Largo Martim Moniz, cá no fundo. Deste Largo saem várias ruas que são lendárias no Fado. Sai a “Velha Rua da Palma”. Lembram-se?! : “Ai Mouraria,/ Da Velha Rua da Palma...”. Desse Largo sai, sobretudo, a “Rua do Capelão” (Ó Rua do Capelão/ Juncada de rosmaninho/ Se o meu amor vier cedinho/ Eu beijo as pedras do chão/ Que ele pisar no caminho”...)
        Aquilo é que era amor, Compadres! Na esquina da Rua do Capelão com o citado Largo Martim Moniz, está a igrejinha medieval da “Senhora da Saúde” – tão importante na tradição lisboeta que, desde tempos imemoriais, os Reis de Portugal se incorporavam na procissão da sua festa. E, ainda hoje, os Presidentes da República se incorporam (mesmo que a fé seja pouca...). Subindo a Rua do Capelão, no Nº. 13, lá está a casa que foi da Rosa Maria da Severa.(Na parede externa, podemos ver ainda a velha argola de ferro, onde o 13º Conde de Vimioso amarrava o cavalo quando ia  amar, e ouvir a sua Rosa cantar. O Bairro da Mouraria (com seus Largos da “Amendoeira”  e da “Guia”) é, pois, a todos os títulos, um espaço lendário. Por aquelas bandas, davam brado a Casa da Mariquinhas,Rosária Costureira, a Tasca do Pimpão  etc.
    2)  A Rosa Maria. Era filha de uma cigana, de apelido “Severa” (mulher terrível que usava “faca na liga” e muitos pelos na cara, sendo por isso chamada de “Barbuda”!) - que era dona de sete tabernas, das quais, três  na Mouraria, nos idos de 1800.  A Rosa Maria era prostituta, afamada no bairro, e cantava e tocava guitarra nas tabernas da mãe.            
Lindíssima, de corpo e de voz, chamou a atenção do boêmio 13º  Conde de Vimioso que, “escandalosamente”, se apaixonou por ela e pelo Fado. De nome Rosa Maria, passou a ser conhecida por Rosa Maria da Severa; ou, simplesmente, Severa. Era também conhecida como a Rosa da Mouraria ou, ainda, o Rouxinol da Mouraria. Tornou-se uma lenda viva. Foi (ao que se sabe) uma das primeiras mulheres a cantar e tocar Fado. E fazia-o, já com todas as influências da interação luso-árabe -africana, a que já me referi em crônica anterior. A figura da Severa (melhor: a lenda criada em torno dela) foi explorada por todos os veículos da arte: cinema, teatro, pintura, literatura e...,sobretudo, Fado.    De fadista real que  foi, passou a incorporar a lenda viva  da “cantadeira infeliz”.
3)A Festa da Senhora da Saúde. Esta festa - e, sobretudo a Procissão – são o grande tema do fado em análise. Nele, podemos sentir a Saudade do seu Autor (um emigrado português, no Rio de Janeiro, ali por 1840) que, sendo da Mouraria, se lembrava da grande festa do seu bairro. A letra deste fado é tão bela que Fernando Pessoa, ao organizar, com outro poeta (António Botto), uma seleta com os mais belos poemas da língua portuguesa, incluiu, nela, a letra do fado: ”Há festa na Mouraria”. Além do valor estético intrínseco, esta letra reflete, na íntegra, todo o preconceito social de uma sociedade hipócrita que anatematizava, não só a “mulher da vida” mas, também, o próprio Fado, olhado como algo pecaminoso. Tão pecaminoso que não se podia cantar, nem tocar, no dia da Procissão da Senhora da Saúde! Vejamos a beleza: “Há festa na Mouraria/ É dia da Procissão/ Da Senhora da Saúde./Até a Rosa Maria/ Da Rua do Capelão/ Parece que tem virtude”. E por que não poderia, a pobre, ter virtude?! Se até Cristo disse um dia que as “prostitutas e os malfeitores poderão tomar a dianteira no Reino de Deus”...Mas continuemos: “Colchas ricas nas janelas/ Pétalas soltas p’lo chão/ Almas crentes, povo rude/ Anda a fé pelas vielas/ É dia da Procissão/ Da Senhora da Saúde”. Já viram coisa mais linda, Compadres, do que  andar a fé pelas vielas da Mouraria?! E agora vem a censura ao Fado-pecado: ”Naquele Bairro fadista / Calaram-se as guitarradas/ Não se canta nesse dia/ Velha tradição bairrista/ Vibram no ar badaladas/ Há festa na Mouraria”..(Como os tempos mudaram, meus Amigos! Amália Rodrigues foi, um dia, convidada para cantar, na catedral de Beirute, o fado “Foi Deus”, integrado num “Te Deum” comemorativo do dia nacional do Líbano...). Mas vejamos o resto: Após um curto rumor/ Profundo silêncio pesa/ Por sobre o Largo da Guia/ Passa a Virgem no andor/ Tudo se ajoelha e reza/ Até a Rosa Maria!”. Pobre Maria Severa! Pobre “Rosa da Mouraria”! Que escândalo, ver-se uma prostituta a rezar...E vejam, sobretudo, o final: “Como que petrificada/ Em fervorosa oração/ É tal a sua atitude/ Que a Rosa já ´desfolhada’/ Da Rua do Capelão/  Parece que tem virtude!”. Meu Deus! Quanto preconceito! Peçamos à Senhora da Saúde que perdoe aos nossos antepassados! Mas, lembremo-nos, também, de que, mesmo que  o  Fado  seja “pecado”, não deixará, jamais,  de ser Cultura. Até à próxima!
 
     
 
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