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1) Guitarra.
Guitarra portuguesa, claro. É que não há Fado sem guitarra. E não há genuína
guitarra de Fado que não seja a guitarra portuguesa. Poderia entrar em
detalhes técnicos ou históricos. Mas acho irrelevante. Prefiro, apenas,
dizer que a guitarra (a comum) foi introduzida, na Península Ibérica, pelos
árabes. Já no Séc.XII se distinguiam, na Espanha, a guitarra mourisca e a
guitarra latina. A guitarra portuguesa é mais misteriosa. Dos alaúdes
medievais, às cítaras renascentistas e cravos barrocos, a
nossa guitarra foi evoluindo... evoluindo... sempre na perseguição duma
sonoridade e timbre únicos. Trabalho, na maioria das vezes, dos próprios
guitarristas, (pensemos num José Maria dos Anjos, num Armandinho, num
Gonçalo e Manuel Paredes, no Artur Paredes, no Carlos Paredes, no
Carvalhinho, no Jaime Santos, no Domingos Moreira, no Raul Nery, no José
Nunes, no Fontes Rocha etc, etc) que buscavam, com ela, o coração do Povo e
o Infinito.
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Com seis pares de cordas metálicas (armadas em primas, segundas,
terceiras, bordão de primas, bordão de segundas, bordão de terceiras),
e afinação específica (dó, lá, fá, dó, lá, re), esta guitarra,
repito, tem seus mistérios. Para encurtar, prefiro apenas dizer-lhes que a
nossa guitarra tem a forma de coração! E basta! E também quero
dizer-lhes, bem alto, que esta guitarra é exclusivamente portuguesa.
Tão portuguesa como é o Fado, a palavra Saudade, o vinho do Porto, o vinho
Verde e o vinho da Madeira. Em qualquer parte do mundo, e em qualquer
língua, sempre esta guitarra é chamada de guitarra portuguesa (do
mesmo modo que o violão brasileiro, ou a viola portuguesa, são chamados de guitarra
espanhola).
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Pela nossa guitarra o Fado nasce e se sustenta. Por ela a alma portuguesa
tem quem a defina. Tinha toda a razão a Amália Rodrigues quando, um dia,
numa entrevista, disse: Logo depois do Mosteiro dos Jerónimos, deviam
declarar monumento nacional a Guitarra Portuguesa! Oh! Que grande
verdade! Mais: esta Guitarra, feita monumento, deveria ter assento dentro do
próprio Mosteiro dos Jerónimos. Ali estão, apenas, Vasco da Gama, Camões,
Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Ali estão representados os
navegadores e poetas do Mar e do Sonho, além do historiador da Pátria. Ali
está Portugal inteiro. Falta a guitarra portuguesa para fazer este Mar e
este Sonho vibrarem!
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2) Súplica.
Disse, no mês passado, que temos, entre nós, um fadista de linhagem: o
Compadre Henrique. Falta uma guitarra que o mereça. Mais: uma guitarra
que mereça o Fado! O nosso querido Fernando (o “guitarra portuguesa” que
acompanha o Henrique), não tem guitarra. Toca sempre com uma guitarra
emprestada! Mais: é uma guitarra que não vive com ele. Sempre que deseja
treinar um bocadinho, ou estudar um novo fado para nos brindar, tem que
pedir o instrumento emprestado! Quando o vejo tocar (tão artista e tão
desprovido!), lembro-me sempre do fado “Guitarra Triste” que a
nossa Amália cantou, em 1960, no Teatro Bobino de Paris! Creio
que, em 40 anos, não mais o cantou. Mas talvez o fizesse, aqui, se visse
o nosso brasileiro Fernando, fazendo de tudo para nos traduzir a alma
portuguesa, com uma guitarra emprestada! Sim. Estou certo
que a Amália me faria isso! Cantaria! O fado “Guitarra Triste”
(da autoria de Álvaro Simões, autor de muitos outros fados:
“Algemas”, “Não peças demais à Vida” ...etc. - e rapaz sempre
triste, a quem só o suicídio lhe acalmou a tristeza), “Guitarra
Triste”, repito, parece que foi cantado para o nosso “Fernando
sem Guitarra”. Foi um sucesso da Amália, no Bobino (teatro da
margem esquerda - “rive gauche”- de Paris, que não era tão glamuroso
como o Olympia (“rive droite”), mas que era o mais exigente de
toda a França. Para conquistar Paris, o artista tinha que brilhar nos
dois.E Amália brilhou. E brilhou tanto que foi “rainha” da França, por
40 anos. Rainha que recebeu do Chefe de Estado daquele país a sua a mais
alta condecoraçãos: a Legião de Honra. Mas, que diz o fado
“Guitarra Triste”? Diz que a guitarra é como a mulher: só a faz
vibrar de verdade quem a souber agarrar com jeito.Uma mulher/ É como
uma guitarra/ Não é qualquer/ Que a abraça e faz vibrar//Mas quem
souber/Na forma como a agarra/ Prende-lhe a alma/ Nas mãos que a sabem
tocar.Pois é, meus Compadres. No ano em que o Fado foi
declarado, pela UNESCO, “Obra-Prima do Patrimônio Imaterial da
Humanidade”, compete a nós todos mantê-lo e cultivá-lo. E como não
há Fado sem Guitarra Portuguesa, a nós compete unir-nos e conseguir uma.
Já que ainda não satisfizeram o desejo da Amália de “declarar a guitarra
como monumento nacional”, vamos, nós, erguer este “monumento” aqui na
Academia do Bacalhau! Não haverá um, dois, três...empresários que
celebrem esse gesto de ajudar a não deixar morrer o Fado?! “Amália,
ne laisse pas mourir le Fado!”- cantava, por toda a Paris, uma bela
voz de emigrante portuguesa: Linda de Suza (“Amália, não deixes morrer o
Fado”). De fato, Amália nunca deixou o Fado morrer. Mas morreu ela.
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Agora, compete a nós continuar. A nós, e a todos os amigos de Portugal
e das coisas da sua alma. Compete aos mais de quatro milhões de
emigrantes, em noventa países, cultivar e dar a conhecer um valor que,
hoje, se tornou Cultura Universal.Comprar-se uma boa guitarra portuguesa
para que um brasileiro consiga definir-nos melhor, é investir no
que é nosso. Nem precisava ser uma doação ao Fernando.
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Poderia ser um empréstimo em Comodato.A guitarra
pertenceria sempre, ou ao “Conselho da Comunidade”, ou, melhor ainda, à
“Academia do Bacalhau”. Mas ficaria com o Fernando. Dormiria com ele.
Seria sua companheira íntima e sua confidente. Assim, ganharíamos todos.
E, também assim, se realizariam os últimos versos do nosso Fado:
Guitarra triste/ Que buscas um confidente/ Nas mãos de quem não sente/ O
pranto que ela diz! Amigos Empresários. Repito, vamos, por nossa
conta, “erguer”, entre nós, este monumento nacional! Já, há muito tempo
atrás, falei, ao ouvido de dois dos nossos Empresários. Disseram que
sim, na hora. Mas esqueceram. É como o Fado: nasce enquanto se canta e
morre quando as luzes se acendem... Mas, desta vez, espero que não será
assim. E, se conseguirmos, poderei repetir que, afinal, o “Fado não é só
Cultura – é, também, Súplica”!