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Capítulo 11 – Doces ou truques? - Parte 02 Susto!
Esperou pacientemente em seu quarto por algumas horas. Abriu a caixa lilás e admirou a coleção de chocolates de formatos diferente que havia ali. Suspirou, desanimado e tornou a fechar a caixa. Largou-a com cuidado sobre o balcão e caminhou devagar até a janela. Já começava a anoitecer, estava frio... Fechou lentamente a janela, olhando para fora com ar de pesar. Todo o seu corpo estava dolorido. A cabeça parecia pesar uma tonelada. Sentia-se tonto e enjoado. Jogou-se pesadamente sobre a poltrona e fechou os olhos. Não conseguia pensar em nada. Sua cabeça parecia um enorme espaço vazio e frio... Certamente devia ter cochilado, por que quando abriu os olhos novamente ouviu insistentes batidas na porta. Levantou-se devagar, procurando sentir cada músculo do corpo e certificar-se que não cairia de volta na poltrona assim que estivesse em pé. Seguro pôs-se a caminhar na direção da porta. Abriu-a devagar. - Estava dormindo? – perguntou Julie olhando-o com curiosidade. - Acho que cochilei... – confirmou passando a mão pela nuca. - Hum... – ela entrou devagar. - E então? – fechando a porta. - Tudo normal... Nada de mais... - sentando-se em uma poltrona. - Que bom! – apanhou a caixa de papel e entregou a ela. – Pegue! - Obrigada! – pegando o objeto das mãos dele. – Quer um? – disse abrindo a caixa. - Ah! Obrigado! – serviu-se de um chocolate em forma de lua e sentou-se em frente a ela. - Queria conversar? – disse, levando um doce à boca. - É... – pensou por um instante. – Sim! – olhou-a demoradamente. Como começar se ao menos tinha uma noção clara do que se passava em sua cabeça? Talvez se apenas dissesse a ela como estava se sentindo. Mas não parecia ser coisa fácil de fazer. Suspirou longamente. Olhou os chocolates na caixa e mais uma vez para a garota em sua frente. - Sobre o quê queria conversar? – perguntou ela com mais um chocolate nas mãos. - Sobre nós... – distraído olhando para o lado. - Humm... – mastigando o doce. - Estamos perdendo a graça... – murmurou quase sem coragem. - O quê? – espantou-se ela. - Nós dois... Acho que não há mais razão para... – deteve-se por um instante e olhou os doces. – Para continuarmos juntos... - Enlouqueceu? – agitou-se ela. – De onde tirou essa idéia? - De tudo... De hoje! – disse calmamente. - Hoje? O que houve hoje? – olhando-o confusa. - Jura que não percebeu? Há dias mal nos falamos e hoje percebi que... Parece que você não quer estar junto comigo... – suspirando. - Howie! Que loucura! Por que está pensando nessas bobeiras? – largando a caixa de doces na mesa entre eles. - Por quê? Ora Juliette, hoje você sequer percebeu a minha presença. E eu estava ali o tempo todo. – magoado. - Mas eu estava trabalhando... – argumentou. - Sim, eu sei... Mas mesmo quando não está... Parece distante... Querendo fugir... – baixou os olhos e suspirou mais uma vez. - Howie! Do que você está falando? – confusa. - Do quanto tudo isso perdeu o sentido. Eu e você... – iniciou com a voz arrastada. - Como assim? Por acaso está dizendo que não quer mais estar comigo? È isso? – trêmula. - E nós estamos juntos? De verdade? Sejamos realistas Julie! As coisas não estão acontecendo... Não vê? – levantando-se e andando pela sala. - Não vejo nada disso! O que está pretendendo? – encrespando a testa nervosamente. - Nada... É isto. Nada... – resmungou, cruzando as pernas. - Nada? O que é nada? Está me assustando Howie... – disse inclinando-se na direção dele. - Nós... Estamos andando em círculos... Silenciosos e intermináveis espirais que levam a lugar nenhum... – divagou. - Está falando por enigmas agora? Por favor, o que está acontecendo? – quase desesperada. - Nada! Está é a resposta! Não está acontecendo nada. – desenhando um circulo no ar com o dedo. - Não estou entendendo... - disse pausadamente, com certo receio. - Juliette, eu acho justo concluir que há alguma coisa muito errada entre nós. E, sendo assim, muito melhor seria que seguíssemos caminhos diferentes. – disse de uma só vez, sem pausa para tomar fôlego. - O quê? – pondo-se em pé com as mãos ao peito. - Isso o que ouviu... – disse, andando em círculos em redor da poltrona onde antes estava sentado. - Está perdendo o juízo Howie? – exaltando-se. – Que me meter medo com essas idéias? - Não... – sentando-se calmamente e apanhando um chocolate. – Apenas estou percebendo o quanto estamos sendo tolos. Você não quer estar comigo... Não parece simples? – olhando o vazio. – Você está sempre muito ocupada com seu trabalho... Ocupada demais para lembrar que existo, ou cansada demais para me dispensar atenção e carinho... - How... – quedou-se novamente sentada, boquiaberta. - Percebeu? Só me chamou pelo nome, desde que entrou por aquela porta, meu amor... - declarou ele olhando-a nos olhos. - Oh! – levando uma mão à boca, espantada com aquela conclusão. - É isso, não é? Está mesmo tudo acabado, desgastado, desbotado e sem vida... – concluiu desviando o olhar. - Mas... Mas... Não pode estar certo... Eu... Gosto de você! Sim! Gosto muito de você! – agitada, procurando as palavras certas. - Isso está certo! Também gosto muito de você, mas acha mesmo que somos um casal ainda? – voltando a olhá-la nos olhos. - Acho... Não! Tenho certeza! Por que está falando assim? – olhos trêmulos. - Por que não adianta nada ficarmos por aí fingindo sermos um casal feliz, quando temos vontade de fugir, não acha? – ponderou. - Mas eu quero ficar com você! Sim! Eu quero! De verdade! – parecia que só agora ela se dava conta disso. Colocou-se joelhos em frente a ele. - Ah! Que confusão! Por que fica me evitando então? – passando a mão pelos cabelos. - Evitar você? – com lágrimas nos olhos. – Não! Eu não fiz isso... Eu... - Juliette! – censurando-a. – Não diga mentiras. Foi o que fez o dia inteiro! Parecia querer me ver o mais longe possível de você... – disse, encarando-a seriamente. - Oh! Eu sinto muito! Não pensei que você veria as coisas desse modo e... – tentando se justificar. - Não importa como eu vejo as coisas querida! Aconteceu exatamente como estou lhe dizendo, acredite você ou não. Foi o que você fez! - Perdão! – apanhando uma mão dele. – Eu realmente não percebi que estava fazendo isso... – chorando. - Não importa. Só me ajudou a perceber que caminhávamos rumo ao nada... – perdendo o olhar novamente no vazio. - Então está mesmo decidido a termina tudo comigo? Assim, desse modo, por causa da minha distração de um dia? – atônita, entre lágrimas. - Não é por hoje Julie... Está acontecendo... Não vê? – impaciente. – Estamos correndo cada um para o seu lado... Vamos acabar nos perdendo... - desviando o olhar. - Mas Howie, por que desistir? – suplicante. -Desistir? – repetiu ele. – Não há pelo que lutar... Simplesmente... Acabou, sem nem percebermos isso... – conclui meditativo. Julie ficou em pé e olhou pelo lugar sem saber o que pensar ou dizer. Ensaiou alguns passos para trás, mas deteve-se em seguida. Ameaçou se lançar ao solo novamente, mas não o fez. Parecia que seu interior estava em conflito. Sequer ela mesma sabia o que devia fazer. Howie fixou o olhar nela. Era bonita e agradável. Jamais tinha pensado na possibilidade de separar-se daquela garota, até aquele momento. Mas tudo o que conseguia visualizar, era um castelo de areia sendo consumido pela força dos ventos. Eles eram esse castelo. A vida agitada de ambos estava consumindo-os e nada podiam fazer para evitar isso... - Covarde! – bradou ela abruptamente. - Dá por perdido aquilo que nem tentou recuperar... - Não vale o esforço... – resmungou ele escorregando na poltrona, mas olhando-a atentamente. - É tudo o que tem a dizer sobre isso? Está acabado, não tem mais jeito... Não consigo acreditar nisso. – baixou a cabeça por um instante, erguendo devagar, em seguida. – Howie... Eu amo você! – disse pausadamente. - Julie... – já sem tanta convicção quanto antes. – Eu também amo você... Apenas... – levou as mãos à cabeça. – Oh! Eu não sei mais o que fazer... - Por favor... Não desista... – aproximando-se lentamente dele. - Eu... – voltando a encará-la. – Eu preciso ficar sozinho... – de súbito, levantando-se e conduzindo a garota até a porta. - Mas... – aturdida pela mudança repentina. - Sinto muito Julie, não posso decidir nada agora... – abrindo a porta. – Peço que compreenda... - Certo... – baixando a cabeça e deixando o quarto. – Vou deixá-lo refletir... Espero que isso lhe faça bem. – saindo pelo corredor, um tanto desolada. Howie fechou a porta e ficou olhando um ponto inexistente nela por um longo momento. Seus olhos então, desceram lentamente pela porta, até encontrarem o carpete do quarto. Devagar, voltou-se na direção das poltronas, e caminhou, arrastando os pés, até uma delas. A cabeça pendia como se fosse pesada demais para que o pescoço a sustentasse. Os braços estendidos ao longo do corpo, sem vida e sem ação. Suas pernas mais pareciam dois grandes blocos de concreto, rígidos e frios. Sua mente estava nebulosa, turvada, adormecida. Nem conseguiu jogar-se ao assento, nem manter-se em pé. Devagar, viu seus joelhos dobrarem-se. Pouco a pouco mais perto do chão. As mãos, como que buscando o amparo seguro do solo firme. As gotas quentes de suas lágrimas, rolando pelo rosto e caindo sobre o carpete. Logo que seus joelhos trêmulos tocaram o solo, ele recostou a cabeça na almofada da poltrona e chorou dolorosamente. O que estava fazendo afinal? Lamentando o fim do seu namoro? Chorando a sua incapacidade? Gemendo pela partida da namorada? Não podia ser assim tão inútil a ponto de somente conseguir entregar-se daquele modo ao pranto. Precisava pensar... Necessitava de concentração suficiente para colocar os pensamento e sentimentos na mesma ordem. Sentiu todo o seu corpo vibrar, ficando gelado num instante, parecendo que ia estraçalhar-se a qualquer momento. Cerrou os dentes fortemente. Precisava dirigir seus pensamentos. Estava sendo um covarde! Era apenas isso! Procurou erguer sua cabeça devagar. Precisava para de sentir pena de si mesmo. Quando finalmente pode limpar a visão e olhar, percebeu a posição ridícula em que se encontrava. Tinha mandado a garota embora, simplesmente por que se sentira fraco e incapaz. Esfregou os olhos vigorosamente. Forçou-se a ficar em pé. Levantou a cabeça e respirou profundamente. Decidira-se. Devia ir atrás da garota. Retomar a conversa deixada pelo meio e resolver aquilo que simplesmente abandonar. Encheu-se de toda a coragem que pode e voltou-se na direção da porta. Caminhou com passos firmes e saiu do quarto. Quando alcançou o corredor, em tudo, já parecia outro. Dominando o próprio corpo e dono de seus pensamentos, caminhou ereto e confiante na direção do quarto da namorada. Não! Não ia deixar tudo sem resolução. Ia tocar a porta, quando se lembrou do cartão que trazia consigo. Como podia duas pessoas tão intimas a ponto de terem as chaves do quarto uma da outra, por tudo a perder de modo tão infantil? Riu-se por um instante, enquanto apanhava o cartão. Colocou-o no local indicado e pressionou a porta para que se abrisse. Quando a porta se abriu por completo, o sorriso que ameaçava brotar em seus lábios morreu. Seus olhos arregalaram-se lentamente, como se não cressem naquilo que presenciavam. Lá estava! Uma cena inesperada e chocante. Alguma coisa totalmente fora da realidade... Lá estava Juliette entrem os braços de outra pessoa. Quem era? Quem era o homem que tomava seu lugar? Apressou-se em estender o braço gelado, assim como o resto do corpo, e alcançar o interruptor. Acendeu a luz, surpreendendo os dois envolvidos no abraço. Era James. Seu coração acelerou diante da raiva que cresceu dentro dele. Sentiu o braço enrijecer sob a violenta ânsia de vingança. Mas inspirou profundamente, refreando todos os impulsos, deu meia volta e deixou o lugar a passos pesados. Tinha perdido! Tinha perdido tudo!
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