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CAPÍTULO
II
Sobre Si Mesmo
Século XV, ano de 1460. Numa região qualquer ao longo do
prisco Danúbio, rompia o dia com grande esforço para dominar
os campos nevoentos.
A natureza pródiga procurava encobrir o cenário de desgraças
que se alinhava.
O silêncio era próprio da morte. Não havia os sons
costumeiros dos animais silvestres.
Sabia-se que se movimentavam milhares de homens, contudo o invisível
era presente. Transbordava-se.
Rompe dentre a bruma, como por efeito de magia, um cavalariano
fartamente vestido com os ornamentos de guerra. Galopa intrépido,
postando-se na elevação onde se encontram as mais altas
patentes. Puxando as rédeas, faz seu cavalo empinar arranhando
o espaço com as patas. E sem mais tempo a perder, pronuncia:
- Salve
sereníssimo rei Drácon Turnovo! Ó grande Valáquius III,
Senhor
de todo o Território Leste! As tropas já se colocaram segundo
vossas instruções! - exclamou com os olhos estalados de zumbi.
O rei Valáquius III, com a roupagem preta e montado em seu
cavalo majestoso igualmente preto, pôs-se à frente com a
fisionomia sombria. Ostentava em sua testa um enorme rubi
circundado por uma estrela de ouro. Brilhou em seus olhos o
preto do luto eterno; com uma satisfação indisfarçável,
jogou a capa para trás dos ombros. Em seguida bradou em tom
enlouquecido:
- Sub-Comandantes! Chegou o grande dia da batalha final! Vamos
varrer da face da Terra esses cães incrédulos e bárbaros!
Vamos afogá-los no Mar Negro! Ordeno que formem blocos constituídos
cada qual com 2.000 lanceiros, 1.000 arqueiros, 3.000
cavalarianos e mais milhares de crianças com força suficiente
para carregarem os tambores, entremeando-se e engrossando as
fileiras dos nossos guerreiros. A formação será em arcos que
estarão em constante movimento. A estratégia dos rodamoinhos
da morte, que tragarão aos poucos, ao centro, o exército
inimigo (os turcos), quando, a meu comando, as reservas de
nossas tropas desferirão o ataque final. Senhores até a vitória
final! “Dies irae” (o dia da ira) chegou! – e soltou uma
risada demoníaca.
Todos ouviram sem coragem de perguntar qualquer coisa.
Tomaram suas posições.
O rei Valáquius III, embriagado pela alegria do combate
iminente, levantou o braço direito, só a mão semicerrada com
três dedos em riste deu o sinal para o início da batalha.
O retumbar dos tambores fazia tremer o chão. As colunas de
homens aos poucos se delineavam na espessa neblina camuflante.
Podia-se sentir no ar a ansiedade dos guerreiros para o choque
da batalha. Do confronto.
O brasão da Casa Real Valáquius (o dracul – dragão -, cujo
nome significa demônio) estava estampado nos escudos, nas
armaduras e nas mantas dos animais.
Do outro lado do vale despontava o exército turco, em formação
geométrica, vindo lenta, mas decididamente.
Exalava-se o fúnebre, o fim das coisas, o fim da vida, o fim do
mundo.
Os estandartes dos dois exércitos encontravam-se próximos.
Os sub-comandantes receberam a ordem do rei Valáquius III e
partiram com seus comandados ao ataque.
Em poucos minutos, a gritaria selvagem em idiomas diferentes,
adiantaram-se começando a batalha da intimidação. É certo
que muitos se escondiam por detrás dos próprios sons gritantes
para disfarçarem seus medos.
Os arqueiros fizeram furar o ar. Não havia um só espaço, um só
ponto, onde as flechas não passassem. Por um momento o dia
escureceu. Logo depois da infantaria e dos lanceiros,
houve a arremetida da cavalaria em coreografia estudada. Dançavam
os movimentos da guerra. As crianças com seus tambores foram
orientadas a recuarem e formarem um núcleo denso na parte
central do campo de batalha.
O que sobrava da infantaria, a cavalaria estrategicamente
resgatava, na garupa da montaria, dando a falsa impressão de
fuga desesperada do exército do rei Valáquius III.
Pelos extremos e meio-flancos, a massa humana era empurrada em círculos,
engrossando cada vez mais o núcleo com crianças travestidas de
guerreiros.
Ao sentir-se perto da vitória, o exército turco
liberou erroneamente suas forças reservas para o avanço final,
cercando e encurralando no centro do vale aquele contingente.
Pouco a pouco, o cerco fechou-se de vez. No núcleo,
aproximadamente 4.000 mil crianças assustadas servindo de isca,
cumprindo assim o propósito do comandante militar, o rei.
Ao iniciar-se o ataque turco, derradeiro, sobre a tropa
encurralada, o sub-comandante Gláudius, preocupado em poupar o
que pudesse daquelas vidas, ousou interceder junto ao seu
comandante:
- Senhor, posso ordenar que nossos homens partam para o
contra-ataque? - a voz semitonada mal disfarçou o receio.
- Não! Respondeu o rei Valáquius III.
E colérico continuou:
- Deixe aquelas crianças terem a honra de morrerem por mim. É
o mínimo que posso fazer por elas. Melhor que deixá-las levar
uma vida miserável, sem honra, sem glória. É por um bom
propósito. Em nosso exército não temos homens, nem soldados,
são guerreiros para viver ou morrer conforme minhas ordens!
E, mudando ao extremo a voz, quase em tom afeminado, jogando a
capa para trás dos ombros num gesto involuntário,
continuou:
- Como foi mesmo que chegou a sub-comandante, Senhor Gláudius?
Foi sendo condescendente com os subalternos? A vitória é que
importa. Não se esqueça nunca disto.
Erguendo as sobrancelhas com ar de desprezo, continuou:
- Ademais, quando se dirigir a mim pronuncie sereníssimo rei
Valáquius III, Senhor de Todo Território Leste, sim?
Concluiu secamente:
- Tome sua posição. Dispensado.
Gláudius afastou-se nitidamente contrariado.
O subcomandante Gláudius vinha de família nobre, com preceitos
cristãos no cerne da formação dos sentimentos. Vivia-se numa
época brutal com os dois lados da espada; para o entendimento
da época prevalecia a honra, o duelo, as injustiças dos mais
fortes sobre os mais fracos, os opressores... dava-se vazão
à ignorância, em nome de Jesus cometiam-se os mais bárbaros
crimes acobertando os verdadeiros interesses torpes. Gláudius
vivia em constante tormento.
O rei Valáquius III chamou seu conselheiro Condácius Primus.
Condácius saudou-o exagerada e respeitosamente.
- Conselheiro Condácius, passa a ser de meu grande interesse
que espreite as atitudes do subcomandante Gláudius. Ouça seus
pensamentos. Relate quem está em seu círculo mais
próximo. O laço familiar tornará sua missão mais fácil.
Pensei que o fedelho já tivesse aprendido a lição. Será que
ele esqueceu onde se encontra seu velho pai? - levantando o dedo
indicador para cima: - Ande sobre pétalas sem machucá-las,
entendeu bem?
- Sim, Alteza - respondeu Condácius afastando-se em
seguida.
Como era de se esperar o massacre foi terrível.
Os soldados turcos, obcecados e concentrados no ato de matar
seus rivais, dizimavam com toda energia a aglutinação de
fantoches infantis; em galope, a cavalaria turca atropelava
todos pela frente com os peitoris dos cavalos protegidos por
couraças com setas pontiagudas; abriam caminho a machadadas,
decepando corpos frágeis com as espadas. As crianças estavam
ora paralisadas pelo medo, ora corriam trombando como formigas
desesperadas. Choravam muito. Confusas, caíam umas sobre as
outras. E mortas despencavam da vida para tombarem ao
chão já encharcado de sangue. No calor da batalha, sem
perceber, os turcos haviam caído na armadilha bélica; estavam
reunidos num círculo central quando foram surpreendidos pelas
reservas dos guerreiros do rei Valáquius III, fechando-os
num círculo maior.
Gláudius largou o seu posto, lançando-se aos gritos insanos
sobre os turcos, tentando inutilmente poupar aquelas crianças,
presas humanas.
O suor dos homens no auge da batalha exalava odor de sangue
fervido.
Cenas selvagens de horror por todos os lados. Corpos já mortos
eram, ainda assim, decepados com alegria macabra. Do alto, em
segurança, vendo o cenário lúgubre, o rei Valáquius III
vibrava alucinadamente.
Em pouco tempo a vitória derradeira. Foram feitos milhares de
prisioneiros turcos que, rendidos, ajoelhavam-se e jogavam
suas armas ao chão.
A terra estava ferida pelas barbaridades, pelo sangue derramado,
pelas vidas desperdiçadas, pelas insanidades...
Recolhidos, amarrados, e hostilizados, os turcos foram obrigados
a preparar grande quantidade de estacas. Próximas
uma das outras, em pequenos círculos, foram fixadas ao chão.
Formaram um curral de humanos. Os turcos foram
aprisionados em grupos nessas “celas” improvisadas.
Visto de longe, parecia que se construía uma manta gigante de
porco espinho ameaçadora.
Em grandes convulsões, suando frio, o rei Valáquius III
delirou recolhido em seus aposentos nas imediações do campo de
batalha durante horas. Somente os conselheiros e sub-comandantes
possuíam o conhecimento de tal fato. Mantinham-se, obviamente,
todos em silêncio.
Entre os sobreviventes dos dois lados, perguntavam-se o que o
rei, vitorioso, senhor da vida e da morte, reservava aos
prisioneiros?
Nos restos da batalha campal, Gláudius vislumbrou horrorizado
os corpos das crianças usadas em armadilha inconcebível. Eram
corpos mutilados por toda parte. Jovens que para se defenderem
usaram somente seus tambores. Os rostos que não estavam
cobertos de sangue, estavam cobertos pelo pavor.
Gláudius descobriu sob aquela carnificina o corpo de Timór.
Suas lágrimas despencaram. Sentiu uma grande dor em seu peito
soluçante.
O cheiro da morte trouxe Gláudius para a dura realidade. Por
todo lado a mesma cena. Ao contrário do que muitos imaginam, a
morte na batalha é quente e não fria.
Apesar da vitória de seu exército o coração de Gláudius
estava derrotado. Não podia compreender estratégia tão
desumana, mesmo tratando-se de guerra.
Gláudius recolheu Timór em seus braços. Da boca do menino saía
um pequeno rio de sangue, que escoou a vida. Seus olhos
semi-abertos voltados para o céu pareciam buscar a Deus. Estava
morto. Estático.
Quando Gláudius acomodou aquele corpo no leito da morte,
observou surpreendido que em uma das mãos estava o
boneco-soldado presenteado por ele mesmo tempos atrás. Era tudo
que aquele menino possuía. Abriu os delicados dedos de Timór,
um a um, e pegou para si como lembrança fúnebre o pequeno
objeto, para ajudá-lo a nunca mais esquecer aquele dia.
Seria um marco da transformação que ocorreria naquele homem
entristecido.
Num acesso de loucura abraçou o pequeno corpo. Urrava e soluçava
frases incompreensíveis. Não se importava com mais nada ao
redor.
Chamou-lhe a atenção, nas costas despidas de Timór, a
tatuagem de um dragão, parecido com o brasão real. Mas não
levou em conta. Estava sem poder raciocinar direito.
Depois de algum tempo, semimorto, enquanto olhava aquela
fisionomia de inocência, lembrava como conhecera o
pequeno Timór. Meses antes, em serviço oficial, fora levar as
novas orientações do rei Valáquius III ao Clero. No caminho
ouviu um tremendo alvoroço: os monges enraivecidos davam safanões
no menino órfão, que fora pego em flagrante.
O aspecto dele era o pior possível. Sujo, trajes rasgados,
esfomeado, cabelos piolhados e com doze anos de idade,
aproximadamente.
E aos gritos de susto e de desculpas o pequenino explicava-se:
- Alguém me ajuda! Não quero prejudicar ninguém. Eu só
ficava às escondidas no Mosteiro para ouvir as rezas e saciar a
fome. Tenho fome - replicava.
E os monges puxavam-no pelos cabelos e xingavam-no de órfão
rato.
- Nascem aos milhares para passar fome e distribuir pestes
e mais nada - vociferavam os monges, justificando-se ao oficial
militar Gláudius.
- Deixem-no! sentenciou Gláudius.
Estendendo a mão em direção ao pequenino, Gláudius falou
firme, porém docilmente:
- Venha, pequeno irmão rato. Não incomode os gorduchos monges.
Deixemo-los na fartura de suas cobiças e egoísmos. Eles não
querem repartir o pão espiritual e muito menos o pão feito de
trigo. Certamente Deus não está aqui - sentenciou Gláudius,
deixando para trás as pragas proferidas pelos monges
revoltados.
Nasceu ali uma aproximação muito especial. Pelo caminho, Gláudius
ficara impressionado pela vivacidade, pelas explicações simplórias
e a vontade do menino em descobrir se Deus morava ali, detrás
daqueles altares do Mosteiro, pois queria conhecê-lo e
falar-lhe...
- O pequeno irmão rato tem um nome? perguntou o bom Gláudius.
Com a voz miúda, Timór respondeu:
- Deram-me, meus pais adotivos, o nome de Timór de Dunàrea.
– Gláudius explicou-lhe que Dunàrea vinha de Danúbio. -
Meus pais disseram-me que fui encontrado, ainda bem pequeno, próximo
às margens desse rio que flui de oeste a este. Vem
da floresta negra até o mar negro. Dizem que ele é misterioso,
você sabia?
Mas a fisionomia do pequeno falante fechou-se. Mostrando
tristeza e revolta falou:
- Morávamos numa vila à beira do rio, quando um dia as tropas
do rei Valáquius III a destruiu, em represália pela diminuição
dos impostos arrecadados. Meus pais adotivos foram mortos e
minha casa queimada...
- Pais adotivos? Quem são seus verdadeiros pais? perguntou
curioso Gláudius.
Pensativo, com os olhos no passado, olhando o vazio, Timór
foi respondendo à medida que vislumbrava trechos de
lembranças:
- Meus pais algumas vezes falaram vagamente.
Disseram-me que sabiam quem era o meu verdadeiro pai, porém
ficavam assustados e logo trocavam de assunto.
Diziam que para manter minha vida, deveria nunca mais querer
saber quem eram os meus verdadeiros pais...
Eu vivo pelas vielas, prestando pequenos serviços em troca de
comida. Quando não consigo cometo pequenos furtos.
Meus amigos são os animais silvestres.
...o sapo só reclama, os pássaros cantigam para me distrair; a
coruja está alerta para me avisar sobre qualquer perigo; a
cobra come os ratos do mato, e só ataca se for ameaçada; as
perdizes me alimentam; as árvores dão o descanso e me esconde.
De que mais preciso? Só sinto falta do calor do colo de minha mãe.
Nem os seleiros de feno dão o mesmo conforto.
E com revolta diz:
- Odeio o rei Valáquius III e seus soldados que põem fogo nas
aldeias e matam os pais das crianças. Mil mortes ao rei!
Um silêncio intercalou aquela caminhada.
Havia imantado entre eles muito carinho e bem querer.
Gláudius não quis forçar mais perguntas para adentrar no
mundo de Timór; deixou a cargo do tempo.
Seguiram até os domínios dos Buker.
A chegada de Gláudius e do pequeno Timór fora alardeada pelos
serviçais do clã:
- Boas vindas, Senhor Gláudius! Sentíamos sua falta...
Após proporcionar banho, roupa nova e comida, Gláudius chamou
o novo amigo:
- Venha, irmão rato. Ajoelhe-se.
Desembainhando sua espada, Gláudius começou um pequeno ritual:
- Com a inspiração em Nosso Senhor, nomeio-o Cavalheiro Timór
Dunàrea de Buker! Nobre Cavalheiro, de agora em diante, até o
término de sua existência, um novo sopro de vida percorrerá
seu espírito. Será expurgado de todos os sentimentos que
afastam os homens de Deus. Será um guerreiro da Luz contra as
trevas. Jura seguir todos os bons princípios e honrar a Casa
dos Buker? - perguntou solenemente Gláudius ao pequenino.
Sem entender direito o que acontecia, mas gostando muito,
respondeu Timór:
- Sim. Juro!
- Levante-se, Cavalheiro, que já é nobre pelas lições que a
vida preparou - profetizou Gláudius. - Como presente desta
nomeação quero entregar algo para você. Prometa-me cuidar
direitinho e não perder. Eu ganhei do meu querido pai, quando
menino. Ele ficará contente se eu der a você. Abra as mãos -
ordenou Gláudius.
E com curiosidade Timór abriu as pequeninas mãos de unhas
compridas e recebeu um boneco-soldado talhado em pedra.
O menino não sabia se corria ou se gritava. Preferiu se
dependurar no pescoço do novo amigo.
- Viva! Agora ninguém mais vai me bater. Tenho um soldado de
pedra para me defender - gritava Timór, solavancando o
brinquedo.
Um homem avançado na idade, mas de corpanzil ameaçador,
interpelou:
- Que filho
descuidado atreve-se a perturbar o sono de um velho
Pai? - ironizou o conde Amábilis.
O velho conde deixara de acreditar em Deus, após a morte de sua
mulher, Nilcen. No funeral erguera sua voz e espada aos céus,
revoltado pela situação.
Piscando o olho esquerdo disfarçadamente para o pai,
ajoelhou-se Gláudius e proclamou:
- Conde Amábilis Buker, senhor incontestável do Clã dos Buker,
neste quarto centenário de glória, apresento-vos um novo
arregimentado.
Solenemente continuou:
- Aproxime-se e ajoelhe-se, Cavalheiro Timór de Buker, pois
este é o seu senhor a quem deverá honrar e proteger em todas
as situações...
Timór timidamente obedeceu. Depois ficou assistindo pai e
filho abraçarem-se efusivamente.
- Ah! Sim. Venha cá, Timór. Quero lhe dar boas vindas. Abriu
os braços o velho conde.
Depois de ouvir as explicações de Gláudius sobre Timór, o
conde mostrou grande preocupação pelos avanços políticos e
arbitrariedades do rei Valáquius III.
- Nossos vizinhos mais fracos estão sofrendo grandes pressões
dos sanguessugas da corte. Ávidos nos bens e riquezas alheias -
abaixou a cabeça o velho homem.
- Nesse tempo, enquanto você esteve fora, o
conselheiro do rei, Condácius Primus, veio pedir a mão de sua
irmã Anabel. E, ainda, mostrou interesse em nossas terras do
norte.
Gláudius, surpreso, interrompeu.
- Mas ele deve estar louco. Essas são as nossas melhores
terras.
E com firmeza pronunciou:
- Nunca Anabel cairá nas mãos daquele javali. Na corte corre
à voz pequena a barbaridade desse homem na busca de poder. É
vergonhoso como ele procura agradar ao rei. E o pior é que o próprio
Valáquius III está dando apoio político às aberrações
daquele bárbaro. É muito estranho...
- Fale baixo, meu filho. Nunca se sabe a quem esses canalhas
compraram como espiões - alertou o velho conde.
Nisto pelo salão adentrou uma bela jovem.
- Gláudius!
- Anabel, minha querida irmã!
Abraçaram-se carinhosamente.
- Desta vez você exagerou. Deixou-nos preocupados. Não se
demore tanto de outra vez. Tome novos serviços mais próximos
de nossas terras – reclamou, delicada, para não ofender.
Anabel, pedindo licença ao pai, retirou Gláudius pelo braço e
foram andar ao ar livre, banhados pelo sol.
- Não sei o que minhas crianças tanto confidenciam - pensou em
voz alta o pai prestativo, olhando através da janela
trabalhada.
- Minha querida irmã, soube que o déspota do Condácius
importunou-lhe - reprovou Gláudius.
- Não se aflija, meu irmão. O homem foi até gentil. Mas, graças
a Deus, papai recusou, após saber minha opinião. É inconcebível
– falou, disposta a tranqüilizar o irmão.
- Sabe, minha irmã, estes seus cabelos tornam-se mais ainda
acobreados-avermelhados quando banhados pelo sol. Não se
descuide, minha princesinha, pois sinto que as trevas estão
querendo dominar estes tempos - falou desanimado Gláudius.
Interrompendo, Anabel perguntou, para mudar o rumo da conversa:
- Diga-me, quem é aquele menino? Seu novo cavalariço?
Em tom de brincadeira, Gláudius respondeu:
- Bem, vamos nós outra vez.
Dirigindo-se ao pequeno Timór que os seguia à distância pelo
jardim, gritou:
- Cavalheiro Timór Dunàrea de Buker, apresente-se...
Neste mesmo instante, no castelo de Condácius Primus, havia uma
agitada reunião:
- Aqueles pérfidos dos Buker... Eu os odeio. Como ousaram
desafiar-me. Fui generoso demais. Eles me pagam - praguejava,
num fôlego só, Condácius.
- Coloquei meu coração na mesa de negociação com aquele
velho miserável. Disse-me que Anabel era livre para escolher. E
ela recusou minhas sinceras intenções. Praga, praga, praga...
Condácius estava à beira de um colapso nervoso, quando um dos
ouvintes, o conde Dráma D’Ancar, intercedeu:
- Ainda que eu não seja bom conselheiro, com a aquiescência do
nobre amigo, exponho: a intenção é apoderar-se das terras do
Norte do clã dos Buker, agradando, assim, ao rei. Ter a
bela jovem Anabel em matrimônio para selar os novos domínios.
E, em contrapartida, acalmar a ira daqueles selvagens dos Buker.
Maquiavelicamente, continuou:
-É sabido por todos que o velho conde Amábilis Buker tem
coragem até de aventurar-se contra o
rei, não é mesmo? Então temos que tê-lo em nossas mãos como
um passarinho indefeso, assustado, mortal.
- Mas como seria isso possível? interrompeu Condácius.
Com ar de satisfação incontida, respondeu D’Ancar:
- É simples. Por acaso o principal conselheiro do rei não
nutre grande prestígio com o inquisidor da Santa Igreja?
- Sim, sim prossiga conde D’Ancar - disse ansioso Condácius.
- A bela jovem Anabel possui cabelos avermelhados. E a inquisição
não leva a processo mulheres de cabelos avermelhados, ou
vesgas, ou surdas, ou mudas, ou qualquer outra aparência demoníaca?
- colocou uma interrogação teatral.
Condácius entusiasmado bateu palmas.
- Bravo, astuto conde D’Ancar! Sou-lhe grato por abrir o
caminho para solução dos meus objetivos.
Dias depois, numa grandiosa festa na corte, estavam as figuras
mais ilustres.
A condessa Antuelle D’Ancar, extravagante, freqüentadora assídua
das grandes festas, colocou-se ao lado dos músicos, quando seu
marido, o conde Dráma D’Ancar, aproximou-se pedindo que se
dirigissem ao conselheiro Condácius. Ela recusou, escusando-se:
- Deixe-me aqui, ao lado dos músicos. Há melhor local para ser
vista e admirada, sem ser ao lado do rei?
O conde D’Ancar contrariado deixou-a.
A fogosa condessa procurava pelo salão o subcomandante Gláudius.
Cobiçava loucamente o jovem oficial.
Conversavam animadamente Condácius, o Inquisidor e o conde D’Ancar
ao pé de uma das colunas que sustentava com segurança e graça
o teto todo recoberto de afrescos maravilhosos.
O Inquisidor disse em voz baixa:
- Minhas fontes secretas, relataram-me uma ocorrência desagradável
no Mosteiro Piatra, envolvendo o subcomandante Gláudius Buker.
Somente filhos de Lúcifer se atrevem contra a Santa Igreja. Ele
e sua família terão o que merecem...
O rei Valáquius III ordenou que trouxessem à sua presença o
alegre trio. Quis saber o motivo de tamanha felicidade?
Foi colocado a par do plano. O rei consentiu, pois era desafeto
do conde Amábilis Buker.
Neste instante, Gláudius, finamente vestido, posicionou-se em
par com sua noiva, a linda Constância de Groell,
vindos pela entrada principal.
Nutriam afeição desde a infância.
Os Buker e os Groell eram aliados há anos.
Logo foram percebidos pelos olhares palacianos. As pessoas
cochicharam.
-Oh! Gláudius. Não queria vir aqui. Não me sinto bem -
reclamou meigamente Constância.
-Acalme-se, meu amor. Sem você esta festa não teria perfume; não
teria beleza; não seria quebrado o tédio... –
prodigalizou-a de elogios, Gláudius.
A condessa Antuelle, ao longe, fervia em ódio e ciúmes.
- Maldita! Como pode um homem como Gláudius interessar-se por
aquela lambisgóia. Magra com cara de doente. Na certa lambisca
feito pássaro. Eu sim tenho muita carne para alimentar aquele
homem maravilhoso. Obra-prima da natureza. Fui educada na França.
Sei a arte de caminhar pelos túneis do poder. Posso levá-lo
galgar posições no reino que ele nem imagina.
Como é másculo este homem. Não aquele animal idiota do meu
marido, que se diverte com homens em sua cama.
E a condessa, rastejando feito cobra, dirigiu-se ao casal em
mira. Traiçoeiramente gracejou:
- Estou “rempli de moi-même” (cheia de mim, convencida),
por compartilhar a companhia de casal tão bonito. É um
acontecimento...
Ah! Que bom que vocês vieram.
Pelo menos posso conversar com pessoas civilizadas. Respiráveis.
Como vai subcomandante Gláudius?
Não me vai apresentar tão rara beleza e agradável companhia?
Gláudius, atendendo, cortesmente disse:
- Como vai condessa Antuelle D’Ancar? Esta é minha noiva,
Constância de Groell. Ela vem pouquíssimas vezes à corte.
Onde se encontra seu marido o conde D’Ancar?
Com sarcasmo a condessa Antuelle respondeu:
- Correndo atrás de algum “homo-penis” - soltando em
seguida um suspiro de desespero.
Gláudius e sua noiva entreolharam-se, chocados.
Sem perder tempo a condessa Antuelle em “pro domo sua” (em
seu favor; em defesa de seus próprios interesses) começou a
agir:
- ”Mademoiselle” Constância, dê-me licença, pois vou
roubar seu noivo. Vejo-o tão pouco. Mas não estará solitária.
Vou chamar o jovem e belo Mastrish, nobre da Casa Brolem -
virando-se para Gláudius, má intencionada desferiu: - Ele não
tirou os olhos de cima da mais tímida e linda dos Groell...
Fez sinal ao jovem e, antes de qualquer reposta, puxou Gláudius
bruscamente pelo braço, deixando para trás uma situação
embaraçosa.
- Condessa, por que fez isto? indagou Gláudius sem entender.
- Oh! Gláudius, ainda pergunta? Venha ao terraço. Não percebe
que estou apaixonada por você? Sua noiva, aquele rabisco de
mulher, não é para você.
Posso satisfazê-lo. Ofereço os desejos mais secretos que um
homem sonha um dia experimentar de uma mulher.
E puxando Gláudius para si, a condessa totalmente desinibida
fechou os olhos e disse:
- Beije-me, Gláudius, beije-me.
- Mas o que é isso? Enlouqueceu? Se alguém nos vir? Se o seu
marido souber? Pelo amor de Deus, afaste-se.
Gláudius empurrou a condessa sequiosa por seu amor. Correu até
o salão e não viu sua noiva Constância, onde a deixara.
Em procura mais minuciosa, encontrou-a com o jovem Mastrich, que
a abraçava brutalmente, numa ante-sala.
Constância em pânico chorava copiosamente.
Gláudius separou-os. Socou o atrevido que desmaiou, caindo ao
chão.
- Por quê permitiu isto tudo, Gláudius? Por quê? desabafou
indignada, Constância.
- Perdoa-me, querida. Eu deveria estar mais atento. Este lugar
é um antro de loucos - sentenciou Gláudius.
Abraçaram-se longamente, em silêncio.
- Vamos embora, por favor - pediu Constância,. ao que Gláudius
atendeu prontamente.
Enquanto isso a condessa Antuelle socava as paredes e
blasfemava.
- Você será meu, seu desgraçado. Será meu, todo meu. De mais
ninguém.
A festa, a música, as danças, as risadas continuavam, enquanto
outros acontecimentos inconfessáveis eram promovidos nos
bastidores do cenário festivo.
Semanas depois...
Era noite, porém o dia já ganhava forças.
Os soldados da Inquisição tomaram o Clã dos Buker.
Gritos e correria por toda parte. Quem tentasse furar o cerco,
tombava abraçado com a morte.
Em nome da Santa Igreja, as espadas golpeavam sem piedade.
Logo cadáveres estavam semeados ao chão, sem sepulturas.
O velho conde Amábilis espumando em raiva, pela atrocidade traiçoeira,
é colocado em gaiola gigante. Viu desesperado Anabel e Gláudius
em situação semelhante.
O Inquisidor aparece triunfante fazendo-se enviado de Jesus.
- Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador e Libertador
dos homens que estão sob o domínio de Lúcifer, e em nome da
Santa Igreja, eu acuso: Conde Amábilis Buker, que levantou sua
espada contra a cruz do túmulo de sua mulher Nilcen,
blasfemando contra os céus, na frente de várias testemunhas;
Gláudius Buker, por ofender os irmão monges religiosos do
Mosteiro Piatra, em favor de um menino ralé;
Anabel Buker, pelos seus cabelos avermelhados, sinal nítido de
ligação com Satanás...
Não adiantaram os gritos dos prisioneiros. Foram levados.
Fora encontrado, para piorar as coisas, um fugitivo turco na
estrebaria dos Buker, sendo, também, levado a ferros.
A notícia correu pelo reino.
O Clã dos Groell, após muita discussão interna, tomou a decisão
de aguardar os acontecimentos, pois as acusações eram gravíssimas
contra os Buker, seus amigos e aliados.
Constância, em desespero, adiantou-se, e foi pedir ajuda para a
condessa Antuelle D’Ancar, pois sabia de sua influência na
corte.
- Sim, minha querida, farei todo o possível para corrigir esta
injustiça contra Gláudius. Eu o trarei para perto de mim,
quero dizer, para perto de nós, novamente.
A condessa tinha a angústia de Constância em suas mãos.
Condácius Primus festejava com o conde D’ancar:
- Maravilha! Maravilha! O destino sorri pra mim. Sua idéia, meu
caro conde, foi estupenda... Cabe-me uma urgente visita aos
prisioneiros - disse caindo em gargalhadas e afogando-se
em vinho.
Condácius cumpre seu plano, com disfarçada intenção:
- Oh! conde Amábilis; Anabel, minha querida; Gláudius. Vim
assim que soube... Que loucura, que injustiça. Que tempos! -
desabafou. - Coloco meus préstimos ao Clã dos Buker.
Amábilis já sabia do perfil pérfido de Condácius, mas
deixou-se levar por aquele jogo. Não tinha muita escolha
naquela altura dos acontecimentos.
- Condácius, está acontecendo uma injustiça aqui. Você bem
sabe. Use sua influência com o Inquisidor e com o rei, em nosso
favor -implorou o velho conde.
- Claro! Imediatamente! - saiu em cena teatral.
Reuniram-se, logo em seguida, Condácius, o Inquisidor, e o rei
Valáquius III.
- Temos os Buker em nossas mãos. Finalmente. Que sirvam
de lição para todos no reino - disse alegremente o
conselheiro.
Discutiram várias possibilidades. Porém o resultado do plano
foi detalhado pelo rei:
- Condácius casará com Anabel, e levará as terras do Norte
dos Buker. Amortecerá as influências desse maldito clã.
O velhaco do conde Amábilis ficará preso perpetuamente na
masmorra de meu castelo. Será a garantia da obediência de seus
filhos, vassalos e outros clãs do reino, para com seu
verdadeiro senhor, eu, o rei.
Gláudius Buker tem valor no meu exército. Quero explorá-lo. Não
quero perdê-lo. Tem boa influência. Posso usar isso ao meu
favor quando quiser. Serão todos absolvidos pelos crimes contra
a Santa Igreja...
- Desculpe-me, rei Valáquius, sábio senhor, mas qual será a
acusação para manter o conde Amábilis na masmorra? -
perguntou o Inquisidor.
- Por traição! Por dar esconderijo ao fugitivo turco. Só que
ninguém sabe que foi o Condácius quem mandou colocar o turco
na estrebaria dos Buker.
De súbito, gargalhadas sonoras ecoavam pelo salão. Os três
riam das desgraças que impuseram aos seus desafetos.
A Igreja e o Estado se pervertem.
A condessa Antuelle, sabendo dos rumos das acusações contra os
Buker, tira proveito.
Vai ao encontro de Constância de Groell, com mentiras
descaradas.
- Consegui uma audiência com o rei. Estou me expondo. As acusações
são graves e perigosas.
- Oh! Condessa, sou-lhe grata! -Constância cai aos pés de
Antuelle.
- Não me agradeça antecipadamente, pois vou impor-lhe algo: se
eu conseguir, de alguma maneira, a absolvição de Gláudius,
você deverá afastar-se dele para sempre, rompendo o noivado.
- Sim, qualquer coisa pela vida de Gláudius - aceitou Constância
em lágrimas.
Antuelle faz a pobre moça jurar segredo sobre aquele trato.
Tudo transcorre conforme os planos tiranos.
Anabel é obrigada a casar-se com Condácius que incorpora as
estratégicas terras do Norte dos Buker. Recebe como dote.
Gláudius vai servir o exército do rei com renovado juramento.
Prepara-se para a batalha contra os turcos.
O conde Amábilis fica preso na masmorra, condenado por traição;
aceita a situação por ver seus filhos livres das condenações.
Antuelle, que nada fez, passa por vitoriosa aos olhos de
Constância. Aguarda Gláudius voltar da guerra para apoderar-se
dele e deixar o marido.
Constância despreza Gláudius com a desculpa que não quer ver
o nome dos Groell envolvido com os Buker. Evidentemente, esconde
a verdadeira razão: o acordo com a condessa Antuelle.
entre si, nas tramas obscuras do poder.
No campo de batalha...
Um abutre desgarrado faz barulho trazendo Gláudius para a
realidade.
As lembranças ficam para trás. Agora seus olhos captam imagens
dos prisioneiros turcos nos currais de humanos.
Estacas pontiagudas, como lanças bem compridas, foram
preparadas pelos vencidos, obedecendo ordens.
A sentença veio do rei Valáquius III:
- Não vamos gastar alimentos com esses filhos do cão.
Que sirva de lição ao mundo. Que nenhum povo mais se atreva
contra meu poder.
A esses prisioneiros turcos o empalamento! - ordenou com ódio.
Foi uma das maiores barbaridades já sabidas pela história da
humanidade.
O empalamento consistia em introduzir a ponta da estaca de
madeira, ou de ferro, no ânus da vítima, prendendo a outra
ponta no chão. A lei da gravidade encarrega-se de empurrar do
alto para baixo o corpo do sacrificado, em posição sentado.
Num processo lento, doloríssimo, a estaca atravessa todo o
corpo, varando as costas ou próximo à cabeça.
Um mar de sangue e lamúrias.
Milhares de prisioneiros agonizam.
Imploravam, em vão, para seus algozes, adiantarem a chegada da
morte.
Valáquius III delirava de prazer diante da mortandade e
sofrimento imposto aos turcos.
Nesse mesmo ano (1460), trinta mil pessoas foram empaladas na
Transilvânia, no dia de São Bartolomeu.
A mente doentia desse tirano promovia esfolamentos, cozimento de
pessoas vivas, mutilações e mortes na fogueira. Tentava,
assim, perpetuar seu poder através do terror.
Certa vez, quando emissários estrangeiros ousaram conservar os
turbantes na sua presença, ordenou que lhes fossem pregados aos
crânios.
Gláudius, entristecido, lembrando das mortes das crianças, diz
ao vento:
- ”Em cada berço, um túmulo.”
Quando a vida eclode, desperta a morte que vem ao seu encontro;
algumas vezes lenta, já de cabelos brancos; em outras no vigor
da juventude insensata; noutras na inocência do primeiro
movimento de ar nos pulmões; noutras nem isso...
Vendo tanto sofrimento naquele lugar, recordando ainda a situação
de sua família, desespera-se.
Vai na direção de Valáquius III e tenta apunhalá-lo, mas, o
rei, precavido, frustra a tentativa suicida. Gláudius cai
prisioneiro.
Semanas depois...
Quando do retorno à corte, em seu castelo, o rei, furioso,
manda jogar seus inimigos no “salão da meditação”.
Na verdade eram vários poços profundos, escuros, quase sem ar.
Gláudius, Anabel e o velho pai, conde Amábilis, são colocados
num mesmo poço. Não eram mais de serventia aos poderosos.
Ao se perceberem, abraçaram-se em soluços de fortes emoções.
A família estava reunida no caos.
A fome, a sede, eram menores que o receio do que estava por vir.
Os Buker eram valentes, mas realistas.
Uma voz quebrou o silêncio.
Era o rei.
- Como estão passando meus caprichosos e teimosos inimigos?
E com profunda ironia continuou.
- Não se apresentaram ainda? No poço da minha esquerda estão
os Buker, do centro os Groell, e da direita os Rimnuco.
Apesar dos problemas que me causaram, darei uma única
oportunidade para se salvarem. O que posso fazer? Sofro de
generosidade... Abaixo do nível em que se encontram, há um lençol
de água.
Devem cavar até encontrá-lo. O primeiro clã que chegar será
salvo. Tem a minha palavra. Os demais perdedores ficarão
esquecidos em seus castigos até morrerem de fome, frio e sede.
E, mais irônico ainda, disse:
- Não dizem que a vida começou nas águas? Para vocês fará
sentido -riu com o próprio humor negro.
- Papai, estou com medo - chorava Anabel.
Gláudius e Constância gritavam tentando em vão se comunicarem
entre si.
Valáquius dá o sinal.
Todos começam a cavar loucamente.
Por tremenda desgraça, os clãs amigos lutam, de certa forma
entre si, para sobreviverem. Sabem que a vitória de um será a
morte para os outros.
Quanto mais cavavam, mais fundos os poços.
Recipientes desciam por cordas e içados pelos soldados para
retirarem o volume de terra.
Gritos e ordem de ânimo entre os competidores.
O rei e seus guardas riam até sentirem cólicas.
Quando todos já estavam exaustos pelo esforço descomunal e
quase sem ar, foram avisados:
- Como é, encontraram água? Lamento dizer, mas não há mesmo
nenhum lençol d’água. É brincadeira - divertiu-se alucinado
o rei. Ninguém ganhou, aliás, só eu. Vão se encontrar
com o cão! - virou-se e foi embora o rei doentio.
Todos sofreram e morreram no escuro dos poços.
A saga hereditária daquele reino começara com Saturu Mare, Valáquius
I.
Manteve seu poder com atrocidades. Era casado com a rainha
Diectri II, dócil e submissa.
O seu dia a dia era um sem fim de festas, casos amorosos com músicos,
pintores e artistas, súditas e camareiras.
A relação com seus filhos gêmeos era sofrível.
O primogênito, Tirgu Mures, fora marcado para ser o herdeiro; o
segundo filho, Drácon Turnovo, somente nobre.
O rei sofria torturas pelo fato de não conseguir sentir o que
era o amor.
Tirgu Mures atinge a idade adulta denotando generosidade para
com todos. Preocupa-se com o povo, apesar dos maus exemplos
paternos.
Drácon Turnovo, ao contrário, mostra-se como um irmão
invejoso, cheio de cobiças. Francamente sem pudor.
Drácon promove a morte de seus próprios pais, numa trama
macabra. Secretamente procura envolver seu irmão, mas não
consegue.
Tirgu Mures torna-se Valáquius II.
Seu breve reinado cai em desgraça, pois é morto por um muçulmano,
turco, que lhe passa um fio de seda ao pescoço na calada da
noite. O assassino movimentou-se por passagens secretas com a
ajuda do mandante, Drácon.
Logo após o ocorrido o assassino é preso na armadilha
preparada pelo próprio mandante. Foi executado sem dar tempo de
ser interrogado.
Imediatamente Drácon Turnovo torna-se Valáquius III.
Declara guerra contra a Turquia, desviando qualquer cogitação
política interna.
Promove perseguições contra todos aqueles que poderiam ser
empecilhos aos seus propósitos.
Tem um filho bastardo com uma nobre. Mas é enganado ao levarem
à sua presença um natimorto, como sendo seu filho. Aliviado
desarma-se.
A mãe para salvar a própria vida e de seu bebê, faz a farsa.
A criança é marcada nas costas com o brasão da casa real: o
drácun (dragão) e depois é confiada a um casal de aldeões,
que jura fidelidade.
Esta criança, que seria na hierarquia o próximo rei, acabou
sendo Timór de Dunàrea, um deserdado. Um fantoche, morto no
campo de batalhas barbaramente.
Aos 45 anos, Valáquius III, foi capturado pelos turcos.
Cortaram-lhe a cabeça, que foi conservada em mel e enviada como
troféu ao sultão.
Os súditos de Valáquius por fim respiraram aliviados.
Era melhor lidar com os turcos que a besta do rei, agora
finalmente morto.
Acabara o reinado marcado pelas tre
CONTINUA
CAPÍTULO III/III
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