OS 10 MELHORES POEMAS DE CHARLES BUKOWSKI

Eis a lista baseada no número de citações obtidas. Os poemas selecionados foram publicados nos livros “Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski, editora Bertrand Brasil; “O Amor é um Cão dos Diabos” e “Textos Autobiográficos”, L&Pm Editores; e “Sifting Through the Madness for the Word, the Line, the Way: New Poems”. Por motivo de direitos autorais, foram publicados apenas trechos dos poemas.

o pássaro azul

há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja. há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas eu despejo uísque sobre ele e inalo fumaça de cigarro e as putas e os atendentes dos bares e das mercearias nunca saberão que ele está lá dentro. há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, quer acabar comigo? (…) há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou bastante esperto, deixo que ele saia somente em algumas noites quando todos estão dormindo. eu digo: sei que você está aí, então não fique triste. depois, o coloco de volta em seu lugar, mas ele ainda canta um pouquinho lá dentro, não deixo que morra completamente e nós dormimos juntos assim como nosso pacto secreto e isto é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e você?

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então queres ser um escritor?

se não sai de ti a explodir apesar de tudo, não o faças. a menos que saia sem perguntar do teu coração, da tua cabeça, da tua boca das tuas entranhas, não o faças. se tens que estar horas sentado a olhar para um ecrã de computador ou curvado sobre a tua máquina de escrever procurando as palavras, não o faças. se o fazes por dinheiro ou fama, não o faças. se o fazes para teres mulheres na tua cama, não o faças. se tens que te sentar e reescrever uma e outra vez, não o faças. se dá trabalho só pensar em fazê-lo, não o faças. se tentas escrever como outros escreveram, não o faças. se tens que esperar para que saia de ti a gritar, então espera pacientemente. se nunca sair de ti a gritar, faz outra coisa. se tens que o ler primeiro à tua mulher ou namorada ou namorado ou pais ou a quem quer que seja, não estás preparado. não sejas como muitos escritores, não sejas como milhares de pessoas que se consideram escritores, não sejas chato nem aborrecido e pedante, não te consumas com auto-devoção. as bibliotecas de todo o mundo têm bocejado até adormecer com os da tua espécie. não sejas mais um. não o faças. a menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio, não o faças. a menos que o sol dentro de ti te queime as tripas, não o faças. quando chegar mesmo a altura, e se foste escolhido, vai acontecer por si só e continuará a acontecer até que tu morras ou morra em ti. não há outra alternativa. e nunca houve.

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quatro e meia da manhã

os barulhos do mundo com passarinhos vermelhos, são quatro e meia da manhã, são sempre quatro e meia da manhã, e eu escuto meus amigos: os lixeiros e os ladrões e gatos sonhando com minhocas, e minhocas sonhando os ossos do meu amor, e eu não posso dormir e logo vai amanhecer, os trabalhadores vão se levantar e eles vão procurar por mim no estaleiro e dirão: “ele tá bêbado de novo”, mas eu estarei adormecido, finalmente, no meio das garrafas e da luz do sol, toda a escuridão acabada, os braços abertos como uma cruz, os passarinhos vermelhos voando, voando, rosas se abrindo no fumo e como algo esfaqueado e cicatrizando, como 40 páginas de um romance ruim, um sorriso bem na minha cara de idiota.

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poema nos meus 43 anos

terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida— careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto. …de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores , médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi… e você se vira para o lado pra pegar o sol nas costas e não direto nos olhos.

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uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos

é muito fácil parecer moderno enquanto se é o maior idiota jamais nascido; eu sei; eu joguei fora um material horrível mas não tão horrível como o que leio nas revistas; eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais que não me deixará fingir que sou uma coisa que não sou — o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa na poesia e o fracasso de uma pessoa na vida. e quando você falha na poesia você erra a vida, e quando você falha na vida você nunca nasceu não importa o nome que sua mãe lhe deu. as arquibancadas estão cheias de mortos aclamando um vencedor esperando um número que os carregue de volta para a vida, mas não é tão fácil assim — tal como no poema se você está morto você podia também ser enterrado e jogar fora a máquina de escrever e parar de se enganar com poemas cavalos mulheres a vida: você está entulhando a saída — portanto saia logo e desista das poucas preciosas páginas.

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outra cama

outra cama outra mulher mais cortinas outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. todos à procura. a busca eterna. você fica na cama ela se veste para o trabalho e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela… é tudo tão confortável — esse fazer amor esse dormir juntos a suave delicadeza… após ela sair você se levanta e usa o banheiro dela, é tudo tão intimidante e estranho. você retorna para a cama e dorme mais uma hora. quando você vai embora é com tristeza mas você a verá novamente quer funcione, quer não. você dirige até a praia e fica sentado em seu carro. é meio-dia. — outra cama, outras orelhas, outros brincos, outras bocas, outros chinelos, outros vestidos cores, portas, números de telefone. você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho. para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais sensato. você dá a partida no carro e engata a primeira, pensando, vou telefonar para janie logo que chegar, não a vejo desde sexta-feira.

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um poema de amor

todas as mulheres todos os beijos delas as formas variadas como amam e falam e carecem. suas orelhas elas todas têm orelhas e gargantas e vestidos e sapatos e automóveis e ex- maridos. principalmente as mulheres são muito quentes elas me lembram a torrada amanteigada com a manteiga derretida nela. há uma aparência no olho: elas foram tomadas, foram enganadas. não sei mesmo o que fazer por elas. sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte mas nunca aprendi a dançar — eu estava ocupado com coisas maiores. mas gostei das camas variadas lá delas fumar um cigarro olhando pro teto. não fui nocivo nem desonesto. só um aprendiz. sei que todas têm pés e cruzam descalças pelo assoalho enquanto observo suas tímidas bundas na penumbra. sei que gostam de mim algumas até me amam mas eu amo só umas poucas. algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas; outras falam mansamente da infância e pais e paisagens; algumas são quase malucas mas nenhuma delas é desprovida de sentido; algumas amam bem, outras nem tanto; as melhores no sexo nem sempre são as melhores em outras coisas; todas têm limites como eu tenho limites e nos aprendemos rapidamente. todas as mulheres todas as mulheres todos os quartos de dormir os tapetes as fotos as cortinas, tudo mais ou menos como uma igreja só raramente se ouve uma risada. essas orelhas esses braços esses cotovelos esses olhos olhando, o afeto e a carência me sustentaram, me sustentaram.

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já morreu

sempre quis transar com henry miller, ela disse, mas quando cheguei lá era tarde demais. diabos, eu disse, vocês sempre chegam tarde demais, garotas. hoje já me masturbei duas vezes. não era esse o problema dele, ela disse. a propósito como você consegue bater tantas? é o espaço, eu digo, todo o espaço entre os poemas e os contos, é intolerável. você deveria esperar, ela disse, você é impaciente. o que você pensa de céline? perguntei. queria transar com ele também. já morreu, eu disse. já morreu, ela disse. importa-se de ouvir uma musiquinha? perguntei. pode ser legal, ela disse. dei-lhe ives. era tudo que me restava naquela noite.

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Encurralado

bem, eles diziam que tudo terminaria assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca da palavra ouvindo os passos na escuridão, volto-me para olhar atrás de mim… ainda não, velho cão… logo em breve. agora eles se sentam falando sobre mim: “sim, acontece, ele já era… é triste…” “ele nunca teve muito, não é mesmo?” “bem, não, mas agora…” agora eles celebram minha derrocada em tavernas que há muito já não frequento. agora bebo sozinho junto a essa máquina que mal funciona enquanto as sombras assumem formas combato retirando-me lentamente agora minha antiga promessa definha definha agora acendendo novos cigarros servido mais bebidas tem sido um belo combate ainda é.

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confissão

esperando pela morte como um gato que vai pular na cama sinto muita pena de minha mulher ela vai ver este corpo rijo e branco vai sacudi-lo talvez sacudi-lo de novo: hank! e hank não vai responder não é minha morte que me preocupa, é minha mulher deixada sozinha com este monte de coisa nenhuma. no entanto eu quero que ela saiba que dormir todas as noites a seu lado e mesmo as discussões mais banais eram coisas realmente esplêndidas e as palavras difíceis que sempre tive medo de dizer podem agora ser ditas: eu te amo.

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