Backstreet Fics ~ 2007 ~> In my dreams ~ #1version

By Luh Moon

Capítulo 10 – Doces ou truques? - Parte 01

Desencontros

 

As janelas estavam abertas e o vento que enchia o lugar acabou por acordá-lo mais cedo do que ele esperava. Estava de folga, não precisava se preocupar com horários afinal. Saiu da cama, com os olhos ainda embaçados. Tinha um encontro com sua garota. Mas não tinha pressa. Caminhou lentamente até o banheiro. Um banho ajudaria a despertar a mente e o espírito.

Abriu o chuveiro e deixou a água escorrer por seu corpo. A noite anterior tinha sido realmente cansativa, embora não lembrasse de nada o que tivesse acontecido. Por alguns minutos, deixou apenas a água escorrer, sem fazer nenhum movimento. Howie estava realmente esgotado.

Saiu do banheiro enxugando-se com uma grande toalha branca e sentou-se na cama apanhando o telefone. Pensou por um segundo antes de fazer a ligação. Em seguida, digitou o número que queria e aguardou esfregando a toalha nos cabelos.

Tudo o que ouviu foi uma mensagem eletrônica. “Ligue mais tarde. Obrigada!”. Suspirou deixando o telefone onde estava antes, com uma ruga na testa. Olhou o relógio. Era cedo demais... Terminou de se enxugar, vestiu-se e apanhou um casaco deixando o quarto.

Tomaria um café e depois iria se encontrar com a namorada. Julie realmente era alguém especial para ele. Embora ultimamente não passassem muito tempo juntos. Ela estava sempre ocupada... Sempre. Atravessou o corredor a passos macios e com as mãos nos bolsos, por um  momento pensou se aquilo realmente valia a pena... Mas em que ele estava pensando afinal? Sacudiu a cabeça e seguiu até o elevador.

Logo que chegou ao saguão, percebeu  uma movimentação anormal. Muitas pessoas andando de lá para cá, quando avistou um grupo conhecido compreendeu o que estava acontecendo. Eram de Hollywood. Produtores de Hollywood, liderados por James Narrew, de quem Juliette, sua namorada, era secretária particular e assistente. Suspirou longamente.

Isso significava que a garota estaria terrivelmente ocupada durante o dia inteiro, e que nada restava a ele, senão esperar e esperar. Não lhe agradava em nada aquela idéia, mas era isso ou ficar com um humor miserável e arrastar-se atrás de Juliette como um pedinte, aguardando algumas migalhas de atenção. Acabou optando pela segunda opção...

Antes mesmo de vê-la, tratou de sair em seu encalço. Olhava cada criatura que vestisse saias, mas nenhuma delas era a sua Julie. Já nos primeiros minutos, sua paciência se mostrou insuficiente para aquela tarefa e fê-lo sentar-se numa poltrona qualquer com as mãos sob o queixo. Como por obra do acaso, foi então que não ele encontrou-a, mas ela a ele.

- How? – surpreendeu-se a garota ao passar por ali.

- Julie! – apesar de tudo, parecia também surpreso por vê-la.

- O que faz aqui? – perguntou olhando para os lados.

- Eu? – a pergunta parecia imensamente absurda. Se, eram namorados, e ela estava ali, não era natural que ele estivesse no mesmo lugar? – Estava procurando por você...

- Por mim? Mas por quê? – sinceramente admirada.

- Por quê? – nova interrogativa sem sentido. Precisava haver um motivo concreto para que ele quisesse estar com ela? Pelo modo como ela o encarava, parecia que sim! – Ora! Por que eu queria ver você!

- E não nos vimos ainda ontem? – questionou enrugando o cenho.

- Juliette! – pondo-se em pé imediatamente. – É assim tão desagradável estar comigo? – alterando um pouco o tom  de voz.

- Não... Não disse nada disso, por favor, fale baixo! – sacudindo nervosamente uma mão.

- E então? Qual o problema em eu querer estar perto de você? – questionou, dominando o tom de voz.

- Nenhum, de verdade! – disse ela mordendo o lábio inferior.

Não. Realmente não havia problema algum e assim que ela saiu, Howie seguiu-a, não tão alegremente quanto tencionara a principio, mesmo assim foi.

O grupo estava filmando algumas cenas de um filme que seria lançado no próximo verão. Julie estava ocupadíssima, atendendo atores e atrizes, além do próprio chefe, bastante exigente e imperioso. Ao longe, Howie apenas observava, limitando-se a sorrir quando Julie dirigia um olhar na sua direção.

Não estava chateado por estar ali. Não de verdade. Sabia como era aquilo. Estar envolvido pelo trabalho, respirar e viver disso... Pouco a pouco, todavia, foi sentindo os olhos pesados, as costas doloridas, os pés impacientes. Estava ansioso já e quanto mais as horas se iam, mas irrequieto ficava.

Já fizera uma dúzia de barcos e aviões de papel com os panfletos turísticos que, volta e meia, lhe caiam nas mãos. Teriam sido interessante se tivesse aprendido algumas dobraduras de origami... Cansado da recreação inútil, limitava-se a rasgar os novos papéis que surgiam em tiras finas... Visivelmente irritado.

Com o que é que não sabia direito. Podia estar zangado com a namorada que estava trabalhando por horas a fio sem sequer lhe acenar. Podia ainda estar aborrecido com o diretor, com o chefe da garota, o senhor James Narrew, que a escalara para trabalhar justamente no dia de sua folga. Ou ainda, podia esta sua rabugice estar arraigada a si mesmo, por estar ali feito um idiota observando o que os outros faziam, como se fizesse parte da decoração.

- Intervalo! – ele ouviu alguém gritar em meio ao tumulto de pessoas.

Rapidamente o ânimo retornou-lhe ao corpo. Abandonou imediatamente os papéis picados, barcos e aviões e pôs-se em pé, aguardando que a namorada se aproximasse. O que não demorou muito a acontecer. Logo, viu Julie vindo em sua direção. Mas ela não parecia estar muito contente.

- How, parece que o trabalho vai demorar mais do que esperávamos... - suspirou ela, olhando ao redor. - Importa-se em esperar um pouco mais ou... - olhou em torno de si uma segunda vez. - Prefere ir?

- Não me importo em esperar... A não ser... - imitou-a, olhando-o ao redor, parecendo interessado. - Que VOCÊ não queira que eu espere. É esse o caso? -incisivamente.

- Não... Eu não disse isso... Eu... - agitando-se e olhando insistentemente ao redor. - Fique! Vou resolver um pequeno contratempo e logo volto aqui... - saiu apressada, mal dando um beijo insosso no rosto dele.

Por um breve instante Howie deteve-se contabilizando o tempo em que não trocavam um beijo. Um beijo de verdade... Ao que constasse a ele, excluindo-se aquele arremedo de beijo comportado de segundos atrás, iam alguns dias desde que não se beijavam decentemente. Estava acontecendo alguma coisa com eles que ele não percebera antes? Antes de obter resposta para a questão, sua mente já estava pondo em contagem outros fatos relevantes daquele relacionamento. Surpreendeu-se quando descobriu que já tinham alguns dias que andavam deixando muitas coisas de lado. Realmente... Caso se pusesse a recordar, perceberia que ultimamente sequer conversavam direito. Estranhamente, Julie parecia não se incomodar com isso.

Quando pensou nisso, deu-se conta de que já tinha passado-se muitos minutos desde que ela saíra dali e até agora, nem sinal de retorno. Sacudiu os ombros e decidiu ter um pouco mais de paciência, mesmo que parecesse tarefa difícil. Logo, no entanto, viu toda a turba se reunir novamente e o tumulto recomeçar. Baixou a cabeça, desanimado, assim que viu Julie surgir, sabe-se lá de onde, com uma sacola cheia de comida e correr apressada na direção do chefe. Suspirou.

As horas seguintes pareceram ser da mais genuína tortura medieval. Howie sentia os dedos dos pés formigando, os joelhos agitados, as mãos impacientes e inquietas. Não importava para onde olhasse, ou o que fizesse, sua paciência tinha chegado ao extremo limite. Simplesmente não suportava mais ficar ali parado. Num ultimo esforço para manter-se no aguardo de sua garota, dobrou o cotovelo e posicionou o pulso sob os olhos. Queria saber que horas eram... Surpreendeu-se imensamente com o avançado da hora. Acabara de descobrir que perdera a maior parte do dia naquela função inútil, e naquele mesmo instante todos começaram a dispersar.

Howie finalmente ficou em pé e esticou a coluna. Estava com o corpo todo dolorido. Demorou mais alguns minutos até que todos saíssem dali e Julie finalmente cumprisse o restante de suas tarefas. Nesse ínterim, Howie caminhou pesadamente sobre o volumoso carpete vermelho do saguão. Agora sim, estava sincera e irremediavelmente aborrecido. E assim que tivesse a oportunidade, pretendia conversar com Julie sobre tudo o que havia acontecido naquele dia e que, acabara de perceber, vinha acontecendo há algum tempo.

Descobriu também naquele momento que a noção de passagem de tempo muito dependia da situação que se vivenciava. Aquele era o caso da panela fervente sobre as palmas das mãos... Não era de fato muito tempo, mas lhe parecia uma eternidade de agonia. Suspirou tantas vezes que logo percebeu olhares curiosos sobre ele, procurou então conter-se.

Quando Julie aproximou-se, não sorria, trazia nas mãos uma pequena caixa lilás, de papel e, jogada as costas, sua bolsa pequena de couro marrom. Logo que se aproximou de onde Howie estava, jogou-se na poltrona, onde ele passara todo o dia sentado, e suspirou longa e profundamente.

- Cansada? – questionou carinhosamente Howie sentando-se junto dela.

- Bastante... Meus pés doem... – disse ela esticando as pernas e movendo os tornozelos em círculos.

- Imagino... – os pés dele também doíam, o corpo inteiro parecia estar estilhaçado, mesmo assim, esforçou-se para esboçar um sorriso compreensivo. – E então... Vamos jantar e, quem sabe, possamos relaxar depois? – podia ser que tivesse imaginado as coisas maiores que eram durante o dia.

- Oh! Não! Sinto muito, mas estou cansada demais até para comer... – resmungou Julie acariciando a própria nuca. E a realidade cutucou o ombro de Howie.

- Então podemos ir para o quarto e apenas relaxar... Que tal? – não... Tinha realmente visto as coisas muito piores que eram em verdade. Não era para menos, estava cansado e aborrecido. Sua visão não tinha sido imparcial até ali...

- Hum... – ela parecia concentrada na proposta, talvez mais do que Howie esperava. – Vamos sim... – concordou ela com certa indiferença. E a realidade praticamente jogou-se contra o rosto dele.

Mesmo assim, enquanto caminhava com ela até o elevador, realmente imaginou que estivesse imensamente enganado. Tinha tirado uma série de semi-conclusões precipitadas e descabidas. Chegara mesmo a imaginar que aquela mulher não o amasse. Riu de si mesmo ao repensar sobre as mesmas coisas que remoera o dia inteiro. Estava sob tensão, era somente isso...

Entraram no elevador e ele enlaçou a garota pela cintura, no que acabou sendo um meio abraço desajeitado. A porta do cubículo de metal se fechou e logo o elevador começou a se mover. Quase ao mesmo tempo, um celular se fez ouvir. Os dois olharam-se demoradamente, sob a melodia estridente e agitada do aparelho. O elevador parou e eles caminharam para fora, ainda com a mesma trilha sonora.

- Não vai atender? É o seu! – ressalvou Howie perturbado.

- Oh! Verdade! – parecendo distraída. – Segure, por favor! – pediu ela estendendo a ele a caixinha de papel.

Howie apanhou prontamente o pacote colorido e percebeu que dele recendia um cheiro muito agradável. Demorou-se algum tempo imaginando o conteúdo da embalagem. Em seguida, voltou sua atenção para a namorada, que já ia uns passos adiante, com a orelha colada ao telefone.

Possivelmente, quase com certeza, o carrasco do chefe da moça estava passando-lhe um sermão homérico. Podia ter acontecido de Julie ter esquecido algum detalhe mínimo e Howie sabia como aquele tipo de pessoa era metódico e meticuloso.  Chegou mesmo a sentir pena da namorada.

Sequer imaginava o que estava para acontecer, quando, percebendo que Julie encerrara a ligação, caminhou na direção dela, sorridente, a fim de consolá-la do possível discurso vexatório que fora obrigada a aturar. Mas quando se aproximou, percebeu que ela não parecia aborrecida ou contrariada.

- Quem era? – a pergunta saiu, sem que ele quisesse.

- Era James... – disse ela num tom baixíssimo.

- Hummm... – os pensamentos de antes voltavam à mente de Howie.

- Preciso ir... Quando eu voltar... – ela já dava a volta, na direção do elevador.

- Hei! Não estava cansada? Cansada demais? – questionou ele segurando-a pelo braço.

- Howie! Por favor! Quando eu voltar... – iniciou uma segunda vez.

- Quando você voltar, vamos conversar... – disse em meio a um suspiro. – Seriamente... – soltou o braço dela e saiu caminhando lentamente na direção do seu quarto, levando nas mãos a caixa lilás de papel.

 

 

 

 

 

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