Boletim Mensal * Ano V * Junho de 2007 * N.º 51

           

  FADO TAMBÉM É CULTURA (9)

     Alfredo Antunes

 


Comadres de Compadres.

Voltei. Sim, porque, no Fado, sempre se volta. Ou, como diz a nossa Mariza (a nova Amália que desponta!), o Fado é “curvo”. Nele, a “paixão não segue em linha reta”. E voltei, para continuar o tema que iniciei da vez passada: as origens do Fado-música.. Não vou acrescentar muita coisa. Mas gostaria de completar algumas informações e, sobretudo, desfazer equívocos. Dedico a crônica de hoje aos queridos Compadres e Comadres brasileiros. Eles que têm tido a paciência de me ouvir falar tanto de Portugal, e pouco do Brasil. Mas, o bacalhau nos une, e o amor nos faz família!
Aqui há uns 37 anos atrás, foi editado no Brasil um Long Play intitulado: Doze Fados Brasileiros. Fiquei contente. Mas ao ler a apresentação do disco, fiquei triste. E fiquei triste, por se dizer, nesse texto (sem mais explicações, nem matizações) que “o Fado nasceu no Brasil”; que “o Fado é brasileiro”. E o pior é que quem tal afirmava era, nada menos, do que o grande musicólogo, folclorista, teórico da arte, poeta, ficcionista, crítico, ensaísta, professor e jornalista brasileiro – o grande (grandíssimo) Mário de Andrade - um dos líderes do ”Movimento Modernista” de 22. Por isso, repito, fiquei triste. E não porque o Fado, sendo brasileiro, não ficaria em boas mãos (ou, melhor: em boas almas!). Fiquei triste porque, simplesmente, não é verdade. Sobretudo, dito assim, sem explicações. Se há registros de que já se “cantavam fados”, em Portugal, cem anos antes de aqui chegarem os portugueses, como pode o Fado ser brasileiro? Mas isso é o menos.
Em minha vida cigana, de 45 anos pelo mundo, eu já morei, longos períodos (sempre mais de meio ano ) em, pelo menos , oito países e quatro continentes.E sempre estive muito atento à música de cada lugar. Até porque, como eu mexi com música durante bastantes anos, me interessa muito o tema. E posso garantir, com toda a alma, que nenhuma música é tão fascinante, variada, original e rica quanto a brasileira. Não há nada que se lhe possa igualar. Este povo é naturalmente “musical”. É sedutor e único quando se expressa. Não precisa, pois, incorporar um gênero que nunca foi seu, nem faz muito o seu “pathos” natural. Não acham, Compadres?.

Posso até dizer que o Fado, enquanto música é,  de certa forma, pobre. Já aqui o disse, e repito: mais do que um gênero musical, o Fado é, antes, uma filosofia, uma liturgia profana, um ritual de vida. Sobretudo as toadas do Mouraria, do Corrido, do Rigoroso e do Castiço têm escalas melódicas simplistas. Raramente vão além do esquema tônica-dominante-mediante-tônica.  O valor está na garra, na “atitude” e na crença fatalista de quem canta.

            O Fado, como música, não ampliaria muito a extraordinária riqueza brasileira... Nem condiz muito, repito, com o seu pathos íntimo.

            Mas, cada coisa no seu lugar. Pensando na história passada, estou a lembrar-me de casos emblemáticos de cantadores e cantadeiras que, ao fazerem sucesso em Portugal, “tentaram a América” no Brasil, e perderam-se. A começar pela lindíssima Dina Teresa, que em 1931 estrelou o filme  musical “ A Severa”, de Júlio Dantas, onde cantava o clássico “Ó Rua do Capelão”. Com o sucesso, veio para o Brasil. Veio e perdeu-se. Jamais foi aceite, cantando o Fado. Há uns 36 anos atrás, um apresentador de televisão chamado Flávio Cavalcanti foi “desenterrá-la” numa cidadezinha do interior de São Paulo - machucada pela vida e pela pobreza - e mostrou-a, já com 80 anos, na televisão. Ainda trauteou, melancolicamente, o seu “Ó Rua do Capelão”, mas me deu pena. Ela bem que deveria ter,         antes, cantado a segunda estrofe desse fado que diz: Tenho o Destino marcado/ Desde a hora em que te vi!

 Outra portuguesa, que aos 16 anos saiu da sua Marco de Canavezes, para o Brasil, foi a nossa Carmen Miranda. Disseram-me há pouco que, também ela, chegou a tentar o Fado, no começo, mas sem sorte. Ainda bem. Já que só foi grande, muito grande, quando assumiu a intensa brasilidade... Nelson Gonçalves (cuja voz foi qualificada, por Frank Sinatra, como a mais bela voz que conheceu), foi outro português que por aqui começou cantando o Fado (com um irmão e a Mãe). Também não foi aceite. Sua aceitação estrondosa pelos brasileiros veio-lhe pelos boleros, pelo samba e tudo o mais.

 

 E por que não lembrar a própria Amália Rodrigues que, ao iniciar, em 1944, o seu primeiro espetáculo de fados no Copacabana Palace (com o fado “Ai Mouraria/ Da velha Rua da Palma”- composto expressamente para aquele momento), foi duramente vaiada, até que teve de deixar o palco, ao final duma terceira tentativa? É isso aí! Amália, já a maior voz de Portugal, então com 24 anos, foi rejeitada, e saiu chorando, porque o Fado ainda não era compreendido por estas paragens...

            Acho que se o Fado pertencesse ao próprio cerne da alma brasileira, não seria assim tão rejeitado, no início...Não acham?Nada contra os nossos Compadres e irmãos brasileiros. Apenas um sinal claro de que há povos que têm uma identidade diferente de outros. E a identidade de cada um assenta em pilares culturais, históricos e psíquicos.

             E também poderíamos falar do inverso.Ao ouvir, por exemplo, a extraordinária Ângela Maria cantar o Ai Mouraria da velha Rua da Palma, eu sempre achava bonito, mas “estranho”.  Tinha a impressão de que escutava uma  bela canção, numa belíssima voz. Mas não um Fado. É que, como já citei aqui: “Não é fadista quem quer/ Só é fadista quem calha”. Entendam-me, Compadres brasileiros! Se o Fado não nasceu no Brasil, não faz mal. Talvez tenha, pelo menos, “se aprofundado”, isso sim, nas travessias para cá. Mas,  mesmo neste caso, já aqui chegou pronto! 

            E, por favor: “Fado é Cultura mas não é polêmica!”...Na próxima, direi o que, talvez, Mário de Andrade esqueceu de dizer! Até lá!

Gostas de fado?
Calca na guitarra e escolhe fado e fadista!
     
 

 
     
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