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Comadres e Compadres. Se algum dia alguém lhes pedir
que sugiram um único fado que possa “resumir” todos os milhares
existentes na nossa tradição, sugiram, por exemplo, o clássico
“Há festa na Mouraria”, de António Amargo. Sobre ele, vou hoje
falar. E fá-lo-ei em três momentos. Que Deus me guie!
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1) O bairro da Mouraria.
Para nos situarmos, imaginem os Amigos que estão, no Rossio de
Lisboa, bem de frente para a “Pastelaria Suíça”, e olhando o
Castelo de São Jorge, lá no alto da colina. Descendo os olhos pela
esquerda da encosta, temos o Bairro da Mouraria.
Como vêem, este bairro situa-se entre o Castelo, lá no alto, e o
Largo Martim Moniz, cá no fundo. Deste Largo saem várias ruas que
são lendárias no Fado. Sai a “Velha Rua da Palma”. Lembram-se?! :
“Ai Mouraria,/ Da Velha Rua da Palma...”. Desse Largo
sai, sobretudo, a “Rua do Capelão” (Ó Rua do Capelão/ Juncada de
rosmaninho/ Se o meu amor vier cedinho/ Eu beijo as pedras do chão/
Que ele pisar no caminho”...)
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Aquilo é que era amor, Compadres! Na esquina
da Rua do Capelão com o citado Largo Martim Moniz, está a igrejinha
medieval da “Senhora da Saúde” – tão importante na tradição lisboeta
que, desde tempos imemoriais, os Reis de Portugal se incorporavam na
procissão da sua festa. E, ainda hoje, os Presidentes da República
se incorporam (mesmo que a fé seja pouca...). Subindo a Rua do
Capelão, no Nº. 13, lá está a casa que foi da Rosa Maria da
Severa.(Na parede externa, podemos ver ainda a velha argola de
ferro, onde o 13º Conde de Vimioso amarrava o cavalo quando ia
amar, e ouvir a sua Rosa cantar. O Bairro da Mouraria (com seus
Largos da “Amendoeira” e da “Guia”) é, pois, a todos os títulos, um
espaço lendário. Por aquelas bandas, davam brado a Casa da
Mariquinhas, a Rosária Costureira, a Tasca do Pimpão
etc.
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2) A Rosa Maria.
Era filha de uma cigana, de apelido “Severa” (mulher terrível que
usava “faca na liga” e muitos pelos na cara, sendo por isso chamada
de “Barbuda”!) - que era dona de sete tabernas, das quais, três na
Mouraria, nos idos de 1800. A Rosa Maria era prostituta, afamada no
bairro, e cantava e tocava guitarra nas tabernas da mãe.
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Lindíssima, de corpo e de voz, chamou a atenção do
boêmio 13º Conde de Vimioso que, “escandalosamente”, se apaixonou
por ela e pelo Fado. De nome Rosa Maria, passou a ser conhecida por
Rosa Maria da Severa; ou, simplesmente, Severa. Era também conhecida
como a Rosa da Mouraria ou, ainda, o Rouxinol da Mouraria. Tornou-se
uma lenda viva. Foi (ao que se sabe) uma das primeiras mulheres a
cantar e tocar Fado. E fazia-o, já com todas as influências da
interação luso-árabe -africana, a que já me referi em crônica
anterior. A figura da Severa (melhor: a lenda criada em torno dela)
foi explorada por todos os veículos da arte: cinema, teatro,
pintura, literatura e...,sobretudo, Fado. De fadista real que
foi, passou a incorporar a lenda viva da “cantadeira infeliz”.
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3)A Festa da Senhora da Saúde.
Esta festa - e, sobretudo a Procissão – são o grande tema do fado em
análise. Nele, podemos sentir a Saudade do seu Autor (um emigrado
português, no Rio de Janeiro, ali por 1840) que, sendo da Mouraria,
se lembrava da grande festa do seu bairro. A letra deste fado é tão
bela que Fernando Pessoa, ao organizar, com outro poeta (António
Botto), uma seleta com os mais belos poemas da língua portuguesa,
incluiu, nela, a letra do fado: ”Há festa na Mouraria”.
Além do valor estético intrínseco, esta
letra reflete, na íntegra, todo o preconceito social de uma
sociedade hipócrita que anatematizava, não só a “mulher da vida”
mas, também, o próprio Fado, olhado como algo pecaminoso. Tão
pecaminoso que não se podia cantar, nem tocar, no dia da Procissão
da Senhora da Saúde! Vejamos a beleza: “Há festa na
Mouraria/ É dia da Procissão/ Da Senhora da Saúde./Até a Rosa Maria/
Da Rua do Capelão/ Parece que tem virtude”. E por
que não poderia, a pobre, ter virtude?! Se até Cristo disse
um dia que as “prostitutas e os malfeitores poderão tomar a
dianteira no Reino de Deus”...Mas continuemos: “Colchas
ricas nas janelas/ Pétalas soltas p’lo chão/ Almas crentes, povo
rude/ Anda a fé pelas vielas/ É dia da Procissão/ Da Senhora da
Saúde”. Já viram coisa mais linda, Compadres, do
que andar a fé pelas vielas da Mouraria?! E agora vem a
censura ao Fado-pecado: ”Naquele Bairro fadista / Calaram-se as
guitarradas/ Não se canta nesse dia/ Velha tradição bairrista/
Vibram no ar badaladas/ Há festa na Mouraria”..(Como os tempos
mudaram, meus Amigos! Amália Rodrigues foi, um dia, convidada para
cantar, na catedral de Beirute, o fado “Foi Deus”, integrado
num “Te Deum” comemorativo do dia nacional do Líbano...). Mas
vejamos o resto: Após um curto rumor/ Profundo silêncio pesa/ Por
sobre o Largo da Guia/ Passa a Virgem no andor/ Tudo se ajoelha e
reza/ Até a Rosa Maria!”. Pobre Maria Severa! Pobre “Rosa da
Mouraria”! Que escândalo, ver-se uma prostituta a rezar...E vejam,
sobretudo, o final: “Como que petrificada/ Em fervorosa
oração/ É tal a sua atitude/ Que a Rosa já ´desfolhada’/ Da Rua do
Capelão/ Parece que tem virtude!”. Meu Deus!
Quanto preconceito! Peçamos à Senhora da Saúde que perdoe aos nossos
antepassados! Mas, lembremo-nos, também, de que, mesmo que o Fado
seja “pecado”, não deixará, jamais, de ser Cultura. Até à próxima!
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