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Infecção pelo papilomavírus humano (HPV) -
atualizações 2001
Introdução
Há mais de 100 tipos conhecidos de papilomavírus humano (HPV). A infecção pelo
HPV pode ocorrer em quase qualquer parte do corpo. Alguns tipos de HPV infectam
as mãos, os joelhos e os pés; outros, a face e outros, o trato genital. Essas
diretrizes enfocam a conduta para a infecção do trato genital pelo HPV.
Mais de 20 tipos de HPV podem infectar o trato genital. A infecção pelo vírus
das verrugas pode existir sob as formas clínica, subclínica ou latente. A forma
clínica de infecção pelo HPV são as verrugas genitais. A infecção subclínica não
é visível a olho nu, mas pode ser reconhecida com um microscópio, como em um
esfregaço cervical por exame ao colposcópio ou em amostras de tecido para
histopatologia. A infecção latente só pode ser detectada com o uso de técnicas
moleculares. Os fatores que influenciam a transição entre os estados clínico,
subclínico e latente de infecção são mal compreendidos, mas os mecanismos imunes
são claramente importantes.
As verrugas anogenitais visíveis geralmente são causadas pelo HPV tipo 6 ou 11,
e as lesões podem aparecer na vulva, no colo uterino, na vagina, no pênis, no
escroto, na uretra e no ânus. As verrugas intra-anais são vistas
predominantemente em pacientes que tiveram intercurso anal receptivo. Essas
verrugas são distintas das verrugas perianais, que podem ocorrer em homens e
mulheres que não tenham tido sexo anal receptivo. Os tipos 6 e 11 do HPV também
se associam a verrugas conjuntivais, nasais, orais e laríngeas. Esses tipos têm
baixo potencial oncogênico e raramente se associam a carcinoma espinocelular
invasivo no trato genital.
Outros tipos anogenitais de HPV (16, 18, 31, 33 e 35) associam-se fortemente a
neoplasias vulvares, penianas, anais, à neoplasia intra-epitelial cervical (NIC)
e ao carcinoma espinocelular. Esses tipos oncogênicos são encontrados
ocasionalmente em verrugas genitais visíveis e também se associam à neoplasia
intra-epitelial vulvar (NIV) e à neoplasia intra-epitelial peniana (PIN). As
duas últimas afecções antigamente eram conhecidas por outros nomes, como
papilose bowenóide, eritroplasia de Queyrat e doença de Bowen. Os pacientes que
têm verrugas genitais visíveis podem estar infectados simultaneamente por
múltiplos tipos de HPV.
Epidemiologia da infecção genital por HPV
Embora seja difícil fazer a estimativa da prevalência total da infecção genital
pelo papilomavírus humano (HPV), os números atuais sugerem que as verrugas
genitais visíveis estejam presentes em aproximadamente 1% dos adultos
sexualmente ativos, nos Estados Unidos, e que, pelo menos, 15% tenham infecção
subclínica ou latente, conforme detectado pelas provas de DNA para HPV. É
provável que, pelo menos, 75% dos adultos sexualmente ativos tenham sido
infectados por 1 ou mais tipos de HPV genital em algum momento.
As taxas mais altas de infecções genitais pelo HPV são verificadas em adultos
com 18 a 28 anos de idade. Embora os fatores de risco para infecção sejam
difíceis de avaliar devido à alta freqüência de infecção subclínica, fica claro
que o principal fator de risco para adquirir infecção genital pelo HPV envolve
comportamento sexual, particularmente múltiplos parceiros sexuais.
Transmissão da infecção
genital pelo HPV
O contato direto pele com pele propaga com maior eficiência a infecção pelo HPV.
O vírus não é transmitido através de sangue ou líquido corporal, como o sêmen.
As formas genitais do vírus visam às mucosas e à pele genital adjacente. Estudos
entre pessoas com a infecção pelo HPV verificaram que, pelo menos, 70% de seus
parceiros também estavam infectados. A transmissão é comum por várias razões. Em
primeiro lugar, as lesões costumam passar despercebidas, particularmente em
áreas que não sejam facilmente inspecionadas na pesquisa de verrugas;
acrescente-se que o HPV genital raramente causa dor. Em segundo lugar, pode ser
difícil ter certeza se as verrugas estão presentes. Finalmente, as infecções
subclínicas também podem ser infecciosas, mas parecem não ser.
O contato sexual é a forma mais comum de transmissão entre adultos, mas também
pode ocorrer raramente a transmissão vertical ou auto-inoculação. Embora raro, é
possível transmitir a infecção pelo HPV através de sexo oral, embora a boca
pareça ser ambiente menos habitável para cepas genitais do HPV que a área
genital. A transmissão por fômites permanece controversa.
É extremamente variável o período de latência da infecção genital pelo HPV.
Muitas vezes, as verrugas aparecerão depois de três a seis meses, mas já foram
relatados períodos de latência de muitos meses ou até décadas. São vistas
evidências de tais períodos de latência prolongados em pacientes
imunocomprometidas e normais que, apesar de estarem sexualmente inativas há
muitos anos, subitamente podem desenvolver verrugas ou anormalidades cervicais.
É importante enfatizar que desenvolver verrugas genitais durante uma relação a
longo prazo não implica necessariamente infidelidade.
Em geral, acredita-se, embora isto não tenha sido comprovado, que verrugas
clinicamente visíveis ofereçam a maior possibilidade de transmissão e que tratar
as verrugas diminui essa possibilidade. Como é difícil detectar HPV em seu
estádio latente, é impossível saber se, em alguns casos, o sistema imune pode
negativar completamente o vírus no corpo ou se o vírus permanece latente em
níveis indetectáveis, capaz de reemergir se o sistema imune enfraquecer. Se as
verrugas não recorrerem no ano seguinte ao tratamento, o risco de transmissão do
HPV será baixo.
Um único estudo prospectivo de acompanhamento não demonstra benefício no uso de
condons para prevenir a transmissão do papilomavírus humano. No entanto, há
algumas evidências sugerindo que o uso regular do condom aumente a taxa de curas
de lesões clínicas e subclínicas e, como se pensa que as verrugas visíveis são
mais facilmente transmissíveis que a infecção subclínica, seria apropriado
aconselhar o uso de condom até que as verrugas tenham desaparecido.
Os condons proporcionam barreira física que protege os pontos mais comuns de
infecção, mas não podem prevenir todo contato genital de pele com pele. O uso de
condons é, contudo, recomendado, particularmente com novos parceiros sexuais,
para proteger contra outras DSTs.
Apresentação clínica e diagnóstico
As verrugas genitais são lesões visíveis que ocorrem na área anogenital.
Aparecem como lesões distintas ou podem coalescer em placas confluentes. A
inspeção, isoladam__ente, é suficiente para diagnosticar a maioria das verrugas
genitais externas, e há boa correlação entre os achados físicos e os estudos
histológicos. As verrugas genitais são freqüentemente multifocais (uma ou mais
lesões em um ponto anatômico, a vulva, por exemplo) ou multicêntricas (lesões em
pontos anatômicos separados, como períneo e colo uterino). É importante examinar
o trato genital baixo inteiro para pesquisa de verrugas visíveis multicêntricas
antes do tratamento. Verrugas queratinizadas e papulares planas tendem a ocorrer
em pele inteiramente queratinizada, os condilomas acuminados ocorrem mais
comumente em superfícies úmidas e verrugas genitais externas papulares planas
podem ocorrer em qualquer das duas superfícies.
As verrugas podem ocorrer no colo uterino. A melhor prática recomenda
colposcopia antes de decisões de tratamento.
Recomenda-se a pesquisa de verrugas intra-anais por anoscopia em homens e
mulheres com verrugas perianais recorrentes e/ou história de intercso anal
receptivo. A uretromeatoscopia pode ajudar a avaliar verrugas meatais em homens.
Diagnóstico diferencial
Nas mulheres
O diagnóstico diferencial de verrugas genitais inclui lesões que causam pápulas
e lesões eritematosas planas. As pápulas genitais incluem estruturas anatômicas
normais, como as pápulas penianas perláceas, papilas vestibulares e glândulas
sebáceas e de Tyson. As pápulas adquiridas incluem molusco contagioso, líquen
nítido, pólipos cutâneos, nevos melanocíticos e condilomas planos. A neoplasia
intra-epitelial vulvar (NIV) geralmente se apresenta como lesão pruriginosa
papular que pode aparecer de forma uni ou multifocal, com coloração branca,
vermelha, pigmentada, habitualmente papular, mas algumas vezes como verruga. A
lesão pode ser pequena e distinta ou pode ser extensa, cobrindo a maior parte da
vulva ou a pele perianal. Algumas vezes, pode ser clinicamente indistinguível da
forma papular das verrugas genitais externas. O exame histológico dessas lesões
mostra neoplasia intra-epitelial de alto grau: NIV III geralmente se associa à
infecção pelo HPV tipo 16.
Nos homens
Em homens, lesões eritematosas planas também incluem psoríase, dermatite
seborréica, balanite circinada associada à síndrome de Reiter e PIN II e III (eritroplasia
de Queyrat - doença de Bowen) da glande do pênis.
Abordagens diagnósticas
adicionais
Lentes de grande aumento podem auxiliar no diagnóstico de verrugas genitais
externas. Não foi estabelecido o valor de usar soluções de ácido acético diluído
(3% a 5%) ("o teste acetobranco"), sendo baixo o valor preditivo positivo desse
teste. Alguns médicos acham que o embebimento em ácido acético é adjunto útil no
diagnóstico de lesões visíveis que se suspeita serem verrugas, particularmente
as verrugas papulares planas. No entanto, o embebimento em ácido acético não é
recomendado para triar verrugas nos indivíduos, pois a alteração acetobranca
ocorre com muitas outras afecções.
Quando houver dúvida no diagnóstico, deve-se considerar o encaminhamento a um
profissional com experiência no diagnóstico de infecção pelo HPV. O diagnóstico
de verrugas genitais raramente pode necessitar de confirmação por biópsia, como
quando as lesões são desorganizadas ou endurecidas, fixas a estruturas
subjacentes ou ulceradas. Ademais, pode-se considerar uma biópsia quando houver
dúvida no diagnóstico, se as lesões não responderem a um tempo padronizado de
tratamento (o que pode ocorrer quando afecções papuloescamosas, como a NIV, o
líquen plano ou a psoríase são tratadas como verrugas) e se a doença piorar
durante o tratamento. A biópsia pode estar indicada mais freqüentemente para
pacientes imunossuprimidos porque, nesses pacientes, as lesões intra-epiteliais
de células escamosas (SILs) de alto grau são mais comuns que nos pacientes
imunocompetentes, podendo ser clinicamente indistinguíveis de verrugas.
A detecção e a tipagem de HPV não têm benefício comprovado no diagnóstico ou
tratamento de verrugas genitais externas. Dessa forma, a detecção e a tipagem de
rotina do HPV não são recomendadas atualmente para o diagnóstico ou o tratamento
de verrugas genitais externas.
Tratamento de verrugas genitais
O objetivo primário do tratamento é eliminar as verrugas. Fisicamente, as
verrugas costumam ser assintomáticas, mas podem ser dolorosas, friáveis ou
pruriginosas. Emocionalmente, as verrugas podem ser socialmente estigmatizantes
ou esteticamente perturbadoras. O tratamento pode resultar em estado
clinicamente isento de verrugas, mas a infecção viral subjacente pode persistir
ou não. A eliminação de verrugas externas visíveis pode não diminuir a
infectividade, já que as verrugas podem não representar a carga viral inteira.
Sítios internos e pele normal podem atuar como reservatórios para infecção pelo
HPV.
Se deixadas sem tratamento, as verrugas podem resolver-se espontaneamente (20% o
fazem em 6 meses), ficar inalteradas ou aumentar em tamanho ou número. Raramente
as verrugas evoluem para câncer. O tratamento deve ser moldado à infecção do
paciente e às suas necessidades, bem como aos recursos disponíveis. No presente,
nenhum tratamento é ideal para todos os pacientes ou todas as verrugas.
Tratamentos feitos pelo próprio paciente
Os tratamentos auto-aplicados incluem a solução química ablativa de
podofilotoxina e o creme imunopotencializador imiquimod. Os pacientes devem ser
capazes de identificar e alcançar suas verrugas e seguir as instruções de
aplicação para usar esses tratamentos com sucesso. Essas terapias são mais
eficazes em verrugas úmidas.
A podofilotoxina é antimitótica e causa necrose localizada do tecido. Pode ser
vista palidez epidérmica localizada, causada por edema intra e intercelular, até
depois de 48 horas da aplicação. A solução de podofilotoxina é dispensada em
concentrações de 0,5% e contém podofilina purificada em uma forma mais
padronizada. Tem sido extensamente avaliada em ensaios clínicos randomizados e
controlados por placebo que mostram entre 45% e 82% de pacientes que atingem o
desaparecimento total das lesões em 4 a 6 semanas de tratamento e, que entre 0%
e 91% dos pacientes, têm recorrências. A podofilotoxina não é recomendada para
uso interno no colo uterino ou no canal anal, para pacientes com sabida
hipersensibilidade a seus ingredientes ou para uso em áreas extensas com
verrugas. A podofilotoxina não deve ser usada durante a gravidez. Os efeitos
adversos associados à podofilotoxina incluem ulceração e erosões, eritema,
irritação e cicatrizes, fimose, endurecimento, dor e queimadura prepuciais.
Imiquimod é um creme topicamente ativo imunopotencializador que estimula a
produção de interferon e outras citocinas. Em estudos randomizados e controlados
por placebo, entre 37% e 85% dos pacientes tratados ficaram livres das verrugas
depois do tratamento, e 13% a 19% tiveram recorrências durante o período de
acompanhamento. O imiquimod parece ser muito mais eficaz para mulheres que para
homens, provavelmente devido aos diferentes ambientes nos tratos genitais
feminino e masculino. Foram relatados edema localizado, irritação, queimadura,
dor e ulceração como reações adversas raras e podem estar relacionados à ação
terapêutica direta do agente. Esses efeitos colaterais causam suspensão do
tratamento em apenas 2% dos pacientes. Tem havido pouco uso do imiquimod na
gravidez e há poucos dados disponíveis. Seu uso na gravidez só deve ser
considerado quando outras opções não forem adequadas e a paciente tiver sido
aconselhada adequadamente.
Tratamentos aplicados pelo
médico
Podofilina
A resina de podofilina geralmente é composta em suspensão a 10% a 25% em tintura
de benjoim e contém numerosos agentes antimitóticos, incluindo a podofilotoxina.
A palidez epidérmica geralmente se desenvolve em 48 horas após a aplicação
devido ao edema intra e intercelular associado à necrose nos tecidos afetados.
As preparações com resina de podofilina variam grandemente em sua concentração
de componentes ativos e contaminantes, não se conhece a estabilidade da resina
de podofilina e não existem preparações bem padronizadas.
A resina de podofilina tem sido extensamente avaliada em estudos randomizados
para comparação de tratamentos que mostram que as verrugas desaparecem
completamente em 19% a 80% dos pacientes tratados e que entre 23% e 70% dos
pacientes cujas verrugas desapareceram têm recorrências. Não há evidências de
que a administração de podofilina intensifique grandemente outras intervenções
terapêuticas quando feita como terapia adjuvante. Um por cento da população pode
ter severa reação de hipersensibilidade a ela.
É importante aplicar fina camada de resina de podofilina às verrugas e permitir
que seque completamente ao ar. A aplicação excessiva ou a falha em secá-la ao ar
podem resultar em disseminação do composto e reação local significativa. A
tintura de benjoim localiza o tratamento nos tecidos afetados e é insolúvel em
água. Quando apropriadamente aplicada, não há necessidade de proteger a pele em
volta. Geralmente é recomendado que os pacientes sejam avisados para lavar a
área tratada quatro horas depois da aplicação.
A hipersensibilidade aos ingredientes do produto contra-indica o uso, e a
podofilina não é recomendada para mulheres grávidas. A podofilina não é
recomendada para uso em áreas de verrugas com 10cm2 ou mais, pois o uso em áreas
maiores aumentará a absorção e poderá induzir toxicidade. Os efeitos adversos
locais com a podofilina incluem ulceração da pele, eritema, irritação e
cicatrizes, fimose, endurecimento, dor e queimaduras prepuciais. Não é
recomendada a prescrição de podofilina para auto-administração devido a esses
efeitos colaterais em potencial.
Crioterapia
A crioterapia destrói o tecido da verruga por congelamento/descongelamento,
resultando em desprendimento e destruição da verruga. A crioterapia eficiente
pode ser obtida com uma criossonda ou aplicação de nitrogênio líquido por
aerossol ou por algodão frouxo em um aplicador de madeira (não com swabs de
algodão típicos firmemente enrolados). Em geral, a crioterapia é eficaz para
verrugas secas e úmidas e pode ser usada para verrugas externas e internas. É
considerado o tratamento de escolha durante a gravidez.
Embora não haja contra-indicação relacionada ao paciente para a crioterapia, a
não ser a crioglobulinemia, é necessário treinamento, sem o qual as verrugas são
freqüentemente tratadas em excesso ou subtratadas, levando a uma eficácia
pequena e ao aumento das complicações. Dor e necrose após a aplicação do
criocautério são razoavelmente universais e algumas vezes ocorre formação de
bolhas. Tratar grandes verrugas ou grandes áreas ou números de verrugas de uma
só vez pode criar problemas para cuidar dos ferimentos. Os efeitos adversos
incluem balanopostite, irritação, edema local, necrose, ulceração e dor,
especialmente quando a área tratada descongela. Embora o uso de anestesia local
ou tópica injetada raramente seja necessário, pode facilitar a crioterapia por
redução da dor quando estiver presente um grande número ou uma grande área de
verrugas.
Os estudos de eficácia têm sido limitados a estudos de séries de casos e estudos
randomizados que confrontam a crioterapia com outros tratamentos padronizados e
têm mostrado que entre 60% e 97% dos pacientes tratados permaneciam livres de
verrugas, 3 a 6 semanas depois do tratamento. Relata-se a ocorrência de
recorrência de verrugas em 20% a 79% dos pacientes participantes dos estudos
clínicos.
Ácido tricloroacético
O ácido tricloroacético (ATA) é um agente cáustico que destrói as verrugas por
coagulação química de proteínas. Estudos de comparação randomizados e estudos
descritivos de séries de casos mostram taxas de desaparecimento entre 50% e
100%. Somente dois relatos de estudos publicados descreveram taxas de
recorrência entre os pacientes tratados com ATA, e mostraram que entre 6% e 50%
dos pacientes tratados desenvolvem verrugas recorrentes. As concentrações das
soluções de tratamento descritas na literatura não são padronizadas, tendo sido
relatadas concentrações de 85% a 95%.
A solução de ATA tem viscosidade muito baixa (comparável à da água) e, se
aplicada em excesso, pode espalhar-se rapidamente e escorrer, danificando uma
área significativa de tecido normal adjacente. As soluções de ATA devem ser
aplicadas com parcimônia e deve-se permitir que sequem antes que o paciente se
sente ou fique em pé e são mais eficazes para verrugas pequenas em superfícies
úmidas. Pode causar cicatriz e dor intensa, embora de curta duração, mas é
segura para usar durante a gravidez. É necessário treinamento para aplicar esse
método de tratamento. Se houver dor intensa, o ácido poderá ser neutralizado com
sabão e bicarbonato de sódio. Ulceração cutânea, erosões, eritema e irritação,
bem como dor espontânea, queimaduras e dor à manipulação são efeitos colaterais
adversos associados a esse tratamento.
Eletrocauterização
A eletrocauterização ou a diatermia coagula proteínas de tecido tratado. Uma vez
obtida a anestesia, o eletrocautério pode destruir fisicamente as verrugas, não
sendo necessária hemostasia adicional. Relatos de um estudo de comparação
randomizado e várias séries de casos comparativas sugeriram que a
eletrocauterização pode ser tão eficaz quanto a crioterapia. Em um estudo, 22%
dos pacientes cujas verrugas desapareceram tiveram recorrências. Dor local e
possível infecção podem ser os efeitos colaterais. Como a crioterapia, a
eletrocauterização requer treinamento avançado e experiência para prevenir
subtratamento ou tratamento excessivo da área afetada.
Exérese da verruga
A curetagem e as exéreses com tesoura ou bisturi removem diretamente as verrugas
genitais. Já que a maioria das verrugas é exofítica, isso pode ser efetuado de
modo que a ferida resultante se estenda apenas até a derme superior. A
hemostasia pode ser obtida com uma unidade eletrocirúrgica ou styptic químico
(bastões de nitrato de prata); raramente, são necessárias ou indicadas suturas
quando a remoção é feita apropriadamente. Estudos randomizados de comparação de
tratamentos e estudos de séries de casos descritivos têm mostrado erradicação
quase completa em 1 a 6 semanas de tratamento e taxas de recorrência de 8% a
35%, em 1 ano de tratamento. Não há contra-indicações relatadas para exérese com
tesoura/bisturi, com exceção de uma anormalidade de sangramento conhecida. Dor
localizada, para a qual podem ser necessários analgésicos fracos, e sangramento
são os efeitos colaterais associados a esse tratamento. Se for necessária
cirurgia no centro cirúrgico, aplicam-se todos os riscos associados da anestesia
geral.
Laser
Algumas vezes se recomenda a terapia com laser. As taxas de recorrência variam
amplamente, conforme observado na tabela, e podem ser desviadas pelo fato de que
a terapia com laser costuma ser usada mais freqüentemente em pacientes com
doença extensa. O custo relativo para esse tratamento é muito alto.
Fluorouracila
Não se recomenda o creme de fluorouracila a 5% devido a eficácia não comprovada,
toxicidade significativa e teratogenicidade para o tratamento de rotina de
verrugas e, atualmente, é medicação de uso apenas por especialistas. Foram
relatados efeitos colaterais adversos, como disúria, erosão do meato urinário,
eritema, escara, hiperpigmentação, irritação local, queimadura e prurido.
Futuras modalidades de tratamento
O desenvolvimento de vacina é área de pesquisa ativa. Várias abordagens estão
sendo testadas em modelos animais. Estão em andamento ensaios clínicos humanos
na fase 1.
Escolha de tratamento(s) para pacientes individuais
A tabela 1 resume as opções de tratamento.
Muitos pacientes requerem um período de tratamento, e não um tratamento único.
Os estudos não têm avaliado sistematicamente os fatores que influenciam a
seleção da terapia. Tais fatores incluem os seguintes: tamanho, morfologia e
número de verrugas; ponto anatômico; preferência do paciente; idade e capacidade
cognitiva do paciente; treinamento e experiência do médico (Quadro 1).
O paciente comum tem pequeno número de verrugas que finalmente podem ser
eliminadas pela maioria das modalidades de tratamento. Os tratamentos tópicos
administrados quase nunca funcionam prontamente naqueles com áreas grandes ou
extensas de verrugas. Esses pacientes devem ser submetidos à terapia ablativa,
pelo menos para se desbastarem suas verrugas. Os pacientes com doença limitada
(1 a 5 verrugas) podem beneficiar-se mais da crioterapia, cirurgia simples em
consultório ou outros tratamentos administrados.
Para modalidades terapêuticas auto-aplicadas, não é recomendável o tratamento
além das recomendações do fabricante. Não é recomendado o uso concomitante de
múltiplas modalidades terapêuticas em uma única verruga como tratamento de
rotina. Deve-se ter em mente que uma contínua falta de resposta ao tratamento
poderia indicar outra patologia e se deve considerar o encaminhamento para
avaliação em tais casos. A relação risco-benefício deve ser avaliada durante
todo o tempo de terapia para evitar tratamento em excesso e uma evolução
terapêutica pior que a própria doença. Hipo ou hiperpigmentação persistente é
possível complicação das modalidades terapêuticas ablativas. Raramente ocorrem
cicatrizes afundadas ou hipertróficas. O tratamento ablativo pode resultar em
síndrome de dor crônica incapacitante (vulvodínia) ou hiperestesia no local de
tratamento.
A remoção cirúrgica de verrugas por diatermia, ablação com laser ou exérese sob
anestesia local ou geral podem tornar o paciente livre das verrugas, geralmente
em uma única consulta. No entanto, as desvantagens são a necessidade de
treinamento, de uma quantidade moderada de equipamento e de uma consulta mais
longa para o paciente. Embora a cirurgia seja obviamente mais benéfica quando as
verrugas estiverem presentes em grande número ou em grandes áreas, também pode
ser usada para casos comuns. Conquanto o custo de uma consulta cirúrgica única
possa ser maior, a cirurgia pode fazer, em uma consulta, o que outras
modalidades ablativas, muitas vezes, requerem múltiplas consultas para efetuar,
o que poderia resultar em melhor relação custo-benefício para alguns pacientes.
No entanto, as taxas de recorrência podem ser as mesmas que as de outras
modalidades terapêuticas.
Acompanhamento
pós-tratamento
O benefício, a freqüência, o intervalo e o tipo de acompanhamento necessários
depois do tratamento das verrugas ainda não foram estudados. A avaliação de
acompanhamento pode dar a oportunidade para orientação e aconselhamento de
pacientes. A necessidade de monitorizar as complicações da terapia variarão
grandemente, com base na experiência do paciente e em sua capacidade cognitiva,
no número e localização das verrugas e na modalidade de tratamento usada.
Deve-se oferecer aos pacientes preocupados com a recorrência uma avaliação três
meses depois de tratamento bem-sucedido, já que a maioria das recorrências
ocorre durante esse período. Em pacientes imunossuprimidos, as recorrências de
verrugas são muito mais comuns, podendo ser necessária a avaliação periódica de
acompanhamento.
Avaliação de parceiros sexuais
O exame de parceiros sexuais não é necessário para o tratamento de verrugas
genitais porque o papel da reinfecção provavelmente é mínimo e, na ausência de
tratamento curativo, o tratamento para reduzir a transmissão não é realista. No
entanto, como o auto-exame ou o exame do parceiro não foi avaliado como método
diagnóstico para verrugas genitais, os parceiros sexuais de pacientes que as
tenham podem beneficiar-se do exame para avaliar a sua presença e outras
infecções sexualmente transmissíveis. Os parceiros sexuais também podem
beneficiar-se de aconselhamento sobre as implicações de ter um parceiro com
verrugas genitais. Como o tratamento das verrugas genitais provavelmente não
elimina a infecção pelo HPV, os pacientes e seus parceiros sexuais devem ser
avisados de que o paciente pode permanecer infeccioso ainda que elas
desapareçam. O uso de condons pode reduzir, mas não elimina o risco de
transmissão para parceiros não infectados. As parceiras de pacientes que tenham
verrugas genitais devem ser lembradas de que se recomenda a triagem citológica
de câncer do colo uterino para todas as mulheres sexualmente ativas. No entanto,
o benefício de avaliar os parceiros sexuais de pacientes com verrugas genitais
externas ainda não foi cuidadosamente estudado.
Semelhantemente, não se conhece o benefício específico de avaliar os parceiros
sexuais de mulheres com lesões intra-epiteliais escamosas cervicais relacionadas
ao HPV (SILs) para verrugas genitais externas. Embora até metade dos parceiros
sexuais masculinos das mulheres com SILs cervicais possam ter evidências de
infecção genital pelo HPV, relativamente poucos têm verrugas genitais externas.
Não está claro se o tratamento de homens com evidências de infecção genital pelo
HPV influencia a história natural de suas parceiras com doença cervical. Há
poucas informações, atualmente, sobre os efeitos de doença cervical relacionada
ao HPV sobre parceiras sexuais de mulheres com infecção pelo HPV. As mulheres
que são parceiras sexuais de pacientes com verrugas genitais externas devem ser
submetidas à triagem citológica para câncer do colo uterino nos intervalos
recomendados pelas diretrizes nacionais de triagem cervical. Não se sabe qual
seja o benefício de avaliar parceiros sexuais de homens com verrugas genitais
externas.
Situações especiais
Gravidez
As verrugas genitais podem proliferar e ficar friáveis durante a gravidez devido
à imunidade alterada, bem como aumento da irrigação, e alguns autores preconizam
sua remoção durante a gravidez. Os tipos 6 e 11 do HPV raramente causam
papilomatose laríngea em lactentes e crianças. A via para transmissão (transplacentária,
perinatal ou pós-natal) não foi ainda completamente entendida. O parto cesariano
não deve ser realizado unicamente para prevenir a transmissão de infecção pelo
HPV ao recém-nascido. Em raras circunstâncias, o parto cesariano pode ser
indicado para mulheres com verrugas genitais, se a saída pélvica estiver
obstruída ou se o parto vaginal resultar em sangramento excessivo.
O tratamento, durante a gravidez, requer algumas considerações especiais.
Imiquimod, podofilina e podofilotoxina não devem ser usados durante a gravidez.
Tratamentos apropriados para verrugas genitais externas durante a gravidez
incluem crioterapia, ATA ou remoção cirúrgica e ablação por laser.
O HPV, na gravidez, não tem ligação com fracasso da gravidez, trabalho de parto
ou outros tipos de complicações da gravidez.
Pacientes imunossuprimidos
As pessoas imunossuprimidas pelo HIV ou por outras razões podem não responder
tão bem quanto as pessoas imunocompetentes ao tratamento para verrugas genitais,
e podem ter recorrências mais freqüentes depois do tratamento. Os carcinomas de
células escamosas originados em SILs e semelhantes a verrugas genitais ocorrem
mais freqüentemente entre os imunossuprimidos.
Infecção genital pelo HPV e câncer anogenital
No mundo todo, o câncer do colo uterino vem depois, apenas, do câncer de mama
como doença maligna mais comum em incidência e em mortalidade nas mulheres. A
campanha de triagem cervical recentemente mostrou uma tendência de redução
nesses números nos últimos oito anos.
As informações moleculares e epidemiológicas atuais sustentam um papel causal
para o papilomavírus humano (HPV) em cânceres cervicais, vaginais e em muitos
vulvares. Pelo menos 80% dos adultos sexualmente ativos ficarão infectados com
um tipo ou mais de HPV genital em algum momento. No entanto, somente uma pequena
proporção de mulheres expostas à infecção pelo HPV desenvolverá câncer do trato
genital baixo. A infecção pelo HPV é um evento em uma via de múltiplas etapas
para o câncer, sendo improvável que, isoladamente, baste para a transformação
maligna do epitélio do trato anogenital. Outros co-fatores como o tabagismo e o
sistema imune desempenham papéis importantes.
Os tipos 6 e 11 do HPV,
comumente associados a verrugas genitais, têm baixo potencial oncogênico e
raramente se associam a carcinoma de células escamosas invasivo da área
anogenital.
Outros tipos anogenitais de HPV (16, 18, 31 e 45) associam-se fortemente à
displasia intra-epitelial anogenital e ao carcinoma de células escamosas. O HPV
16 associa-se particularmente ao câncer cervical e vulvar, enquanto o tipo 18
associa-se mais ao adenocarcinoma do colo uterino.
Tanto o câncer cervical invasivo quanto suas lesões precursoras (NIC)
associam-se firmemente à presença de HPV no trato anogenital. A maioria dos
cânceres de células escamosas do colo uterino avança através de uma série de
anormalidades microscópicas pré-invasivas. As evidências agora revelam que o DNA
do HPV está presente em 100% das biópsias de cânceres do colo uterino. O HPV
também tem sido demonstrado em 50% a 90% dos cânceres penianos, anovaginais e
vulvares.
A tipagem do DNA do HPV está passando por avaliação internacional prospectiva,
mas, nessa etapa, sua utilidade clínica parece estar limitada a mulheres com
anormalidades citológicas de baixo grau.
Tem havido extraordinário aumento na incidência de neoplasia intra-epitelial
vulvar (NIV), no decorrer das duas últimas décadas. A idade mediana da
apresentação agora está em meados da quarta década. Pelo menos dois terços
dessas mulheres fumam e quase metade tem história de NIC. Essas pacientes podem
apresentar prurido vulvar, um nódulo ou outras lesões visíveis. Ocasionalmente,
pode haver um aspecto verrucoso. A lesão pode ser unifocal, multifocal, plana,
papular ou em placas extensas pigmentadas de cor vermelha ou branca.
Informações para dar aos pacientes no aconselhamento de consultório
O HPV genital é vírus comum, encontrado em grande porcentagem das pessoas
sexualmente ativas. Somente casais virgens não terão HPV sexualmente adquirido.
Nem todos os infectados pelo HPV desenvolverão verrugas genitais. Isto depende
de seu sistema imune. O HPV é infecção tão comum, que as verrugas genitais
também são muito comuns. Ter verrugas genitais em uma relação monógama de longa
duração não significa que o outro parceiro tenha sido infiel. É possível que um
ou até ambos tenham ficado expostos ao vírus muitos anos antes e o carregaram
sob a forma latente sem mostrar sintomas. Existem vários tratamentos para se
poder estar livre dos nódulos verrucosos, mas eles não livram necessariamente o
paciente da infecção subjacente pelo vírus. Depois de tratamento bem-sucedido,
as verrugas genitais podem recorrer - isto geralmente acontece para mais ou
menos 1 em 3 pessoas. Atualmente, é impossível saber se seu sistema imune
negativa completamente o vírus de seu corpo ou se o vírus permanece em níveis
indetectáveis. Depois que as verrugas estiverem resolvidas, alguns especialistas
acreditam que sua capacidade de transmitir o HPV diminua com o tempo, mas, no
presente, ninguém pode dizer se e quando o risco se torna zero. Os condons podem
reduzir o risco de transmissão e devem ser usados com novos parceiros sexuais. É
mais questionável a introdução dos condons em uma relação a longo prazo porque
seu parceiro provavelmente já está infectado. As verrugas genitais não impedem
que as mulheres engravidem. As verrugas genitais não impedem o sexo. Pode haver
uma ligação entre certos tipos de infecção genital pelo HPV e câncer cervical -
citológicos cervicais regulares, como no programa de triagem cervical,
detectarão mudanças precoces que possam ser monitorizadas e/ou tratadas, assim
impedindo sua progressão para câncer. Os tipos de HPV que causam verrugas
externas visíveis raramente se associam a anormalidades no colo uterino que
possam causar câncer.
Diretrizes sobre a conduta para o HPV na infância
Epidemiologia
Após um dramático aumento entre 1966 e 1984, o HPV agora é a infecção viral mais
comum do trato genital feminino de adultas e adolescentes. Não têm sido
realizados estudos populacionais com crianças. No entanto, durante o mesmo
período, houve aumento paralelo do número de relatos de casos de verrugas
anogenitais em crianças, o que provavelmente reflete um aumento real da
prevalência na infância.
Comportamento clínico
A infecção por HPV na região anogenital costuma ser assintomática. As crianças,
muitas vezes, se apresentam porque alguém que toma conta delas observou as
lesões, embora algumas se apresentem com dor ou sangramento durante a evacuação
ou ainda com infecção secundária. Ocorrem condilomas acuminados semelhantes a
couve-flor clássicos em crianças, mas as verrugas anogenitais podem ter muitas
aparências.
Muitos adultos têm a doença em vários níveis no trato geniturinário. Quase nunca
foi descrita doença multicêntrica em crianças, mas também quase nunca é
procurada.
O período de incubação das verrugas anogenitais em adultos é da ordem de um a
oito meses. O período de incubação em crianças é incerto, em grande parte,
devido às incertezas que cercam a transmissão vertical. Há alta probabilidade de
regressão espontânea com o passar do tempo. O HPV pode ser particularmente
problemático em crianças em terapia imunossupressora, devendo ser considerada a
possibilidade de imunodeficiência (inclusive HIV) em qualquer criança que tenha
lesões particularmente refratárias.
Virologia
O diagnóstico virológico depende da detecção do DNA do HPV. O uso de PCR
aumentou grandemente a sensibilidade, mas sempre há o risco de contaminação. Têm
sido descritos muitos tipos de HPV, mas nenhum tipo específico está
invariavelmente associado a um aspecto clínico em particular. É comum a infecção
por múltiplos tipos, sendo tecnicamente impossível a certeza de que todos os
tipos de um dado paciente tenham sido isolados. O DNA do HPV pode ser verificado
em tecido aparentemente normal em torno das lesões clínicas, e em lavados
vaginais de pacientes sem lesões detectáveis. Em adolescentes e adultos, os
tipos 1 a 4 e 7 são verificados quase exclusivamente em verrugas cutâneas. Nas
crianças, contudo, há prevalência significativa dos tipos 1 a 3, em verrugas
anogenitais.
Por determinar a fonte de infecção, a virologia acrescenta pouco à história e ao
exame clínico. No presente, há pouco ou nenhum valor na tipagem com finalidades
forenses.
Neoplasia
Em adolescentes e adultos sexualmente ativos, há extraordinária associação entre
HPV e displasia ou carcinoma do colo uterino, vulva, pênis e ânus. Há associação
particular com os tipos 16, 18, 31, 35, 39 e 41 a 45. Tem sido relatada doença
maligna em crianças com papilomatose laríngea. Não se conhece o risco de
malignidade tardia em crianças com infecção anogenital. Há relatos de casos de
displasia e carcinoma vulvares em adolescentes com verrugas na vulva desde o
primeiro ano de vida, e de papulose bowenóide (displasia potencialmente
pré-maligna) em um menino de dois anos.
Métodos de transmissão na infância
Em adultos, o HPV é doença sexualmente transmissível. A transmissão sexual
ocorre claramente em crianças, mas também podem ocorrer outras formas de
transmissão.
Transmissão sexual. As verrugas anogenitais, em crianças, não foram reconhecidas
como DST até 1971. De 1971 a 1993, foram publicados 300 casos, dos quais 29%
foram transmitidas sexualmente. A porcentagem de abuso sexual em diversos
estudos varia de 0% a 100%, refletindo diferenças na seleção de pacientes e na
qualidade da avaliação para abuso sexual. Tem sido documentado abuso sexual já
no primeiro ano de vida. Também deve ser lembrado que as verrugas orofaríngeas
podem ser transmitidas sexualmente.
Transmissão vertical. O HPV pode ser transferido de mães aos seus descendentes,
provavelmente a partir de um canal de parto infectado. É difícil quantificar o
risco para esses bebês. Não há correlação entre a presença de DNA do HPV no bebê
e a presença ou ausência de infecção clínica ou virológica conhecida na mãe. É
desconhecida a duração da eliminação de partículas virais de bebês infectados.
Não foram estabelecidos os limites do período de incubação do nascimento à
infecção clínica. Em primeiro lugar, não há estudos a longo prazo publicados
acompanhando um grupo de bebês infectados. Em segundo lugar, é comum a infecção
assintomática na gravidez. Não se pode, portanto, excluir a transmissão vertical
possível em qualquer criança. Em terceiro lugar, a infecção materna não comprova
transmissão vertical. Foram descritos vários casos nos quais a mãe e a criança
compartilhavam o mesmo parceiro sexual.
Na ausência de evidências científicas conclusivas, é razoável deduzir, a partir
de dados publicados, que quanto mais velha a criança, menor se torna a
probabilidade de transmissão vertical. A maioria das crianças que apresenta
verrugas anogenitais pela primeira vez antes dos 12 meses provavelmente a
adquire ao nascimento. Inversamente, a transmissão vertical é improvável quando
as verrugas anogenitais aparecem pela primeira vez depois dos três anos.
Outros meios de transmissão.
A literatura dermatológica sugere que as crianças podem adquirir verrugas
anogenitais por infecção a partir de verrugas cutâneas em suas próprias mãos
(auto-inoculação) ou das mãos de adultos (heteroinoculação). Os argumentos para
essa hipótese são a prevalência de HPV 2 nas verrugas anogenitais na infância e
um número de relatos de casos e séries de casos sugestivos. A transmissão por
fômites também tem sido sugerida. Essas hipóteses devem ser vistas com cautela.
Em primeiro lugar, a auto-inoculação foi uma hipótese popular em adultos até que
estudos controlados demonstraram falta de relação com as verrugas cutâneas.
Nenhum dos estudos tem sido feito com crianças. Em segundo lugar, a transmissão
por fômites tem sido postulada para todas as doenças sexualmente transmissíveis,
não tendo sido comprovada em nenhuma. Em terceiro lugar, até mesmo se fosse
estabelecido que as verrugas foram pegas em contato com as mãos dos que tomam
conta das crianças, ainda ficaria para ser estabelecido se esse contato foi
inocente.
Concluindo, deve ser reconhecido que ocorrem métodos de transmissão diferentes
do contato sexual. O mais comum destes provavelmente é a transmissão vertical.
No entanto, jamais se pode supor que seja esse o caso. O contato sexual deve ser
incluído no diferencial sempre que uma criança ou jovem se apresentar com
verrugas anogenitais.
Avaliação
Estabeleça a idade em que as lesões apareceram pela primeira vez e quais os
sintomas que causam. Considere todos os meios de transmissão, vertical (infecção
materna, incluindo colpocitológicos, sintomas de infecção respiratória),
transmissão sexual, (atividade sexual em adolescentes, descobrimento de abuso
sexual, alterações de comportamento, fatores de risco para abuso sexual, como
contato com agressor sexual conhecido ou antecedentes familiares de abuso
sexual), outros (outras verrugas na criança ou jovem, verrugas em outros
parentes ou nos que cuidam da criança).
Não se esqueça de examinar o corpo inteiro (inclusive as conjuntivas, boca e
garganta) para pesquisar verrugas. Examine a genitália e o ânus com uma fonte
luminosa e algum tipo de ampliação, como um auroscópio. No sexo feminino, afaste
os lábios vaginais e inspecione a vulva cuidadosamente. No sexo masculino, não
se esqueça de examinar a coroa e o frênulo do pênis (se o prepúcio for
facilmente retrátil). Nem tudo o que se apresenta como verruga é HPV. O
diagnóstico alternativo mais comum é o molusco contagioso, mas quase qualquer
tipo de rash papular pode apresentar-se na região anogenital. Se houver dúvida,
a lesão pode precisar ser biopsiada, e o tecido enviado para histologia e para
análise virológica.
A menos que haja evidências claras de transmissão vertical e a auto-inoculação
em uma criança ou a atividade sexual consentida em um adolescente, encaminhe o
paciente para uma avaliação multidisciplinar para pesquisa de possível abuso
sexual. Nesse caso, uma vez diagnosticadas prováveis verrugas anogenitais, deixe
outras investigações para o médico a quem você esteja encaminhando. De maneira
ideal, uma avaliação completa de abuso sexual incluirá exame por um médico
treinado na avaliação médica de abuso sexual, triagem completa de outras DST
seguindo procedimentos médico-legais aceitos, avaliação de assistente social e
entrevista diagnóstica por um entrevistador apropriadamente treinado.
Podem ser necessárias investigações mais extensas se houver lesões orais ou
sintomas respiratórios em uma criança de pouca idade ou se as lesões parecerem
estender-se ao ânus, uretra ou vagina. Elas podem incluir laringoscopia,
proctoscopia, cistoscopia, vaginoscopia ou (em meninas pós-puberdade) exame com
espéculo e colpocitológico.
Tratamento
As verrugas anogenitais geralmente regredirão espontaneamente. A infecção pode
ser multifocal, o DNA do HPV quase certamente está presente no tecido "normal"
adjacente. No presente, não há evidências de que o tratamento na infância reduza
o risco (não comprovado) de neoplasia posteriormente. O tratamento "pode ser
difícil, prolongado e ter eficácia apenas marginal", sendo comum a recorrência.
Por todas essas razões, o tratamento ativo geralmente não é aconselhável. O
tratamento deve ficar reservado para aqueles com sintomas significativos. Há
muitas formas de tratamento, mas, em crianças de pouca idade com lesões
extensas, a diatermia sob anestesia geral provavelmente seja a melhor opção.
Acompanhamento
Acompanhe o paciente para ter certeza de que as lesões regridam e marque retorno
depois de três a seis meses para assegurar-se de que não tenham recorrido. No
caso de transmissão vertical, é importante ter certeza de que a mãe receba
acompanhamento apropriado de sua própria infecção. Se o paciente for um
adolescente sexualmente ativo, deve ser feita triagem para outras DSTs e ser
oferecida orientação para a saúde sexual. No caso de abuso sexual, o paciente
deve ser acompanhado para se ter certeza de que tenham sido seguidas as etapas
apropriadas para garantir sua segurança e providenciar apoio e aconselhamento.
Não há evidências orientando as recomendações para acompanhamento a longo prazo.
É razoável estar preocupado que as crianças e adolescentes com infecção
anogenital pelo HPV possam ter maior risco a longo prazo de doença maligna.
Seria, portanto, razoável recomendar o começo precoce da triagem cervical
regular depois da puberdade no sexo feminino e, no mínimo, consulta precoce em
pacientes de qualquer sexo quando houver sintomas anogenitais ou uretrais.
|
Infecção pelo
papilomavírus humano (HPV) - atualizações 2001 (cont.) |
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|
Formas de tratamento |
Uso |
Taxa de resposta |
Taxa de recorrência |
Vantagens e desvantagens |
Uso na gravidez |
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|
Aplicadas pelo paciente |
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|
Podofilotoxina |
Verrugas genitais externas. |
45% a 82% |
0% a 91% |
Os resultados são dependentes da colaboração do paciente. Não para grandes áreas de verrugas (>=10cm2). |
Não |
||
|
Imiquimod |
Verrugas anogenitais externas. |
37% a 85% |
13% a 19% |
Imunopotencializador. Mais eficaz em verrugas úmidas. Pode ser menos eficaz no sexo masculino. |
Não |
||
|
Administrada pelo prestador de serviços |
|||||||
|
Crioterapia |
Verrugas anogenitais externas, vaginais, cervicais, uretrais, anais ou orais. |
60% a 97% |
20% a 79% |
Eficaz para verrugas úmidas e secas, a dor pode ser reduzida pelo uso de anestésico, segurança e eficácia altamente dependentes do nível de habilidade, do equipamento e da experiência. Risco de aplicação exagerada ou insuficiente. |
Não |
||
|
Podofilina |
Verrugas anogenitais externas, vaginais ou uretrais. |
19% a 80% |
23% a 70% |
Mais eficaz em verrugas úmidas, relativamente simples de usar, pode conter mútagenos, concentração variável dos componentes ativos, valor limitado para verrugas secas. Evitar grandes áreas de verrugas e aplicações excessivas. |
Não |
||
|
ATA |
Verrugas anogenitais externas, vaginais ou anais. |
50% a 100% |
0% a 50% |
Barato, eficaz para verrugas úmidas e secas. Precisa de aplicação cuidadosa por um profissional de saúde. Seguro durante a gravidez, não para grandes áreas de verrugas friáveis. Baixa viscosidade resulta em que se espalha se aplicado em excesso. |
Não |
||
|
Eletrocauterização |
Verrugas anogenitais externas ou orais. |
35% a 94% |
22% |
Estado livre de verrugas imediato, resultados dependem do nível de habilidade e de treinamento, requer equipamento, consultas clínicas mais longas, anestesia local é obrigatória. |
Não |
||
|
Cirurgia |
Verrugas anogenitais, orais ou anais extensas. |
93% |
8% a 35% |
Estado livre de verrugas imediato, resultados dependem do nível de habilidade e do treinamento, requer equipamento, consulta clínica mais longa, anestesia local obrigatória. |
Não |
||
|
Terapia com laser |
Verrugas anogenitais extensas. |
60% a 100% |
3% a 77% |
Estado livre de verrugas imediato, pode requerer anestesia geral, resultados e segurança dependentes do nível de habilidade. Cara e disponível somente em alguns centros maiores. |
Não |
||
Idade
Segurança e eficácia do tratamento para verrugas não foram estudadas em
populações pediátricas.
Ao tratar, deve-se prestar atenção em evitar e controlar a dor associada ao
tratamento. É questionável precisar de um dos pais ou responsáveis para aplicar
um tratamento que pode ser doloroso.
Devem ser levadas em conta as variações na taxa de desenvolvimento psicossocial
em adolescentes (capacidade cognitiva de compreender e executar qualquer
programa de tratamentos, particularmente terapia aplicada pelo paciente).
Gravidez
Não se conhece a segurança da podofilina, da podofilotoxina e do imiquimod na
gravidez.
O 5-fluorouracila é teratogênico.
Apresentação da doença
Tamanho e número das verrugas: em geral, os tratamentos tópicos administrados
não são ideais para grandes áreas de verrugas, embora possam ter um efeito
desbastador.
Localização anatômica e circuncisão ou não (homens): Verrugas em superfícies
úmidas (parcialmente queratinizadas) e áreas intertriginosas parecem responder
melhor aos tratamentos tópicos do que as verrugas em superfícies secas
(inteiramente queratinizadas) e áreas abertas. Terapia cirúrgica agressiva deve
ser evitada no clitóris, na glande do pênis, no meato urinário, no prepúcio e na
cavidade prepucial nos homens não circuncidados.
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