Bullets In Blue Sky

Tiros No Céu Azul

Capítulo 5: Duetos, parte 1: Canon


(Contém Spoilers do filme End of Evangelion. Ainda que isso seja uma interpretação pessoal de alguns momentos do filme.)

“Raiden... Raiden! Você pode me ouvir?”

Cinco minutos passaram desde que a foto foi mandada pela internet. Cinco minutos tranqüilos, que tirando a conversa com o tenente Mendes, se passaram na maior tranqüilidade e num quase silêncio. Raiden jurou que ouviu os filhotinhos do passarinho amarelo gritarem, provavelmente pedindo comida. Apesar do desespero notável em seus suplícios, aquilo era tão sadicamente agradável. Foi só pensar nisso que seu coração mole logo desejou que os pequenos fossem finalmente saciados mesmo isso significando o fim daquela gritaria simpática e quase inaudível.

- Olá coronel! - Raiden tentou ser sarcástico. Falhou miseravelmente. Um pouco de tempo na companhia de Snake talvez ajudasse. E isso lhe parecia cada dia mais próximo.

“Escute, eu sei que esse trabalho é estressante. Vocês estão no meio da selva, acordando e indo dormir com tiros... e sem TV! Eu sei que isso é terrível, eu não conseguiria ficar sem assistir American Idol por mais de uma semana. Mas você tem que se manter sobre controle! E por favor, não fique tirando fotos de pássaros com filhotes, as pessoas vão pensar coisas erradas sobre você!”

E começou a tortura. Roy Campbell quando começava a falar não parava mais. Os anos estavam fazendo ele perder aquela objetividade característica de qualquer oficial tático. Pior ainda, a rispidez de um coronel. Qualquer um pensaria que isso é uma bobagem, que ter alguém mais humano no comando acaba deixando as coisas muito mais fáceis. Isso é meia verdade. Ainda mais se tratado de Campbell, que estava pegando o costume de beber alguma coisa com o teor alcoólico muito acima do convencional antes de qualquer missão. Era levando esse tipo de coisa em consideração que Raiden se sentia feliz pelo amigo não ser um oficial de campo. Bêbados em campo era realmente uma coisa triste. Os sul-americanos tinham o péssimo costume de após uma vitória, introduzirem dois ou três dias de luto a qualquer bebida que não contivesse álcool. Era impressionante como as barracas destinadas a bebidas nunca sofriam racionamento, ao contrário das de comida.

- Certo, desculpe coronel. - Jack Raiden sentiu uma súbita vontade de responder a última provocação de Campbell. O argumento de ser casado com uma bela como Rose e ter filhos com ela não era de forma nenhuma uma contra-resposta de se jogar fora.

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Não restava muita coisa naquele dia para Soryu Asuka Langley se não dormir. Ou comer. Já eram quase sete horas da noite e a última coisa que ela comeu foi... foi... Asuka não se lembrava, mas sabia que tinha sido na hora do almoço e que foi horrível. A culinária não era seu forte e ela sabia disso. Por mais estranho que pareça, a garota perfeição nunca trabalhou para mudar esse fato. Por mais que tenha se preocupado a vida toda em ser a dona de si própria, sempre teve alguém cuidando de uma coisinha ou outra na vida dela, e comida era uma delas. Claro, ela não era uma decepção como Misato, conseguia até fazer três ou quatro pratos alemães que ficavam excelentes, e não foram poucas as vezes que foi elogiada por isso. O problema é que ela estava no oriente, no Japão. E a preferência culinária era muito diferente da ocidental. E ela não sabia nada de cozinha japonesa. Não podia arriscar-se em nenhuma receita japonesa sem que saísse algo péssimo, e matar as pessoas por intoxicação alimentar era algo que ela preferia que ficasse exclusivo de Misato.

Mas... ela nunca se preocupou com outras pessoas antes. Por que não simplesmente cozinhar o que ela melhor sabia e deixar de se preocupar com o que Misato e Shinji achariam da comida alemã? Pelo simples motivo de não haver ingredientes ali para isso. E se quisesse compra-los, teria que ela própria arcar com a despesa. Ordens da Misato.

Bom, de qualquer forma, Asuka não estava com fome. E nem sono. Por mais que tivesse tentado, não conseguiu manter os olhos fechados por mais de um minuto. Não custa tentar de novo, não é? Foi o que ela fez e estava quase tendo sucesso se não fosse por um violoncelo. Depois do som do instrumento invadir seu quarto pela porta entreaberta e acabar com toda a tranqüilidade do ambiente ela se obrigou a levantar e fazer-se ouvir.

- Para de tocar essa droga! Eu to tentando dormir!

Pronto. A tranqüilidade voltou a reinar no quarto de Asuka. Junto dela o arrependimento. Por mais que nos momentos iniciais a melodia tenha sido irritante, chegando ao ponto de nem ser considerada uma melodia, provavelmente devido ao fato de que o instrumento precisasse ser afinado, após um tempo ela tinha se tornado algo extremamente agradável e que inevitavelmente a levaria a dormir. Só que ela era Soryu Asuka Langley e tinha que alertar aos outros de sua presença. E então ela gritou. E então a melodia parou.

Foi uma das poucas vezes que ela se sentiu arrependida de ter reprimido Shinji Ikari. Um infeliz pensamento de se levantar e ir até a sala se desculpar passou pela cabeça. Seu ego tratou de chuta-lo de lá o mais rápido possível. E se... ela ainda se levantasse e fosse até a fonte da melodia cessada e pedisse... mandasse que o menino continuasse a tocar? Era uma boa idéia. Ela não perderia a majestade e ele se sentiria honrado com um pedido desse. Ou pressionado. Mas quem ligaria para isso? Asuka com certeza não.

E então ela se levantou, apenas para parar na metade do caminho ao ouvir outro som. As cordas de outro instrumento enchiam o apartamento de notas musicais, por um breve momento elas foram disformes e desajeitadas, mas foi por que aquele também precisou ser afinado. Seu ouvido de aspirante à música dizia que aquele som só poderia pertencer a um violão. Tão logo o violão se pôs em perfeito estado para tocar, uma nova sucessão rítmica de notas musicais começou. Até um amador poderia enxergar que aquele som era mais técnico e executado com mais agilidade e perfeição. Por mais que Shinji fosse bom, aquele não poderia ser ele pelo simples fato dele não saber tocar violão.

Ou será que... Não! Não pode ser! QUE DROGA! EM ALGUMA COISA ELE TEM QUE SER PIOR DO QUE EU! A ruiva pensou com raiva e tratou de acelerar o passo até a fonte da música. Nem o fato de um violoncelo ter começado a acompanhar o violão fez a decidida Asuka parar. Empurrou a porta sem medir forças e andou pelo corredor até chegar na sala. De alguma forma ela conseguiu se controlar e pôs apenas o olho bom na esquina e ficou observando a cena. Para seu alívio quem tocava o violão era Mark, e Shinji acompanhava com o violoncelo. De começo estranhou um pouco a música em que tocavam, já que um dueto daqueles dois instrumentos não era muito convencional, mas era a inconfundível Canon de Johann Pachelbel, uma das poucas músicas clássicas que a ruiva suportava, e ao mesmo tempo uma de suas preferidas. Os quatro pilotos: Asuka, Shinji, Rei e Kaworu chegaram a tocar juntos uma vez, mas nem de longe que tinham conseguido tamanha harmonia e perfeição quanto o dueto entre Shinji e o segurança excêntrico, apesar dos dois instrumentos não combinarem tanto, pelo menos na opinião de Asuka.

- Ta legal Shinji, mas... - Mark falou após ambos pararem de tocar.

- Falta alguma coisa não é? - O garoto completou.

- É... falta paixão, agressividade! - Ele disse num tom teatral e começou a rir, o garoto logo o acompanhou. Até Snake, que ainda estava encostado na parede esboçou um sorriso - Não acha, Asuka?

Asuka achou que tinha passado despercebida, mas Goodspeed já havia notado sua presença fazia muito tempo. Desde a chegada dela até a recente conversa que teve com Shinji, ficou observando a reação da ruiva com o canto dos olhos, imperceptíveis devido aos óculos que usava. Ela não respondeu, ficou ali parada e em seguida atraindo os olhares dos outros dois ocupantes da casa. Sentiu seu rosto ficar rosado, mas que logo deu lugar a um olhar de desaprovação e raiva. Ok, ela gostava de ser o centro das atenções, mas aquilo ali já era ridículo. E então sumiu de volta para o seu quarto. E é claro que eles ouviram o som de uma porta batendo.

- Por que ela ficou assim? - Shinji perguntou sem esperanças de uma resposta.

- Não sei, mas acho que provocamos ela.

- Você provocou! - Snake corrigiu o amigo. - Eu vou indo, não quero ficar para ver a Blitzkrieg alemã... - Pegou um cigarro e foi em direção da porta. Mas parou quando ouviu um barulho conhecido. Era a porta de Asuka batendo novamente. Ele se perguntou se aquela garota alguma vez na vida ouviu falar de delicadeza. Hmm, acho que vou ficar pra ver o que acontece. Mas de longe... Ele pensou a última parte com uma feição preocupada e sentou numa cadeira na cozinha, longe o bastante para ficar fora do alcance de qualquer objeto que pudesse ser arremessado nos dois músicos.

- Então você quer paixão e agressividade não é? - Asuka perguntou irritada. Ela tinha um objeto grande na mão e podia usa-lo a qualquer momento.

Mas o que ela fez surpreendeu a todos, até o confiante Mark, que já tinha jogado o violão no sofá para protege-lo. Ela abriu o objeto em suas mãos, que acabou se revelando um case, assim como os outros dois ali no chão, obviamente este era menor, pois comportava um instrumento pequeno. Asuka tirou um violino e seu arco dali de dentro e jogou a caixa preta no chão.

Sentou em uma poltrona que dava de frente para os dois instrumentistas e começou a se preparar. Posicionou o violino no ombro esquerdo e deitou o rosto nele, pegou o arco e o aproximou das cordas. E começou a tocar. O que os dois homens e o garoto viram foi uma exibição esbanjando uma técnica extraordinária não só na postura quanto na forma de tocar e uma agilidade incrível, ainda mais pelo seu braço enfaixado, mesmo que nenhuma dor a incomodasse, ainda assim as ataduras limitavam um pouco os movimentos, Asuka pareceu ignorar isso e adaptou-se sem problemas àquela condição. Havia começado com agressividade, como se quisesse chamar a atenção - mais ainda - da sua pequena platéia. Como planejado, logo conquistou os espectadores e pode diminuir a velocidade, não que estivesse cansada, mas por que queria mostrar que dominava plenamente as técnicas do instrumento. Harmônicos suaves davam lugar a vibratos agressivos, e vice versa. Vez ou outra eram intercalados por pizzicatos ou notas duplas. Quando aquilo estava quase caminhando para um progressivo excêntrico, a ruiva voltou a tocar uma bela melodia, mas que ninguém reconheceu. Ou era de autoria dela ou uma improvisação momentânea. De qualquer forma, ela não deixava de ser bela, e cheia de paixão e agressividade.

Enquanto ela tocava, sem perceber um sorriso surgia em seu rosto. Mal podia acreditar ter ficado tanto tempo sem tocar o velho instrumento de herança de família, herdado diretamente de sua mãe. Talvez a única coisa que tenha sobrado de Kyoko Zeppelin, o resto como fotos e objetos pessoais a própria Asuka tratou de dar fim, mesmo contra os protestos da família. Quando foram ver já não havia mais nada. No entanto, aquele violino sobreviveu de alguma forma e apareceu na casa de Asuka poucos dias antes dela viajar para o Japão. Quando aquelas lembranças ruins começaram a tomar conta de sua mente, o sorriso foi sumindo. Mas antes dele se esvair completamente ela parou a música. Encarou os olhares impressionados, inclusive o de Goodspeed, que chegou a tirar os óculos ao presenciar a exibição da ruiva, então ela forçou o riso mais sarcástico que conseguiu, ignorando os pensamentos ruins anteriores.

- Acho que estou um pouco enferrujada...

- Isso foi incrível... - Mark sabia que ela tocava bem. A ficha da garota dizia: demonstra domínio com instrumentos musicais, em particular violino. Mas aquilo ali era ridículo, ela simplesmente tinha se mostrado capaz de participar de qualquer orquestra do mundo.

- Você acha? - Ela perguntou com tom e cara de garota inocente.

- É, foi legal. - Uma voz grave e rouca comentou da cozinha. Seguida de uma risadinha sarcástica. Se pretendia provocar Asuka, não conseguiu.

- Shinji? - Ela perguntou encarando o garoto. A garotinha inocente sumiu e deu lugar a Asuka de sempre.

- Asuka, você foi... fantástica!

- Há! Sempre! - Nem a excitação nas palavras do garoto a impediram de responder de forma debochada.

- E então? Pachebel’s Canon? - Mark não esperou a resposta das crianças, começou logo a tocar os primeiros acordes.

- De novo? Ah, vou pra casa! - Snake falou da cozinha e se levantou.

- Se quiser podemos tocar um Metallica, Pliskin! - O rapaz falou e deu uma risada, sabia que Snake não gostava da banda, mas mesmo assim não perdeu a oportunidade de brincar.

- Ah, vai pro... - Ele mesmo se silenciou ao bater a porta da casa.

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- NÃO! MEU CARRO!

- Era ele ou nós, Natasha! - Kaji disse com as mãos nos ombros da russa ajoelhada.

Atrás deles um buraco gigantesco com fumaça saindo de dentro. Algumas explosões seguiram as palavras do homem. E então rodas e pedaços da carcaça dos caminhões voaram da abertura no chão e passaram rentes ao par. Graças ao movimento rápido de Kaji, que se jogou junto com a moça no chão, ambos saíram ilesos. A russa pareceu não ligar nem para o movimento brusco do companheiro nem para os objetos que quase os atingiu, ela continuava chorando a perda de seu veículo.

- Por que você não foi mais cuidadoso! - E puxou o rabo-de-cavalo dele.

- AAI! Mais cuidadoso? Como? Eu tive que pegar a pistola no porta-malas! COM O CARRO EM MOVIMENTO! - Kaji não era alguém de se irritar, mas passar pelo que ele passou durante a perseguição deixaria qualquer um alterado. Ainda foi tentar consolar a russa e quase teve o cabelo arrancado.

- Como eu vou fazer agora? Não se encontra uma Ferrari conversível no Japão com facilidade! - E se desatou a chorar mais uma vez.

Ryouji Kaji podia até estar irritado, mas ver aquela mulher linda na sua frente, chorando e parecendo tão frágil fez com que a raiva desaparecesse completamente. Sentou ao lado da loira e pôs seus braços envolta dela, o que fez Natasha voltar a atenção para ele, apesar de nitidamente ela não parecer confortável, não negou o consolo do companheiro em armas. Eles ficaram ali por algum tempo, até que uma luz iluminou a brilhante mente do homem de rabo-de-cavalo. Lembrou que durante a perseguição eles passaram por uma área da cidade cheia de concessionárias de carros. Como estavam em Tóquio-3, a recentemente transformada em capital do Japão, os melhores serviços e infra-estruturas estavam lá e isso não deixava de fora os produtos de elite, principalmente carros. Em uma freada brusca que o carro parou completamente em frente a uma das concessionárias, Kaji teve a oportunidade de ter sua atenção chamada por um carro. Se não estava enganado era um Dodge Viper azul escuro da recém lançada quinta geração. Não era um fanático por carros, mas algumas revistas que leu recentemente o ajudaram a reconhecer aquela pérola. Sem pensar duas vezes falou dele para Natasha.

- Podemos ir lá se quiser. Sabe que o Mark tem um coração mole e vai te emprestar o dinheiro.

- Mas e o Snake?

- Ah, sei que você pode amolecer o velho sem problemas!

- Ta bom então... - Natasha sorriu em meio as lágrimas. - Mas tire suas mãos de mim! Eu conheço sua reputação, senhor Kaji! - De um momento para o outro o sorriso virou uma expressão de indignação e raiva.

- T-tá bem... d-desculpe! - Ele falou, já de pé e com as mãos levantadas. - V-vou ligar para alguém vir nos buscar.... - Deu as costas para Natasha e começou a discar o celular. Credo! Como ela consegue mudar de humor tão rápido? Parece alguém que eu conheço...

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- He, cansei. Acho que vou indo. - Mark Goodspeed se levantou e começou a guardar o violão. A música parou instantes depois.

- Já?

- Parece que foi rápido, mas acho que tocamos por mais de meia hora. Podemos tocar mais amanhã. - Ele olhou para os dois jovens. Quase achou engraçado a cara de decepção dos dois. - Er... vocês conseguem não se matar, pelo menos até a Misato chegar?

Shinji estava prestes a responder, mas parou para olhar a companheira se levantar da poltrona. Voltou para o seu quarto em silêncio, deixando seus utensílios todos no meio da sala com exceção do violino que ficou onde ela estava sentada.

- Vocês têm o que comer? - Mark perguntou, tirando Shinji do momentâneo transe entre o garoto e o corredor por onde a ruiva havia passado.

- Ah, sim. Eu faço alguma coisa depois, não precisa se preocupar.

- ‘kay! Boa noite! - O segurança disse e desapareceu na escuridão da cozinha, violão e case em mãos.

O jovem Ikari suspirou e se jogou no sofá vazio. Fechou os olhos e começou a pensar no que acabara de acontecer. Fechou os punhos e abriu, repetindo o movimento mais algumas vezes. Não tinha a menor idéia de quando começou com essas contrações involuntárias, só que começaram a se intensificar quanto mais tempo passava em Tóquio-3. Ele sorriu de leve. Aquilo felizmente não era o espasmo. Suas mãos estavam doendo, e só isso. Provavelmente por que ficou tanto tempo sem tocar o cello e a poucos minutos atrás ter acompanhado dois quase-profissionais. Não foi tão difícil assim, mas vez ou outra acompanhar Asuka exigia dele uma agilidade que nunca tinha posto a prova.

Quando a garota se tornou o tópico em questão o sorriso sumiu do rosto dele, dando lugar a expressão padrão de Shinji Ikari. A ruivinha não tinha mudado em nada quando estava perto dele, ou melhor, mudou sim, mas para pior. Ele sabia que a relação deles nunca tinha passado de algo como: companheiros de trabalho se tolerando. Por um tempo eles até puderam se considerar amigos, depois dele ter salvo a ruiva no vulcão eles começaram a trocar até alguns “bom dias” - Guttem Morgen por parte de Asuka - mas tudo rolou escada a baixo depois da garota ser atacada pelo 15° Anjo. E a gota d’água foi no dia do Terceiro Impacto. Desde então Asuka mal olhava para a cara dele. E ele dava total razão a ela.

Continuar pensando naquilo só iria deixar o garoto mais triste e alguém naquela casa tratou de traze-lo de volta a realidade, ainda que seu objetivo fosse outro.

- Wark!

Shinji abriu os olhos e olhou para o pingüim de água quente. Deve estar com fome. Misato continua achando que ele pode sobreviver só de cerveja. Ele se levantou e carregou o pingüim até a cozinha. Pegou uma cadeira e o deixou ali sentado. O simpático animal ficou observando o dono responsável preparar alguma coisa para ele comer.

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Asuka tentava inutilmente dormir. Ela não tinha conseguido antes e já estava achando que seria improvável que conseguisse faze-lo. Olhou para o relógio na parede a sua frente. Mesmo estando escuro ela conseguiu ver os ponteiros apontando quase oito horas, o que queria dizer que não estava nem perto da hora que costumava dormir. No que eu estou preocupada? Não tenho aula. Nem devem ter re-começado ainda. Ela nem sabia se o calendário escolar interrompido devido aos últimos acontecimentos já tinha voltado ao normal. Foi divulgado pela mídia que os Anjos tinham sido eliminados e que as forças da JSSDF atacaram a Nerv, pois terroristas haviam tomado o complexo. Uma mentira maldosa se você fosse um dos espectadores na Nerv no dia do Terceiro Impacto, uma quase hilária mentira se você fosse um dos protagonistas. As pessoas já não tinham mais medo de viver naquela cidade e começaram a voltar aos montes a cada dia. Como acabou virando a capital administrativa depois disso tudo acabou por trazer mais gente ainda. É, já devem ter começado...

Por mais tedioso que fosse pensar na escola, não estava funcionando. Os olhos continuavam fechados e nem sinal do sono chegar. Talvez pensar em outra coisa ajude...

E foi o que ela fez. Tentou pensar em alguma coisa boa para variar, mas era como se ela pudesse contar com os dedos os momentos felizes que teve na vida e quando esses aconteciam, por uma ironia sádica eram acompanhados de outros, maus e que só pioravam a sua vida. Como o dia em que foi escolhida para pilotar um Evangelion e quando foi contar para a sua mãe... NÃO! NÃO! Chega! A culpa não foi minha! Não vou pensar mais naquilo! Os gritos explodiam em sua mente e ela se revirava violentamente na cama. Quando a batalha terminou estava só ela na cama, o travesseiro e o lençol de alguma forma pararam em lados diferentes do quarto.

Mama... Mama já me perdoou. Ela sorriu em meio a soluços e lágrimas. Sempre que pensava em sua mãe, Asuka se sentia assombrada, perseguida por um fantasma que aterrorizava sua sanidade. Só que isso mudou. Na luta contra a JSSDF ela pode sentir Kyoko a protegendo e então se deu conta do que era o Evangelion.

A suprema arma da humanidade na luta contra os anjos era na verdade o lugar onde sua mãe estava. Onde a alma dela estava. Lá, no gigante púrpura, e não no corpo daquela mulher que queria morrer com Asuka e se suicidou. Goodspeed falou isso para ela poucos dias atrás. Aquela não era sua mãe. O que você viu não foi uma pessoa insana. Aliás, sanidade era o que não faltava na sua mãe. Quem você encontrou morta não era nada além de um corpo sem alma. Eram as palavras do rapaz de óculos escuros se repetindo em sua mente. Tinha tomado muito cuidado ao falar sobre aquele assunto delicado, evitando de machucar Asuka. Ele logo se surpreendeu mais uma vez com a ruivinha, que simplesmente respondeu com um sorriso sincero e disse que já sabia. Mark ficou com cara de bobo por alguns segundos antes de acompanhar a ruiva no sorriso.

Enfim algo agradável... Já estava com o travesseiro de volta na cama e deitava a cabeça nele, mas como previa, nem sinal do sono ainda. Ela suspirou e abriu o olho sem bandagem ao notar alguma coisa de diferente no seu quarto, que acabava de ser invadido mais uma vez. Desta vez não por um som, mas por um cheiro agradável. Só podia significar que Shinji estava fazendo o jantar, e apesar de não estar sentindo fome, ela tinha de se certificar que o “idiota” não se esqueceu dela. Ela se levantou, e só após limpar as lágrimas saiu do quarto.

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E tudo continuava calmo na Amazônia. Raiden acabara de entrar no acampamento, acompanhado pelo tenente Mendes, que logo deixou a companhia do capitão, despediu-se com uma saudação e foi tratar de suas obrigações: avisar a pequena tropa do período de descanso e depois fazer a contagem de munições e armas no arsenal. O capitão se dirigiu para uma pequena casa feita de cimento e tijolos, a única daquele vilarejo, sendo todas as outras de madeira. Tinha poucos cômodos, apenas três: um quarto, uma cozinha e um banheiro. Eles deixaram os dois últimos intactos e só limparam o quarto pra depois transforma-lo em um pequeno centro de controle com duas mesas laterais que ocupavam todo o comprimento do cômodo uma de cada lado. Vários laptops sobre elas e dois rádios, em frente a cada um dos eletrônicos, um operador. Na cozinha dois cabos trabalhavam para alimentar a pequena tropa há algumas horas.

Foi para a “sala de controle” e botou seus pertences no primeiro espaço vazio que encontrou na mesa da esquerda. Se encostou na parede e começou a observar a tela do laptop do operador que estava ao seu lado. A interface do programa que o militar utilizava já era velha conhecida de Jack. Havia aprendido a mexer com ela ainda nos primeiros anos de Fox-Hound. O problema eram as palavras. O pessoal ali só se comunicava em português e espanhol, poucos conseguiam falar alguma coisa em inglês. Alguém que falasse fluentemente então, era raro. A sorte dele era o tenente Mendes.

O operador se virou pra ele e se revelou uma mulher. Raiden logo no começo da sua designação para aquele batalhão se preocupou em decorar os rostos e nomes de seus comandados. A jovem a sua frente se chamava Linda Salazar e era uma venezuelana ex-integrante do exército de seu país. Ela era um dos vários informantes das Nações Unidas infiltrados nos exércitos rebeldes que se aliaram aos mercenários. Acabou sendo descoberta, mas por sorte conseguiu escapar para um acampamento da NU. Pouco tempo depois foi transferida para a equipe Alpha, comandada pelo homem loiro ao seu lado. A garota de cabelos negros e olhos castanhos logo tratou de saúda-lo, óbvio que à moda daquela tropa.

- Hi capitão!

- Olá, sub-tenente Salazar.

- E então capitão, quando que vamos subir o rio? - perguntou. Raiden ficou feliz com aquilo, parece que acabou de encontrar alguém fluente em inglês.

- Vamos ter um descanso de dez horas, depois continuamos com a missão. Sugiro que vá dormir um pouco Salazar, pode deixar que eu assumo o computador. Tenho que falar com uns amigos no Japão.

- Oh, tudo bem então. - A garota se levantou e sorriu para o seu capitão. Pegou um rifle que estava encostado na parede e saiu.

- He, vamos lá! - Raiden sentou na cadeira e começou a mexer no computador.

Ele nem teve tempo de pensar em fechar ou abrir algum programa, uma rajada de tiros foi ouvida, seguida de alguns gritos de seus soldados. A tela do computador ficou preta. Uma bala acabara de atravessar a camada de cimento e tijolos da casa e acertou a máquina. Mais meia dúzia de tiros foram direcionados à pequena casa, por sorte nenhum atingiu outro computador, mas infelizmente acertou um dos soldados que se estendeu inerte na sua cadeira.

Raiden não parou para pensar no pobre companheiro que havia morrido, apenas pegou o seu rifle com uma mão e a mochila na outra. Esperou a sala ser esvaziada pelos dois últimos homens que tinham ficado para desligar os laptops para leva-los a um lugar seguro. Eles fizeram isso com uma velocidade invejável. Tão logo a dupla pegou seus rifles na parede e saiu correndo para a trincheira mais próxima, o ex-Fox-Hound correu para fora da casa.

Ele sabia que tinha pouco tempo para fazer isso e tratou de não desperdiça-lo. Olhou para o acampamento todo afim de uma visão total da situação. Bem na sua frente vários soldados pegos de surpresa se encolhiam em algumas pequenas paredes de onde um dia foi uma casa. Nenhum deles estava com medo ou aterrorizado, pelo contrário, apenas se reuniram para uma rápida distribuição de armas. Vários rifles voavam de um lado para o outro, soldados distribuíam eles entre si ou alguns poucos corajosos que estavam na barraca do arsenal jogavam rifles e outras armas para os aliados mais próximos.

Voltou aos seus sentidos quando uma rajada de tiros passou rente ao seu corpo, o que o pegou de surpresa. Deu alguns passos para trás em busca de abrigos. Voltou para a casa de antes e buscou proteção atrás do concreto, apesar de saber que aquilo não ia durar por muito tempo. A adrenalina já era para ter invadido o corpo dele, mas se isso acontecera ele conseguiu se controlar como ninguém. Encostado na parede, se abaixou e começou a revirar a mochila. Não demorou muito para achar o que desejava. Tirou a pistola Five-seven customizada e desativou a trava de segurança. Botou a correia no rifle e o posicionou nas costas. E então correu para a batalha.

--

- É, ficou bom. - A garota falou após experimentar a comida.

- O que?

- Eu disse que ficou bom, seu idiota!

- Ah... - Ele parecia perplexo com as palavras da ruiva.

- Idiota, parece que nunca ouviu um elogio antes. - Ela parou quando percebeu o que tinha falado.

- De você? Nunca. - Ele logo se arrependeu do que falou.

E então como um raio, caiu sobre aquela casa um momento de silêncio. Por mais que o relógio na parede fizesse algum barulho, que o simpático pingüim batesse suas asas descontroladamente enquanto atacava com gana o seu prato de comida ou que a voz de um repórter fosse ouvida pela pequena televisão da cozinha, era como se não houvesse nada ali. Os dois jovens pareciam não estar naquele plano. Nada ali era forte o bastante para prender suas atenções. Ambos estavam em meio a um turbilhão de pensamentos e lembranças.

Voltaram à realidade quando ela bateu com as duas mãos na mesa. O fato do braço injuriado milagrosamente não ter doído mais que o normal não foi o bastante para chamar sua atenção. Só depois que o copo, que acabara de voar e cair, derramou todo o seu conteúdo seja lá o que fosse, sobre a mesa, que ela começou.

- Você sabe o por quê? - Ela falou com frieza, num misto de deboche e raiva. Ambos sabiam que apesar daquilo ter soado como uma pergunta, não era. Como Asuka esperava, a resposta não veio, pelo menos não por forma de palavras. O garoto simplesmente abaixou a cabeça. - Porque você é um idiota, um babaca, um nojento, um pervertido, um covarde, UM DEMENTE! - As palavras pareceram não ter efeito. Não externamente. Mas ela sabia que tinha atingido em cheio Shinji, e não era por isso que ela iria parar. Foi perceber que estava na frente do garoto, sem a menor idéia de quando aconteceu. Porém Shinji ainda parecia não ligar para a situação, continuava com a cabeça abaixada e sem reação nenhuma. Asuka não sabe de onde veio a idéia idiota que teve, mas que tratou de executa-la. Pegou as duas mãos dele e botou em volta do seu pescoço. - Vamos seu demente, termine o que começouu!

E finalmente ela teve a atenção de Shinji Ikari, que olhou horrorizado para ela. As palavras não foram nada comparado ao que a ruiva acabava de fazer. Ela podia falar o que quisesse dele, mas aquilo... aquilo era simplesmente a pior coisa que poderia fazer. Como se o tormento anterior não fosse o bastante, outro começou na cabeça do menino. Não foram apenas lembranças que voltaram, elas vieram acompanhadas de dor. Ele não via mais aquela Asuka, mas sim outras duas.

- O que foi? Falta coragem? Mas você conseguiu nas outras vezes! - E então como se fosse mágica, os dois se afastaram. Os dois pareceram assustados com as palavras de Asuka. Por motivos diferentes... talvez nem tanto.

Não! Não pode ser! E-ela não pode ter visto aquilo... Era eu que estava imaginando aquilo! Não pode! Não pode! É impossível! O jovem Ikari estava caído no chão e tremendo, sua boca abriu para falar, mas as palavras não saíram.

Asuka ainda estava de pé, mas tremia igualmente ao garoto. Não parou para analisar as palavras ditas, mas sabia que não devia tê-lo feito. Eram lembranças ruins e que deveriam permanecer impronunciáveis, enterradas, assim como os outros fantasmas dela. Aquilo tudo era como se ela tivesse sido perdoada de um pecado e outro tivesse vindo logo em seguida para tomar seu lugar.

- E-eu só fiz uma vez - A incerteza e o medo na sua voz escondiam a verdade de que ele não se orgulhava nem um pouco do que acabara de falar.

- Eu... eu... SAI DA MINHA FRENTE SEU IDIOTA - E naquele momento, Asuka Langley se igualou a Shinji Ikari ao falar. Até mesmo a sua súbita mudança na voz a deixava no mesmo patamar de Shinji no nível de covardia, claro, onde cada um agia de uma forma.

- Pare! - Shinji disse segurando o braço dela. Num movimento rápido ele havia se posto de pé e agarrado a ruiva. Agora os dois olhos azuis se encaravam numa irônica mudança de posição, Shinji estava mais confiante do que Asuka jamais fora, ela, estava com tanto medo quanto Shinji nos seus piores momentos como piloto. A situação toda não foi o bastante para conter a coragem repentina que invadiu o garoto. - Asuka, o que você viu naquele dia?

Shinji Ikari não precisava ser mais específico na sua pergunta. Ele foi claro o bastante para Asuka entender onde ele queria chegar. Ela não queria falar e não sabe se foi por medo do não mais covarde Ikari, ou se por que no fundo, ela realmente queria compartilhar aquela experiência na esperança que não se tornasse algo parecido com as antigas lembranças de sua mãe.

- Nós... estávamos nesse mesmo lugar... e... e... você me pedia por ajuda... mas eu...eu - Asuka não sabe como as palavras saíram de sua boca, a alemã não tinha controle nenhum sobre elas. Tentava incessantemente tomar o controle delas, mas alguma coisa dentro dela implorava para elas serem jogadas para fora. A jovem não tinha nem idéia que partes da história ela tinha contado ou o quão específica foi, mas sabe que parou exatamente no final quando... - E então você me enf - Não conseguiu terminar. Shinji foi mais rápido e a silenciou da forma que ela jamais poderia esperar.

Asuka sentiu-se presa nos braços do garoto. Por mais que tentasse esboçar alguma reação, fosse ela violenta ou passiva, simplesmente não conseguia. O pensamento óbvio de desvencilhar-se do garoto passou pela sua cabeça, mas ficou por isso mesmo. Ela simplesmente não conseguia se mexer. Milhares de possibilidades se apresentavam a ela, mas não conseguia escolher uma que respondesse a simples pergunta do porque dela não conseguir se afastar de Shinji. Foi quando uma delas fez Asuka quase parar de respirar, tamanho o impacto de apenas cogitar aquela. Não... isso é impossível...

Se aceitasse aquilo, seria como se todo aquele muro que ela construiu ao longo de 10 anos simplesmente desmoronasse. Se não aceitasse tudo voltaria a ser como antes. Mas ainda assim esse momento ela jamais esqueceria, e provavelmente se transformaria em mais uma de suas perturbações. E Soryu Asuka Langley estava farta disso. A primeira opção pareceu muito mais tentadora. As conseqüências disso?

Nem se Asuka repassasse mentalmente todo o filme de sua vida acharia algum momento em que pensou nas conseqüências. Não seria agora que perderia o tempo refletindo sobre elas. Ela se afastou ligeiramente dele, o bastante para poder olhar para o rosto dele uma última vez antes daquela que viria a ser uma grande mudança na vida de Asuka Langley.

Shinji Ikari de alguma forma não se sentiu surpreso quando a ruiva se afastou aos poucos dele, era mais que esperada aquela reação, mas aquela era uma oportunidade que ele não podia ter deixado escapar, uma voz, a sua consciência o mandou fazer aquilo. Ele ainda tinha dúvidas se a chamava de coragem ou de completa idiotice. Talvez fosse a junção de ambas, talvez ainda tivesse outro nome. De qualquer forma, Shinji apenas fez o que lhe foi mandado. Ele viria a pensar que se essa voz o dissesse a reação que Asuka teria, se ele realmente faria o que fez.

Foi a vez do garoto de ficar sem reação, quando Asuka devolveu o abraço, e com tanta força quanto o dele.

Em seguida, como um segundo passo em uma caminhada no escuro, Asuka fez aquilo que jamais se permitira fazer na frente de alguém novamente. Ela começou a chorar.

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Era uma sala escura, exatamente como ela se lembrava. Por mais que fosse um ambiente grande, continuava passando uma sensação de claustrofobia. Primeiro eram aqueles tanques nas laterais cheios de LCL, ainda que não houvesse mais necessidade de estarem assim. Luzes internas nos tanques faziam com que a cor laranja se espalhasse e iluminasse o ambiente, ainda que o que predominasse fosse a escuridão. No centro havia um tubo, grande o bastante para caber uma pessoa e embaixo e acima dele vários fios, cabos e maquinaria pesada. Nasciam no chão, entravam no tubo e saiam, se expandindo em seguida e dominando completamente o teto do ambiente.

Ritsuko Akagi entrou na sala com passos firmes e decididos. Foi até o centro e ficou em frente ao grande cilindro envolto por sombras. Ela mal podia enxergar, mas já havia estado naquele lugar tantas vezes que sabia se movimentar ali mesmo se estivesse vendada. Ouviu passos vindos do corredor que levava a sala, mas os ignorou. Sabia quem era e que não precisava se preocupar com esse. Pelo menos por enquanto.

O estranho se aproximou e parou ao lado dela. Um silêncio pairou naquela sala por algum tempo, apenas interrompido pelo barulho das máquinas funcionando.

- Como ela está? - Ritsuko perguntou num tom casual.

- Espero que você me responda isso. - Gendo Ikari respondeu friamente.

Não que os dois fossem continuar com a conversa, mas de alguma forma quisessem, teriam sido interrompidos pelo barulho ensurdecedor das máquinas, que a cada segundo aumentava. A temperatura do ambiente aumentou drasticamente, fazendo com que os dois sentissem. Ritsuko deu alguns passos para trás a fim de fugir um pouco do calor. O ruído só foi cessar quando uma luz se acendeu dentro do tubo. O vidro abriu em certo ponto e deixou todo o líquido vazar pelo chão e por conseqüência molhar os pés do supremo comandante da Nerv. Ele não fez questão de sair do lugar.

Uma pessoa saiu dali. Era uma garota, ainda que parecia confusa e desnorteada com o que acontecia, ao julgar pelos passos cambaleantes dela. O cabelo azul claro, quase cinza não se deixava revelar nada além de um laranja meio avermelhado, cortesia do LCL. Os olhos dela estavam entreabertos ainda desacostumados com a mínima quantidade de luz daquela sala. Mas eles continuavam sendo aqueles rubis exóticos e penetrantes que sempre foram. Ela caiu de joelhos no chão, apenas para se encontrar com os braços do comandante.

- Qual o seu nome e objetivo? - Ele perguntou afagando o cabelo molhado da menina.

- Rei Ayanami... p-piloto da... Unidade 00... - A voz suave da garota disse em intervalos. - Clone híbrido de Yui Ikari e Lilith, o segundo anjo.

Ritsuko Akagi jurava que atrás dos óculos escuros e de toda aquela imponência, Gendo Ikari estava de alguma forma abatido. Conhecia muito bem o velho Ikari já há alguns anos e o relacionamento próximo com ele, se é que podia ser chamado disso, a fez desenvolver uma capacidade de enxergar as emoções por trás do comandante da Nerv. Ainda que quase sempre errasse, dessa vez ela tinha certeza de ter acertado. Gendo Ikari estava triste.

- Causadora... do Terceiro Impacto...

E se não fosse pela preocupação que tinha pela garota, Gendo teria deixado ela cair de seus braços, tamanha foi a surpresa dele com as palavras de Rei Ayanami. Ritsuko estava tão impressionada quanto ele.

- Ela... ela... ela não devia se lembrar disso - Gendo disse, observando pasmo a jovem.

- Mas eu me certifiquei que a memória usada nela era de antes do Terceiro Impacto, do 16º Anjo, como o senhor pediu! - Ritsuko já tinha corrido para o terminal de computadores daquela sala. Digitou vários comandos ali, apenas para confirmar suas palavras. - Eu repassei várias vezes os comandos para me certificar. As nanomáquinas do sangue dela estão com a memória daquele dia, eu juro senhor.

- Acalme-se! - Ele não queria ter gritado. A última coisa que pretendia era assustar e deixar Rei ainda mais abalada. Nem assim Ritsuko Akagi parecia ter se acalmado.

- Não pode ser... a alma dela... deve ter se transferido para esse corpo de alguma forma. Só pode ser isso.

- Que seja então. - Gendo ajudou a garota a se levantar.

- É necessário que eu pilote o Eva novamente? - Rei perguntou.

- Rei, a partir de hoje, você terá de aprender a fazer escolhas na sua vida. Essa será uma delas. Só vai pilotar se isso for realmente o que quiser.

E Ritsuko Akagi podia jurar que viu Gendo Ikari sorrir. De felicidade.


Notas do autor: Rei! Finalmente ela apareceu! Há! Eu disse que ela aparecia nesse capítulo, nem que tenha sido só no final...

Sobre a nossa garota de olhos vermelhos favorita e as palavras de Ritsuko sobre o que aconteceu com a memória dela, usei as nanomáquinas de Metal Gear para explicar (ok, tentar) aquele processo todo de quando a Rei é clonada e aparece ou não com memória de antes de morrer. Como isso foi usado na série e em várias fictions mas nunca foi explicado resolvi aproveitar essa oportunidade. Para quem não entendeu sobre essas tão famosas nanomáquinas que já apareceram diversas vezes em Bullets, elas logo serão explicadas, assim que os pilotos tomarem conhecimento delas.

Capítulo 6

Capítulo 4

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