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Artigos Científicos |
Novos fatos e perspectivas futuras no
tratamento das doenças hepáticas
Atualmente temos tido a chance de observar um crescente aumento nos diagnósticos
das hepatites virais, principalmente a do tipo C, que vem preocupando tanto a
comunidade científica quanto a população em geral.
No tocante ao vírus B podemos afirmar que, frente às possibilidades de
imunização, teremos nos próximos anos um controle adequado da doença, fazendo
com que haja uma diminuição no diagnóstico de novos casos assim como das
complicações relacionadas à mesma, seja cirrose hepática ou hepatocarcinomas (HCC).
Sob o ponto de vista terapêutico, novas drogas vêm sendo pesquisadas, porém a
capacidade de mutação do vírus tem representado uma barreira à parte, a qual
motiva diversas linhas de pesquisa ao redor do mundo. O esquema atualmente
aceito concentra-se na utilização de interferon alfa e lamivudina.
Quanto à infecção pelo vírus C, sabe-se que ela acomete hoje aproximadamente 100
milhões de pessoas no mundo, e, frente ao fato de tratar-se de uma infecção
descoberta em 1989, temos um grande número de casos ainda não diagnosticados.
Tal vírus possui grande afinidade com os hepatócitos e, conseqüentemente, um
potencial de comprometimento expressivo da função hepática após cerca de 15-20
anos do momento da infecção. A cirrose hepática induzida pelo HCV representa
hoje, na maior parte dos serviços de transplante hepático do mundo, a principal
indicação de transplante. Além da cirrose, temos que salientar que existe uma
alta associação entre infecção pelo HCV e HCC. A utilização do interferon alfa
em associação a ribavirina hoje representa o padrão ouro no tratamento de tal
afecção, porém é importante salientar que, tal tratamento deve obrigatoriamente
ser fundamentado nos achados da biópsia hepática e dos valores obtidos na
avaliação do PCR quantitativo e/ou qualitativo para vírus C. Mais recentemente,
a elaboração e utilização do PEG-interferon vem animando aos pesquisadores pela
possibilidade de um esquema terapêutico mais simples (1 x por semana) e com
índices de resposta superiores ao interferon alfa tradicionalmente utilizado.
Tal medicação deverá estar disponível no mercado nacional no segundo semestre
deste ano.
Outros vírus, como o vírus G e o TTV vírus, foram identificados e vêm sendo
estudados, porém seu papel na gênese de doenças crônicas degenerativas do
parênquima hepático ainda está por ser elucidado, não se podendo, no presente
momento, atribuir a estes novos vírus um papel específico no diagnóstico
etiológico das doenças hepáticas hoje denominadas como criptogênicas.
Os tumores hepáticos primários como o hepatocarcinoma (HCC) e o
colangiocarcinoma, assim como os tumores metastáticos que acometem o fígado,
oriundos principalmente do cólon, estômago, pâncreas e mais raramente da mama,
próstata, tireóide ou outros sítios primários, continuam representando um
desafio quanto ao tratamento e resultados. Fato aceito e cientificamente
comprovado é que a melhor opção terapêutica no tratamento de tumores hepáticos
ainda é a ressecção cirúrgica na grande maioria dos casos. Infelizmente porém,
cerca de 40-50% dos tumores hepáticos no momento de seu diagnóstico são
considerados não ressecáveis do ponto de vista cirúrgico. Temos que ponderar o
fato de que aproximadamente metade dos casos vem sendo inadvertidamente
considerada como inoperável e portanto recebe de antemão condenação para a
morte, seja pelo tamanho da lesão, risco de insuficiência hepática aguda no
período pós-operatório, idade do paciente ou outros fatores clínicos que venham
a impossibilitar a cirurgia. Hoje, quando tais casos são encaminhados
precocemente a serviços especializados em cirurgia de fígado, passam a ter a
oportunidade de receber diversos tipos de tratamento com o escopo não só de
tratar das lesões como de tentar melhorar as condições, a fim de que possamos
futuramente submeter o paciente a uma cirurgia curativa. Dentre as diferentes
alternativas terapêuticas disponíveis hoje em nosso hospital, podemos citar a
utilização da radiologia intervencionista que possibilita, por meio de técnicas
minimamente invasivas, a realização por exemplo da quimioembolização tumoral,
promovendo a infusão de quimioterápicos por via transarterial e oclusão da
artéria que nutre a lesão. Com isto, temos a diminuição do volume da lesão e
controle da doença. Outra técnica é representada pela embolização percutânea da
veia porta, com o objetivo de promover a hipertrofia do lobo hepático
contralateral e facilitar a ressecção e dar a chance ao paciente de minimizar o
risco de insuficiência hepática por falta de parênquima funcional no período
pós-operatório. Outro método de ponta é representado pela utilização da
termoablasão por meio de radiofreqüência, que consiste em utilizar-se de um
aparelho emissor de calor que, em última análise, irá promover a destruição do
núcleo celular e do DNA da célula tumoral. Tal modalidade pode ser utilizada em
tumores primários e metastáticos e pode ser realizada por meio de técnicas
percutâneas, laparoscopia ou laparotomia. É importante salientar que,
independente da via de acesso, o exame deve ser acompanhado e guiado pelo
Ultra-som, sendo o controle pós-tratamento feito por CT ou RM e avaliado por
equipe afeita ao método. A radiofreqüência possibilita a utilização em lesões
com diâmetros entre 6-8 centímetros e preconiza-se utilizá-la em no máximo cinco
lesões. Outras alternativas podem ser utilizadas, como alcoolização tumoral,
crioterapia e laser, porém, tais métodos não são tão divulgados em nosso meio,
ficando restritos à literatura americana e européia. Sob o ponto de vista
cirúrgico, a ligadura seletiva do tronco portal do lado da lesão e a ligadura
com ou sem implante de cateter para quimioterapia loco regional representam hoje
alternativas de ponta para possibilitar posteriormente grandes ressecções,
permitindo ao cirurgião uma avaliação loco regional detalhada, coleta de
material para definir tipo histológico e adequar um planejamento detalhado para
a futura re-intervenção operatória.
Novos fatos e perspectivas
futuras no tratamento das doenças hepáticas (cont.)
Quanto ao transplante hepático devemos salientar que, indiscutivelmente, tal
modalidade terapêutica representa hoje a única opção de cura para diversas
doenças hepáticas terminais. Nos EUA foram realizados em 2000 cerca de 4.500
casos e no Brasil, no mesmo período, 480 casos. Apesar dos números, temos
observado um crescente aumento de casos realizados anualmente. Dentre as
condições aceitas para o transplante, lembramos as cirroses induzidas por vírus
B e C, álcool, doenças auto-imunes, metabólicas e os quadros de insuficiência
hepática aguda das mais diversas etiologias. Os resultados vêm sendo bastante
animadores, com uma sobrevida média não se considerando a etiologia da
hepatopatia após cinco anos por volta de 80%. Quanto às complicações, podemos
dividi-las em precoces, representadas didaticamente em complicações técnicas
como tromboses arteriais, fístulas da via biliar, lesões de preservação,
disfunção primária do enxerto e as relacionadas à rejeição aguda ao enxerto.
Quanto às complicações tardias, devemos citar as estenoses da via biliar, as
rejeições e as temidas infecções, sejam bacterianas ou fúngicas, que representam
pela complexidade um desafio aos grupos de transplante.
Frente ao resumo previamente exposto, podemos concluir que a abordagem do
paciente com doença hepática, seja aguda ou em sua forma crônica, com ou sem
cirrose e/ou hipertensão portal, deve ser realizada por um grupo especializado
no manejo de tais afecções, uma vez que tais procedimentos são altamente
complexos, sendo que cada novo caso representa um desafio a ser vencido pela
equipe.