Comadres e
Compadres. Falamos muito, até agora, sobre as origens do Fado. Mas do
Fado-conceito, do Fado-destino, do Fado-sorte, do Fado-fatal, do Fado-pathos
profundo.
Tentemos,
agora, falar das origens do Fado-música. Sim. Daquele Fado que, ao
ouvi-lo, nos faz viver o Fado-destino. Falemos, afinal, sobre como
terá começado o Fado português. Coisa difícil. Muito se diz e pouco se
prova. Passarei ao largo de hipóteses tontas, e ater-me-ei ao que é seguro.
Nem importa mais do que isso. Às vezes, um pouco de mistério, dá “mais
encanto” às coisas. O Fado, como hoje é conhecido, tem registros escritos
desde 1830, mais ou menos. Mas temos que pensar que o Fado cantado é
antiqüíssimo e evoluiu muito, ao longo dos tempos. Sobretudo o chamado
“Fado-canção”, o fado autônomo e desvinculado da dança. Outra coisa. Há
muitos tipos de Fado, quer quanto às toadas musicais, quer quanto ao modo de
cantá-los. Fala-se, por exemplo, no Gingão, no Corrido, no
Rigoroso, no Fidalgo, no Menor, no Maior, no
Castiço, no Mouraria, no Dois Tons, no Canção, no
Três Tons, no de Coimbra. Isto, sem falar no Fado-dança:
o de umbigada, o Batido, o de Aparar, o Fora de
Portas, o das Esperas,o de Pernada etc. etc. Fala-se,
até, no Fado bailado! Nada disto, repito, são títulos de Fados. São
modos. Toadas. Jeitos de cantar ( e de dançar). Expressões que a tradição e
o improviso foram criando, conforme as épocas, os lugares e os cantadores.
Dia deste
quadro, é cada vez mais difícil precisar quando começou o Fado-Música.
Podemos dizer, com segurança, que o Fado é exclusivo de Portugal e que, em
suas formas mais simples (a modo de toadas ou lamentos) já por lá se cantava
desde a Idade Média. A ele alude Azurara - o cronista medieval, autor da
Crônica de Ceuta(1415) - , quando diz que, nas longas “esperas”
no cerco daquela Praça, cantavam-se fados “para espalhar os humores
merencórios” (para espalhar a melancolia).Atenção: este “espalhar”
não significa apaziguar ou distrair.Seguindo o latim, significa, antes,
“lançar ao vento”, “anunciar”, “dar vazão”. O que reforça a idéia de que se
tratava de cantares lamentosos. Caverel refere que foram encontradas dez
mil guitarras nos destroços da batalha de Alcácer Quibir!-1578. (Agora
entendo por que perdemos a batalha, perdemos o Rei (Dom Sebastião) e
perdemos a Pátria (para Castela!). Claro que é pura lenda! Mas isto aponta,
pelo menos, para o fato de que nossos exércitos e marinheiros já, nesses
tempos, tocavam guitarras e as levavam consigo para exprimir a
Saudade nas grandes viagens. Quanto aos aspetos musicais, o Fado tem
claríssimos elementos árabes (lembremo-nos de que estes povos – também
denominados de Mouros – viveram 700 anos na Península Ibérica e, em
Portugal, 500). O Fado tem, também, elementos do Canto Jondo, ou
Flamenco, da Andaluzia espanhola. Sobretudo, na “atitude” e no gingado, um
pouco histriônico, com que se canta. (Se puderem, vão, um dia, visitar El
Sacro Monte - em frente à cidade de Granada - para sentirem a ginga e
dramaticidade ciganas...).Mas, repito, o Fado é muito nosso, e do
nosso psiquismo, agravado por nossa herança céltica. E o que posso afirmar
com mais segurança ainda é que o Fado ganhou novos contornos temáticos no
Mar. No Mar Português. Nas grandes navegações marítimas. Basta pensar que,
quando Portugal chegou ao Brasil, tinha apenas um milhão de habitantes. Boa
parte da sua juventude masculina andava embarcada. E houve épocas em que, de
cada dez marinheiros, morriam sete. Em terra, ficavam as mulheres, os velhos
e as crianças. E ficariam cantando, lamentosamente, a ausência de seus
filhos, noivos e irmãos. Eram cantares, repito, normalmente, saudosos. Já em
1634, D. Francisco Manuel de Melo dizia que O amor e a distância são os
pais da saudade. E é verdade. Por isso não me canso de dizer: o Fado
Português, conforme ainda é cantado em muitos “lugares sagrados” lisboetas,
não nasceu, mas aprofundou-se, no Mar. Adensou-se na dor das travessias.
Tem razão a Cecília Meireles quando diz: Os náufragos não precisam de
chorar,/Todo o mar são lágrimas... E eu dou, também, total razão ao
nosso José Régio quando diz: O Fado nasceu um dia/ Em que o vento mal
bulia/ E o céu o mar prolongava,/ No peito de um marinheiro/ Que, estando
triste, cantava:/‘Ai que lindeza tamanha!/ Meu chão meu monte meu vale/ Vê
se vês terras d‘Espanha/ Areias de Portugal/ Olhar ceguinho de choro’. É
isso aí, Compadres. O nosso Marinheiro, mesmo com o “olhar ceguinho de
choro”, tentava, saudoso, avistar a sua terra. E por quê? Porque lá ficara
sua mãe e sua noiva. “Adeus, Mãe. Adeus, Maria./ Que aqui te faço uma
jura/ Que eu te levo à sacristia/ Ou foi Deus que foi servido/ Dar-me no mar
sepultura! Efetivamente, o Marinheiro da ficção morreu. Deixou mais uma
noiva por casar. Cumpriu o que também diz Fernando Pessoa: Quantas mães
choraram,/ Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!
Repito: o Marinheiro morreu. Muitos Marinheiros morreram. Mas
aprofundou-se o Fado Português! Abençoado Destino. Portugal também
tinha um “Fado”a cumprir: o de navegar. Ele cumpriu bem o que já
havia escrito um antigo navegador romano: Navegar é preciso/ Viver não é
preciso!
E já que
“Fado também é Cultura”, Compadres:, até à próxima!