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CAPÍTULO
III
O Aprendizado
Irmão Williams e Camargo retornam pelo mesmo portal fluídico.
Camargo mostra-se perturbado pelo que presenciara. Foi
despertada sua lembrança nesse regresso.
Suas forças extintas.
Entendia muitas coisas agora, até mesmo o seu terrível medo de
escuro e claustrofobia.
Seu orientador, a tudo vendo, disse:
- Meu bom irmão, precisa descansar. Irmãos benditos
levarão você a um lugar muito lindo e renovador de energias.
Em seguida, uma escola o espera para aulas salutares de
ensinamentos.
Camargo, em silêncio, seguiu o grupo.
Completado o ciclo, renovadas as forças, Camargo é novamente
convocado. Sabia que dali para frente seria muito exigido pelas
circunstâncias.
Irmão Williams chama à atenção de Camargo sobre o grande
vaivém no Além.
Milhares de seres celestiais: médicos, doutrinadores,
auxiliares. As irmãs benditas, na maioria das vezes, de braços
dados entre si, como operárias indo trabalhar nas fábricas.
Dirigem-se, todos, à região da Turquia.
- Prepare-se, meu irmão, pois haverá necessidade de sua atuação.
Irá ajudar-nos na assistência aos acidentados. Para você há
um resgate de dívidas. Um compromisso a realizar. Travará
outro tipo de batalha com os irmãos turcos. Se suas mãos, um
dia, foram para a morte, agora serão para a vida daquele povo
–disse Williams em tom grave.
- Mas que acidentados? –perguntou Camargo.
A resposta veio em seguida.
Madrugada de terça-feira, 17 de agosto de 1999, um terremoto de
7,4 graus na escala Richter deixa milhares de mortos e vítimas
soterradas sob os escombros.
“As necessidades mais prementes são tendas e hospitais de
campanha, remédios, produtos médicos, sacos de plástico, máscaras
e produtos para purificação de água” – alertam pelos
meios de comunicação as autoridades turcas.
- “É a maior catástrofe de nossa história e uma das maiores
da humanidade” –disse o primeiro-ministro turco, Bulent
Ecevit.
Quando Camargo se deu por conta, estava ajudando nas operações
de resgate, entre ruínas, de almas recém desencarnadas, ou
inspirando outrem a encontrar sobreviventes...
Fluídos balsâmicos e maná eram oferecidos pelos seres
celestiais.
Vários casos foram destacados e registrados pela imprensa,
tratados como verdadeiros “milagres”. Pessoas resgatadas
ainda com vida, após muitos dias soterradas.
Foram realizadas orações coletivas nas 76 mil mesquitas do país.
Ajudas celestiais também foram promovidas.
A intervenção mais significativa de Camargo, segundo ele próprio,
foi deparar-se com uma criança, aparentemente de 3 anos, que
estava sob uma montanha de entulhos, na cidade de Cinarcik, 50
km ao sul de Istambul.
Havia pouco ar, pois o menino lá esperava, sem saber, há 146
horas.
Irmãos celestiais em contínua vigília ajudavam na conservação
da vida material do pequeno, que chamava em choros inaudíveis e
constantes pelos seus pais.
Sua realidade era triste e adversa, pois o pai e três irmãs
tinham morrido. A mãe estava no hospital e ignorava a situação
da família.
Um tio do menino removia os escombros. A noite prejudicava. Foi
intuído por Camargo a dirigir-se na direção certa.
Os olhos do homem esbugalharam-se quando o facho de luz de sua
lanterna “apontou” o sobrinho desaparecido.
Aos gritos e lágrimas o perseverante tio pediu ajuda às
equipes de socorro (turcas e israelenses) que, finalmente,
retiraram das ruínas a criança.
Um gesto marcante quando o sobrinho arqueou sua cabeça, num
esforço imenso e silencioso, e beijou agradecido a face de seu
tio.
Camargo ficava com o “coração apertado” ouvindo os gritos,
os lamentos daquele povo.
- Como pude guerrear com esta gente tão inocente, que ora
recebe o peso dos escombros e da morte? O terremoto, por quê?
–dirigiu-se ao irmão Williams.
- Deus sabe o que faz, meu bom irmão. As Leis do Universo se
encarregam de tudo e de todos. Os movimentos planetários e das
coletividades são corretos.
O que parece absurdo, as conseqüências desastrosas dos
cataclismos, é na verdade um “empurrãozinho” para a evolução
daquelas vítimas, “estagnadas séculos e séculos”.
Veja bem, como houve motivo para você estar aqui ajudando no
socorro, há também razão de eles sucumbirem e serem
socorridos. Os papéis sempre se invertem; os dois lados da
moeda; dar e receber; todos são instrumentos importantes uns
dos outros.
Qual pai lúcido vai querer o sofrimento de seus filhos? O homem
encarnado está contido num receptáculo de dor, uma verdadeira
cadeia eletrificada, por vários motivos. Primeiro, para
inibir a deserção (o suicídio). Segundo, para mostrar que se
ele está nessa estrutura “prisional e reformatória”,
algum motivo concreto existe para estar ali. Terceiro, pela dor
o homem, conforme o entendimento geral que impera neste planeta,
aprende a vencer o orgulho e outras más tendências... Há
muito mais. Lembra-se do comerciante Suleyman com ódio do
ex-guarda-noturno? É um rancor oriundo dos sofrimentos impostos
pela guerra, pelos conflitos passados.
Tanto um como outro, vão cruzar seus caminhos até se
acertarem através do amor. Saberão perdoar-se mutuamente.
O maltrapilho de hoje, querendo adquirir uma humildade através
da vida simples, pode ter sido o déspota de ontem...
Camargo interrompeu:
- É, mas eles não conseguiram nada até agora.
- Pois nem todos conseguem rapidamente. Há a eternidade. Deus
pensou em todos os detalhes e possibilidades – disse, feliz,
irmão Williams.
Continuou:
- Em cada passo a dar há uma insistente bifurcação pela
frente. Assim fez Deus para que seus filhos pratiquem
constantemente e saibam decidir certo no decorrer do
aprendizado. A felicidade ou o sofrimento vem com as decisões
tomadas.
O caminho de “Santiago de Compostela” não fica na Europa
(aquele é apenas um pequeno atalho), no verdadeiro a dimensão
é muito maior. Compostela (campo de estrelas) é o Universo que
há dentro de cada um para percorrer e aprender.
Através do deslumbramento das conquistas, e dos desfalecimentos
pelas dores e decepções, vai-se moldando o caráter divino de
cada um.
A rudeza, ou não, da vida está intimamente ligada com o
tratamento que o filho de Deus manifesta em seu meio.
Quantos reclamam do mau caminho, mas, ao mergulharem
honestamente em seu íntimo, constatarão que pensamentos de
cobiça, de inveja, de orgulho, de vaidade, de desejos viciosos,
de vingança criminosa, contribuíram decididamente para a
manutenção ou proliferação de desajustes pessoais e
coletivos até à infelicidade. Pois, tudo que toma caminho
contrário ao amor é desarmonia, é sofrimento.
Antes de reclamar do deserto das relações e da falta de paz,
deve-se espiar no íntimo e verificar o que está promovendo a
própria essência.
Emocionado, Camargo dirigiu-se ao companheiro celestial.
- Irmão, quero ser, desculpe-me a pretensão, um auxiliar dos
pastores enviados por Deus para recuperarem as ovelhas perdidas
na escuridão da noite...
Recebeu como resposta um belo sorriso de satisfação. Vibrando
mentalmente em seguida:
- A locomoção do espírito é mais rápida que a luz. Dirigir
o pensamento para onde se quer estar (se permitido) é o
suficiente. Mas, como seu espírito continua com os reflexos da
matéria, cuidado para não se “enroscar” nas árvores mais
altas – brincou amavelmente irmão Williams.
E lá se foram até o cume de uma montanha. Lá avistaram um
mosteiro.
Havia em seu interior um ambiente de eterna contemplação e
meditação.
Vários monges levando vida austera, semi-reclusos.
A biblioteca era um sem fim de livros e escrituras, freqüentada
avidamente por todos.
Raras eram suas saídas para o mundo exterior. Somente para
suprirem alguma necessidade de víveres, remédios... tudo muito
rapidamente.
Os habitantes das aldeias vizinhas viviam com os mesmos costumes
e pensamentos seculares.
- Camargo, você quer servir a Deus? Então não se
enclausure, nem nas bibliotecas absorvendo todos os
conhecimentos só para si, vivendo só para si.
Há um povo faminto de Luz.
Jesus misturou-se ao povo. Sentiu as mesmas limitações da
carne. Entregou-se de corpo e alma para o semear da Nova Ordem
Mundial: a libertação das consciências; os ensinamentos do
Verdadeiro Amor (chave da porta para as esferas mais benditas).
Não se pode alegar que os homens são ignorantes e virar-lhes
as costas, dizendo ser perda de tempo, perda de energia...
Leve-se o tempo que for preciso, a forma que for preciso,
deve-se recolher as ovelhas, como você disse, perdidas na
escuridão da ignorância. Ainda que muitas fujam ou dêem
trabalho. Essas ovelhinhas são nossos queridos irmãozinhos em
evolução. Necessitam de amor e consideração. Encaminhamento.
Em Mateus, cita-se:
Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel;
E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.
Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos,
expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.”
(Mateus:10:6 a 8)
"De que adianta obter todas as ciências, se delas nada
levar ao povo significadamente? Qual o mérito em resguardar-se
numa redoma de Luz e Conhecimento se nada fizer pelos que estão
nas trevas sofrendo as desolações?"
Irmão Williams retomou o silêncio.
Camargo entendeu o significado daquela viagem e partiram.
Agora estavam diante de Suleyman, o comerciante turco; de
Giuseppe e Nicola, os filhos dos imigrantes italianos.
Os diálogos dos três encarnados eram medonhos.
- Então? Vão me ajudar a colocar fogo naquele maluco...?
De madrugada ninguém vai ver. Ele está sempre embriagado que
nem um gambá fedorento – insistia Suleyman com rancor.
Os outros se entreolhavam um pouco assustados e trocavam
pareceres.
Camargo percebeu nitidamente que o móvel que unia as confabulações
ali era o ódio. Cego ódio.
Irmão Williams começou a orar.
Raios de luz tinham dificuldades para atravessarem espessas máculas
dos encarnados presentes.
Entre a luta do bem com o mal, Camargo tomou posição;
aproximou-se de Suleyman que era o mais exaltado e vibrou
conselhos de reconciliação. Tentou inspirar o amor na consciência
dos desarmoniosos.
Giuseppe desarmou-se por um instante e comentou:
- Nós já somos todos de cabelos brancos. Nem as moscas de casa
eu mato; agora participar dessa maldade? Não sei não...
Suleyman, furioso disparou:
- Giuseppe, seu medroso. Não é mosca que queremos matar, é o
filho de ninguém, é o porcaria de gente..., ô!
Nem as mãos vamos colocar. É só derramar álcool e riscar o
palito de fósforo...
Não teve aquele índio pataxó que morreu queimado por aqueles
filhos dos “bacana” lá em Brasília? - procurando
justificar-se - É gente de bem, sabe o que está fazendo.
Nisto, os olhos de Camargo notaram a presença simultânea de três
irmãs celestiais, mães desencarnadas dos três homens em
conluio.
Oravam fervorosamente.
A mãe de Syleiman, preocupada, entre orações a Deus,
aconselhava a consciência de seu querido filho:
- Meu filho, não faça isso.
Não deve se culpar e nem descarregar seus traumas nos outros.
Você era apenas uma criança, quando, brincando com o
recipiente de álcool, acidentalmente, colocou fogo na nossa
casa, exatamente quando eu dormia. O fogo alastrou-se
rapidamente. Não deu tempo para me salvar...
Eu negligenciei na orientação de sua educação. Nunca lhe
chamei a atenção para os perigos caseiros. Faltou muito
diálogo entre nós. Eu deveria ter colocado minha “pequena
planta” na luminosidade para crescer. Não soube lhe orientar.
Deveria ter sido mais cuidadosa...
Nada de mal que fizer aos outros vai reparar tamanha tragédia,
ao contrário... – voltando a orar com as demais irmãs
celestiais.
Os três homens obtendo a boa solicitude ficaram confusos.
-Alguém vai pagar pelo que aconteceu com minha mãe – pensou
em voz alta Syleiman.
Os outros perguntaram ao mesmo tempo: - O quê?
Apenas permaneceu o Canto do Silêncio nos ouvidos de todos...
O espírito de Suleyman, incendiário convicto, era maculado por
crimes cometidos em diversas vidas passadas. Sempre falhava e
cedia à sua fraqueza quando em prova. Sua mãe estava ali para
persuadi-lo.
Na praça pública, repetia-se a algazarra da criançada. Atiçavam
a atração principal daquelas paragens: o extravagante
ex-guarda-noturno.
O líder da gurizada estava prestes a dar uma estilingada em
direção do coitado, quando Camargo reconheceu, atônito, em
seus olhos, os mesmos de Timór. O mesmo pequeno amigo da
encarnação passada.
- Não faça isso! –soprou Camargo no ouvido do garoto que
prontamente atendeu, sem desconfiar de nada.
A partir daí longas foram as orientações e constantes as
preces de Camargo em favor do menino e seus companheirinhos.
Tais solicitações começaram surtir efeito a tal ponto que o
menino começou a evitar que os outros garotos continuassem com
aquelas atitudes de execração pública.
Agora eram outras as brincadeiras do pequeno bando.
Jesuíno - era esse o nome de Timór na presente encarnação -,
adequou uma lata usada, dessas de 18 litros, transformando-a num
tambor; organizou uma mini fanfarra com os amiguinhos. Voltaram
a ser crianças.
Uma grande corrente fluídica cercou aqueles obsessores que
infernizavam a todos por ali; foram levados a diversas casas de
caridade, conhecidas pelos primeiros cristãos como casas do
caminho, casas de oração. Foram aos poucos desmaterializados,
desfazendo suas amarras materiais; doutrinados; perdoados por
Deus e salvos. Seguiram pelo Caminho da Luz com suas novas
túnicas, com suas luzes. Foram habitar lugares nos céus
nos quais se preparariam melhor para abraçarem novas missões;
renovação, reforma moral e espiritual.
Na memória de Camargo, ondas simultâneas revelavam-se mais rápido
que o piscar de olhos... Tudo começara a despertar mais
amplamente: Valáquius III, Timór de Dunàrea, Condácius
Primus, conde Amábilis Buker, Anabel Buker, Constância de
Groell, condessa Antuelle D’Ancar, o conde Dráma D’Ancar,
os Rossini, Suleyman, a batalha contra os turcos, o terremoto, o
mendigo ex-guarda-noturno, Aline, a corretora Bastos &
Miranda...
Vozes, imagens, em movimentos vertiginosos, hipnóticos, levaram
Camargo a uma letargia.
- Camargo, Camargo, ouve-me – uma voz suave e feminina entra
em seus ouvidos.
Ao abrir os olhos percebe que não é um pesadelo, mas um doce
sonho; depara-se com a linda figura de Aline.
- Aline? Meu amor. O que faz aqui? Cuidado com a Sônia...
- Tranqüilize-se, meu bom companheiro. Estamos a salvos – ela
fala, denotando grande paz.
Ficaram em silêncio. Olhavam-se.
Trocas de bons sentimentos ocorriam.
Irmão Williams procura colocar ordem nas idéias de Camargo.
- A irmã Aline já está entre nós em espírito.
Desencarnou-se há algum tempo. Foi recolhida e preparada para
nos ajudar nessas tarefas.
Camargo percebeu um ser muito iluminado, com linda túnica, que
a tudo assistia, mais ao alto.
- À medida que se desenrole minha explanação, verificará que
passado, presente e futuro serão um só momento – continuou
pacientemente irmão Williams – São as mesmas pessoas com
nomes e roupagens em épocas diferentes:
- Você, irmão Camargo e Gláudius Buker; Aline e Constância
Groell; Jesuíno e Timór Dunàrea; Drácon Turnovo (Valáquius
III) e o ex-guarda-noturno; Antuelle D’Ancar e Sônia
Rossini; conde D’Ancar e Prieto Rossini...
Os reflexos de vidas anteriores repetem-se em vidas presentes ou
vindouras.
Os costumes são diferentes, mas o que o espírito carrega em
si, sua bagagem moral, permanece igual.
Muitos perguntam: “Quando morrer o que serei?” Ora, será no
amanhã o que se é hoje, porém com o mesmo livre-arbítrio
seguir para os caminhos preparados por Deus para a boa reforma.
São filmes (dramas) que se repetem até que aquele que está
passando por uma provação individual e coletiva consiga vencer
a si mesmo; vencer a causa que o faz prender-se ao sofrimento;
como dizem, a maior batalha a travar é consigo próprio.
O nosso maior inimigo é a ignorância que carregamos em
nosso espírito.
A correta lapidação tem que tirar as arestas grosseiras para o
surgimento da boa jóia.
É uma teia de aranha gigantesca e imaginária por um lado, e
tremendamente real por outro, onde todos estão interligados.
Cada movimento de um se reflete nos demais. Se negativo, vibração
negativa. Se positivo, vibração positiva. A cada um, a
responsabilidade em criar e expandir o bem. Semear a caridade e
tudo de bom que adquiriu do Pai. Deus glorifica.
Veja um ser que sofre em sua frente, como a um filho, ou um
ente, que lhe é caro. Faça tudo que estiver ao seu alcance
para ajudá-lo. Estar no alto da montanha, seguro, enquanto nas
planícies há fogo e desespero, e nada fizer,
não poderá desfrutar a felicidade. A felicidade é a boa
ação para salvar a todos. Amar a todos. Amar a vida. Amar a
criação de Deus.
Veja os Rossini, ontem os D’Ancar:
Insistiram e abusaram das traições, perseguições,
libertinagens. Não aproveitaram as oportunidades. Continuaram
antagônicos. Temos que ajudá-los.
- Ajudá-los? Apesar de tudo? –indagou Camargo, com cisma.
- Ajudá-los, sim! Irmão, não leve para o lado “apesar de
tudo” (esse modo de sentir é tão pesado), mas sim porque
eles têm de tudo, o pesar.
Aline, ou Constância, já os perdoou, apesar da infelicidade e
traição recebida; sempre foi obrigada a se afastar de você,
Camargo. Mas ela superou.
O espírito do ex-guarda-noturno, cujo nome se perdeu no tempo,
mantêm o orgulho da ostentação, mesmo carregando um caco de
vidro no quepe pensando ser uma pedra preciosa, e o prazer em
matar. Tendências nefastas de quando foi Drácon Turnovo (o rei
Valáquius III) levando seu enorme rubi, também à altura da
testa, e praticando crimes horrendos, em nome da guerra, do
reino, e da manutenção do poder. Os empalamentos que efetuou
naquela época são os cânceres no ânus, intestinos e
garganta, que herdou. Aqueles que foram suas vítimas e não
puderam superar com o tempo são seus obsessores vingativos de
hoje.
Temos que ajudá-los reafirmou irmão Williams. O Jesuíno (Timór)
já está sendo orientado e encaminhado. Pessoas de boa vontade
serão “tocadas” para ajudá-lo.
Todos de alguma forma serão inspirados para acordarem para o
bem.
Naqueles dias...
Um grupo que distribuía sopa aos mendigos, moradores de rua,
fora intuído em auxiliar o ex-guarda-noturno.
Encaminharam-no aos cuidados médicos; foi operado. A medicina
dentro do possível. No longo restabelecimento, sempre havia um
revezamento de pessoas, “boas samaritanas”, que,
pacientemente, iam orar e levar a Palavra ao enfermo. Corpo e
alma estavam sendo cuidados.
Todos os interligados naquela teia de aranha estavam, de alguma
forma, sendo ajudados.
Suleyman e seus dois amigos, após alternarem maus e bons
pensamentos, venceram as vibrações de vinganças que os faziam
delirar no ódio.
As irmãs celestiais lhes transmitiram o amor maternal,
sublime amor.
Do terremoto ficou o exemplo excelso da solidariedade das
equipes de resgate, inclusive as estrangeiras. É verdade que
muitos que passaram, ainda, não tiveram a permissão de
deixarem a Terra, pois o “tempo” não estava findo. Ficaram
recebendo as emanações salutares das preces celestiais.
Camargo “bebia” cada palavra daquele ensinamento.
A orientação continuava.
- Camargo, está breve o seu “acordar” na matéria. Sairá
do estado de coma. Contudo quero lhe expressar mais com a língua
dos homens, ou seja, como diz na língua Guarani: “ava nhenhem”
(língua de gente) – brincou. - Nestes tempos, a humanidade
cedeu à tecnologia; e os homens se esqueceram de que são
humanos.
Veja as crianças brincando com os bichinhos virtuais, em forma
de jogo eletrônico. Dão alimentos virtuais, suprem todas as
necessidades do bichinho, que passa a ser o companheirinho
virtual. Mas os adultos não percebem que está havendo
substituição de afetos.
A formatação do homem pela mídia, impõe-lhe um desejo de
consumo, conjugado, misturado, com desejo (apelo sexual).
Por isso há muitos olhares caídos pelo chão.
O declínio na qualidade do ensino escolar.
O homem deve parar todos os dias, por um momento, e refletir
sobre sua vida, como a leva, ou é levado; como está situado
seu sentimento; para onde e como quer ir, chegar...?
O homem precisa de menos churrasco, menos cerveja, e mais diálogo,
mais troca de experiências e informações. Mais troca de
sentimentos. Sentir a “derme” da alma. Ser obtuso é
estagnar.
O declínio do convívio familiar é patente.
A mesa sagrada das refeições (pode ser até um caixote; não
importa se é feito de, mas sim o que se faz de) fica vazia,
quando o sofá está sendo tomado pelos familiares, cada qual
com o prato de comida nas mãos, assistindo a programação
televisiva hipnótica.
Mesmo em famílias abastadas, em suas grandiosas habitações, há
salas diversas: de estar, de jantar, de jogos..., contudo seus
habitantes procuram a “sala de não estar”. Evitam-se o
tempo todo, por conveniência, por disputas, por repulsas.
A prioridade na elaboração dos programas televisivos deveria
ser o caráter social e educativo. No entanto, padronizam os
gostos, as tendências; massificam o consumismo desregrado e sem
valor para a elaboração da essência do homem. Passam a idéia
de que “ter” é mais importante que “ser”.
As relações humanas, principalmente entre homem e mulher,
buscam situações prontas. Equivocam-se. Os
relacionamentos têm que ser construídos. Muitos não conseguem
ou não desejam, por vários motivos, optam pela praticidade. E,
até, da prostituição. Não há preocupação com a
troca.
Encontram-se em bares, enrolam-se nas camas, sem saber nem mesmo
os verdadeiros nomes, quanto o mais o resto. Quando o calor
passa e os efeitos da bebida também, fica um angustiante vazio.
E repetem na noite seguinte, achando que, por sorte, vai ser
diferente.
O “harém” oferecido pelo mercado que explora o sexo, tão
velhacamente, vende fotos coloridas, vídeos, acessórios afins;
planos de fantasias sem envolvimento de sentimentos que nada
constróem para um relacionamento sadio. A troca torta é feita
com o dinheiro. Frustra quem deu, escraviza quem recebe.
Procura-se somente a satisfação das necessidades fisiológicas
do modo mais egoísta e medroso. Nada acrescentam.
Camargo também entendia que há de se ter coragem e
autenticidade nas relações. Aprofundar-se é o caminho do
conhecimento mútuo. Todo homem quer ter seu par. Toda mulher
quer constituir família. Apesar dos divórcios em moda (falta
de paciência e indisposição para a integração onde dois vão
formar um) é de absoluta necessidade se preservar a
individualidade com respeito.
- E quanto aos filhos, quando há a separação? – pergunta
Aline curiosa.
Irmão Williams é breve.
- Nas relações entre casais onde há somente a preocupação
de ser, digamos assim, “dependentes versus dominantes”,
guerras do coração, o modelo a seguir quanto aos filhos é a
relação protegida (pai e mãe conjuntamente) ainda que
separados, pois quando não se tem essa preocupação resta aos
filhos: rebeldia, dor, frustração, separação da segurança
psicológica.
Preferível um casal separado oferecendo uma relação
protegida, do que um lar com desafeição e desrespeito
constantes, sem disposições em acertar e diminuir as diferenças
num patamar aceitável.
Camargo também faz sua pergunta:
- No que diz respeito a educação e orientação, dá para se
saber, ou melhor, fazer algo, levando-se em conta o perfil do
comportamento da criança?
Irmão Williams, tranqüilo, responde:
- Sim! Veja o caso do “moto-boy”, conhecido como o monstro
do parque,
que estuprou e assassinou mais de uma dezena de moças, com
requintes de crueldade. É sabido que quando criança tinha o
prazer mórbido de maltratar e matar animais domésticos. A sua
fixação pela figura materna era um grande desvio. Em vez de
dizerem: “é coisa de criança”, deveriam dar-lhe um
acompanhamento psicológico, cercado pela atenção dos pais,
seriamente. O resultado poderia ter sido outro.
Um outro caso: em um bairro residencial de classe social alta,
babás e porteiros de prédios eram surrados nas ruas por um
grupo de jovens, que sempre conseguia fugir. Tornou-se uma situação
insustentável.
Quando foram presos, constatou-se que todos eram oriundos de famílias
abastadas e, quando crianças, foram deixadas aos cuidados de
babás e porteiros de prédios que lhes impunham limites e
repreensões, já que os pais recusaram o papel de criar.
Estavam ocupados com seus afazeres e projetos, neles não incluíam
o educar filhos com a devida participação. Com a rejeição
latente nessas crianças e jovens, eclodiram revolta e
agressividade. E, simbolicamente, a frustração foi dirigida
contra os empregados subalternos.
O amor é essencial. Não adianta achar que se está
cumprindo a obrigação paternal comprando um pacote turístico
para Disneylândia, ou adquirindo qualquer coisa para ocupar a
vida dos filhos. Presente é bom, carinho é muito melhor,
vital.
O amor, o amor... Buscar a Deus com serenidade é preciso –
finalizou, veemente.
Muitos foram os temas explanados.
De repente brilha o entusiasmo no semblante do irmão Williams.
- Camargo, está chegando o momento do seu retorno à matéria.
Lembre-se, a humanidade está em cima da ponte. Ela não quer se
“atirar”, quer ser salva, da mesma forma como aquele suicida
que hesita olhando para baixo pedindo um surdo socorro.
Vamos continuar da mesma forma juntos.
No começo você vai passar por um esquecimento, ficando somente
o “frescor do conhecimento” obtido nessas experiências.
A sua obra continuará.
Que Deus te acompanhe - expandiu um forte sentimento de amizade.
No hospital...
- Dooutoraaa! - ecoa o grito de susto da enfermeira.
O paciente que estava em coma, acordou.
Um alvoroço de alegria tomou conta de todos.
Camargo sentiu um caminho de luz fechando-se.
Olhou grande para o teto, para os aparelhos, para as pessoas ao
redor, quieto...
Tempos depois, assim que foi possível, indagou:
- Onde estou?
A doutora de plantão respondeu-lhe:
- Você está no bom e velho mundo, deitado numa cama de
hospital.
Meses depois, tratamentos específicos e fisioterapias, fizeram
Camargo voltar às atividades normais, contudo sem nenhuma
lembrança das andanças no além.
Na corretora Bastos & Miranda foi uma festa. Todavia,
Camargo após perceber que muita coisa havia mudado, deixou seu
lugar para Roberta, que já estava morando com o Dr. Bastos com
casamento desfeito.
Camargo iniciou um pequeno escritório de corretagem de seguros.
Antônia foi convidada para ser sua sócia. Aceitou.
Sua mãe, dona Cacilda, sentiu-se novamente amparada em sua
velhice.
Aline preparou-se e foi incumbida de ser protetora de Camargo,
por haver entre eles uma grande simpatia e amor fraternal.
Camargo percebe que pulsava dentro de si uma convocação para a
caridade e filantropia.
Procura preparar-se como médium (elo intermediador entre os espíritos
e os encarnados), ativo nas causas do Evangelho. Aprendeu que
através do Espiritismo Kardecista poderia aproximar-se do
Cristianismo primigênio e levá-lo codificado para as novas épocas
e gerações.
Promove visitas a sanatórios, casas de repousos, creches,
orfanatos, asilos, hospitais. Reencontra, sem saber, espíritos
conhecidos de outros tempos, agora reencarnados. Alguns em
cadeiras de roda; outros débeis, deformados em caretas
medonhas; outros em autoflagelo emitindo sons, grunhidos horríveis;
outros mais amáveis - exteriorizam na fisionomia, no aparelho
carnal, o estado em que se encontram espiritualmente.
Orações, cuidados higiênicos, palavras de conforto são
ofertadas a todos, prazerosamente.
Algo muito importante estava por vir.
Por “influência” da irmã Aline, Camargo acompanha um grupo
de amigos a um hospital. Vão levar conforto para alguns
pacientes terminais, como voluntários.
Depara-se com um homem, encolhido numa cama, demonstrando ser
menor do que realmente era.
Gemia baixinho de dor.
Ao aproximar-se, chegando bem perto, Camargo sofre tremendo
impacto.
Reconhece naquele ser, enfermo, Valáquius III e o
ex-guarda-noturno numa só pessoa. Tudo veio à tona. O que
estava adormecido, acordou abruptamente. Passava em sua mente
trechos de um filme com poucas cenas, mas cenas fortes:
batalhas; mortandade de milhares de pessoas; a trama que
culminou no assassinato de Gláudius, ou seja, dele mesmo em
vida passada,...
O paciente assistiu nos olhos de Camargo as mesmas cenas.
Deus assim permitiu para um bendito propósito.
Camargo fechou os olhos e começou a orar fervorosamente em prol
do paciente, e para que ele próprio não caísse em sentimentos
de vingança.
Quando abriu os olhos, viu a mão do ex-guarda-noturno procurar
a sua. Pegou-a com delicadeza. Ficaram assim, quietos,
entreolhando-se por um bom tempo.
O paciente num esforço tentou falar alguma coisa, mas não
ficou inteligível. Camargo chegou mais perto e pôs o ouvido
bem próximo dos lábios do moribundo. Em vão. O paciente
faleceu.
Irmãos celestiais acompanharam a prece de Camargo, e se
encarregaram de recolher a alma enfraquecida do recém-desencarnado.
Intimamente, Camargo achou bom que a Providência o fizesse
estar ali. Pelo menos este irmão não ficou sozinho neste
momento derradeiro - pensou.
Dois seres com um passado repleto de antagonismos e rancores,
agora ali naquele pequeno quarto de hospital. O corpo inerte do
paciente falecido, e Camargo em forte emoção orando em
pensamento.
Unia-os, agora, um laço de amor. O ódio foi desfeito. Houve o
perdão. Houve a prece saída do “coração” e não dos lábios.
Camargo venceu o medo do escuro.
Presenciou a Luz.
Ouviu o Canto do Silêncio.
FIM
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