Boletim Mensal * Ano V * Junho de 2007 * N.º 51

           

COLUNA DOS VINHOS

Ivo Amaral Junior

 

   
Prezados Compadres, consoante prometi – e venho na medida do possível tentado cumprir minhas promessas – falarei nessa coluna sobre a mítica degustação de vinhos brancos e tintos ocorrida em Paris, no ano de 1976, envolvendo uma disputa entre os vinhos franceses, tidos até então como imbatíveis e inigualáveis, e vinhos californianos, à época produzidos há pouco mais de uma década, escolhidos especialmente para o evento.
Como é de conhecimento de todos, ou pelo menos de quem gosta de vinho e conhece um pouco da sua história - na década de 60 e 70 os franceses eram os donos do pedaço, cultivavam suas vinhas sob os auspícios dos paralelos corretos para a vitivinicultura (as áreas localizadas entre os paralelos 30 e 50, dos hemisférios norte e sul são consideradas as ideais para produção de vinhos), dominavam técnicas milenares de observação e empirismo, além de trabalharem com material humano qualificado e equipamentos os quais estavam acostumados.
            Não raro, os vinhos franceses classificados como Gran crus alcançavam quantias astronômicas, inatingíveis para nós, meros mortais, e faziam a festa dos produtores no mercado mundial.
            Quando um francês, chamado Victor Hugo, uma vez disse: “Deus fez somente a água, mas o homem fez o vinho”, talvez estivesse comparando a arte da produção de vinhos em seu país à atuação divina, subestimando o poderio adormecido da população mundial ávida por desmistificar o esnobismo francês – vigente à época - no engarrafamento dos vinhos lá produzidos. Um conhecido me contou uma história que a grande besteira dos franceses foi não ter patenteado o nome “vinho”, como fez com o Champanhe, pois o produto de outros países, para os produtores daqueles anos, deveria ser chamado de mosto de uvas fermentadas.
            Na verdade, mesmo os melhores produtores de vinhos dos quatro cantos do mundo tinham medo, por receio de parecer ingênuos ou até mesmo chauvinistas, de dar valor aos seus vinhos, preferindo citar como exemplos de qualidade apenas os vinhos franceses em detrimentos dos seus próprios ou de colegas.
            Não sabiam eles que um dono de uma pequena loja, um inglês apreciador de bons vinhos, estava preparando uma contenda entre vinhos franceses e californianos, com todos os jurados franceses e conhecedores da matéria (só para citar alguns, o chef do restaurante francês Taillevent e o sommelier do lendário La Tour d’Argent e o proprietário do Domaine de La Romanée-Conti), cuja única intenção era tão somente chamar a atenção dos franceses para que a produção de vinhos era possível em outros lugares fora do “universo” França.
 
            Pois bem, passando à degustação propriamente dita, resultou que entre os dez chardonnays provados no total, três dos quatro primeiro colocados eram californianos e apenas um francês (todos os franceses eram da Borgonha) – o primeiro lugar foi californiano, o Chateau Montelena (apesar do nome meio francês)
            Dos dez cabernet-sauvignons, três dos quatro primeiros eram franceses (Chateaus Mouton-Rothschild, Haut-Brion e Montrose – todos Gran crus de Bordeaux), mas o grande vencedor foi o californiano Stag’s Leap Wine Cellares.
            Podemos concluir, portanto, que vinhos podem ser produzidos nos locais mais inóspitos do planeta, desde que amparados em estudos de solo, técnicas avançadas, equipamentos corretos e, sobretudo, dedicação, trabalho e humildade. Foi com isso que os produtores americanos conquistaram o paladar até dos franceses, sem que esses se dessem conta que estavam degustando um excelente vinho e – produzidos fora da França!
            Hoje os franceses reconhecem e tem ciência que no mundo é possível produzir vinhos de nível internacional e não mais subestimam a qualidade dos vinhos estrangeiros. Um desses exemplos é a devoção com que muitos tratam um dos vinhos portugueses mais prestigiados, o Quinta da Carolina, feito pelo enólogo da Real Companhia Velha (produtora do Quinta dos Aciprestes, Grandjó e Porca de Murça, entre outros – todos do Douro), Jerry Luper, em terreno próprio, no vilarejo de Pinhão, em Portugal.
            O jornalista Robert Parker, que de uma só canetada pode jogar por terra a reputação de qualquer bom vinho, uma vez escreveu que essa degustação de Paris destruiu o mito da supremacia francesa e que foi um divisor de águas no mundo do vinho. Com essa eu tenho de concordar! Até a próxima! Santé, ou melhor, cheers, saúde!
 
   

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