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CAPÍTULO
I
O Coma
- Acudam! Alguém chame uma ambulância! – gritou Antônia em
desespero. - O Camargo está passando mal. Ele caiu que nem
tomate maduro com a mão sobre o peito – explicou aos
demais que vieram saber o que estava acontecendo.
O escritório da corretora de seguros Bastos & Miranda
paralisou as suas atividades.
Estendido no chão Camargo, o gerente administrativo.
- Como é já chamaram o socorro? Rápido. Desapertem o
nó da gravata. Abram a camisa dele – intimou a
prestativa Antônia, um curinga-faz-de-tudo do
escritório.
Ao abrirem a camisa, o peito desnudo mostrou os pêlos amassados
de Camargo. Roberta mordeu os lábios. Não analisou a
situação corrente. Seus desejos secretos abriram as
portas. O instinto veio à frente da racionalidade.
- A ambulância chegou! – gritou o office-boy, descendo
as escadas.
- Traga-os aqui rápido! – alguém ordenou.
Os paramédicos, com serenidade própria daqueles que lidam com
os desastres da vida diariamente, intervieram:
- Saiam todos de cima! Abram as janelas!
Antônia em lágrimas perguntou:
- É parada cardíaca?
Ficou sem resposta.
Após as verificações, massagens e outras formalidades que o
caso exigia, os paramédicos resolveram retirar o paciente.
- Rápido! Vamos removê-lo! Ele precisa ir direto para o
hospital. Terá que entrar em cirurgia, provavelmente – disse
um deles.
O corpo de Camargo, entre a vida e a morte, inconsciente,
na ambulância que seguia com estardalhaço pelo trânsito
caótico. Era começo de março de 1999; as férias escolares
findas. Parece que todos os habitantes resolveram ir às ruas ao
mesmo tempo.
Neste burburinho todo, algo aconteceu de extraordinário.
- Camargo, venha aqui! Não se assuste. Tenha calma – ecoou
uma voz serena. - Camargo, abra os olhos, meu irmão. Está tudo
bem – insistia a mesma voz macia, sem que ninguém ao redor
pudesse ouvi-la.
Camargo abriu com esforço os olhos e ofuscou-se com a
claridade; teve dificuldade em permanecer com as vistas abertas.
Ouvia sons confusos. Fez um esforço e conseguiu sentar-se,
cabisbaixo.
- Irmão, olhe ao redor – orienta aquela voz tranqüila.
O paciente levanta a cabeça, olha ao redor, e observa seu corpo
deitado, ligado nas aparelhagens. A equipe de socorro, quieta,
manuseia equipamentos.
- Calma, irmãozinho Camargo. Está tudo bem. Paz! É somente
seu corpo que padece. A casa material do seu espírito...
- O que está acontecendo? Quem é você? De onde está vindo
esta voz? –falou Camargo, porém percebendo que se comunicava
mentalmente.
- Seu espírito não poderá ainda desligar-se da matéria.
Você está fora do seu veículo corporal. No entanto, o seu
cordão espiritual está ligado ao corpo material. Não chegou o
seu momento. Há algo de muito importante a realizar –
vibrou aquela voz telepática.
A ambulância chega ao hospital e o corpo de Camargo é colocado
sobre a maca, à sua espera. Segue rapidamente para a sala de
cirurgia, onde se ultimavam os preparativos para atendê-lo.
O espírito do paciente segue quieto, observando todos os
pormenores. Todo o esforço para salvá-lo. Vê com incrível
naturalidade seu próprio corpo semimorto.
- Eu vou morrer? – expandiu telepaticamente, todavia como
criança ingênua, ao mesmo tempo em que procurava seu
interlocutor.
- Não, meu irmão. Como já lhe disse, não chegou o seu
momento. O seu tempo neste planeta ainda não se esgotou.
Apresenta-se um corpo fluídico, impalpável, à frente de
Camargo.
- Sou o irmão Williams. Estou aqui para lhe ajudar. E
não estou só.
Camargo ficou emocionado, com a experiência que estava vivendo.
Um emaranhado de dúvidas começou invadir seus pensamentos:
Aquele ser espiritual parecia tão conhecido, tão íntimo. Mas
de onde? Estou sonhando? O que comi mesmo na última refeição?
Acho que o metabolismo entrou em “parafuso”. É, é isso...
Não está acontecendo de verdade. É um pesadelo... – tentou
justificar o aturdido Camargo.
Na sala cirúrgica, o cirurgião-chefe comanda sua equipe; foi
feita uma grande incisão no peito do paciente. A equipe médica
trabalha coordenada por horas a fio.
Camargo assiste a tudo. Vê as entranhas do seu próprio corpo.
Consegue sentir até mesmo os cheiros.
Em dado momento “ouve” um choro sentido vindo de uma
dependência próxima dali. Só em pensar de quem se tratava,
Camargo automaticamente apresentou-se diante da autora. Era
Antônia, sua amiga de anos e anos.
- Antônia, não chore! Estou bem. É só um
pesadelo – tentou comunicar-se, porém sem resultado.
"Se estou morrendo como ficará minha mãe? Eu preciso
vê-la." - pensou, aturdido.
Observando tudo que se passava, o irmão Williams mentalizou:
- Meu irmão, confie em Deus. Ouça. Tudo aqui é real. A
cirurgia será bem sucedida. Não se preocupe. Sua mãe está
amparada.
Interrompendo-o, Camargo enerva-se.
- Escuta aqui, Sr. Williams. Não sei quem é você. É minha
vida que está em perigo...
O ser espiritual não discutiu. Ouviu tudo em silêncio, todavia
permaneceu ao seu lado.
Muitas horas depois, diz o cirurgião, demonstrando exaustão na
voz:
- Pronto, está feito.
O paciente foi levado para a Unidade de Terapia Intensiva.
Camargo segue o corpo inerte e anestesiado.
Ficou lá por horas. Parado. Diante do próprio corpo.
De repente o irmão Williams desaparece novamente. Neste mesmo
instante um transe estonteante e profundo tira a consciência de
Camargo...
No dia seguinte, na corretora, a diretoria convocou uma reunião
geral. Na hora marcada, com voz embargada, o Dr. Bastos
dirigiu-se aos funcionários:
- Amigos. Como todos já sabem o Camargo sofreu um infarto. Pelo
que sabemos, a intervenção cirúrgica foi bem sucedida. Para
ocupar, temporariamente, o seu lugar aqui na empresa... - muitos
se mexeram em suas cadeiras aguardando uma promoção - a
senhorita Roberta, já aceitou responder pelas funções
gerenciais administrativas.
Imediatamente um uníssono rumor de espanto contido ecoou
na sala; Dr. Bastos circulou seu olhar por todos os que o
ouviam. Com voz firme e grave, continuou:
- Sei que irão apoiar a nossa eficiente colega de
trabalho; senhorita Roberta, parabéns!
Antônia, desapontada, cochichou no ouvido de Marcela:
- Eficiente esta “perua”. Ela deve ter feito muitas horas
extras dedicadas no colo dele. Quem diria, o Dr. Bastos...
Roberta, toda sorrisos, levantou-se e agradeceu:
- Obrigada, Dr. Bastos. Modéstia à parte, eu mereci este voto
de confiança. É uma questão de competência. Esforcei-me dia
e noite para chegar até aqui.
Dr. Bastos, encabulado, agradeceu, encerrou a reunião diante
dos perplexos funcionários.
- Não posso olhar pra cara desta mulherzinha. Tanto tempo “dando
o sangue” e na primeira oportunidade de ser reconhecida, ainda
que num momento trágico, sou passada para trás por uma
bonequinha de luxo tipo estagiária da Casa Branca – desabafou
Antônia para a confidente Marcela.
No final da tarde a mesma Antônia, decepcionada, vai ao
hospital visitar o amigo Camargo.
- Sinto muito, o paciente não pode receber visitas – falou
mecanicamente a atendente do hospital, sem mesmo levantar a
cabeça; respondia em monossílabos.
Antônia encontrou a mãe de Camargo no
corredor. Abraçaram-se.
- Dona Cacilda, tudo está indo bem. Eu já me informei. A
atendente na recepção, tão gentil, explicou-me tudo
direitinho. Seu filho está sendo bem cuidado. Logo estará
entre nós - esforçando-se para ser verdadeira.
- Obrigada pela força, amiga. Eu só tenho meu filho. Deus
será injusto comigo se levar o Camarguinho.
- Não diga
isso, tudo está bem.
Na U.T.I., a enfermeira assustada chamou a médica.
- Doutora Mila,
rápido! O paciente do leito quatro, senhor Camargo...
Constatou-se que o recém-operado perdera as atividades
cerebrais superiores, mas conservava a respiração e a
circulação.
Médica e enfermeiros rapidamente executaram todos os
procedimentos necessários.
Camargo “despertou” novamente a consciência em espírito.
Fluía pairando no alto. Via seu próprio corpo no leito,
sendo socorrido.
Imediatamente pensou ser o efeito da anestesia. Cada vez mais
distante, deparou-se com um túnel delgado. Luzes indicavam um
caminho sereno, de grande paz. Ao ser atraído naquela
direção, pensou: “Deve ser a passagem para um outro mundo.
Já ouvi falar a respeito...”
Titubeou por um momento. Apenas foi-lhe mostrado para sabê-lo.
Uma voz telepática já conhecida chamou-lhe a atenção:
- Irmão Camargo, pare! Não cruze este caminho. Não é o
momento. Temos uma missão ainda a
cumprir.
Sou eu, irmão Williams. Ele surgiu novamente à frente de
Camargo, que não mais se mostrava contrariado. E o
interrogatório naturalmente começou:
- Conheço-o de
onde?
Você é tão familiar. Estou confuso – expressou Camargo.
- Venha, quero explicar-lhe tudo o que for possível e
permitido. Em breve você saberá quem sou e no que estaremos
trabalhando. Na verdade somos irmãos. Todos somos filhos de um
mesmo Pai. Podemos começar dizendo, para seu esclarecimento,
que Deus, “Primu Spiritu” (Primeiro Espírito), é a fonte
perfeita inesgotável de amor, de caridade e de luz.
É o Senhor de toda sabedoria. Detém o conhecimento de todas as
ciências. Ciências celestiais, que estão infinitamente acima
das ciências dos homens. É o único espírito santíssimo. O
Pai. O Escolhido entre os Sete.
- Como assim, o “Escolhido entre os Sete”? - perguntou
admirado, Camargo.
- Bem, é
simples e complicado ao mesmo tempo. Vou explicar-lhe. No
princípio eram Sete os Primeiros. Pode-se ler em Gênesis, o
primeiro livro de Moisés: A criação dos céus e da terra e de
tudo o que neles existe (A Criação do Homem), e tire suas
conclusões:
" E disse Deus: façamos o
homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes
do mar, e sobre as aves dos céus..."
(Gênesis:26)
" Lembra-se? O mundo foi feito em “sete dias”. Constam
muitos outros “sete” impressos em questões dentro do
conhecimento universal. Mas, por favor, nada de crendices
e superstições..."
Após a advertência, irmão Williams continuou com convicção:
- Vemos outras citações no Velho Testamento.
“ Porque eis
aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre
esta pedra única estão ‘sete’ olhos; eis que eu
esculpirei a
sua
escultura, diz o Senhor dos
Exércitos, e tirarei a
iniqüidade desta terra num só dia.”
(Zacarias:3:9)
“E o anjo que falava comigo voltou, e
despertou-me, como a um
homem que é despertado do seu sono.
E disse-me: Que vês? E eu disse: Olho, e eis que vejo um
castiçal
todo de ouro, e um vaso de azeite no seu topo, com as
suas ‘sete’
lâmpadas; e ‘sete’ canudos, um para cada uma das lâmpadas
que
estão no seu topo".
(Zacarias:4:2)
Porque, quem despreza
o dia das coisas
pequenas? Pois
esses ‘sete’ se alegrarão, vendo o prumo na
mão de Zorobabel;
esses são os ‘sete’
olhos do Senhor, que
percorrem por
toda a terra.”
(Zacarias:4:10)
Irmão Williams continuou a explicação sobre o Princípio,
sobre Os Sete:
- Resolveram, entre os Sete, que um apenas seria o Pai, o
Primeiro, e Deus foi o escolhido, por uma questão de ordem e
organização da Grande Obra.
No entanto, um deles não aceitou, queria ser ele próprio o
Pai. Criou-se, assim, a desarmonia, o desajuste.
Lançou-se o Bem contra o Mal.
A Luz contra as trevas.
O desarmonioso afastou-se. Mesmo tendo todo o Conhecimento
(participou da criação, do começo), falhou.
Tudo que é bom teve um princípio criador, e tudo que é mal da
mesma forma.
Os espíritos que começaram a vir depois como discos virgens
puderam escolher quais seriam suas faixas, seus registros a
serem gravados.
Não necessariamente precisa-se passar pelo sofrimento para
encontrar o aperfeiçoamento, a Luz.
Muitos escolhem certo desde o princípio pelo bom caminho, não
se desviam, não falham. Nem mesmo passam por esse planeta
Terra.
O prumo é certo em direção a Deus.
Aquele que é um dos Sete, do Princípio, que se desarmonizou
já restabeleceu o arrependimento. Foi aceito novamente, como
devia ser. E, agora, promove a reparação de seus atos...
Camargo interrompe:
- Mas o que era antes dos Sete? Como foram criados? Não
entendo...
Irmão Williams, tranqüilo, responde:
- Camargo, o homem não consegue perceber nem o que há nele
próprio. Não percebe nem suas más tendências, e tantas
outras “bagagens” que carrega.
“Com a cabeça que tem no mundo material, vai ser difícil
entender outras dimensões do conhecimento, mas vai uma dica:
não procure tais respostas com o telescópio, procure dentro de
si. Conheça-se primeiro, que conhecerá todo o princípio, o
antes e o depois.”
E continuou falando sobre Deus:
- Deus é o criador da vida e das criaturas, incessante.
Criador do Universo e tudo que há de bom nele.
Tudo que Ele cria é sagrado.
Em sua imensa generosidade criou e preparou todos os caminhos e
mundos para seus filhos evoluírem. Serem perfeitos também.
Quer onde se encontrem.
Os filhos de Deus foram criados segundo a sua semelhança, mas
por lapidar, “inocentes”.
Lateja dentro de cada criatura a potencialidade divina. Para
muitos estão adormecidas; outros empregam-nas muito mal.
Camargo só ouvia aquelas palavras mentalmente, deliciando-se
com a boa vibração.
- Como disse, muitos mundos foram criados por Deus. São
habitados cada qual segundo a sintonia de entendimento; de
aperfeiçoamento; de preparação de cada um; por simpatia; por
mérito.
Planetas com características diferentes cujos habitantes são
desde seres primários guiados pelos instintos até aos mais
cristalinos e evoluídos. Nesses últimos, não há uma
única expressão contrária às Leis de Deus. É bom salientar
que Deus dá o exemplo: Ele próprio está sob suas Leis que
regem o Universo, as quais ajudam, também, os filhos do Pai a
mapearem seus íntimos e destinos para alcançarem o máximo da
purificação. Se assim não fora, Deus seria um ditador;
sua Divindade não permitiu tal absurdo.
O único planeta no cosmo que permite diferentes entendimentos,
naturezas e simpatias entre seus habitantes (filhos de Deus) é
a Terra. Ela assemelhava-se a uma panela de pressão com
diversas vibrações. O planeta serve de “filtro”. O
espírito ao encarnar-se começa a sofrer as ações de um
verdadeiro “filtro” que lhe impõe o seu próprio corpo
material. Vem à carne para expurgar suas máculas. E os
sintomas são nítidos em cada um.
Nem tudo é atraso na Terra. Encarnam-se, também, seres mais
evoluídos que, por amor, se dedicam a difundir desenvolvimento
e progresso aos homens, principalmente no aspecto moral. Para
melhor exemplificar, não vemos pessoas que se arriscam em
situações dificílimas e de grande tensão para salvarem
outras que nem as conhecem só para livra-las dos perigos?
Imagine também alguém muito evoluído no alto da montanha que
a tudo contempla, na Grande Paz, e olha para baixo e observa
várias aldeias. Entre essas aldeias, verifica que há uma muito
atrasada e os aldeões estagnados em sofrimento. Mesmo nada a
dever, nada a resgatar, a boa alma pede a Deus a permissão de
estar entre aqueles irmãos mais atrasados para ajudá-los com o
seu conhecimento, com o seu amor. Deseja promover o adiantamento
de todos. Se permitido pelo Pai, começa a arquitetar
compromissos e planos espirituais. Vem viver e “sofrer”
todas as influências do meio. Ser um igual, a exemplo de Jesus
nasceu na carne para ensinar uma nova lei para o povo atrasado e
semear a Luz na humanidade. O seu livro foi o seu exemplo;
foi todo amor; desmascarou a hipocrisia; foi contra as
trevas; foi o melhor presente de Deus aos homens terrestres. O
bom irmão e Senhor continua sua bendita obra ativamente para
que as chagas que corróem o homem se desfaçam de vez. Jesus
não voltará como muitos pregam, pelo simples motivo que ele
nunca nos deixou. Não volverá à carne. Não será mais
crucificado, nem servirá para os hipócritas com trinta moedas
nas mãos se ajoelharem diante Dele nas igrejas onde
negociam a fé.
É bom esclarecer que Deus concede a cada filho o poder da
criação conjugado com a eternidade e o livre-arbítrio.
Todos foram trazidos à vida para uma finalidade maior. Com uma
responsabilidade dentro da Grande Obra. Ajudarem na
incessante criação, expansão do Universo e sua
administração. Mas, para tanto, todos devem se preparar. Não
será o Espiritismo, o Catolicismo, o Protestantismo, o
Judaísmo, o Budismo, o Islamismo, ou outras filosofias,
doutrinas, ou religiões que por si só salvará as almas. Não
será o seguidor dessa ou daquela Orientação que será
privilegiado no Juízo Final. Na verdade, são caminhos
que os homens poderão seguir voluntariamente para chegar
a Deus, segundo o “entendimento” de cada um, o que mais
aprouver. No entanto, ressalto, de forma veemente, o que
agrada aos olhos de Deus é a boa intenção, a generosidade, o
amor, a obra simples e pura que seus filhos vão distribuindo e
realizando francamente em favor dos seus semelhantes. É claro
que todas as religiões, ou doutrinas, têm o seu mérito, pois
não existe só uma “gama de entendimento” no seio da
humanidade. Muitos desvios e crimes foram cometidos pelos
homens, ditos religiosos, que não se desvencilharam das
torpezas interiores. Não se pode culpar a Igreja de Pedro, em
sua essência, por aquilo em que a transformaram, pelas
barbaridades cometidas em nome dela, conforme os registros da
História, e assim também acontece com as outras “Orientações
Religiosas”.
Camargo, sério, interrompe:
- Irmão Williams, como as religiões não salvam? E os homens
religiosos que seguem os preceitos doutrinários de nada valem?
Pacientemente, foi dada a resposta:
- Eu lhe disse que Deus vê é a intenção do filho, não se
ele está revestido dessa ou daquela doutrina. Muitas coisas
são analisadas: o meio em que se vive, a época, o conhecimento
já adquirido, o que se tem a realizar, a reparar, por isso,
insisto, pode-se estar na fé tribal no seio da África, da
Amazônia, não importa, é a obra que vale. Para ser
definitivo, explico: do que adianta alguém se revestir de todos
os meios para alcançar o mais alto grau em uma Congregação se
dentro de si está repleto de vaidades, orgulhos e rapinas? Do
que adianta solidificar sua fé em cima de uma rocha, e depois
colocar essa mesma rocha no pântano movediço? Antes de ser um
sumo-sacerdote orgulhoso, com todas as pompas e ouro, ainda que
com todo o conhecimento da religião, é preferível ficar do
lado de fora do Templo, nas escadarias, descalço e maltrapilho.
Muitos religiosos preocupam-se com os exteriores, com a
ritualística e esquecem-se do primordial: amar verdadeiramente
a Deus e aos seus semelhantes. Jesus, disse:- Fora da
caridade, não há salvação. Ele não falou fora da Igreja, ou
fora da religião, portanto vem ressaltar o que estou afirmando:
para Deus vale a caridade que cada um puder plantar e colher
para sua própria salvação. Será verificado como o espírito
encarnado recebeu o seu “meio” e como o deixou ao partir.
Houve um silêncio contemplativo. Irmão Williams continuou,
logo depois:
- Quanto mais se avança no conhecimento, maiores são as
tarefas, em conseqüência, maiores as
responsabilidades.
Deus não é egoísta.
Ao contrário do homem terrestre que quando obtém algo que lhe
é precioso esconde, enterra, falseia, para ninguém perceber
(não quer correr o risco de dividir), Deus tudo oferece, tudo
explana, tudo prepara para que todos os seus filhos possam
desfrutar com consciência e responsabilidade. Tudo ao seu
tempo.
A criação é interminável.
Tudo neste planeta Terra evolui. Tudo é movimento. Quanto mais
se pesquisa, verifica-se o morrer para nascer; os ciclos da
natureza. Até no átomo há o movimento incessante dos
elétrons, prótons... Tudo é energia. Em tudo que é próprio
da natureza há vida: minerais, vegetais, animais...
Apenas para ilustrar esta pequena explanação, os filhos de
Deus são como pequeninos insetos crepusculares perdidos na
escuridão (trevas da ignorância); vagueiam em direção da Luz
absoluta; outros já se encontram nas esferas mais
etéreas e evoluídas. Quanto mais próximos de Deus,
menor a dor, menor a ignorância, enfim, menor o sofrimento.
Quanto mais próximo de Deus é sinal que se conquistou um
merecimento por boas obras realizadas. Mais próximo da
perfeição se está.
Todos os seres, sem exceção alguma, onde quer que se
encontrem, seguem todos em direção da Luz que norteia a vida e
o Universo: Deus!
Imensa é a felicidade do filho que se apresenta perante o Pai
com os desígnios assumidos cumpridos e nada tendo do que se
envergonhar. É grande o júbilo no além.
Em suma, preparar-se para melhor amar e servir a Deus –
finalizou irmão Williams.
Camargo por um bom momento serenou.
- Sabe, irmão, eu bem que senti uma percepção muito forte.
Alguma coisa dentro de mim esforçou-se em me chamar atenção
logo quando acordei naquela manhã, no mesmo dia do infarto. Eu
sabia que algo de ruim estava por vir. Estava todo agitado. Se
soubesse não sairia da cama – resmungou Camargo.
- Era eu mesmo. Tentei despertar seu espírito porque realmente
uma boa tormenta estava chegando para você, fazendo assim meu
papel de anjo da guarda.
– Anjo da guarda vá lá, mas uma boa tormenta? Infarto,
Coma?... Francamente – queixou-se Camargo.
- Não se engane pelas aparências. – pacientemente tentou
explicar irmão Williams - Quando se está enraizado no mundo
material, por paredes, tudo parece imponderável,
improvável e inexplicável. Costuma-se comparar com os padrões
e parâmetros de uma dimensão limitada. Confie. Você está
muito próximo de traspassar fronteiras, por ora desconhecidas.
Transformações virão com a graça de Deus. E, quanto ao anjo
de guarda, todo filho de Deus nunca está só, sempre há um
irmão já preparado e evoluído, puro, destacado por Deus para
acompanhar, aconselhar, proteger seu “afilhado” por toda sua
caminhada por este planeta. Será a voz da consciência, aquela
mesma que quase ninguém quer ouvir. Não há aquele que se
encarnou neste planeta que possa alegar que esteve sozinho,
largado por Deus. O Pai toma todos os cuidados para cercar os
seus filhos de todos os predicados. Agora, Deus não pode fazer
o “trabalho” de seus filhos, pois são estes últimos que
devem evoluir, angariar experiências universais; precisam
exercer as faculdades inertes que Deus lhes confiou. Necessitam
conquistar meritoriamente uma posição mais sublime na escalada
da evolução.
Houve uma pausa para refletir.
Logo mais irmão Williams continuou serenamente:
- Há algumas filosofias que conceituam Deus como “Arquiteto
do Universo”. É apenas uma das muitas formas de
designá-lo. Neste raciocínio, todos os filhos Dele
são, da mesma forma, arquitetos.
- Como assim? –quis saber melhor, Camargo.
- Injustamente os homens terrestres culpam a Deus pelo caminho
difícil e pelo fardo pesado. Mas, na verdade, cada qual “arquiteta”
seu próprio caminho para conseguir a evolução, o aprendizado,
o resgate das dívidas e faltas de experiências passadas, de
outras vidas, de outras viagens percorridas. Cada qual sabe da
bagagem que carrega para escalar a montanha do conhecimento.
O próprio filho de Deus diante do que lhe afeta a consciência
e a moral, projeta tudo que será necessário para o percurso do
seu caminho de Santiago de Compostela pessoal, porém numa
amplitude muito maior.
- E Deus não interfere? – interpelou o atento
Camargo.
- Aconselha, mas não interfere.
conseqüências do fracasso. Contudo nada é perdido; no erro,
no fracasso também se aprende; tudo é experiência adquirida,
ainda que de forma sofrida.
Por mais que o homem persista em manter-se nos desvios morais e
espirituais; ainda que recrudesça nos maus hábitos e
sentimentos menores, um “dia” ele perceberá as origens de
seu sofrimento particular e se cansará e procurará a
transformação através da própria reforma. O íntimo
repleto de bem melhora a ação externa.
E falando em caminho é bom lembrar:
Deus alerta quando o pequeno arquiteto prepara sua bagagem
pesada demais – o fardo - além de suas forças no afã de
resolver logo tudo de uma vez só, mas não o impede.
Acrescento, ainda, Deus se compromete em mandar todas as
provisões necessárias no tempo e lugares certos, pelo percurso
da vida, do tal caminho de Santiago de Compostela particular.
Todavia, o que mais acontece é o viajante, filho de Deus, após
passar pelo “esquecimento” e iniciar o percurso, desviar-se
da rota por caminhos débeis e fartos em sofrimentos. As
provisões vão-se acabando, restando a escassez e a
desolação. No entanto, Deus cumpre a sua parte, envia para as
coordenadas preestabelecidas novas “provisões” e tudo o
mais necessário para a caminhada pela vida, mas o beneficiário
está ausente, praguejando o mundo todo pela própria desgraça,
quando o verdadeiro incauto é ele próprio em desventurados
caminhos, viciosos e errantes...
Camargo, interrompendo, pediu para irmão Williams explanar com
outras palavras.
- Pois bem.
Em certas fases não nos lembramos, no entanto, nossa caminhada
vem de longe.
Nosso Pai concedeu, generosamente, aos espíritos
encarnados, o “esquecimento” para suportarem melhor a
presente existência.
Estamos num planeta nave-escola que nos acolhe nesta viagem pelo
Universo repleto de sabedoria.
Somos colocados num processo que nos imprime forte pressão
constante.
A cada segundo, a cada instante, diversas situações são
criadas onde nosso “ser” vai absorvendo, querendo ou não,
experiências que o tornará no amanhã cada vez mais próximo
do amadurecimento.
Tudo no Universo se move, se agita: o átomo, os nêutrons, como
lhe disse anteriormente, ainda mais a vida, quanto mais os
filhos de Deus. A matéria nada mais é que a Luz gravitacionada
por forças criadoras excelsas.
Nesta nave-escola, normalmente, há alunos com passado
inglório.
Para o bem houve a necessidade de se renovar o ano-escolar para
muitos, mini-vidas, para o aprimoramento nas lições.
Com o tempo, deve-se vencer a escuridão da própria
ignorância.
Vamos nos descobrindo, e extirpando as chagas que maculam o
espírito, que persistem há muito.
As roupagens dos alunos serão “brancas”, “negras”, “amarelas”,
“vermelhas”, “ricas”, “pobres”, de “comandantes”,
de “comandados”, num rodízio constante e necessário...
Se orgulhosos, vaidosos, egoístas, sofrem as más
conseqüências.
É a ciranda das mini-vidas, das experiências, do acerto e do
erro.
Anos escolares...
Mas é certo, o Ser que rege a Vida, a Criação, o Universo tem
entendimento para nos avaliar ontem, hoje e amanhã. Conhece-nos
profundamente, por isso concede-nos quantas forem necessárias
as oportunidades para nossa evolução.
Uma tênue rede de compromissos e sintonias nos liga uns aos
outros. Formamos famílias, círculos de amizades,...
Vamos aprendendo uns com os outros. O que há de bom ou mal.
Tudo é espelho.
O importante, meu irmão, é não desesperar. Confiar em Deus.
Não dar entrada às melancolias, nem às decepções pelas
coisas que não possuímos ou que ficaram fora de nossas posses.
Sem dúvida somos responsáveis pelos bens, pelas vidas, que
Deus confia aos nossos cuidados.
Façamos o melhor, sintonizados nas mais puras intenções.
Valorizemos as riquezas que Deus nos confiou. E olhe que são
tantas. Observe ao longo da vida...
Nos bons momentos, ou nos momentos mais tensos, busquemos
sinceramente a Deus, não como subterfúgio, escapismo, ou
fanatismo, mas sim como um ato de libertação, com a
consciência com que o bom aluno vai ao Professor, pois é
ávido de saber.
Finalmente, mantenha-se confiante, não desanime, pois
muitos estão se mirando em você, em seus exemplos.
Um filho de Deus jamais está só!
Agradecer ao Pai pelas oportunidades de evolução, pelos
alimentos, pelo teto, pelas pessoas, pelas constantes
provações... Sempre há o que agradecer. O reconhecimento é
um importante acontecimento.
Pedir ao anjo da guarda elevar as preces aos pés de Deus, é um
ato de amor. A prece sincera do fundo da alma é o diálogo, a
luz em expressão, entre a criatura e o Criador. O filho e
o Pai.
Luz em suas reflexões e decisões! - terminou com entusiasmo
irmão
Williams.
Camargo harmonizou-se.
Filosofou consigo mesmo:
Isto está parecendo o Canto do Silêncio.
No estado de coma, ouço o silêncio da vida cantando em
meus ouvidos; aparentemente só nos meus.
A inconsciência é repleta de diálogo, lembranças e
observações.
A mente humana passa a ser um satélite em órbita no espaço,
no imaginário, captando ondas, cantos com enredos do silêncio,
ouvidos pela alma, não pelo corpo carnal.
Dona Cacilda orava em favor de seu filho no pequeno altar do
hospital. Em suas preces uma mescla de amor maternal bem
como algum egoísmo. Pensava ela: quem vai cuidar de mim? E se
ele ficar bom, será que vai casar-se dispensando os meus
cuidados?
Podia-se notar, assim, que era uma relação complexa.
O tempo foi-se passando...
Todas as coisas se acomodando, cada qual no seu lugar.
Na corretora Bastos & Miranda, Roberta tocava a nova
função como podia e cuidava do Dr. Bastos como bem sabia.
Como de costume almoçavam juntas Antônia e Marcela.
- Veja você, queridinha – atacou Marcela - a desqualificada
da Roberta no Olimpo mandando raios e trovoadas sobre os pobres
mortais e o Camargo, aquele bom caráter, todo danado no
hospital. Temos que desbancar a Roberta, aquela aproveitadora de
plantão - sentenciou.
Suspirando, Marcela continuou:
- Camargo, quarenta e cinco anos, solteirão, todo educado,
solícito e com aqueles olhos tristes... um desperdício, não
acha, queridinha?
- É verdade, você está com toda a razão – fuzilou Antônia
- mas o que se pode fazer? Pena que o nosso amigo não conseguiu
ficar com o grande amor da vida dele; ela foi perseguida por uma
louca que armou tantas que a pobre coitada acabou casando com
outro. Olhe é segredo. Veja lá...
- Menina, só agora que você me conta, quero detalhes –
insistiu Marcela.
- Pois bem, ela era uma linda moça muito delicada,
completamente apaixonada pelo Camargo. Chegaram a ficar noivos.
Mas havia uma mulher que, juntamente com seu marido,
infernizaram a vida deles de tal maneira, que a moça desistiu
do noivado para poupar a si própria bem como a seu amado, pois
estavam prestes a serem presos pelas tramóias do casal
perseguidor. É longa a história...
Respirou fundo Antônia, e lentamente continuou a falar.
-Você sabe, Marcela, o Camargo tornou-se um grande amigo e
confidente meu. Muito antes de ele trabalhar na corretora,
ocupava um cargo de confiança numa grande empresa de
administração familiar, bem tradicional em nosso Estado.
Ele começou como estagiário, logo se distinguiu; foi
efetivado.
Como você mesma diz: “queridinha, homem é artigo de
primeiríssima necessidade...”, assim, também, entendeu a
diretora dessa empresa, Sônia Rossini, que logo providenciou a
ascensão meteórica do “gajo”.
Camargo fez esforços para corresponder às oportunidades, mas
mal sabia ele o que lhe esperava.
Dona Sônia, cada vez mais envolvida, a “bem do serviço e
interesse da empresa” levava o rapaz às alturas, alimentando
as ambições do mais novo protegido. Almoços, jantares,
coquetéis, eventos.
Só que tudo era “light”, um jogo de sedução disfarçada e
conquistas. Tudo muito... como posso dizer?...civilizado.
E o Camargo, de certa maneira, alimentou tudo isso.
O sismógrafo começou a detectar sinais de problemas quando foi
contratada para o departamento jurídico da empresa a Dra.
Aline. O epicentro encontrava-se na ala da diretoria, mais
precisamente, na sala da Dona Rossini.
Eu cheguei a conhecer Aline em outra época, outra
circunstância.
Menina! Aquela moça é linda, carinha de francesa.
- ”Mon Dieu!” - brincou Marcela.
Sem levar em conta a interrupção da amiga, Antônia continuou,
porém deixou-se atingir pelo humor da amiga.
- Quando a “mademoiselle” trocou olhares com o Camarguinho,
o coração do moço deu voltas na Torre Eiffel. E olhe que
estamos na cidade de São Paulo.
Era um tal de inventar moda... O protegido da diretoria visitava
toda hora o jurídico.
- E aí, queridinha? - interrompeu mais uma vez Marcela, com seu
jeito peculiar; aumentava sua curiosidade.
Antônia, com certo entusiasmo:
-E aí? ai, ai, ai... Foi atração avassaladora.
As etapas da aproximação normal, tipo: chopinho, cinema, troca
de horóscopos, teatro, jantar, cama, declaração de amor,
foram atropeladas. Do dia para a noite transformou-se num
nômade árabe desesperado para raptar a moça européia e fugir
para o vasto deserto...
- Por Alá, o Camargo?! - deixou escapar Marcela, admirada.
- Só que a Dra. Aline não embarcou de primeira, pelo menos
procurou dar trabalho. Não cedeu fácil. Sabe aquele programa
na televisão sobre pescaria, onde os peixes fisgados dão
trabalho?
- Valoriza a pesca! - exclamou Marcela - Ninguém põe um
anzolzinho sequer na minha boquinha - queixou-se.
- Deixa de ser tola, Marcela e ouça, retrucou Antônia. Camargo
descobriu o caminho que a Dra. Aline percorria, quando de sua
saída no final do expediente na empresa, e logo tratou de
fingir que o seu automóvel havia enguiçado, pedindo uma carona
salvadora, pois, maquiavélico, disse que ia exatamente na mesma
direção. Aline concordou.
No meio do caminho, o astuto usou de franqueza e contou toda a
verdade; declarou-se rasgadamente.
A moça disse que estava fragilizada por uma relação há pouco
terminada e “balançou” com os argumentos e sinceridade de
Camargo. Porém só ficou aquele clima de adolescentes
colegiais: - Vou pensar e depois vem a resposta, está bem?
proferiu delicadamente, Aline.
Nos dias que se passaram na empresa...
“E-mails” diários secretos, interfone trazido pelo cupido,
sorrisos invisíveis. Usaram e abusaram do “código secreto do
amor”, da sedução.
Antônia, fazendo ares de sabedoria, exclamou:
- Não importa a idade dos casais, dos namorados, quando bate
esta tal de paixão, ou amor, parece os buracos negros do
universo: puxa tudo para dentro de si, até mesmo a luz, a luz
da razão!
A Dra. Aline pediu ao Camargo “deixar baixar um pouco a poeira”,
pois ela precisava concentrar-se num trabalho difícil e muito
importante para a empresa Rossini; ele atendeu contrariado.
Só que, como toda empresa que se preza, lá estava
funcionando o serviço de contra-espionagem feito por
funcionários invejosos e a “caveira” dos dois fora feita
para a digníssima diretora Sônia Rossini.
Pobreza e desejos não dão para esconder.
A mulher “subiu a serra de bicicleta”, tamanha a sua ira.
Mais do que depressa investiu para cima do Camargo, chamando-o
à sua sala.
- Camargo, quero que passe este sábado e domingo em minha
residência em Angra. Já é tempo de tratarmos das novas
estratégias do setor financeiro que você vai assumir em breve,
por sugestão do Dr. Rossini - ordenou Dona Sônia, a
mulher do “manda-chuva”.
- Eu? Assumir o departamento financeiro? - perguntou o atônito
Camargo.
- Sim, não falte - disse ela com ares de pouco caso.
Murmurou com seus botões o mais novo candidato à boa
promoção: "Mas logo neste fim de semana que eu ia sair
pela primeira vez com Aline? E agora?"
Antônia retoma o fio da narrativa:
- Começou assim o que seria a terrível intervenção de Sônia
para atrapalhar a relação de Camargo e Aline.
Ao sair da sala de Sônia, feliz pela provável promoção
e cabisbaixo pelo cancelamento do primeiro encontro, Camargo
dirigiu-se a Aline.
- Dra. Aline -
em tom formal para encobrir o que os outros já sabiam -,
preciso falar-
lhe, estou vindo da diretoria, traga a pasta do processo Aruanã
(era o processo em que a mesma estava trabalhando).
- Sim, Senhor - Aline levantou-se e obedeceu.
Quando estavam próximos um do outro, Camargo foi rápido:
- Aline, não sei como dizer, mas nosso encontro não será
possível. Dona Sônia e seu marido, Dr. Prieto Rossini,
pediram-me para comparecer à residência de veraneio
deles a fim de discutirmos novas estratégias do departamento
financeiro da holding. Levará o fim de semana todo.
Aline frustrada, mostrou-se pressionada; declarou ali mesmo, seu
amor por Camargo:
- Camargo, hoje é sexta-feira, você não vai fazer nada à
noite. “Quebre” seu automóvel mais uma vez no fim do
expediente. Vou levá-lo para casa, entendeu?
Os dois quase não suportaram o impulso de se beijarem ali
mesmo.
Despediram-se como mordomos ingleses, cheios de formalidades.
O relógio foi deveras preguiçoso, lento naquela tarde.
Aline e Camargo não enxergavam mais nada. Seus corações
palpitavam. Seguiram o pequeno plano e logo Aline cumpriu a
promessa, raptou o moço.
Após alguns quarteirões rodados, Aline estacionou seu
automóvel; olhou fixamente para Camargo insinuando-se
pelos olhos; não pediu licença, invadiu toda a alma dele, e
sem falar absolutamente nada, beijou-o.
Camargo tentou balbuciar umas poucas palavras, mas o dedo de
Aline selou sua boca. - Não diga nada - ela disse -, e voltaram
aos beijos.
Começou, ou continuou, ali uma relação que cada vez mais
crescia de desejos e sentimentos de grande atração.
No dia seguinte... Toca a campainha do palacete dos Rossini, era
o Camargo. O tempo muito agradável amenizava a conversa entre
os presentes. Um beija-flor, arqueado, metia o bico num frasco d’água
açucarada na varanda onde estavam todos reunidos.
- Camargo, você já viu o tamanho do bico deste pássaro? -
perguntou Dr. Prieto.
- Sim - respondeu ingenuamente.
E maliciosamente, Dr. Prieto comentou:
- Eu e Sônia adoramos um bico doce. - rindo.
Os anfitriões foram gentis o tempo todo e elogiaram Camargo
pelo seu desempenho na empresa.
Dr. Prieto tornou-se grave, aproximou-se para mais perto
de Camargo e disse:
- Meu rapaz, seu futuro é brilhante nas organizações Rossini.
Você vai comandar o posto de confiança na holding, onde flui o
sangue da empresa: o money!
Sônia tem falado muito de você. Pelo visto ela tem razão. Sem
você saber, fiquei atento em seu desempenho. Por isso sugeri
seu nome. Não nos decepcione em nada, meu rapaz. É só seguir
minhas ordens e instruções de olhos fechados. Eu sei que você
é capaz.
Olhou fundo dando um tempo, aguardava uma confirmação de
Camargo, que logo entendeu a deixa:
- Sim, claro, Dr. Prieto.
Sônia trouxe um champanhe para comemorar a ocasião.
Após o brinde, Dr. Prieto lançou uma desculpa:
- Bem, as diretrizes gerais, estão resolvidas, obviamente
Sônia se encarregará de esmiuçar os detalhes daqui para a
frente. Peço desculpas, mas tenho um compromisso agora - fez
uso de uma sineta.
- Sim, senhor - colocou-se à disposição a
empregada.
- Alzira, por favor, vá chamar o José Carlos, na casa de
hóspedes. Diga-lhe que estou pronto.
Dr. Prieto virou-se para Camargo, justificou-se:
- É o meu personal training.
Antes de ir, projetou-se para Camargo e aconselhou em voz baixa:
- Você ainda não é casado, mas aprenda uma coisa, não dê
mole para as mulheres, senão você tem que dividir tudo que é
seu - deu uma piscadela de canto de olho.
Camargo sorriu amarelo, com a colocação sem graça, sem
sentido aparente.
Estavam somente Sônia e Camargo, quando entrou em cena
outro beija-flor, sobrevoando sobre suas cabeças.
- A Dra. Aline, pelo que fiquei sabendo, está voando e
saboreando um frasco adocicado... - olhando irônica e um pouco
vencida pela bebida.
Camargo corou na hora, derrubando o cálice sobre a mesa.
- A... a Dra. Aline... do jurídico? Como vou saber? -
disfarçou, pois nem sempre é bem vista relação amorosa entre
pessoas que trabalham numa mesma empresa. E, francamente,
Camargo já percebera um ar de ciúme, ou inveja, vindo de
Sônia.
Nestas alturas, Aline fazia “videoteipe” de todos os lances,
movimentos, cheiros, palavras, da noite anterior com Camargo.
Suspirou apaixonada:
- Bem que ele me disse que para um homem encontrar sua
masculinidade, primeiro tem que saber o universo feminino...
Oh! Segunda-feira como já te odiei e agora como te quero! -
finalizou impaciente.
Camargo passou o fim de semana com os Rossini.
Segunda-feira chegou.
O prazer ria nos lábios de Aline e de Camargo.
Almoços de beijos, jantares de beijos, madrugadas amadas...
Semanas e semanas, sempre às escondidas, pois a preocupação
com as carreiras profissionais...
No entanto, o serviço de contra-espionagem estava também
ativo.
A Dra. Sônia, a cada informação recebida, furiosa, era um
vaso que se ia, ou qualquer outro objeto que estivesse à sua
frente...
No restaurante...
- Agora chega! Veja as horas! – Antônia chamou a
atenção de Marcela.
Estavam em cima da hora para iniciar o expediente do período da
tarde na corretora.
Curiosa, Marcela insistiu:
- Antônia, Antônia, segunda-feira, neste mesmo
restaurante a continuação obrigatória dessa história secreta
do Camargo. Que será feito desse triângulo: Camargo, Dra.
Aline e os Rossini?
Levantaram-se e se foram.
Muito estava por vir...
Passou-se o fim de semana.
Antônia e Marcela, novamente, reuniram-se para almoçar.
Implacável e com acesa curiosidade Marcela perguntou:
- Onde paramos mesmo, queridinha? Continue sua narração dos
fatos notáveis da vida do Camarguinho. Ah! Sim, com a Dona
Sônia Rossini quebrando vasos com ciúmes da Dra. Aline...
- Pelo amor de Deus! Vamos primeiro comer alguma coisa –reclamou
Antônia.
- Qual nada. Dá muito bem para fazer as duas coisas –
contra-argumentou a intrépida Marcela.
Antônia, vencida pela insistência da amiga, retomou a
narrativa:
- O Camargo logo foi promovido a nova função na holding, onde
decidia sobre fluxos de grandes somas financeiras.
A Dra. Aline ficou responsável pelo processo Aruanã. Tal
processo consistia na verdade na defesa de autos de infração
de milhões de reais por sonegação de tributos federais pelas
empresas dos Rossini.
Eram constantes as reuniões entre os Rossini, Dra. Aline e
Camargo.
Num desses encontros, Dr. Prieto veio com novidades:
- Amigos, eu e Sônia, estrategicamente, é claro,
estaremos nos retirando da sociedade acionária, nos afastando
completamente; dois “novos convidados” assumirão nossos
lugares, inclusive, os ativos e passivos das empresas.
É de se compreender nossa posição, pois nossas famílias são
tradicionais na sociedade local; não podemos correr um único
risco sequer enquanto não terminar toda essa merda, com o
perdão da palavra.
Dirigindo-se à Dra. Aline, sem cerimônia:
- Promoveremos encontros com você e um importante funcionário
da repartição pública, onde estão os processos. Ele será o
seu mágico que fará sumir tudo. Não poderá haver nenhum
vestígio, nem nos computadores da Receita Federal. Tudo
apagado, sem memória – sorriu com sarcasmo.
Dra. Aline interrompe:
- Mas como o senhor tem tanta certeza de que esse funcionário
vai aceitar o suborno?
Dr. Prieto, convicto:
- Minha cara menina, eu conheço a natureza humana. Estou
informado que ele precisa desse dinheiro, por..., como posso
dizer..., problemas caseiros.
E quanto ao nosso diretor financeiro deverá fazer a engenharia
financeira, para prover tal importância para o acerto final.
Como você fará o desvio do dinheiro, não sei, mas confio na
sua capacidade.
Camargo preocupado para todos.
Sônia, percebendo a inquietação, tenta tranqüilizar.
- Para salvarmos as empresas estamos depositando nossas
esperanças no talento de vocês, meus amores.
Dr. Prieto ardilosamente perguntou:
- Podemos contar com vocês?
Os dois responderam, constrangidos, afirmativamente, quase ao
mesmo tempo.
- Ótimo! Tudo ao seu tempo. Irei sozinho para a Europa
preparar as coisas, pois a temporada parece que vai ser meio
longa. De lá darei as coordenadas. A Sônia permanecerá
ainda mais um tempo, para não chamar atenção. Depois se
encontrará comigo no velho continente. Após tudo isso
acabar, veremos a roupagem que daremos ao nosso
patrimônio. É assim mesmo o mundo dos negócios. Pudores, só
aos poetas –terminou a reunião Dr. Prieto com fisionomia de
vítima.
Nesse meio tempo, Aline e Camargo tornaram pública a relação
amorosa; ficaram noivos.
Semanas depois, Dra. Aline encontrou-se num shopping-center com
o tal funcionário corrupto, onde fez a proposta indecorosa e
aceita pelo mesmo.
Camargo promoveu o “desvio” do numerário para o acerto. E
juntamente com a Dra. Aline foram entregar a quantia em um outro
shopping-center ao Auditor Fiscal da Receita Federal, pois eram
os únicos em que os Rossini confiavam.
Os processos por fim desapareceram para sempre.
Sônia Rossini, longe do marido, radiante, começou uma caçada
infernal a Camargo, que sempre se esquivava, aumentando a
irritação da caçadora.
Um dia, totalmente descontrolada, fez a chantagem:
- Quem você pensa que é, seu pirralho, me esnobando assim?
Muitos homens viriam até mim com um só estalar de dedos meus.
Se você não ceder e deixar sua noivinha eu coloco a público a
fita do filme em que ela aparece como protagonista no suborno.
Eu mandei gravar, seu tolo. Não acredita em mim?
Ela aciona o controle remoto do videocassete e começam a
aparecer imagens e conversas comprometedoras.
- Você acha que nós, os Rossini, iríamos ficar nas mãos dos
pombinhos, numa trama envolvendo milhões? E a parte melhor vem
agora – Sônia fez um pequeno suspense. - Você sabe por que
aquele alto funcionário público, acima de qualquer suspeita,
fez o que fez?
E prosseguiu, sarcástica:
- É simples. Ele tem uma linda filha de dezoito aninhos, que
foi devidamente levada ao "maravilhoso" mundo das
drogas. Ah! Tudo isso segundo os planos do meu marido, é
claro. “Plantamos” amigos, festas, namorados, na
vidinha da mocinha. Quando ela implorava as drogas aos
traficantes e não tinha dinheiro, ficava de cachorrinha em lua
de mel para o grupo todo. Fazia qualquer coisa, “noivinho”-
procurando provocar e amedrontar Camargo. - Tudo filmadinho.
Tudinho. Ô dó, quando o paizinho ganhou uma cópia do filme:
Droga, Sexo e Rock’n roll, foi de doer – ria sem parar
Sônia.
Concluiu:
- E o dinheiro do acerto foi uma ninharia, pois o espírito
empreendedor do Prieto fez com que ele “vendesse” a
operação para muitos outros empresários que estavam na mesma
situação que a nossa. Enchemos o “rabo” de dinheiro,
resolvemos os problemas das nossas empresas com a Receita; o Dr.
Anacleto, o Auditor Fiscal, aceitou a “grana” para pagar o
tratamento da filha viciada e com a nossa “promessa” de
destruirmos a fita...
Camargo desesperado correu para contar a chantagem para Aline.
- E agora, meu amor? Que faremos? – disse Aline, chorando
copiosamente no peito de
Camargo.
Toca o interfone solicitando a presença dos dois na sala
de reunião. Dona Sônia os esperava. Dr. Prieto, via fone,
queria fazer uma conferência. Era o inferno astral.
- Eles já estão aqui. Já sabem das novidades – adiantou-se
Dona Sônia, com ar de vencedora.
Dr. Prieto pausadamente impõe seu ritmo à reunião.
- Queridos, ouçam bem! Não estou com saudade alguma do Brasil,
e, com todo respeito, nem de vocês –dona Sônia sorri
pensando em se tratar, obviamente, dos outros dois.
- Deixo às claras a situação atual.
Primeiro, os processos que iriam nos levar à bancarrota
desapareceram, pela boa atuação da Dra. Aline e do Camargo.
Segundo, no futuro, Dra. Aline, nada poderá nos acusar,
pois eu e a Sônia temos a gravação em fita que registra a sua
participação na corrupção do Dr. Anacleto. Não preciso nem
dizer que os documentos que acompanham a fita são de processos
de outras empresas, não as nossas. E mais, Dra. Aline, você
não possui nem mais as chaves de sua mesa de trabalho, nem mais
acesso a qualquer tipo de documentos nas empresas. Você está
despedida. Aposto que você não teve o cuidado de duplicar
nenhum documento daqueles que foram destruídos. A propósito, a
última parcela dos meus ganhos nesse bom negócio, mandei
depositar em sua conta. O cheque é de umas das empresas
beneficiadas pelo esquema. Vai ficar ruim para você comprovar
que não tinha nada a ver, não é mesmo, advogada? Pode ficar
com o dinheiro, é um presente pelo seu bom desempenho.
Terceiro, temos como incriminar o Camargo pelo desvio no caixa
das empresas. Com um perfil desse, o casal de noivos pode ser
confundido como adepto do estilo mafioso profissional.
Quarto, deixei para o final, a minha vingança prazerosa: o
patrimônio das empresas foi transferido pelos novos sócios das
empresas, cujo resultado já está em conta numerada na Suíça,
que só eu sei, evidentemente.
Sônia, troquei você pelo José Carlos, meu personal training
predileto. Estamos curtindo maravilhosamente. Não quero saber
de ver sua fisionomia engomada nunca mais.
Camargo, lembra-se do que lhe disse em minha casa, quer dizer
ex-casa, em Angra? “...Não dê mole para as mulheres,
se não você tem que dividir tudo que é seu”.
Para obter prazer sexual tem que dividir o patrimônio? Assim é
demais. É melhor ter um personal training à mão; é mais
barato.
Tchauzinho – Dr. Prieto desligou secamente.
Marcela, ouvindo tudo aquilo de Antônia no restaurante, ficou
louca. Não se preocupava mais com o horário. Queria saber o
que fez Dona Sônia.
Antônia precisou completar a
narrativa.
- Aquele maquiavélico do Prieto me traiu. Eu vou matá-lo, ah!
Se vou – gritou, colérica, Sônia.
E, vingativa, desferiu o golpe em Aline e Camargo.
- Quanto a vocês, meus pombinhos, se eu descobrir que esse
noivado, namoro, encontro, ou qualquer porcaria dessas,
continua, vocês estão liquidados...
Acabou ali o sonho de um amor. Separaram-se definitivamente. Foi
a maneira deles de demonstrarem o amor e o bem-querer de um pelo
outro. Aline retirou de sua conta bancária a importância
fraudulenta e doou anonimamente a uma instituição
filantrópica.
Marcela, boquiaberta com a narração de Antônia, ficou sem
ação.
- Coitadinho do Camarguinho, agora sei da tristeza daqueles
olhos...
Antônia e Marcela pediram a conta, e se foram do
restaurante.
No mundo dos homens tudo parecia agitado; do “outro lado da
vida” havia também muitos acontecimentos.
- Camargo, ouça-me! A voz telepática já conhecida do irmão
Williams havia retornado.
O paciente atendeu, agora com naturalidade.
- Vamos passear um pouco. Quero que veja cenas bem reais.
Algumas pessoas...
Não se preocupe com o seu corpo material. Ele está sendo bem
cuidado. Há irmãos do além ajudando os médicos da Terra. Eu
reafirmo, ainda não é a sua hora de deixar este plano
terrestre.
Chegou o momento de seu crescimento. Vai entender melhor daqui a
pouco...
Não ouviu falar que a vida é uma escola? Então vamos à
aula – ordenou irmão Williams.
Camargo, como ainda estava preso ao “modus vivendi” da vida
na matéria, tinha dificuldade em locomover-se como espírito.
Começou a flutuar acima dos telhados, com medo de cair a
qualquer momento, ou chocar-se com a rede elétrica.
- Os anjos não têm asas – brincou irmão Williams -
logo irá acostumar-se.
Em seguida depararam-se com um tipo bizarro, numa praça
pública.
Um homem tremendamente fétido, sujo, maltrapilho e
embriagado. Chamava atenção também por ostentar um
orgulho
absurdo.
Vestia uma roupa que um dia fora farda de guarda-noturno; em seu
quepe surrado ostentava uma estrela metalizada com um caco de
vidro vermelho ao centro, como se fosse algo de valor. Calças
rasgadas deixavam as nádegas à mostra.
Aquele homem blasfemava as maiores ofensas contra Deus.
As crianças ao seu redor jogavam-lhe pedras e riam.
Os olhos de Camargo não podiam acreditar no que via: centenas e
centenas de pessoas não carnais transfiguradas assediando as
crianças para incomodar aquele farrapo humano. Muitos desses
verdadeiros obsessores se agarravam principalmente em seu
opositor causando tremendas vibrações negativas de ódio e
vingança. Amontoavam-se uns sobre os outros; pontos pretos como
o carvão, por todo o corpo do “coitado”. E para piorar, as
hemorróidas do pobre homem totalmente à mostra – como nunca
visto - repletas de sangue e moscas. Tossia cuspindo placas de
sangue. Terríveis e constantes sofrimentos tanto no plano
espiritual como no material invadiam-no completamente.
Camargo num impulso implorou por misericórdia.
- Por quê? O que este homem pode ter feito para sofrer tanto
assim? Temos que fazer algo, disse quase em prantos.
- Sim! Temos. Por isso estamos aqui – replicou irmão Williams
- Eu quero que veja bem este irmãozinho; veja seu sofrimento;
seu orgulho ostentando aquele quepe com o vidro vermelho sobre a
estrela de lata. E, ainda, atente bem para aquele menino mais
revoltado que está comandando os demais para
apedrejarem o infeliz. Olhe bem nos olhos deles (para Camargo
pareciam todos familiares).
Enquanto isso a cena grotesca continuava.
- Vocês não sabem quem sou eu! Seus pestes! Filhos de uma
égua...! Vou matar a todos! Cabras do Satanás! Eu sou a
autoridade máxima, o rei... - vociferava alucinado o que
restava do que fora um dia um guarda-noturno, enquanto quase
todos ao redor se divertiam. Pedras, paus, água suja e
palavrões convergiam na direção do desventurado.
Irmão Williams e Camargo ficaram atentos ao desenvolvimento
daquelas cenas:
- Esta praça é minha! Saiam daqui! Este é meu reino! –
gritava quase sem voz o demente e a meninada caía em
gargalhadas, fazendo-o de bobo.
Sentados num banco da praça, esperando o tempo da vida passar,
dois senhores observavam e comentavam entre si:
- Giuseppe, você lembra quando esse “disgraciatto”
foi contratado pela vizinhança para tomar conta desta praça?
Já não lembro mais.
- “Porco cani”! Nicola, sua memória tá uma droga!
Foi em setenta e quatro, depois da Copa do Mundo de Futebol
disputada na Germânia – respondeu de um jeito grosseiro, mas
assim é que se tratavam “carinhosamente”. Este “filho de
mãe solteira” deve ser nordestino. Eta raça. Não sei o que
eles vêm fazer em São Paulo?
(Nitidamente preconceituosos esqueciam-se que eles próprios
eram filhos de imigrantes que deixaram suas origens, também
para buscarem uma vida nova, oportunidades outras. Todos foram
importantes e contribuíram para a formação e construção do
destino da cidade escolhida.)
Giuseppe prolongou-se:
- A única coisa que esse “maledetto” fez de bom foi andar
matando os ladrões do bairro. Por isso, a polícia o deixa em
paz. É a recompensa de ter feito o trabalho sujo – finalizou.
Verificou-se assim que, com o passar do tempo, as bebedeiras, a
participação em mortes brutais, a falência sócio-econômica,
as perseguições espirituais, tornaram o dia-a-dia daquele
homem, o ex-guarda-noturno, um verdadeiro inferno.
O comerciante, Sr. Suleyman, de origem turca, na porta do seu
estabelecimento de tecidos, se deliciava com aquela brutalidade
toda, pois odiava também aquele mendigo metido a dono da
praça. Era um rancor gratuito, nem ele sabia a verdadeira
razão. Planejava encharcar o desafeto com álcool e tocar fogo
na primeira oportunidade. - Vai arder como uma mecha humana -
dizia baixinho para si mesmo, todo feliz.
Disse calmamente irmão Williams:
- Há também a serem considerados a sua ex-noiva, Aline, e os
implacáveis rivais, Sônia e seu marido Prieto
Rossini.
Camargo, boquiaberto pela familiaridade que irmão Williams
demonstrava, ouviu ainda:
- Tenho a dizer algo de suma importância neste momento, meu bom
irmão Camargo. Que fique gravado em seu espírito. Preste
atenção. É a mensagem da Bíblia Sagrada, Livro de Jó,
capítulo 17:
“O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão
apagando, e só tenho perante mim a sepultura.
Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam
as suas provocações.
Promete agora, e dá-me um fiador para contigo; quem há
que me dê a mão?
Porque aos seus corações encobriste o entendimento, por
isso não os exaltarás.
O que denuncia os seus amigos, a fim de serem despojados,
também os olhos de seus filhos desfalecerão.
Porém a mim me pôs por um provérbio dos povos, de modo
que me tornei uma abominação para eles.
Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já
todos os meus membros são como a sombra.
Os retos pasmarão disto, e o inocente se levantará
contra o hipócrita.
E o justo seguirá o seu caminho firmemente, e o puro de
mãos irá crescendo em força.
Mas, na verdade, tornai todos vós e vinde; porque sábio
nenhum acharei entre vós.
Os meus dias passaram, e malograram os meus propósitos,
as aspirações do meu coração.
Trocaram a noite em dia; a luz está perto do fim, por
causa das trevas.
Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas
estenderei a minha cama.
À corrupção clamo: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós
sois minha mãe e minha irmã.
Onde, pois, estaria agora a minha esperança? Sim, a minha
esperança, quem a poderá ver?
As barras da sepultura descerão quando juntamente no pó
teremos descanso.”
(Jô:17:1 a 16)
Um silêncio zumbiu nos ouvidos de Camargo. Continuou na mesma
paz e serenidade o irmão Williams:
- Você refletiu, noutro dia, sobre o Canto do Silêncio, não
é mesmo Camargo? Enquanto tudo está acontecendo muitos
não percebem. Estão presos demais ao que registram os
aparelhos de metal...
O seu corpo em coma, no leito do hospital, no entanto você
está aqui passando por tudo isso; por nossa vez, vamos
ouvir o Canto do Silêncio dessa pobre alma atribulada em
insânias, e das outras também, aferroadas pelas almas
vingativas – e dirigiu seu olhar complacente ao cenário
bárbaro na praça pública.
Irmão Williams começou a orar fervorosamente e do nada
aparente criou-se um portal fluídico. Adentraram
instantaneamente somente suas mentes – Camargo, admirado
e atento, seguia seu anjo.
CONTINUA
CAPÍTULO II/III
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