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Prezados Compadres, consoante prometi – e venho na
medida do possível tentado cumprir minhas promessas – falarei nessa
coluna sobre a mítica degustação de vinhos brancos e tintos ocorrida
em Paris, no ano de 1976, envolvendo uma disputa entre os vinhos
franceses, tidos até então como imbatíveis e inigualáveis, e vinhos
californianos, à época produzidos há pouco mais de uma década,
escolhidos especialmente para o evento.
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Como é de conhecimento de todos, ou pelo menos de
quem gosta de vinho e conhece um pouco da sua história - na década
de 60 e 70 os franceses eram os donos do pedaço, cultivavam suas
vinhas sob os auspícios dos paralelos corretos para a
vitivinicultura (as áreas localizadas entre os paralelos 30 e 50,
dos hemisférios norte e sul são consideradas as ideais para produção
de vinhos), dominavam técnicas milenares de observação e empirismo,
além de trabalharem com material humano qualificado e equipamentos
os quais estavam acostumados.
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Não raro, os vinhos franceses
classificados como Gran crus alcançavam quantias
astronômicas, inatingíveis para nós, meros mortais, e faziam a festa
dos produtores no mercado mundial.
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Quando um francês, chamado Victor Hugo,
uma vez disse: “Deus fez somente a água, mas o homem fez o vinho”,
talvez estivesse comparando a arte da produção de vinhos em seu país
à atuação divina, subestimando o poderio adormecido da população
mundial ávida por desmistificar o esnobismo francês – vigente à
época - no engarrafamento dos vinhos lá produzidos. Um conhecido me
contou uma história que a grande besteira dos franceses foi não ter
patenteado o nome “vinho”, como fez com o Champanhe, pois o produto
de outros países, para os produtores daqueles anos, deveria ser
chamado de mosto de uvas fermentadas.
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Na verdade, mesmo os melhores produtores
de vinhos dos quatro cantos do mundo tinham medo, por receio de
parecer ingênuos ou até mesmo chauvinistas, de dar valor aos seus
vinhos, preferindo citar como exemplos de qualidade apenas os vinhos
franceses em detrimentos dos seus próprios ou de colegas.
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Não sabiam eles que um dono de uma
pequena loja, um inglês apreciador de bons vinhos, estava preparando
uma contenda entre vinhos franceses e californianos, com todos os
jurados franceses e conhecedores da matéria (só para citar alguns, o
chef do restaurante francês Taillevent e o sommelier
do lendário La Tour d’Argent e o proprietário do Domaine de La
Romanée-Conti), cuja única intenção era tão somente chamar a atenção
dos franceses para que a produção de vinhos era possível em outros
lugares fora do “universo” França.
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Pois bem, passando à degustação
propriamente dita, resultou que entre os dez chardonnays provados no
total, três dos quatro primeiro colocados eram californianos e
apenas um francês (todos os franceses eram da Borgonha) – o primeiro
lugar foi californiano, o Chateau Montelena (apesar do nome meio
francês)
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Dos dez cabernet-sauvignons, três dos
quatro primeiros eram franceses (Chateaus Mouton-Rothschild,
Haut-Brion e Montrose – todos Gran crus de Bordeaux), mas o
grande vencedor foi o californiano Stag’s Leap Wine Cellares.
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Podemos concluir, portanto, que vinhos
podem ser produzidos nos locais mais inóspitos do planeta, desde que
amparados em estudos de solo, técnicas avançadas, equipamentos
corretos e, sobretudo, dedicação, trabalho e humildade. Foi com isso
que os produtores americanos conquistaram o paladar até dos
franceses, sem que esses se dessem conta que estavam degustando um
excelente vinho e – produzidos fora da França!
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Hoje os franceses reconhecem e tem
ciência que no mundo é possível produzir vinhos de nível
internacional e não mais subestimam a qualidade dos vinhos
estrangeiros. Um desses exemplos é a devoção com que muitos tratam
um dos vinhos portugueses mais prestigiados, o Quinta da Carolina,
feito pelo enólogo da Real Companhia Velha (produtora do Quinta dos
Aciprestes, Grandjó e Porca de Murça, entre outros – todos do
Douro), Jerry Luper, em terreno próprio, no vilarejo de Pinhão, em
Portugal.
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O jornalista Robert Parker, que de uma só
canetada pode jogar por terra a reputação de qualquer bom vinho, uma
vez escreveu que essa degustação de Paris destruiu o mito da
supremacia francesa e que foi um divisor de águas no mundo do vinho.
Com essa eu tenho de concordar! Até a próxima! Santé, ou
melhor, cheers, saúde!
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