Boletim Mensal * Ano V * Março de 2007 * Número 48

           

 

Fado... também é cultura

Alfredo Antunes

 

    Amigos. A “coluna” de hoje, vai ser, também, vária. Falarei, como disse, de Guitarra e de Súplica.

    1) Guitarra. Guitarra portuguesa, claro. É que não há Fado sem guitarra. E não há genuína guitarra de Fado que não seja a guitarra portuguesa. Poderia entrar em detalhes técnicos ou históricos. Mas acho irrelevante. Prefiro, apenas, dizer que a guitarra (a comum) foi introduzida, na Península Ibérica, pelos árabes. Já no Séc.XII se distinguiam, na Espanha, a guitarra mourisca e a guitarra latina. A guitarra portuguesa é mais misteriosa. Dos alaúdes medievais, às cítaras renascentistas e cravos barrocos, a nossa guitarra foi evoluindo... evoluindo... sempre na perseguição duma sonoridade e timbre únicos.  Trabalho, na maioria das vezes, dos próprios guitarristas, (pensemos num José Maria dos Anjos, num Armandinho, num Gonçalo e Manuel Paredes, no Artur Paredes, no Carlos Paredes, no Carvalhinho, no Jaime Santos, no Domingos Moreira, no Raul Nery, no José Nunes, no Fontes Rocha etc, etc) que buscavam, com ela, o coração do Povo e o Infinito.
                Com seis pares de cordas metálicas (armadas em primas, segundas, terceiras, bordão de primas, bordão de segundas, bordão de terceiras), e afinação específica (dó, lá, fá, dó, lá, re), esta guitarra, repito, tem seus mistérios. Para encurtar, prefiro apenas dizer-lhes que a nossa guitarra tem a forma de coração! E basta! E também quero dizer-lhes, bem alto, que esta guitarra é exclusivamente portuguesa. Tão portuguesa como é o Fado, a palavra Saudade, o vinho do Porto, o vinho Verde e o vinho da Madeira. Em qualquer parte do mundo, e em qualquer língua, sempre esta guitarra é chamada de guitarra portuguesa (do mesmo modo que o violão brasileiro, ou a viola portuguesa, são chamados de guitarra espanhola).                
    Pela nossa guitarra o Fado nasce e se sustenta. Por ela a alma portuguesa tem quem a defina. Tinha toda a razão a Amália Rodrigues quando, um dia, numa entrevista, disse: Logo depois do Mosteiro dos Jerónimos, deviam declarar monumento nacional a Guitarra Portuguesa! Oh! Que grande verdade! Mais: esta Guitarra, feita monumento, deveria ter assento dentro do próprio Mosteiro dos Jerónimos. Ali estão, apenas, Vasco da Gama, Camões, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Ali estão representados os navegadores e poetas do Mar e do Sonho, além do historiador da Pátria. Ali está Portugal inteiro. Falta a guitarra portuguesa para fazer este Mar e este Sonho vibrarem!
     
        2) Súplica. Disse, no mês passado, que temos, entre nós, um fadista de linhagem: o Compadre Henrique. Falta uma guitarra que o mereça. Mais: uma guitarra que mereça o Fado! O nosso querido Fernando (o “guitarra portuguesa” que acompanha o Henrique), não tem guitarra. Toca sempre com uma guitarra emprestada! Mais: é uma guitarra que não vive com ele. Sempre que deseja treinar um bocadinho, ou estudar um novo fado para nos brindar, tem que pedir o instrumento emprestado! Quando o vejo tocar (tão artista e tão desprovido!), lembro-me sempre do fado “Guitarra Triste” que  a nossa Amália cantou, em 1960, no Teatro Bobino de Paris! Creio que, em 40 anos, não mais o cantou. Mas talvez o fizesse, aqui, se visse o nosso brasileiro Fernando, fazendo de tudo para nos traduzir a alma portuguesa, com uma guitarra emprestada!                Sim. Estou certo que a Amália me faria isso! Cantaria! O fado “Guitarra Triste” (da autoria de Álvaro Simões, autor de muitos outros fados: “Algemas”, “Não peças demais à Vida” ...etc. - e rapaz sempre triste,  a quem  só o suicídio lhe acalmou a tristeza), “Guitarra Triste”, repito, parece que foi cantado para o nosso “Fernando sem Guitarra”. Foi um sucesso da Amália, no Bobino (teatro da margem esquerda -  “rive gauche”-  de Paris,  que não era tão glamuroso como o Olympia (“rive droite”), mas que era o mais exigente de toda a França. Para conquistar Paris, o artista tinha que brilhar nos dois.E Amália brilhou. E brilhou tanto que foi “rainha” da França, por 40 anos. Rainha que recebeu do Chefe de Estado daquele país a sua a mais alta condecoraçãos: a Legião de Honra. Mas, que diz o fado “Guitarra Triste”? Diz que a guitarra é como a mulher: só a faz vibrar de verdade quem a souber agarrar com jeito.Uma mulher/ É como uma guitarra/ Não é qualquer/ Que a abraça e faz vibrar//Mas quem souber/Na forma como a agarra/ Prende-lhe a alma/ Nas mãos que a sabem tocar.Pois é, meus Compadres. No ano em que o Fado foi declarado, pela UNESCO, “Obra-Prima  do Patrimônio Imaterial da Humanidade”, compete a nós todos mantê-lo e cultivá-lo. E como não há Fado sem Guitarra Portuguesa, a nós compete unir-nos e conseguir uma. Já que ainda não satisfizeram o desejo da Amália de “declarar a guitarra como monumento nacional”, vamos, nós, erguer este “monumento” aqui na Academia do Bacalhau! Não haverá um, dois, três...empresários que celebrem esse gesto de ajudar a não deixar morrer o Fado?! “Amália, ne laisse pas  mourir le Fado!”- cantava, por toda a Paris, uma bela voz de emigrante portuguesa: Linda de Suza (“Amália, não deixes morrer o Fado”). De fato, Amália nunca deixou o Fado morrer. Mas morreu ela.  
    Agora, compete a nós continuar. A nós, e  a todos os amigos de Portugal e das coisas da sua alma. Compete aos mais de quatro milhões de emigrantes, em  noventa países, cultivar e dar a conhecer um valor que, hoje, se tornou Cultura Universal.Comprar-se uma boa guitarra portuguesa para que um brasileiro consiga definir-nos melhor, é investir no que é nosso. Nem precisava ser uma doação ao Fernando.            
    Poderia ser um empréstimo em Comodato.A guitarra pertenceria sempre, ou ao “Conselho da Comunidade”, ou, melhor ainda, à “Academia do Bacalhau”. Mas ficaria com o Fernando. Dormiria com ele. Seria sua companheira íntima e sua confidente. Assim, ganharíamos todos. E, também assim, se realizariam os últimos versos do nosso Fado: Guitarra triste/ Que buscas um confidente/ Nas mãos de quem não sente/ O pranto que ela diz! Amigos Empresários. Repito, vamos, por nossa conta, “erguer”, entre nós, este monumento nacional! Já, há muito tempo atrás, falei, ao ouvido de dois dos nossos Empresários. Disseram que sim, na hora. Mas esqueceram. É como o Fado: nasce enquanto se canta e morre quando as luzes se acendem... Mas, desta vez, espero que não será assim. E, se conseguirmos, poderei repetir que, afinal, o “Fado não é só Cultura – é, também, Súplica”!

    Até à próxima!                                                 (Avançar para a página 5)

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