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Boletim Mensal * Ano IV * Setembro de 2006 * Número 43 |
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Fado... também é cultura Alfredo Antunes
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Caros Compadres e Comadres. Tive uma idéia. Que tal abrirmos, no nosso Cantinho, uma coluna mensal sobre o Fado? Aceitam? Eu acho que não seria um despropósito; até porque, falar de Fado seria, um pouco, como falar da nossa alma portuguesa. Não sou eu quem o diz. Já em 1958, cantava a velha Lucília do Carmo (mãe do Carlos do Carmo) um fadinho gostoso que dizia: Três coisas fazem vibrar/ A alma do Zé Povinho/ A trindade popular:/ Guitarras, mulheres e vinho”. Falar de guitarras, mulheres e vinho é o mesmo que falar de Fado, Amor e Vinho, Não acham? Evidentemente que sobre o Vinho não vou falar. Já o faz - e sabiamente - o nosso Compadre Ivo Amaral. Sobre o Amor (ai de mim!) Quem sou eu, para falar sobre esse “fogo que arde sem se ver; “essa ferida que dói e não se sente”; “esse contentamento descontente”, no dizer do nosso Camões?! Nem sei exatamente o que é. A não ser que Amor seja aquilo que sentimos por nossas esposas e maridos; aquilo que sentimos por nossos filhos e nossos amigos; aquilo, até, de gostoso, que perpassa em nossas almas quando, Comadres e Compadres, nos reunimos nos jantares do bacalhau. Sim. Acho que Fado e Amor têm muito a ver com o bacalhau e com as coisas da alma. Já pensaram em coisa mais gostosa do que comer um bom bacalhau, acompanhado de um bom vinho, e escutando o fado ao lado de quem se ama?!
Pois é. Tudo isto, para ver se vos convenço a aceitar a minha coluna sobre o Fado. Alguém poderá dizer: quem diria ! - o Prof. Alfredo, o homem da Academia, o intelectual, o filósofo ... falar de Fado! Pois é, meus Amigos : ninguém é perfeito! Aliás, já diziam os romanos: aliquando dormitat Homerus. Que quer dizer: “de vez em quando até Homero dá um cochilo!”.Ou, numa tradução bem portuguesa: “de vez em quando até os grandes homens dizem besteira”! Mas neste caso, meus Amigos, estou muito tranqüilo e à vontade. Primeiro, porque não sou “grande homem”; depois, porque o Fado não é nenhuma “besteira”. Fado é coisa séria. Mais: Fado também é Cultura!
Depois de uma introdução tão longa, apetece perguntar: afinal o que é, mesmo, Fado? Do latim, fatum, Fado quer dizer: “destino”, “ sorte”, “sina” “ má fortuna”. Com este sentido específico – quase sempre na forma negativa – a palavra “fado” é muito usada pelos clássicos: Ah! Não fora este o meu triste fado!”, diz, por exemplo, Camões na sua Lírica. Pois é, caros Compadres. Se Fado é destino; cantar o Fado é cantar o destino: próprio ou alheio. E quando se mexe com a vida de alguém, não se trata de besteira nem de brinquedo. Trata-se de coisa séria. Tão séria, que geralmente se diz que o significado profundo do Fado constitui uma das bases sobre a qual assenta o nosso psiquismo lusíada, herdado dos gregos. Mais: só pode ser verdadeiramente fadista - diz a nossa Amália – quem, primeiro, tiver sofrido a valer. Ou - para continuar com a Amália – Há uns que nascem para ser felizes e outros para ser fadistas. É por esta seriedade íntima, que o Fado é sempre cantado em silencio ( Silêncio! Que se vai cantar o Fado! – conclama uma voz, enquanto as luzes se apagam e só ficam velas e sombras). É por isso que o Fado se canta quase sempre de olhos fechados ( E canto de olhos fechados/ Pra olhar pro coração – cantava Amália). É como se se dissesse : respeitem o Destino pessoal que o cantador ou a cantadeira (assim se diz) vai revelar para vocês. Façam silêncio, porque , como diz outro fado, alguém, aqui, vai pôr o coração na mão/ E cantar o que ele disser. Desculpem, Comadres e Compadres. Fui pesado. Sei. Mas, até à próxima. E não esqueçam: “Fado também é Cultura!”
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