Boletim Mensal * Ano V * Março de 2007 * Número 48

           
COLUNA DOS VINHOS

Ivo Amaral Junior

 

               Ilustres Compadres, terminando minha saga em Portugal, falta escrever sobre Lisboa. Demorei um pouco, mas o assunto Portugal é deveras interessante para se falar em um único artigo, mormente quando o escriba não é dos melhores, como é o caso.

                Assim, a minha epopéia em plagas lusitanas está chegando ao fim. Mas não antes de passar pelo Cabo da Roca, o ponto mais extremo da Europa continental onde metafisicamente me senti transformado num navegador português a admirar aquele mar bravio... 

 Coragem e admiração foram os sentimentos que vi aflorar naqueles bravos homens; mesmo diante de um destino desconhecido, lançar-se ao mar em busca do desconhecido, da aventura insana, do desbravamento do mundo, dentro das Caravelas... A emoção estava á flor da pele...

 Esse sentimento emocionado da mesma forma retornou em Lisboa, quando novamente olhei o mar, o Tejo, a igrejinha onde os navegadores pediam proteção antes de encarar a viagem para terras d´além mar...

                      São inesquecíveis a Torre de Belém e o monumento erigido para lembrar e homenagear os descobrimentos, o Mosteiro dos Jerônimos, o museu dos coches, o Castelo de São Jorge, na Alfama, pertinho da Mouraria, adentrar no portal da praça do comércio, passar pelo Rocio e baixa-chiado (onde abracei Fernando Pessoa – a estátua! Na Cafeteria a Brasileira) e andar admirando a arquitetura do bairro mais boêmio da cidade, o bairro alto. Até mesmo no parque das nações, nos centros comerciais (Vasco da Gama, Colombo e Amoreiras) e no oceanário, símbolo da modernidade de Lisboa, eu me senti outro.

                Também me senti outro ao comer o Bacalhau na brasa e sardinhas na Rua de Belém, acompanhado de um incógnito tinto safra 2002, em ótima forma (o vinho!). A sobremesa, aproveitando minha localização geográfica, foram quatro pastéis de Belém, legítimos, com vinho do Porto. Perto da Avenida da República tomei excelentes vinhos da Casa Emerlinda Freitas, com arroz de mariscos e também com bacalhau desfiado, banhado no azeite e gratinado com broa.

Eu não poderia findar essa série de artigos sem falar de seu Emílio, proprietário da Adega da Tia Matilde, o qual nos recebeu (eu e Celinha, como sempre!) de forma espetacular, degustando um tinto Casa Ferreirinha 1996 (quase um Barca-Velha), acompanhando um cabrito assado e um coelho guisado. E, no último dia de viagem, voltei ao restaurante, pois foi especialmente preparado um bacalhau com natas que foi o melhor prato da viagem, junto a um tinto Chaminé e outro Casa Ferreirinha  2002 (o bolso já dava sinais de esgotamento!).

                Foi um dos dias que me senti mais emocionado, conversando com seu Emílio, lembrando os antepassados e, saindo dali, admirei o encontro do Tejo com o mar, pela última vez, tive um pouco da agitação sentida pelo velho do Restelo, personagem de Camões, nos Lusíadas, e dei meu adeus a Portugal, envolto em lágrimas e lamentos, numa voz pesada e num discurso veemente (mesmo que internamente), quase condenando minha saída de lá para voltar ao Brasil (e para essa aventura insana – mas gostosa - de viver aqui), impelido pelo desejo de rever e conviver com meus entes queridos – juntamente com minha cara-metade – nossa maior riqueza. Essa era a minha cobiça, de estar no meu torrão natal, em terras ultramarinas. Tal qual aqueles corajosos navegadores portugueses... que admiravam aquele mar bravio... do Cabo da Roca ou daquela igrejinha onde pediam proteção antes de partir...

(Avançar para a página 4)

 

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