Caros e pacientes Compadres, no
artigo pretérito, no afã de me fazer um colunista bem lido, escrevi sobre os
prazeres da boa mesa, da degustação calma, ao lado de amigos, participando
de banquetes pantagruélicos, além de discorrer sobre a origem da palavra
sommelier. Talvez não tenha conseguido tal intento, mas pelo nível de
perguntas que se achegaram, certamente aumentei em um ou dois os meus
ínfimos, mas fiéis e regulares leitores.
Nesse mês tenho a ressaltar um assunto que tem tudo a ver com o
artigo anterior, que é a existência e a fundação de confrarias, associações,
sociedades e outros congêneres, forjados no intuito de valorizar e propalar
os conhecimentos em torno do vinho, sem contar efetivamente com o que
interessa a nós, simples apreciadores: degustar essa dionisíaca bebida.
Com essas palavras iniciais, lembro que o mundo do vinho só é
tão misterioso, intenso, instigante e dialético, justamente porque os temas
polêmicos são disseminados por essas entidades que reúne especialistas,
apreciadores, estudiosos e curiosos em geral. Somente por causa dessas
pessoas é que essa aura vínica paira em nossas mentes. Não podemos deixar
isso acabar...
Resolvi, por pura paixão ao vinho, participar de uma das
instituições mais importantes do vinho no Brasil, a Associação Brasileira de
Sommeliers, a fim de ampliar meus parcos conhecimentos sobre o tema.
Realmente fiquei surpreso com a repercussão de tal associação, pois com
menos de um mês de sua fundação em Pernambuco, a repercussão do coquetel
onde cada bebida harmonizava com o respectivo acompanhamento foi estupenda.
Tal associação, chamada nos meios apenas de ABS, inaugurou uma
nova fase dos apreciadores pernambucanos de vinho, pois as demais
associações, sociedades e confrarias, tinham apenas a intenção de reunir
seus associados para degustarem vinhos, tomarem conhecimento das novidades
do mercado e apresentar a ficha técnica das bebidas, ao passo que a ABS
formatou um novo sistema onde os associados desmistificam o mundo do vinho
sem os tecnicismos inerentes aos modelos ultrapassados. Desta feita, ela se
propôs a reunir e formar amizades com o objetivo de apreciar o vinho por si
só, sem firulas, plumas ou paetês. É disso que o simples apreciador estava
precisando: degustações para reunir amigos e apreciar a bebida, aprendendo
sobre ela de forma objetiva e direta, junto aos amigos, tendo prazer em
absorver ensinamentos...
Por outro lado, um dos objetivos da ABS, por sinal iniciativa
muito louvável, foi a de formar sommeliers e seus auxiliares, através
de cursos específicos, a fim de que os mesmos atuem nos restaurantes da
nossa região, pois não raro encontramos um serviço horrível, um
desconhecimento completo e, portanto, momentos nada agradáveis quando temos
a iniciativa de tomar um vinhozinho com a família ou com amigos. Pode ser
que doravante, ao adentrar no recinto de um restaurante, haja um
especialista que diga qual vinho combina com tal alimento, se aquela ou essa
safra está melhor para ser apreciada, etc.
Nossa Academia do Bacalhau é uma Confraria das mais conhecidas
internacionalmente e, certamente, muito contribui para que a cultura
lusitana se propague mundialmente. Não podemos esquecer que o vinho é o
melhor acompanhamento desse prato que traduz a cultura portuguesa de forma
esplêndida.
Apesar das Academias, das ABSs e de outras confrarias, as
amizades reais estão sendo substituídas pelas amizades virtuais e as novas
gerações simplesmente não conhecem e/ou não tem interesse em participar
dessas maravilhosas reuniões, onde todos lidam com sentimentos, sensações e
relacionamentos de verdade.
Oxalá se possa obter desses neófitos confrades uma presença mais
marcante nas reuniões e uma participação mais efetiva na melhoria do serviço
do vinho e na qualidade destes.
O presente artigo tem o intuito de fazer com que a velha guarda
incentive os mais jovens a participar do mundo real, visando a manutenção de
culturas e tradições que estão se exaurindo da nossa história. É triste o
povo que não conhece a sua história...