Boletim Mensal * Ano V * Maio de 2007 * N.º 50

           

 

FADO TAMBÉM É CULTURA (9)

 

Alfredo Antunes

 

Comadres e Compadres. Falamos muito, até agora, sobre as origens do Fado. Mas do Fado-conceito, do Fado-destino, do Fado-sorte, do Fado-fatal, do Fado-pathos  profundo.
Tentemos, agora, falar das origens do Fado-música. Sim. Daquele Fado que, ao ouvi-lo, nos faz viver o Fado-destino. Falemos, afinal, sobre como terá começado o Fado português. Coisa difícil. Muito se diz e pouco se prova. Passarei ao largo de hipóteses tontas, e ater-me-ei ao que é seguro. Nem importa mais do que isso. Às vezes, um pouco de mistério, dá “mais encanto” às coisas. O Fado, como hoje é conhecido, tem registros escritos desde 1830, mais ou menos. Mas temos que pensar que o Fado cantado é antiqüíssimo e evoluiu muito, ao longo dos tempos. Sobretudo o chamado “Fado-canção”, o fado autônomo e desvinculado  da dança. Outra coisa. Há muitos tipos de Fado, quer quanto às toadas musicais, quer quanto ao modo de cantá-los. Fala-se, por exemplo, no Gingão, no Corrido, no Rigoroso, no Fidalgo, no Menor, no Maior, no Castiço, no Mouraria, no Dois Tons, no Canção, no Três Tons, no de Coimbra. Isto, sem falar no Fado-dança:  o de umbigada, o Batido, o de Aparar, o Fora de Portas, o das Esperas,o de Pernada  etc. etc.  Fala-se, até, no Fado bailado! Nada disto, repito, são títulos de Fados. São modos. Toadas. Jeitos de cantar ( e de dançar). Expressões que a tradição e o improviso foram criando, conforme as épocas, os lugares e os cantadores.
Dia deste quadro, é cada vez mais difícil precisar quando começou o Fado-Música. Podemos dizer, com segurança, que o Fado é exclusivo de Portugal e que, em suas formas mais simples (a modo de toadas ou lamentos) já por lá se cantava desde a Idade Média. A ele alude Azurara - o cronista medieval, autor da Crônica de Ceuta(1415) - , quando diz que, nas longas “esperas” no cerco daquela Praça, cantavam-se fados “para espalhar os humores merencórios” (para espalhar a melancolia).Atenção: este “espalhar” não significa apaziguar ou distrair.Seguindo o latim, significa, antes, “lançar ao vento”, “anunciar”, “dar vazão”. O que reforça a idéia de que se tratava de cantares lamentosos.  Caverel refere que foram  encontradas dez mil guitarras nos destroços da batalha de Alcácer Quibir!-1578. (Agora entendo por que perdemos a batalha, perdemos o Rei (Dom Sebastião) e perdemos a Pátria (para Castela!). Claro que é pura lenda! Mas isto aponta, pelo menos, para o fato de que nossos exércitos e marinheiros já, nesses tempos, tocavam guitarras e as levavam consigo para exprimir a          Saudade nas grandes viagens. Quanto aos aspetos musicais, o Fado tem claríssimos elementos árabes (lembremo-nos de que estes povos – também denominados de Mouros – viveram 700 anos na Península Ibérica e, em Portugal, 500). O Fado tem, também, elementos do Canto Jondo, ou Flamenco, da Andaluzia espanhola. Sobretudo, na “atitude” e no gingado, um pouco histriônico, com que se canta. (Se puderem, vão, um dia, visitar El Sacro Monte - em frente à cidade de Granada - para sentirem a ginga e dramaticidade ciganas...).Mas, repito, o Fado é muito nosso, e do nosso psiquismo, agravado por nossa herança céltica. E o que posso afirmar com mais  segurança ainda é que o Fado ganhou novos contornos temáticos no Mar. No Mar Português. Nas grandes navegações marítimas. Basta pensar que, quando Portugal chegou ao Brasil, tinha apenas um milhão de habitantes. Boa parte da sua juventude masculina andava embarcada. E houve épocas em que, de cada dez marinheiros, morriam sete. Em terra, ficavam as mulheres, os velhos e as crianças. E ficariam cantando, lamentosamente, a ausência de seus filhos, noivos e irmãos. Eram cantares, repito, normalmente, saudosos. Já em 1634, D. Francisco Manuel de Melo dizia que O amor e a distância são os pais da saudade. E é verdade. Por isso não me canso de dizer: o Fado Português, conforme ainda é cantado em muitos “lugares sagrados” lisboetas, não nasceu, mas aprofundou-se, no Mar.     Adensou-se na dor das travessias. Tem razão a Cecília Meireles quando diz: Os náufragos não precisam de chorar,/Todo o mar são lágrimas... E eu dou, também, total razão ao nosso José Régio quando diz: O Fado nasceu um dia/ Em que o vento mal bulia/ E o céu o mar prolongava,/ No peito de um marinheiro/ Que, estando triste, cantava:/‘Ai que lindeza tamanha!/ Meu chão meu monte meu vale/ Vê se vês terras d‘Espanha/ Areias de Portugal/ Olhar ceguinho de choro’. É isso aí, Compadres. O nosso Marinheiro, mesmo com o “olhar ceguinho de choro”, tentava, saudoso, avistar a sua terra. E por quê? Porque lá ficara sua mãe e sua noiva. “Adeus, Mãe. Adeus, Maria./ Que aqui te faço uma jura/ Que eu te levo à sacristia/ Ou foi Deus que foi servido/ Dar-me no mar sepultura! Efetivamente, o Marinheiro da ficção morreu. Deixou mais uma noiva por casar. Cumpriu o que também diz Fernando Pessoa: Quantas mães choraram,/ Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar! Repito: o Marinheiro morreu. Muitos Marinheiros morreram. Mas aprofundou-se o Fado Português! Abençoado Destino. Portugal também tinha um “Fado”a cumprir: o de navegar. Ele cumpriu bem o que já havia escrito um antigo navegador romano: Navegar é preciso/ Viver não é preciso!

E já que “Fado também é Cultura”, Compadres:, até à próxima!

 

 

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