CAPÍTULO III

 
 
 
    
O Aprendizado
 
                                   
 
 
                                    Irmão Williams e Camargo retornam pelo mesmo portal fluídico. Camargo mostra-se perturbado pelo que presenciara. Foi despertada sua lembrança nesse regresso.
                                    Suas forças extintas.
                                    Entendia muitas coisas agora, até mesmo o seu terrível medo de escuro e claustrofobia.
                                    Seu orientador, a tudo vendo, disse:
                                    - Meu bom irmão,  precisa descansar. Irmãos benditos levarão você a um lugar muito lindo e renovador de energias. Em seguida, uma escola o espera para aulas salutares de ensinamentos.
                                    Camargo, em silêncio, seguiu o grupo.
                                    Completado o ciclo, renovadas as forças, Camargo é novamente convocado. Sabia que dali para frente seria muito exigido pelas circunstâncias.
                                    Irmão Williams chama à atenção de Camargo sobre o grande vaivém no Além.
                                    Milhares de seres celestiais: médicos, doutrinadores, auxiliares. As irmãs benditas, na maioria das vezes, de braços dados entre si, como operárias indo trabalhar nas fábricas. Dirigem-se, todos,  à região da Turquia.                             
                                    - Prepare-se, meu irmão, pois haverá necessidade de sua atuação. Irá ajudar-nos na assistência aos acidentados. Para você há um resgate de dívidas. Um compromisso a realizar. Travará outro tipo de batalha com os irmãos turcos. Se suas mãos, um dia, foram para a morte, agora serão para a vida daquele povo –disse  Williams em tom grave.
                                    - Mas que acidentados? –perguntou Camargo.
                                    A resposta veio em seguida.
                                    Madrugada de terça-feira, 17 de agosto de 1999, um terremoto de 7,4 graus na escala Richter deixa milhares de mortos e vítimas soterradas sob os escombros.
                                    “As necessidades mais prementes são tendas e hospitais de campanha, remédios, produtos médicos, sacos de plástico, máscaras e produtos para purificação de água” – alertam pelos meios de comunicação as autoridades turcas.
                                    - “É a maior catástrofe de nossa história e uma das maiores da humanidade” –disse o primeiro-ministro turco, Bulent Ecevit.
                                    Quando Camargo se deu por conta, estava ajudando nas operações de resgate, entre ruínas, de almas recém desencarnadas, ou inspirando outrem a encontrar sobreviventes...
                                    Fluídos balsâmicos e maná eram oferecidos pelos seres celestiais.
                                    Vários casos foram destacados e registrados pela imprensa, tratados como verdadeiros “milagres”. Pessoas resgatadas ainda com vida, após muitos dias soterradas.
                                    Foram realizadas orações coletivas nas 76 mil mesquitas do país.
                                    Ajudas celestiais também foram promovidas.
                                    A intervenção mais significativa de Camargo, segundo ele próprio, foi deparar-se com uma criança, aparentemente de 3 anos, que estava sob uma montanha de entulhos, na cidade de Cinarcik, 50 km ao sul de Istambul.
                                    Havia pouco ar, pois o menino lá esperava, sem saber, há 146 horas. 
                                    Irmãos celestiais em contínua vigília ajudavam na conservação da vida material do pequeno, que chamava em choros inaudíveis e constantes pelos seus pais.
                                    Sua realidade era triste e adversa, pois o pai e três irmãs tinham morrido. A mãe estava no hospital e ignorava a situação da família.
                                    Um tio do menino removia os escombros. A noite prejudicava. Foi intuído por Camargo a dirigir-se na direção certa.
                                    Os olhos do homem esbugalharam-se quando o facho de luz de sua lanterna “apontou” o sobrinho desaparecido.
                                    Aos gritos e lágrimas o perseverante tio pediu ajuda às equipes de socorro (turcas e israelenses) que, finalmente, retiraram das ruínas a criança.
                                    Um gesto marcante quando o sobrinho arqueou sua cabeça, num esforço imenso e silencioso, e beijou agradecido a face de seu tio.
                                    Camargo ficava com o “coração apertado” ouvindo os gritos, os lamentos daquele povo.
                                    - Como pude guerrear com esta gente tão inocente, que ora recebe o peso dos escombros e da morte? O terremoto, por quê? –dirigiu-se ao irmão Williams.                                                                      - Deus sabe o que faz, meu bom irmão. As Leis do Universo se encarregam de tudo e de todos. Os movimentos planetários e das coletividades são corretos.
                                    O que parece absurdo, as conseqüências desastrosas dos cataclismos, é na verdade um “empurrãozinho” para a evolução daquelas vítimas, “estagnadas  séculos e séculos”.
                                    Veja bem, como houve motivo para você estar aqui ajudando no socorro, há também razão de eles sucumbirem e serem socorridos. Os papéis sempre se invertem; os dois lados da moeda; dar e receber; todos são instrumentos importantes uns dos outros.
                                    Qual pai lúcido vai querer o sofrimento de seus filhos? O homem encarnado está contido num receptáculo de dor, uma verdadeira cadeia eletrificada,  por vários motivos. Primeiro, para inibir a deserção (o suicídio). Segundo, para mostrar que se ele está nessa estrutura “prisional e  reformatória”, algum motivo concreto existe para estar ali. Terceiro, pela dor o homem, conforme o entendimento geral que impera neste planeta, aprende a vencer o orgulho e outras más tendências... Há muito mais. Lembra-se do comerciante Suleyman com ódio do  ex-guarda-noturno? É um rancor oriundo dos sofrimentos impostos pela guerra, pelos conflitos passados.
                                    Tanto um como outro, vão cruzar seus  caminhos até se acertarem através do amor. Saberão perdoar-se mutuamente.
                                    O maltrapilho de hoje, querendo adquirir uma humildade através da vida simples, pode ter sido o déspota de ontem...
                                    Camargo interrompeu:
                                    - É, mas eles não conseguiram nada até agora.
                        - Pois nem todos conseguem rapidamente. Há a eternidade. Deus pensou em todos os detalhes e possibilidades – disse, feliz, irmão Williams.
                         Continuou:
                                    - Em cada passo a dar há uma insistente bifurcação  pela frente. Assim fez Deus para que seus filhos pratiquem constantemente e saibam decidir certo no decorrer do aprendizado. A felicidade ou o sofrimento vem com as decisões tomadas.
                                    O caminho de “Santiago de Compostela” não fica na Europa (aquele é apenas um pequeno atalho), no verdadeiro a dimensão é muito maior. Compostela (campo de estrelas) é o Universo que há dentro de cada um para percorrer e aprender.
                                    Através do deslumbramento das conquistas, e dos desfalecimentos pelas dores e decepções, vai-se moldando o caráter divino de cada um.
                                    A rudeza, ou não,  da vida está intimamente ligada com o tratamento que o filho de Deus manifesta em  seu meio.
                                    Quantos reclamam do mau caminho, mas, ao mergulharem honestamente em seu íntimo, constatarão que pensamentos de cobiça, de inveja, de orgulho, de vaidade, de desejos viciosos, de vingança criminosa, contribuíram decididamente para a manutenção ou proliferação de desajustes pessoais e coletivos até à infelicidade. Pois, tudo que toma caminho contrário ao amor é desarmonia, é sofrimento.
                                    Antes de reclamar do deserto das relações e da falta de paz, deve-se espiar no íntimo e verificar o que está promovendo a própria essência.
                                    Emocionado, Camargo dirigiu-se ao companheiro celestial.
                                    - Irmão, quero ser, desculpe-me a pretensão, um auxiliar dos pastores enviados por Deus para recuperarem as ovelhas perdidas na escuridão da noite...
                                    Recebeu como resposta um belo sorriso de satisfação. Vibrando mentalmente em seguida:
                                    - A locomoção do espírito é mais rápida que a luz. Dirigir o pensamento para onde se quer estar (se permitido) é o suficiente. Mas, como seu espírito continua com os reflexos da matéria, cuidado para não se “enroscar” nas árvores mais altas – brincou amavelmente irmão Williams.
                                    E lá se foram até o cume de uma montanha. Lá avistaram um mosteiro.
                                    Havia em seu interior um ambiente de eterna contemplação e meditação.
                                    Vários monges levando vida austera, semi-reclusos.
                                         A biblioteca era um sem fim de livros e escrituras, freqüentada avidamente por todos.
                                    Raras eram suas saídas para o mundo exterior. Somente para suprirem alguma necessidade de víveres, remédios... tudo muito rapidamente.   
                                    Os habitantes das aldeias vizinhas viviam com os mesmos costumes e pensamentos seculares.
                                    - Camargo, você  quer servir a Deus? Então não se enclausure, nem nas bibliotecas absorvendo todos os conhecimentos só para si, vivendo só para si.
                                    Há um povo faminto de Luz.
                                    Jesus misturou-se ao povo. Sentiu as mesmas limitações da carne. Entregou-se de corpo e alma para o semear da Nova Ordem Mundial: a libertação das consciências; os ensinamentos do Verdadeiro Amor (chave da porta para as esferas mais benditas).
                                    Não se pode alegar que os homens são ignorantes e virar-lhes as costas, dizendo ser perda de tempo, perda de energia...
                                    Leve-se o tempo que for preciso, a forma que for preciso, deve-se recolher as ovelhas, como você disse, perdidas na escuridão da ignorância. Ainda que muitas fujam ou dêem trabalho. Essas ovelhinhas são nossos queridos irmãozinhos em evolução. Necessitam de amor e consideração. Encaminhamento.
                                    Em Mateus, cita-se:
 
  Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel;
 E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.
Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos,
expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.”
          (Mateus:10:6 a 8)
                                    "De que adianta obter todas as ciências, se delas nada levar ao povo significadamente? Qual o mérito em resguardar-se numa redoma de Luz e Conhecimento se nada fizer pelos que estão nas trevas sofrendo as desolações?"
                                    Irmão Williams retomou o silêncio.             Camargo entendeu o significado daquela viagem e partiram.
                                    Agora estavam diante de Suleyman, o comerciante turco; de Giuseppe e Nicola, os filhos dos imigrantes italianos.
                                    Os diálogos dos três encarnados eram medonhos.
                                    - Então? Vão me ajudar a colocar fogo naquele maluco...?
                                    De madrugada ninguém vai ver. Ele está sempre embriagado que nem um gambá fedorento – insistia Suleyman com rancor.
                                    Os outros se entreolhavam um pouco assustados e trocavam pareceres.
                                    Camargo percebeu nitidamente que o móvel que unia as confabulações ali era o ódio. Cego ódio.
                                    Irmão Williams começou a orar.
                                    Raios de luz tinham dificuldades para atravessarem espessas máculas dos encarnados presentes.
                                    Entre a luta do bem com o mal, Camargo tomou posição; aproximou-se de Suleyman que era o mais exaltado e vibrou conselhos de reconciliação. Tentou inspirar o amor na consciência dos desarmoniosos.
                                    Giuseppe  desarmou-se por um instante e comentou:
                                    - Nós já somos todos de cabelos brancos. Nem as moscas de casa eu mato; agora participar dessa maldade? Não sei não...
                                    Suleyman, furioso disparou:
                                    - Giuseppe, seu medroso. Não é mosca que queremos matar, é o filho de ninguém, é o porcaria de gente..., ô!
                                    Nem as mãos vamos colocar. É só derramar álcool e riscar o palito de fósforo...
                                    Não teve aquele índio pataxó que morreu queimado por aqueles filhos dos “bacana” lá em Brasília? - procurando  justificar-se - É gente de bem, sabe o que está fazendo.
                                    Nisto, os olhos de Camargo notaram a presença simultânea de três irmãs celestiais, mães desencarnadas dos três homens em conluio.
                                    Oravam fervorosamente.
                                    A mãe de Syleiman, preocupada, entre orações a Deus, aconselhava a consciência de seu querido filho:
                                    - Meu filho, não faça isso.
                                    Não deve se culpar e nem descarregar seus traumas nos outros.
                                    Você era apenas uma criança, quando, brincando com o recipiente de álcool, acidentalmente, colocou fogo na nossa casa, exatamente quando eu dormia. O fogo alastrou-se rapidamente. Não deu tempo para me salvar...
                                    Eu negligenciei na orientação de sua educação. Nunca lhe chamei a atenção  para os perigos caseiros. Faltou muito diálogo entre nós. Eu deveria ter colocado minha “pequena planta” na luminosidade para crescer. Não soube lhe orientar. Deveria ter sido mais cuidadosa...
                                    Nada de mal  que fizer aos outros vai reparar tamanha tragédia, ao contrário... – voltando a orar com as demais irmãs celestiais.
                                    Os três homens obtendo a boa solicitude ficaram confusos.
                                    -Alguém vai pagar pelo que aconteceu com minha mãe – pensou em voz alta Syleiman.
                                    Os outros perguntaram ao mesmo tempo: - O quê?
                                    Apenas permaneceu o Canto do Silêncio nos ouvidos de todos...
                                    O espírito de Suleyman, incendiário convicto, era maculado por crimes cometidos em diversas vidas passadas. Sempre falhava e cedia à sua fraqueza quando em prova. Sua mãe estava ali para persuadi-lo.
                                    Na praça pública, repetia-se a algazarra da criançada. Atiçavam a atração principal daquelas paragens: o extravagante ex-guarda-noturno.
                                    O líder da gurizada estava prestes a dar uma estilingada em direção do coitado, quando Camargo reconheceu, atônito, em seus olhos, os mesmos de Timór. O mesmo pequeno amigo da encarnação passada.
                                    - Não faça isso! –soprou Camargo no ouvido do garoto que prontamente atendeu, sem desconfiar de nada.
                                    A partir daí longas foram as orientações e constantes as preces de Camargo em favor do menino e seus companheirinhos.
                                    Tais solicitações começaram surtir efeito a tal ponto que o menino começou a evitar que os outros garotos continuassem com aquelas atitudes de execração pública.
                                    Agora eram outras as brincadeiras do pequeno bando.
                                    Jesuíno - era esse o nome de Timór na presente encarnação -, adequou uma lata usada, dessas de 18 litros, transformando-a num tambor; organizou uma mini fanfarra com os amiguinhos. Voltaram a ser crianças.
                                    Uma grande corrente fluídica cercou aqueles obsessores que infernizavam a todos por ali; foram levados a diversas casas de caridade, conhecidas pelos primeiros cristãos como casas do caminho, casas de oração. Foram aos poucos desmaterializados, desfazendo suas amarras materiais; doutrinados; perdoados por Deus e salvos. Seguiram pelo  Caminho da Luz com suas novas túnicas,  com suas luzes. Foram habitar lugares nos céus nos quais se preparariam melhor para abraçarem novas missões; renovação, reforma moral e espiritual.
 
                                    Na memória de Camargo, ondas simultâneas revelavam-se mais rápido que o piscar de olhos... Tudo começara a despertar mais amplamente: Valáquius III, Timór de Dunàrea, Condácius Primus, conde Amábilis Buker, Anabel Buker, Constância de Groell, condessa Antuelle D’Ancar, o conde Dráma D’Ancar, os Rossini, Suleyman, a batalha contra os turcos, o terremoto, o mendigo ex-guarda-noturno, Aline, a corretora Bastos & Miranda...
                                    Vozes, imagens, em movimentos vertiginosos, hipnóticos, levaram Camargo a uma letargia.
                                    - Camargo, Camargo, ouve-me – uma voz suave e feminina entra em seus ouvidos.
                                    Ao abrir os olhos percebe que não é um pesadelo, mas um doce sonho; depara-se com a linda figura de Aline.
                                    - Aline? Meu amor. O que faz aqui? Cuidado com a Sônia...
                                    - Tranqüilize-se, meu bom companheiro. Estamos a salvos – ela fala, denotando grande paz.
                                    Ficaram em silêncio. Olhavam-se.
                                    Trocas de bons sentimentos ocorriam.
                                    Irmão Williams procura colocar ordem nas idéias de Camargo.
                                    - A irmã Aline já está entre nós em espírito. Desencarnou-se há algum tempo. Foi recolhida e preparada para nos ajudar nessas tarefas.
                                    Camargo percebeu um ser muito iluminado, com linda túnica, que a tudo assistia, mais ao alto.
                                    - À medida que se desenrole minha explanação, verificará que passado, presente e futuro serão um só momento – continuou pacientemente irmão Williams – São as mesmas pessoas com nomes e roupagens  em épocas diferentes:
                                    - Você,  irmão Camargo e Gláudius Buker; Aline e Constância Groell; Jesuíno e Timór Dunàrea; Drácon Turnovo (Valáquius III) e o ex-guarda-noturno; Antuelle  D’Ancar e Sônia Rossini; conde D’Ancar e Prieto Rossini...
                                    Os reflexos de vidas anteriores repetem-se em vidas presentes ou vindouras.
                                    Os costumes são diferentes, mas o que o espírito carrega em si, sua bagagem moral, permanece igual.
                                    Muitos perguntam: “Quando morrer o que serei?” Ora, será no amanhã o que se é hoje, porém com o mesmo livre-arbítrio seguir para os caminhos preparados por Deus para a boa reforma. 
                                    São filmes (dramas) que se repetem até que aquele que está passando por uma provação individual e coletiva consiga vencer a si mesmo; vencer a causa que o faz prender-se ao sofrimento; como dizem, a maior batalha a travar é consigo próprio.
                                    O nosso maior inimigo é a ignorância que carregamos em  nosso espírito.
                                    A correta lapidação tem que tirar as arestas grosseiras para o surgimento da  boa jóia.
                                    É uma teia de aranha gigantesca e imaginária por um lado, e tremendamente real por outro, onde todos estão interligados. Cada movimento de um se reflete nos demais. Se negativo, vibração negativa. Se positivo, vibração positiva. A cada um, a responsabilidade em criar e expandir o bem. Semear a caridade e tudo de bom que adquiriu do Pai. Deus glorifica.
                                    Veja um ser que sofre em sua frente, como a um filho, ou um ente, que lhe é caro. Faça tudo que estiver ao seu alcance para ajudá-lo. Estar no alto da montanha, seguro, enquanto nas planícies há fogo e desespero,   e  nada fizer, não poderá desfrutar a  felicidade. A felicidade é a boa ação para salvar a todos. Amar a todos. Amar a vida. Amar a criação de Deus.
                                    Veja os Rossini, ontem os D’Ancar:
                                    Insistiram e abusaram das traições, perseguições, libertinagens. Não aproveitaram as oportunidades. Continuaram antagônicos. Temos que ajudá-los.
                                    - Ajudá-los? Apesar de tudo? –indagou Camargo, com cisma.
                                    - Ajudá-los, sim! Irmão, não leve para o lado “apesar de tudo” (esse modo de sentir é tão pesado), mas sim porque eles têm de tudo, o pesar.
                                      Aline, ou Constância, já os perdoou, apesar da infelicidade e traição recebida; sempre foi obrigada a se afastar de você, Camargo. Mas ela superou.
                                    O espírito do ex-guarda-noturno, cujo nome se perdeu no tempo, mantêm o orgulho da ostentação, mesmo carregando um caco de vidro no quepe pensando ser uma pedra preciosa, e o prazer em matar. Tendências nefastas de quando foi Drácon Turnovo (o rei Valáquius III) levando seu enorme rubi, também à altura da testa, e praticando crimes horrendos, em nome da guerra, do reino, e da manutenção do poder. Os empalamentos que efetuou naquela época são os cânceres no ânus, intestinos e garganta, que herdou. Aqueles que foram suas vítimas e não puderam superar com o tempo são seus obsessores vingativos de hoje.
                                    Temos que ajudá-los reafirmou irmão Williams. O Jesuíno (Timór) já está sendo orientado e encaminhado. Pessoas de boa vontade serão “tocadas” para ajudá-lo.
                                    Todos de alguma forma serão inspirados para acordarem para o bem.
 
                                    Naqueles dias...
                                    Um grupo que distribuía sopa aos mendigos, moradores de rua, fora  intuído em auxiliar o ex-guarda-noturno. Encaminharam-no aos cuidados médicos; foi operado. A medicina dentro do possível. No longo restabelecimento, sempre havia um revezamento de pessoas, “boas samaritanas”, que, pacientemente, iam orar e levar a Palavra ao enfermo. Corpo e alma estavam sendo cuidados.
                                    Todos os interligados naquela teia de aranha estavam, de alguma forma, sendo ajudados.
                                    Suleyman e seus dois amigos, após alternarem maus e bons pensamentos, venceram as vibrações de vinganças que os faziam delirar no ódio.
                                    As irmãs celestiais lhes transmitiram o amor maternal,  sublime amor.
                                    Do terremoto ficou o exemplo excelso da solidariedade das equipes de resgate, inclusive as estrangeiras. É verdade que muitos que passaram, ainda, não tiveram a permissão de deixarem a Terra, pois o “tempo” não estava findo. Ficaram recebendo as emanações salutares das preces celestiais.
                                    Camargo “bebia” cada palavra daquele ensinamento.
                                    A orientação continuava.
                                    - Camargo, está breve o seu “acordar” na matéria. Sairá do estado de coma. Contudo quero lhe expressar mais com a língua dos homens, ou seja, como diz na língua Guarani: “ava nhenhem” (língua de gente) – brincou. - Nestes tempos, a humanidade cedeu à tecnologia; e  os homens se esqueceram de que são humanos.
                                    Veja as crianças brincando com os bichinhos virtuais, em forma de jogo eletrônico. Dão alimentos virtuais, suprem todas as necessidades do bichinho, que passa a ser o companheirinho virtual. Mas os adultos não percebem que está havendo substituição de afetos.
                                    A formatação do homem pela mídia, impõe-lhe um desejo de consumo, conjugado, misturado, com desejo (apelo sexual).
                                    Por isso há muitos olhares caídos pelo chão.
                                    O declínio na qualidade do ensino escolar.
                                    O homem deve parar todos os dias, por um momento, e refletir sobre sua vida, como a leva, ou é levado; como está situado seu sentimento; para onde e como quer ir, chegar...?
                                    O homem precisa de menos churrasco, menos cerveja, e mais diálogo, mais troca de experiências e informações. Mais troca de sentimentos. Sentir a “derme” da alma. Ser obtuso é estagnar.
                                    O declínio do convívio familiar é patente.
                                    A mesa sagrada das refeições (pode ser até um caixote; não importa se é feito de, mas sim o que se faz de) fica vazia, quando o sofá está sendo tomado pelos familiares, cada qual com o prato de comida nas mãos, assistindo a programação televisiva hipnótica.
                                    Mesmo em famílias abastadas, em suas grandiosas habitações, há salas diversas: de estar, de jantar, de jogos..., contudo seus habitantes procuram a “sala de não estar”. Evitam-se o tempo todo, por conveniência, por disputas, por repulsas.
                                    A prioridade na elaboração dos programas televisivos deveria ser o caráter social e educativo. No entanto, padronizam os gostos, as tendências; massificam o consumismo desregrado e sem valor para a elaboração da essência do homem. Passam a idéia de que “ter” é mais importante que   “ser”.
                                    As relações humanas, principalmente entre homem e mulher, buscam  situações prontas. Equivocam-se. Os relacionamentos têm que ser construídos. Muitos não conseguem ou não desejam, por vários motivos, optam pela praticidade. E, até,  da prostituição. Não há preocupação com a troca.
                                    Encontram-se em bares, enrolam-se nas camas, sem saber nem mesmo os verdadeiros nomes, quanto o mais o resto. Quando o calor passa e os efeitos da bebida também, fica um angustiante vazio. E repetem na noite seguinte, achando que, por sorte, vai ser diferente.
                                    O “harém” oferecido pelo mercado que explora o sexo, tão velhacamente, vende fotos coloridas, vídeos, acessórios afins; planos de fantasias sem envolvimento de sentimentos que nada constróem para um relacionamento sadio. A troca torta é feita com o dinheiro. Frustra quem deu, escraviza quem recebe. Procura-se somente a satisfação das necessidades fisiológicas do modo mais egoísta e medroso. Nada acrescentam.
                                     Camargo também entendia que há de se ter coragem e autenticidade nas relações. Aprofundar-se é o caminho do conhecimento mútuo. Todo homem quer ter seu par. Toda mulher quer constituir família. Apesar dos divórcios em moda (falta de paciência e indisposição para a integração onde dois vão formar um) é de absoluta necessidade  se preservar a individualidade com respeito.
                                    - E quanto aos filhos, quando há a separação? – pergunta Aline curiosa.
                                    Irmão Williams é breve.
                                    - Nas relações entre casais onde há somente a preocupação de ser, digamos assim, “dependentes versus dominantes”, guerras do coração, o modelo a seguir quanto aos filhos é a relação protegida (pai e mãe conjuntamente) ainda que separados, pois quando não se tem essa preocupação resta aos filhos: rebeldia, dor, frustração, separação da segurança psicológica.
                                    Preferível um casal separado oferecendo uma relação protegida, do que um lar  com desafeição e desrespeito constantes, sem disposições em acertar e diminuir as diferenças num patamar aceitável.
                                    Camargo também faz sua pergunta:
                                    - No que diz respeito a educação e orientação, dá para se saber, ou melhor, fazer algo, levando-se em conta o perfil do comportamento da criança?
                                    Irmão Williams, tranqüilo, responde:
                        - Sim! Veja o caso do “moto-boy”, conhecido como o monstro do parque,
que estuprou e assassinou mais de uma dezena de moças, com requintes de crueldade. É sabido que quando criança tinha o prazer mórbido de maltratar e matar animais domésticos. A sua fixação pela figura materna era um grande desvio. Em vez de dizerem: “é coisa de criança”, deveriam dar-lhe um acompanhamento psicológico, cercado pela atenção dos pais, seriamente. O resultado poderia ter sido outro.
                                    Um outro caso: em um bairro residencial de classe social alta, babás e porteiros de prédios eram surrados nas ruas por um grupo de jovens, que sempre conseguia fugir. Tornou-se uma situação insustentável.
                                    Quando foram presos, constatou-se que todos eram oriundos de famílias abastadas e, quando crianças, foram deixadas aos cuidados de babás e porteiros de prédios que lhes impunham limites e repreensões, já que os pais recusaram o papel de criar. Estavam ocupados com seus afazeres e projetos, neles não incluíam  o educar filhos com a devida participação. Com a rejeição latente nessas crianças e jovens, eclodiram revolta e agressividade. E, simbolicamente, a frustração foi dirigida contra os empregados subalternos.
                                    O amor é essencial. Não adianta achar que se está  cumprindo a obrigação paternal comprando um pacote turístico para Disneylândia, ou adquirindo qualquer coisa para ocupar a vida dos filhos. Presente é bom, carinho é muito melhor, vital.
                                    O amor, o amor... Buscar a Deus com serenidade é preciso – finalizou, veemente.
                                    Muitos foram os temas explanados.
                                    De repente brilha o entusiasmo no semblante do irmão Williams.
                                    - Camargo, está chegando o momento do seu retorno à matéria. Lembre-se, a humanidade está em cima da ponte. Ela não quer se “atirar”, quer ser salva, da mesma forma como aquele suicida que hesita olhando para baixo pedindo um surdo socorro. 
                                    Vamos continuar da mesma forma juntos.
                                    No começo você vai passar por um esquecimento, ficando somente o “frescor do conhecimento” obtido nessas experiências.
                                    A sua obra continuará.
                                    Que Deus te acompanhe - expandiu um forte sentimento de amizade.
 
                                    No hospital...
                                    - Dooutoraaa! - ecoa o grito de susto da enfermeira.             O paciente que estava em coma, acordou.
                                    Um alvoroço de alegria tomou conta de todos.
                                    Camargo sentiu um caminho de luz fechando-se.
                                    Olhou grande para o teto, para os aparelhos, para as pessoas ao redor, quieto...
                                    Tempos depois, assim que foi possível,  indagou:
                                    - Onde estou?
                                    A doutora de plantão respondeu-lhe:
                                    - Você está no bom e velho mundo, deitado numa cama de hospital.
                                    Meses depois, tratamentos específicos e fisioterapias, fizeram Camargo voltar às atividades normais, contudo sem nenhuma lembrança das andanças no além.
                                    Na corretora Bastos & Miranda foi uma festa. Todavia, Camargo após perceber que muita coisa havia mudado, deixou seu lugar para Roberta, que já estava morando com o Dr. Bastos com casamento desfeito.
                                    Camargo iniciou um pequeno escritório de corretagem de seguros. Antônia foi convidada para ser sua sócia. Aceitou.
                                    Sua mãe, dona Cacilda, sentiu-se novamente amparada em sua velhice.
                                    Aline preparou-se e foi incumbida de ser protetora de Camargo, por haver entre eles uma grande simpatia e amor fraternal.
                                    Camargo percebe que pulsava dentro de si uma convocação para a caridade e filantropia.
                                    Procura preparar-se como médium (elo intermediador entre os espíritos e os encarnados), ativo nas causas do Evangelho. Aprendeu que através do Espiritismo Kardecista poderia aproximar-se do Cristianismo primigênio e levá-lo codificado para as novas épocas e gerações. 
                                    Promove visitas a sanatórios, casas de repousos, creches, orfanatos, asilos, hospitais. Reencontra, sem saber, espíritos conhecidos de outros tempos, agora reencarnados. Alguns em cadeiras de roda; outros débeis, deformados em caretas medonhas; outros em autoflagelo emitindo sons, grunhidos horríveis; outros mais amáveis - exteriorizam na fisionomia, no aparelho carnal, o estado em que se encontram espiritualmente.
                                    Orações, cuidados higiênicos, palavras de conforto são ofertadas a todos, prazerosamente.
                                    Algo muito importante  estava por vir.
                                    Por “influência” da irmã Aline, Camargo acompanha um grupo de amigos a um hospital. Vão levar conforto para alguns pacientes terminais, como voluntários.
                                    Depara-se com um homem, encolhido numa cama, demonstrando ser menor do que realmente era.
                                    Gemia baixinho de dor.
                                    Ao aproximar-se, chegando bem perto, Camargo sofre tremendo impacto.
                                     Reconhece naquele ser, enfermo, Valáquius III e o ex-guarda-noturno numa só pessoa. Tudo veio à tona. O que estava adormecido, acordou abruptamente. Passava em sua mente trechos de um filme com poucas cenas, mas cenas fortes: batalhas; mortandade de milhares de pessoas; a trama que culminou no assassinato de Gláudius, ou seja, dele mesmo em vida passada,...
                                    O paciente assistiu nos olhos de Camargo as mesmas cenas.
                                    Deus assim permitiu para um bendito propósito.
                                    Camargo fechou os olhos e começou a orar fervorosamente em prol do paciente, e para que ele próprio não caísse em sentimentos de vingança.
                                    Quando abriu os olhos, viu a mão do ex-guarda-noturno procurar a sua. Pegou-a com delicadeza. Ficaram assim, quietos, entreolhando-se por um bom tempo.
                                    O paciente num esforço tentou falar alguma coisa, mas não ficou inteligível. Camargo chegou mais perto e pôs o ouvido bem próximo dos lábios do moribundo. Em vão. O paciente faleceu.
                                    Irmãos celestiais acompanharam a prece de Camargo, e se encarregaram de recolher a alma enfraquecida do recém-desencarnado.
                                    Intimamente, Camargo achou bom que a Providência o fizesse estar ali. Pelo menos este irmão não ficou sozinho neste momento derradeiro - pensou.
                                    Dois seres com um passado repleto de antagonismos e rancores, agora ali naquele pequeno quarto de hospital. O corpo inerte do paciente  falecido, e Camargo em forte emoção orando em pensamento.
                                    Unia-os, agora, um laço de amor. O ódio foi desfeito. Houve o perdão. Houve a prece saída do “coração” e não dos lábios.
                                    Camargo venceu o medo do escuro.
                                    Presenciou a Luz.
                                    Ouviu o Canto do Silêncio.


 
                     

  FIM

 

 

 

 
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