Castro Alves, o Poeta Lírico
Engajado
Fernando
Mariani CIM 194.222
Introdução:
Este ensaio
terá por objetivo geral tecer considerações sobre a forma e o conteúdo da
poesia de Castro Alves. Dar-se-á preferência ao destaque de aspectos, de tudo
quanto se refere, com maior freqüência, ao talento do Poeta e a sua poesia do
jeito mais concreto possível. De sorte que, ao considerar as reais circunstâncias
em que o Poeta viveu, o leitor, por meio de exemplos selecionados, terá condições
de avaliar a contribuição do mesmo tanto para a literatura como para o
desenvolvimento da cultura do povo brasileiro.
Como
objetivos específicos, será, em primeiro lugar, chamar a atenção do leitor
sobre as características peculiares do estilo do Poeta e as particularidades
que são comuns ao movimento literário em que ele se inseriu. Em seguida, será
exposta a qualidade de suas mensagens sociais, reveladas através de sua arte e
dirigidas ao bem comum. Por fim,
divulgar-se-á a repercussão de sua obra no seio da população, da crítica e
de pessoas de notável saber.
Atingir esses
objetivos justificar-se-á pela necessidade de confirmar a identidade entre a
filosofia subjacente adotada pelo autor e consentânea com ocorrências tais
como: a Revolução Francesa de 1 789; a produção literária de Victor Hugo,
promotor do movimento romântico iniciado na França; e a produção humanista
de Castro Alves, inserida neste mesmo movimento. Além disso, deixar patente que
a produção intelectual solidária com as causas destinadas ao desenvolvimento
da sociedade e ao aperfeiçoamento do homem, necessariamente, não recairá no nível
panfletário no sentido pejorativo do termo, nem tampouco deslustra o talento de
seu autor. Pelo contrário, como se demonstrará, o talento empregado no
esclarecimento e conscientização da necessidade de solucionar pacificamente os
conflitos sociais é reconhecido como um facilitador de inestimável valor e
realçado por sua utilidade. Sobretudo, quando o acirramento de conflitos está
a comprometer a paz social ou impedir o aprimoramento da cultura de um povo. E,
por via de conseqüência, o momento histórico exige uma atitude ética humanitária
oposta à acomodação e, uma tomada de posição da intelectualidade.
Sua
finalidade, portanto, será a de oferecer aos interessados no tema um roteiro a
percorrer, isento de qualquer pretensão à originalidade ou ao esgotamento da
matéria para, na condição de leitor acompanhá-lo antes de confirmar, ou não,
o acerto das conclusões apresentadas. Em caso afirmativo, poderá tomar o
exemplo do Poeta como modelo para suas próprias ações como pessoa, quer seja
como intelectual participativo, escritor, ou como cidadão. Em caso negativo,
expor ou discutir razões ou dúvidas para interagir no aperfeiçoamento mútuo
dos coletivos sociais a que pertençam em busca da verdade e de melhores opções
com vista a uma participação social mais efetiva.
O método de
trabalho seguirá os princípios da hermenêutica no que for cabível. Ele se
desenvolverá fundamentado na leitura atenta das poesias de Castro Alves, de sua
biografia, da crítica literária e das circunstâncias históricas em que o
Poeta viveu. Em seguida, serão escolhidos os trechos de sua obra que podem
exemplificar os aspectos relevantes para se atingir os objetivos propostos. E,
por último, apresentar o resultado das pesquisas.
A apresentação
constará, além desta introdução, de um desenvolvimento e de uma conclusão.
Fará parte
do desenvolvimento a análise dos aspectos extrínsecos ou externos associados
à obra do Poeta, dos aspectos intrínsecos ou internos de sua produção literária,
de uma interpretação dos dados e de uma avaliação crítica.
Constará dos
aspectos externos uma visão resumida sobre a pessoa do Poeta, de sua obra, de
sua fortuna crítica e de sua época.
Os aspectos
internos consistirão de trechos escolhidos e de uma poesia completa seguidos
dos esclarecimentos necessários. Estes darão a entender os diversos
condicionantes observados pelo Poeta, no decurso de uma produção
tradicionalmente literária. Esse conjunto de condicionantes embeleza e impregna
de emoção uma mensagem quer seja lírica, social ou ambas. Esta parte será
dividida em uma ambientação geral, a análise de uma poesia completa, para
esmiuçar os diversos componentes formais, e pôr em destaques os recursos
empregados na transmissão dos conteúdos eminentemente sociais.
Demais
observações farão parte da interpretação dos dados. Por último,
apresentar-se-á uma conclusão e a bibliografia consultada para o devido
aprofundamento de achados.
Antônio de
Castro Alves nasceu na manhã de 14 de março de 1847, na fazenda Cabaceiras, na
então freguesia de Muritiba, comarca de Cachoeira, próximo a uma vila
denominada Curralinho, hoje cidade de Castro Alves - Bahia. Seus pais foram o médico
Antônio José Alves e D. Clélia Brasília da Silva Castro. A mucama Leopoldina
encarregou-se de cuidar do menino em seus primeiros anos de vida, a quem, mais
tarde, considerou-a mãe de criação. Entre 1852 e 53, muda-se para Muritiba e
depois S. Felix, às margens do rio Paraguaçu quando aprende as primeiras
letras com o professor primário José Peixoto da Silva. Em 1854, iniciou os
estudos na capital baiana, onde foi colega de Rui Barbosa. Em 9 de setembro de
1860, recita suas primeiras poesias no “outeiro” do Ginásio Baiano. Aos
dezesseis anos transferiu-se para o Recife a fim de prosseguir em seus estudos.
Matriculado no Curso Jurídico em 1864, foi condiscípulo de Tobias Barreto,
ocasião em que já se revelava por seus dotes poéticos. Em 1862, escrevera o
poema "A Destruição de Jerusalém" e em 1863 "Pesadelo",
"Meu Segredo", e outros.
Em meio aos
vinte anos, o poeta apaixona-se por Eugênia Câmara, atriz portuguesa e musa
que serviu de estímulo a sua carreira literária. Vai com ela para a Bahia e no
ano seguinte segue para São Paulo, onde seria, de novo, colega de Rui Barbosa.
Ele pretendia concluir o bacharelato em São Paulo, porém, não chegou a se
formar. Em São Paulo, nos fins de 1868, feriu-se no pé esquerdo com um tiro
acidental de espingarda, que veio a culminar com a amputação do pé. Em
seguida, a tuberculose pulmonar contraída há algum tempo se agrava e sucumbe
no dia seis de julho de 1871, em Salvador, aos vinte e quatro anos de idade.
Antes disso, 1870, publicou um livro intitulado "Espumas Flutuantes".
Sua
movimentada vida amorosa inspirou-lhe arrebatados poemas românticos. Também, pôs
seu talento ao serviço das causas sociais de sua época, principalmente na
questão da escravidão no Brasil. Foi um discípulo de Victor Hugo a quem
chamava "mestre do mundo, sol da eternidade".
Além de
"Espumas Flutuantes", publicada em 1870, que reúne 53 poesias,
postumamente publicou-se “Os Escravos” com 35 poesias e ‘A Cachoeira de
Paulo Afonso’ com mais 33 poesias. Essas poesias, o próprio Poeta além de
autor as declamou em público nas ocasiões propícias em inúmeras
oportunidades. Em 1960 publicou-se sua Obra Completa, enriquecida de peças que
não figuram nas Obras Completas de Castro Alves, editadas anteriormente.
1.1.2 –
Fortuna crítica de Castro Alves
Castro Alves
é considerado poeta romântico. Além disso, também é reconhecido como lírico,
social, republicano e patriótico. Distinguiu-se, sobretudo pelo seu engajamento
na causa abolicionista. Ao poetar sobre a escravidão, inflamava-se eloqüentemente,
chegando a caracterizar-se pelo arrojo das metáforas, pelo atrevimento das apóstrofes,
pelas idéias do infinito, amplidão e pelo vôo da imaginação. Motivo pelo
qual Capistrano de Abreu o intitulou "condoreiro", comparando sua
poesia ao vôo de um condor.
Em 1935, a
Academia Brasileira de Letras realizou uma pesquisa para encontrar o verso mais
apreciado de um poeta brasileiro. A finalidade era pô-lo em destaque em uma de
suas dependências. O verso escolhido foi: “Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,...”. O autor: Castro Alves.
Simbolicamente, Castro Alves, titular da cadeira número sete, também entrou na
Academia Brasileira de Letras por concurso, através de uma ínfima parte de sua
obra que efetivamente é imortal.
Não são
poucos, contudo, os que ainda concordam com Cândido de Oliveira: “Castro
Alves é o maior dos poetas brasileiros... apresentam-no, unanimemente os críticos.
Sua poesia é única e absoluta em tudo quanto se há produzido em nossa
Literatura. Não foi cantor do seu tempo, mas o tem sido para todos os tempos,
como afirmação do amadurecimento estético em nossas letras. Ele sentiu a
terra e os seus problemas, não perifericamente para exaltar sentimentalismo
passageiro, mas viveu profundamente a alma nacional e a evocou em momentos
decisivos, incitando os homens a realizações mais humanas. Sua poesia deve ser
estudada em duplo aspecto: o social e o lírico”.
As referências
do professor supracitado constam de uma de suas obras, Súmulas de Literatura Brasileira, em sua 12ª edição. De 1964,
ano da aquisição de um exemplar, até os nossos dias, verifica-se o surgimento
de opiniões ambivalentes e até discordantes. Neste ensaio, cuja definição de
Houaiss se segue, “prosa livre que versa sobre tema
específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas
que as de um tratado formal, feito em profundidade”, ainda que de modo
sucinto, cabe citá-las:
Afrânio Peixoto:
“No Brasil não quis ser
grego, latino, francês ou lusitano - foi brasileiro.”
Amadeu Amaral:
“Não foi
apenas um poeta, na acepção literária do vocábulo. Foi um apóstolo, um
propagandista, um lutador, ciente e consciente dos frutos bons e dos frutos
amargos de sua semeadura. Ele foi o querido da mocidade e do povo, o mais amado,
o mais admirado, o mais fascinador, o mais compreendido dos nossos poetas.”
Antônio Nobre:
“O maior poeta brasileiro.”
Artur Mota
“Possui a
obra do artista todas as cambiantes, desde o lirismo terno e suave aos hinos
cantados à Natureza, do amor subjetivo e sublime aos inspirados arroubos épicos
do poeta social e humanitário. A sua lira chora a desgraça dos aflitos e a
triste sorte dos necessitados e vibra sonora quando canta os sentimentos da alma
e descreve as cenas da natureza tropical do Brasil”.
Carlos Ferreira
“Castro
Alves, apareceu no peristilo da vida, disse Mucio Teixeira, já coroado com as
rosas do amor e os louros da glória. Lançou-se a cantar, pela estrada perigosa
da existência sem ver os espinhos (que o deveriam ferir profundamente, bem
cedo), ocultos sob a maciez enervante das flores que lhe eram atiradas com
prodigalidade, quer quando ele iluminava as colunas da imprensa nacional com as
fulgurações do seu estro, quer quando eletrizava os auditórios, – ao poder
maravilhoso de seu verbo de orador fluente e vibrante, sonoro e largo”.
Eça de Queirós:
“Nele está
em dois versos toda a poesia dos trópicos”. Eça de Queirós se refere a
estes dois versos de “Aves de Arribação”:
“Às vezes, quando o sol nas
matas virgens
A fogueira das tardes acendia,”
Ferreira Viana
“Apóstolo da República e o
cantor da liberdade”.
Guilherme Figueiredo:
“Castro Alves é a primeira e
a mais pura expressão da poesia brasileira.”
Joaquim Nabuco:
“... A
maior glória do jovem poeta é a de ter posto sua inspiração a serviço da
liberdade e, em particular, a emancipação dos escravos. (...) Inspiração
ardente, possuindo o segredo do movimento e da ação no verso; talento
transportado pelas nobres idéias, pairando sempre em regiões elevadas e
odiando a vulgaridade, Castro Alves remiu por grandes qualidades seus grandes
defeitos. O que a mocidade deve imitar nele não é o ‘culto à hipérbole’;
é sim, a elevação constante de seu pensamento, a concisão nervosa de sua
estrofe, o seu amor à liberdade e, os que puderem alcançar tão alto! a forma
de sua inspiração. (Vimo-nos durante um ano quase dia por dia e nunca o vi dar
um momento de atenção à realidade da vida nem às ambições da
mocidade...)”
________
“Vestido de
preto para dar à fisionomia um reflexo de tristeza, com a fronte contraída
como se o pensamento o oprimisse, com os olhos que ele tinha profundos e
luminosos fixos em um ponto do espaço, com os lábios ligeiramente contraídos
de desdém, descerrados por um sorriso de triunfo, reconheceria logo o homem que
ele era: uma inteligência aberta às nobres idéias, um coração ferido que
procurava esquecer-se na vertigem da glória”.
José Lins do Rego:
“O que
existiu em Castro Alves foi mesmo aquilo que ele chamou de ‘borbulhar do gênio’.
E foi, assim, a força de sua mocidade possuída de uma febre poética que, se não
chegou a uma poderosa realização, fez o bastante para marcar um lugar certo na
literatura do Continente.”
Manuel Bandeira:
“O único
autêntico condor nesses Andes bombásticos da poesia brasileira foi Castro
Alves; criança verdadeiramente sublime, cuja glória se revigora nos dias de
hoje pela intenção social que pôs na sua obra. Em Castro Alves cumpre
distinguir o lírico amoroso que se exprimia quase sempre sem ênfase e às
vezes com exemplar simplicidade, como no formoso quadro de ‘Adormecida’, do
épico social desmedindo-se em violentas antíteses, em retumbantes onomatopéias.
A este último aspecto há que levar em conta a intenção pragmática dos seus
cantos, feitos para serem declamados em praça pública, em teatros ou grandes
salas, verdadeiros discursos de poeta-tribuno. E há que reconhecer nele,
malgrado os excessos e o mau gosto, a maior força verbal e a inspiração mais
poderosa de toda a poesia brasileira.”
Mário de Andrade:
“...
‘Boa Noite’, ‘O Adeus de Teresa’, ‘O Tonel das Danaides’, ‘Os
Anjos da Meia- Noite’ são provas decisivas de uma mudança profunda na concepção
temática do amor na poesia do Brasil.”
Pablo Neruda:
“Castro
Alves del Brasil, hoy que tu libro puro vuelve a nacer en la terra libre, dejame
a mi, poeta de nuestra nobre America, coronar tu cabeza con el laurel del pueblo.
Tu voz se unió a la eterna y alta voz de los hombres. Cantaste bien. Cantaste
como debe cantarse.”
Ronald de Carvalho:
“Castro
Alves não é só uma das grandes vozes da nacionalidade brasileira, senão também
uma das maiores da civilização americana.”
Ruy Barbosa
“Que não
cantou ele, e que não cantou como poeta, desde os primeiros ensaios do seu gênio?
Dir-se-ia que a sua musa roçara os lábios no mel de todas as doçuras e na essência
amarga de todas as agonias do nosso destino passageiro pela face da criação;
que por asas escolhera dois raios amorosos do sol, para afagar todas as
harmonias do universo, e, como épico do céu e do inferno na extrema visão do
empíreo, molhara as pálpebras no rio de luz em que Dante umedeceu os olhos
para a contemplação da suprema beleza”.
______
“Na graça
e na cólera os seus versos lampejam freqüentemente com alguma coisa de Ésquilo
e Dante; com Shakespeare, o grande mergulhador do coração humano, creríamos
que foi buscar alguma vez para a sua obra pérolas e monstros desse pego; e
compete não raro com Hugo, na magnificência oriental do colorido”.
Silvio Rangel de Castro
“Não houve
no Brasil quem não quisesse e não amasse o poeta. Era imensa a sua
popularidade. As estrofes atrevidas, as hipérboles ousadas, as imagens
brilhantes e raras, a força e a majestade do verbalismo, o vigor e a elevação
do pensamento, a exuberância e a riqueza da imaginação, a funda e intensa emoção,
a eloqüência da sua poesia impressionaram, vivamente, o país inteiro”.
Xavier Marques
“Multidões
entusiasmadas aclamavam-no apenas lhe divisavam a bela cabeça. Todos queriam
aplaudi-lo, todos vê-lo; disputavam-se lugares. Ao cabo de cada estrofe o ar
estrondava com o barulho das manifestações, davam-lhe vivas subiam à tribuna,
abraçavam-no”.
_____
“Essa obra
social de Castro Alves, obra de vidente, missionário, demolidor, reformador,
com o seu duplo aspecto nacional e humano, é única na literatura brasileira,
como sem par ficou até hoje na essência e na forma, desalinhada muita vez e
abundante em impressões literárias, a sua poesia pessoal. Tivemos em verdade,
antes e depois dele, poetas mais filosóficos, poetas mais pensadores, poetas
mais artistas, poetas mais fantasistas; comparável a ele, nenhum até hoje”.
Agripino Grieco:
“Castro Alves não foi um
homem: foi uma convulsão da natureza.” ·Alexei Bueno:
“Com a
horda de imitadores medíocres, que assimilaram as suas extravagâncias verbais,
mas quase sempre desastradamente, criou-se obstinada atmosfera de idéias
preconcebidas em torno de Castro Alves ou do que ele representa a essa luz, como
um desencadeador de harmonias bárbaras, que parece irredutível à observação
desapaixonada. Alude-se repentinamente às suas estrofes hiperbólicas e, por
isso mesmo, nunca será demais recordar as que se distinguem pela finura ou
delicadeza de seus timbres.”
Carlos Drummond de Andrade:
“...Mas amo
também em Castro Alves o grande poeta que ele poderia ter sido, completamente
diverso do grande poeta que apesar de tudo conseguiu ser. Essa idealização de
um outro poeta, eu a faço diante de versos como aquele ‘o vento do passado em
mim suspira’, do poema ‘A Luís’ ou aquele ‘desce a tarde no carro
vaporoso...’, das ‘Horas de Saudade’. Versos que estão perdidos na
torrente verbal e anunciam o artista não já escravizado ao assunto, mas
dominando-o pela magia da expressão.”
1.1.3 – Época
O
movimento romântico, ao surgir no início do século XIX, em França, passa
também a influenciar os escritores no Brasil. Castro Alves não foi exceção.
Iluminado, sobretudo por Vítor Hugo, o principal representante do romantismo,
toma-o por guia. Razão pela qual, segue-se uma breve referência sobre seu
mentor.
Vítor
Marie Hugo (1802-1885) foi romancista, teatrólogo, ativista político e o maior
poeta romântico francês. Considerado o principal mentor do romantismo,
influencia toda a literatura ocidental. Escreve seu primeiro romance Bug-Jargal
(1826), sobre uma revolta de negros em São Domingos, aos 18 anos, embora só
o publique aos 24. Com Odes et poésies diverses estréia
em 1822. Essa obra vale-lhe uma pensão de Luís
XVIII. Com sua primeira peça teatral, projeta-se no cenário da
literatura como o líder do movimento romântico. Com ela, propõem o abandono
das três unidades dramáticas, a mistura dos gêneros e a coexistência do
sublime com o grotesco. Como político, evolui da postura conservadora e
monarquista para o liberalismo reformista e os ideais revolucionários. Mais
tarde, ao tornar-se republicano, passa a combater Napoleão
III.
O
movimento romântico liderado por Vítor Hugo caracterizava-se, em linhas
gerais, pelo abandono das regras da composição e estilo dos autores clássicos.
Inspira-se no individualismo burguês, no lirismo e, acima da razão, faz
prevalecer a sensibilidade e a imaginação. De
um modo geral, o espírito romântico caracteriza-se pela livre expressão da
subjetividade do escritor. Suas experiências com a realidade objetiva, ele as
expõe em conformidade com sua ótica individual. Releva sua atitude pessoal,
seu estado de alma como um reflexo sensível dessa realidade exterior. O
romantismo, nessa acepção, pode inclusive ser entendido como a plena liberdade
de expressão intelectual e emocional do escritor.
O
escritor romântico busca também a expressão interior de um mundo em constante
transformação. Ele quer que a experiência do sentimento de liberdade, por
exemplo, seja de fato despertado e experimentado pelo ser humano. A concretização
desse ideal literário vem a ser um dos responsáveis pela propagação do
sentimento revolucionário, que ligado aos movimentos democráticos e libertários
varreram o século XIX. Esse sonho por um mundo livre e a possibilidade de
aperfeiçoar a realidade social também aproxima o escritor da natureza em
geral.
As características acima
referidas do Movimento Romântico são bem exemplificadas nos trabalhos de
Castro Alves. “Espumas Flutuantes”, seu único trabalho publicado em vida, bem
caracteriza o lirismo romântico. “Os
Escravos”, por sua vez, sem deixar de ser lírico, caracteriza outra
faceta do romantismo, qual seja, a sua mensagem no rumo de seu idealismo social.
“A Cachoeira de Paulo Afonso” pode
ser considerado, para os efeitos colimados, uma continuação de “Os Escravos”. O mesmo mestre influenciou ambas as obras. No
entanto, cabe ressaltar que Castro Alves, ao longo de toda sua obra, por suas
características próprias, diferenciou-se de todos os que lhe antecederam como
será visto adiante.
Castro Alves inserido no
movimento romântico despertou admiração e crítica. No entanto, uma avaliação
séria de sua obra não pode deixar de lado dois fatores: as características
gerais do movimento romântico de um lado e, de outro, as controvérsias em
torno do bom gosto. Como será visto adiante, as características do movimento
romântico, já referidas estão presentes ao longo de “Espumas Flutuantes”.
Às controvérsias, deve-se levar em conta as particularidades do momento histórico,
ou seja, às circunstâncias vividas pelo Poeta no momento da criação.
Castro
Alves, portanto, viveu em uma época em que os limites na expressão do “bom
gosto” não estavam amadurecidos ou definidos. As restrições que alguns
fazem a sua obra poderiam, portanto, ser creditadas a essa ausência de consenso
entre os próprios escritores de sua época. Nada impedia que Castro Alves, no
direito de sua livre expressão ou criação, se fizesse notar por um tipo de
poesia um tanto diferente de seus antecessores, mormente no labor dos temas
sociais. Na seqüência, ver-se-á, inicialmente, trechos de poesia
burguesa bem comportada. Elas
seguem todos os cânones da poesia tradicional. Em seguida, outras poesias de
Castro Alves, sujeito às críticas pelas razões a serem expostas.
1.2 - Aspectos Intrínsecos ou
Internos
1.2.0 – Generalidades:
Para
uma introdução ao trabalho de Castro Alves, apresentar-se-á um trecho de seu
poema, “O Livro e a América”, que
faz parte da obra antes aludida “Espumas Flutuantes”.
Em seguida, os comentários pertinentes. Objetivo: iniciar o leitor na
terminologia poética.
“..........................
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O séc’lo que viu Colombo,
Viu Gutemberg também.
Quando o tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
“Por
isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto –
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.”
Vós,
que o templo das idéias
Largo – abris às multidões,
P’ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre ao cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse “rei dos ventos”
– Ginete dos pensamentos,
– Arauto da grande luz!
Bravo!
a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada “Luz!” o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! Pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
...........”
O trecho
acima facilita a ilustração de múltiplos aspectos que permeiam a obra literária
de Castro Alves. Em sua totalidade, esse poema constitui-se de dez estâncias ou
estrofes. Dentre elas, selecionou-se as quatro últimas, em seqüência.
Suficientes para destacar algumas características gerais.
- Cada estância compõe-se de dez versos. Por isso
mesmo também denominada décima. Cada décima, como se pode notar, compõe-se
de uma quadra e uma sextilha de versos heptassílabos. Note-se que do
primeiro ao quarto verso de cada estância, forma-se um sentido completo: é
a quadra. Na primeira acima apresentada, começa com a palavra Por
e termina com a palavra também,
que rima com além.
- Para formar a estância, adiciona-se a cada quadra
uma sextilha. Esta se constitui dos seis últimos versos. A sextilha,
interligada com a quadra, completa o sentido da estância. Seguindo o mesmo
exemplo, ela tem início com a palavra Quando
e termina com a palavra achou
que rima com gerou. Como é
evidente, ocorre também à rima de mares
com palmares.
- Todos os versos são heptassílabos, isto é:
possuem sete sílabas, o que é curial. No entanto, a sílaba gramatical nem
sempre coincide com a sílaba poética. Nesta, por exemplo, quando ocorre um
encontro vocálico, as vogais vizinhas podem ser lidas ora juntas, ora
separadas uma da outra. Igualmente, outra diferença corresponde à contagem
das sílabas. Pois, a última sílaba do verso é a sua última sílaba tônica.
Os versos heptassílabos são denominados redondilha maior em contraposição
ao de cinco sílabas, chamados de redondilha menor.
A redondilha
maior utilizada em “O Livro e a América”
é o tipo de verso considerado mais popular. Não só por ser o mais empregado,
mas também por ser aquele cujas regras de acentuação apresentam-se como as
mais fáceis de se seguir. A última sílaba quando acentuada libera todas as
demais: estas podem cair em qualquer posição. Daí sua larga preferência em
canções populares. Desde as canções medievais portuguesas até o samba
carioca, redigido com bom gosto, dela se utilizaram. Isso não significa que a
redondilha maior mereceu desprezo dos autores clássicos de todas as épocas.
Pelo contrário, dela souberam tirar os maiores proveitos quando o desejaram.
Eis aí um
pequeno exemplo de seu emprego por Camões:
“Os
privilégios que os reis
Não
podem dar, pode Amor
Que
faz qualquer amador
Livre
das humanas leis.”
Nessa pequena
ilustração de Camões, os acentos recaem ora na quarta e na sétima sílabas;
ora na segunda, na quarta e na sétima; ora na primeira, na quinta e na sétima.
Segue-se
outro pequeno exemplo do já clássico “Samba
de uma nota só” de Antônio Carlos Jobim:
“Eis
aqui este sambinha
Feito
de uma nota só.
Outras
notas vão entrar
Mas
a base é uma só.”
Mais um
exemplo de redondilha maior, desta vez, de Leandro Gomes de Barros, autor de
cordel:
“Assim
morre o brasileiro,
Como
bode exposto à chuva
Tem
por direito o imposto,
A
palmatória por luva;
Família
só herda dele
Nome
de órfão e de viúva.”
A redondilha
maior, pois, devido a suas possibilidades de variação rítmica a tornam flexível
a adaptações musicais que variam em função da composição desejada.
Empregado por clássicos e típico do movimento romântico no qual o poema “O
Livro e a América” de Castro Alves se insere.
O trecho
acima transcrito de Castro Alves demonstra que ele tem muito a ver com a poesia.
A solidez de suas estâncias ou estrofes em décima, o excelente aproveitamento
das facilidades proporcionadas pela redondilha maior, os acertos na métrica, no
ritmo e demais efeitos sonoros levam a conclusão de que seus versos são
regulares quanto à forma. Logo, ela obedece a todos os cânones exigidos na
poesia clássica integrada ao movimento romântico. Isso prova que sabe compor
uma poesia. Seu status de poeta, entretanto, dependeria apenas da continuidade
de seu trabalho. O que, felizmente, aconteceu. Motivo pelo qual sua luz ainda se
esparge, como exemplo, em nossos dias.
Quanto ao
conteúdo, a poesia em apreço restringe-se a exibir o belo e a erudição do
autor? Além disso, seu conteúdo tem alguma utilidade? Faz algum tipo de
apologia? Este é de cunho social, ou melhor, visa ao bem comum? O entendimento
do trecho que serviu de fundamento para essas questões, sem dúvida, evidencia
uma mensagem. Castro Alves faz uma apologia à divulgação do livro para saciar
a sede de saber. Ele bendiz aqueles que semeiam livros. Ele se esforça para a
criação de condições e do seu aproveitamento para levar o povo a refletir.
O Poeta
emprega toda força, sabedoria e beleza de seu talento, que não é pouco, em
prol de uma causa que visa ao bem comum. Essa poesia, a par de sua inegável
qualidade como obra de arte, caracteriza-se sobretudo pela vocação social e
humanitária. Múltiplas são as conseqüências que daí decorrem. A mensagem
transmite a idéia de que quanto maior for a instrução do povo, melhor será
para todos tanto na terra como no céu.
As questões
que se seguem convém levantar. Haveria naquela época, como na atual, discordâncias
quanto a essa mensagem? O seu valor pode ser traduzido em quantidades de metal
sonante? Evidentemente que não. Mensagens dessa natureza, quando divulgadas com
estilo, acerto e amor ao semelhante, espelham valores muito maiores do que os óbolos
depositados nas sacolas de beneficência. Enquanto o óbolo é de valor irrisório
e efêmero, o outro é um bem de valor espiritual, é inestimável e duradouro.
Este é filantropia e aquele é esmola. Enquanto a filantropia se dirige à remoção
das causas da cegueira e de sua conseqüente pobreza; a esmola apenas alivia
superficialmente o indivíduo na pobreza e o mantém na escuridão. O fato de um
poeta transmitir uma mensagem que concorre para o bem comum em todas as épocas
deprecia ou enaltece sua arte?
1.2.1. Castro Alves Lírico
Para
responder se a arte de um poeta é depreciada ou enaltecida em função de sua
mensagem, antes de tudo há necessidade de definir o que é arte. Em seguida,
verificar se os agravos atribuídos à arte de um poeta se confirmam, se não
passam de meras licenças poéticas, ou são meros preconceitos quanto ao conteúdo
que ela comporta, quando visa ao bem comum, ou é devido ao sucesso por ele
alcançado. Por último, no caso de ficar comprovada sua perícia, concluir
quanto à utilidade de sua poesia. Inicialmente, recordar o que é arte.
Nada melhor, para eliminar partidarismos, do que se socorrer de um dicionário
idôneo, atualizado e neutro. Segue duas definições do filólogo e
dicionarista Houaiss:
1. “segundo tradição que remonta ao platonismo, habilidade ou
disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica,
realizada de forma consciente, controlada e racional”;
2. “produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a
concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da
subjetividade humana”.
Em seguida,
procurar uma poesia de Castro Alves isenta de mensagem social e que em nada
concorra para o bem comum. Tomá-la por base e recorrer a outros exemplos,
quando necessário, para estender os aportes. Depois, analisar seus componentes
para verificar se aqueles que fazem parte da arte estão presentes. Em outras
palavras, os indícios de haver trabalho consciente, controlado e racional são
significativos? Eles visam à concretização de um ideal de beleza, harmonia,
ou expressão da subjetividade humana? Pode ser classificado como arte?
Com intuito
de encontrar respostas, segue uma poesia denominada “O ‘Adeus’ de Teresa”,
composta em São Paulo, em 28 de agosto de 1868, e que faz parte do livro “Espumas
Flutuantes”.
A
vez primeira que
eu fitei Teresa, a
Como
as plantas que arrasta a
correnteza, a
A
valsa nos levou nos giros
seus...
b
E
amamos juntos... E
depois na sala
c
"Adeus" eu disse-lhe a
tremer co'a fala... c
E ela corando,
murmurou-me: "adeus". b
Uma
noite... entreabriu-se um reposteiro...
E
da alcova saía um cavaleiro
Inda
beijando uma mulher sem véus...
Era
eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus"
lhe disse conservando-a presa...
E
ela entre beijos murmurou-me: "adeus!".
Passaram
tempos... Sé'clos de delírio,
Prazeres
divinais... gozos do Empíreo...
...
Mas um dia volvi ao lares meus.
Partindo
eu disse: -"Voltarei!... descansa!..."
Ela
chorando mais que uma criança,
Ela
em soluços murmurou-me: "adeus!"
Quando
voltei ...era o palácio em festa!...
E
a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam
de amor o azul dos céus.
Entrei!...Ela
me olhou branca...surpresa!
Foi
a última vez que eu vi Teresa!...
E
ela arquejando murmurou-me: “adeus!”
1.2.1.0 – Considerações gerais
Na
escolha dessa poesia contribuiu a sua extensão. Por isso, transcrita por
inteiro. Perfaz um total de oito estâncias ou estrofes: quatro quintetos e
quatro monósticos. Quatro quintentos porque cada um deles possui cinco versos;
quatro monósticos porque estes possuem apenas um verso. Todos os versos da
poesia são decassílabos.
O
monóstico é um tipo raro de estrofe na poética tradicional. Após Dante tê-lo
empregado em sua “terza rima”, tornou-se celebrizado. Em princípio,
utiliza-se para manter o esquema rítmico ligado à estrofe anterior, para
formar com um de seus versos um quarteto, embora também possa ser empregado,
eventualmente, de modo isolado.
1.2.1.1 – Rima
Na
versificação, conforme Houaiss, a rima é: “o apoio
fonético recorrente, entre dois ou mais versos, que consiste na reiteração
total ou parcial do segmento fonético final de um verso a partir da última tônica,
com igual ocorrência no meio ou no fim de outro verso”.
Ao
tomar a primeira estrofe e o monóstico que o acompanha como exemplo, repare a
dupla função do monóstico. Em primeiro lugar, para fechar a rima com o
terceiro verso do quinteto. As
letras ‘a, b, c’, adicionadas para esse fim, ao lado da transcrição,
esclarecem. A rima ocorre entre os 1º e 2º, 4º e 5º versos de cada estrofe,
a do 3º alterna-se com o monóstico. Às rimas a-a e c-c estão emparelhadas, a
rima b-b, interpolada. Em segundo lugar, o monóstico reflete a subjetividade do
locutor, ao supor os diferentes estados de ânimo de Teresa em relação com sua
pessoa, segundo sua ótica, em distintas ocasiões: “A vez primeira...
corando; Uma noite... entre beijos...; Passaram tempos... em soluços...; Quando voltei...
arquejando...”. Enquanto os quintetos evidenciam as distintas ocasiões por
meio de adjuntos adverbias, ao denotar uma seqüência cronológica; os monósticos
através de gerúndios ou locuções preposicionadas, os estados de ânimo.
Para
evidenciar a habilidade de Castro Alves na feitura de rimas, além das
emparelhadas e interpoladas, o Poeta, em “Canção
do Boêmio”, também fez uso da rima cruzada ou alternada. Segue uma
quadra a título de ilustração:
Que
noite fria! Na deserta rua
a
Tremem
de medo os lampiões sombrios. b
Densa
garoa faz fumar a lua,
a
Ladram
de tédio vinte cães vadios.
b
A
poesia em estudo, O ‘Adeus’ de Teresa, apresenta tanto rimas pobres como ricas.
Podem ser consideradas pobres: Teresa-correnteza, sala-fala,
reposteiro-cavaleiro, véus-Adeus, delírio-Empíreo, festa-orquestra, céus-Adeus.
Assim consideradas, porque seus termos pertencerem à mesma categoria
gramatical. Nas rimas ricas os seus termos pertencem a categorias gramaticais
diferentes. Eis os exemplos: seus-Adeus, Teresa-presa, descansa-criança,
meus-adeus, surpresa-Teresa.
A
sílaba tônica das rimas predomina na palavra final de cada verso, por isso
mesmo consideradas rimas externas. Ocorre de modo um tanto diferente em delírio-Empíreo,
festa-orquestra, comprovando que se conta, na poesia, até a última sílaba tônica.
Em sua maioria os versos terminam em palavras paroxítonas, 16 ao todo, são
rimas graves; as rimas oxítonas ocorrem 8 vezes, são agudas.
Observa-se
também a presença de rimas
impuras, ora devido aos de timbres diferentes entre vogais, ora devido as
diferenças consonantais na sílaba tônica final. As primeiras, heterofônicas,
ocorrem em véus-Adeus, céus-Adeus. As outras, denominadas imperfeitas, ocorrem
em festa-orquestra, surpresa-Teresa.
1.2.1.2. – Metrificação
Com
respeito ao metro, o poema contém versos de dez sílabas. Logo, versos decassílabos.
É o tipo de verso que teve adeptos em todos os períodos literários. Foi o
preferido dos poetas clássicos do século XVI, muito empregado pelos neoclássicos
no século XVIII, pelo parnasianismo e pelo simbolismo no final do século XIX.
Os Lusíadas, poema épico renascentista de Camões, bem como a maioria dos
sonetos, de todas as épocas, utilizaram essa metrificação.
1.2.1.3 – Ritmo
O
filólogo Houaiss define o termo ritmo, no sentido geral, desta forma: “sucessão de tempos fortes e fracos que se
alternam com intervalos regulares em um verso, em uma frase musical, etc.”. Em
particular, referindo-se à poesia: “na arte literária, especialmente na
poesia, o efeito estético ocasionado pela ocorrência de unidades melódicas,
dispostas numa seqüência contínua”. O ritmo, portanto, junto com a métrica
são importantes parâmetros para realçar a estética da produção literária.
Embora não se deva confundir uma coisa com a outra, ambos parâmetros devem
estar estreitamente interligados para provocar os efeitos desejados pelo
artista.
As
sílabas tônicas do primeiro quinteto acima transcrito foram digitadas em
negrito. O objetivo desse recurso foi o de demonstrar a variação do ritmo ali
presente, como de resto acontece com toda a poesia. Isso significa que os decassílabos
de Castro Alves no “O ‘Adeus’ de
Teresa” são heterorrítmicos, isto é, eles não apresentam a mesma
estrutura quanto à tonicidade. Isto porque o verso decassílabo enseja,
teoricamente, segundo consta, até 28 possibilidades de variações na
tonicidade. A poesia em questão apresenta 11 dessas variações.
Todos
os versos possuem dez sílabas poéticas. Note-se que houve junção das vogais
na 6ª sílaba do primeiro verso quando se une o ‘que’ com o ‘eu’ forma
‘queeu’; no segundo verso ocorre na 2ª sílaba, ‘como as’ forma
‘co-moas’, na 5ª e 7ª sílabas ‘que arrasta a’ se transforma em
‘quea-rras-taa’, e assim por diante.
Ainda no âmbito
da separação de sílabas poéticas, o Poeta também se utilizou do recurso
chamado de elisão, que segundo Houaiss é uma: “modificação fonética
decorrente do desaparecimento da vogal final átona diante da inicial vocálica
da palavra seguinte, por exemplo: daqui [de aqui], d’água [de água]”. No
poema em questão, d’Ela em vez de de ela, como ocorre no segundo verso da
quinta estância.
Outro
recurso usado foi a diérese, que é a: “passagem de ditongo a hiato como em: sau-da-de
por sa-u-da-de. Esse alongamento silábico é freqüente na fala
coloquial e pode ocorrer na poesia como recurso métrico”, como confirma
Houaiss. Na poesia em estudo a diérese ocorre no terceiro quinteto no terceiro
e quinto versos respectivamente: na palavra dia
que foi separada em di-a
pertencendo esta separação a 3ª e 4ª sílabas poéticas; e na palavra criança que foi separada em cri-an
fazendo parte da 9ª e 10ª sílabas.
Para
demonstrar a riqueza da variação rítmica interna e, conseqüentemente, o
cuidado de Castro Alves para evitar a monotonia, eis aí um levantamento global
das sílabas tônicas nos versos desse poema:
- Todos os monósticos apresentam o mesmo esquema de célula
métrica com tônicas nas 1ª, 4ª, 8ª e 10ª sílabas;
- Seis versos apresentam as células tônicas na 3ª,
6ª, e 10ª sílabas;
- No terceiro quinteto não há repetição de ritmo,
logo, possui a maior variação rítmica: 2-4-6-10; 2-6-10; 3-6-10; 2-4-8-10
e 1-4-6-10;
- A menor variação de ritmo está no último
quinteto, o 1º tem tonicidade na 4-8 e 10 sílabas, o 2º e 3º versos têm
a acentuação 3-6-8 e 10, enquanto o 4º e o 5º versos na 3-6 e 10;
- Em 14 oportunidades as sílabas 6ª e 8ª são
acentuadas, em 13, na 4ª sílaba, nove vezes na 3ª sílaba, oito vezes a 2ª,
seis vezes a 1ª.
Sintetizando, quanto à métrica
e rima os versos em apreço são regulares segundo os cânones tradicionais.
1.2.1.4 – Linguagem –
Figuras – Tropos
O vocabulário
utilizado na poesia é culto, simples e claro. Seu potencial quanto ao poder de
comunicação com o leitor ou ouvinte, possivelmente aumentou, a despeito dos
134 anos decorridos desde sua composição. Apenas dois termos – reposteiro e
Empíreo – não são de uso corrente na atualidade. O primeiro por se tratar
de uma espécie de cortina encorpada em desuso nos palácios e residências. O
outro termo, de origem mitológica, refere-se à morada dos deuses, que, em
nossos dias, soa como culto, por se tratar de matéria que não faz parte dos
currículos oficiais. Por via de regra, requerem consulta ao dicionário.
Dos 24 versos
que fazem parte da poesia, apenas dois não contêm verbos. Os verbos totalizam
32 ocorrências em seus diferentes modos: indicativo, formas nominais e
imperativo. Na grande maioria denota ação, dinamismo. Predomina o modo
indicativo, isto é, o modo da realidade. Quanto às formas nominais já se
mencionou o uso do gerúndio, surge uma vez o particípio irregular? ‘presa’
usado como adjetivo e o imperativo neste verso: Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”, ao denotar
ordem ou súplica. Para completar, os adjetivos, ‘pálida
e branca’ e seis vezes a palavra
“Adeus” ora usada como interjeição, ora como substantivo, palavra que também
dá nome ao poema, usado no título como substantivo.
1.2.1.5
– Figuras
Ao poetar,
Castro Alves empregou diversos recursos próprios da arte, ainda que não lhe
sejam exclusivos. Inicialmente, notem-se os metaplasmos ou figuras de dicção,
no caso, por subtração:
- A aférese, que consiste na supressão de uma letra
ou sílaba no início da palavra, ocorre na segunda estância, no terceiro
verso: Inda, em vez de Ainda;
- A síncope, que consiste na supressão de uma letra
ou sílaba no meio da palavra, ocorre na terceira instância, no primeiro
verso: S’eclos em vez de séculos.
- A apócope, que consiste na supressão uma letra ou
sílaba no fim do vocábulo, ocorre no primeiro quinteto, no quinto verso: co’a,
ao suprimir o m da palavra com. Neste último caso, ocorreu uma forma especial de apócope,
denominada ectlipse, em que o m da
preposição com é esmagado
diante de vocábulos iniciados com vogal.
1.2.1.6 – Figuras
de palavras
Estas
figuras baseiam-se nos sons ou na ordem dos vocábulos, se formam por
acrescentamento, por diminuição, por consonância, por simetria, por
contraposição, ou por transposição. Seguem as ocorrências observadas na
poesia em estudo:
Sinonímia.
Figura de palavra por acrescentamento. Segundo Houaiss: “Emprego de palavra ou
expressão usada a seguir a outra de significado afim, para matizar, aclarar ou
ampliar seu sentido”. Exemplo:
Passaram tempos... séc’clos de delírio...
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
Hipérbatos.
Figura de palavra por transposição. Ocorre com freqüência, por anástrofe,
ou inversão de palavras relacionadas entre si:
‘A
vez primeira que eu fitei Teresa’ por ‘
A primeira vez...’;
‘Como as plantas que arrasta a correnteza’
por ‘que a correnteza arrasta’;
‘A valsa levou-nos aos giros seus...
por ‘A valsa levou-nos aos seus giros’;
‘... entreabriu-se um reposteiro...
por ‘um reposteiro entreabriu-se...’;
‘E da alcova saía um cavaleiro’
por ‘um cavaleiro saía da alcova’;
‘Mas um dia volvi aos lares meus’ por
‘Mas um dia volvi aos meus lares’;
‘Partindo eu disse’
por ‘Eu disse, partindo’.
Quiasma.
Figura de palavra por simetria. Esta figura acontece, segundo Houaiss, “quando
uma palavra é colocada em uma disposição cruzada da ordem das partes simétricas
de duas frases, de modo que formem uma antítese ou um paralelo”. Na poesia em
estudo, ocorre por paralelismo. A palavra “adeus” que inicia o último verso
do primeiro e segundo quintetos repete-se nos monósticos que os seguem na última
palavra, formando a idéia de uma letra X. Seguem os exemplos:
“Adeus!” eu disse-lhe a tremer co’a
fala...
E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.
(.....)
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
Anáfora.
Figura de palavra por acrescentamento. Consiste, segundo Houaiss, na “repetição
de uma palavra ou grupo de palavras no início de duas ou mais frases
sucessivas, para enfatizar o termo repetido”. Segue o exemplo com a palavra Ela. Repetida no início do último verso da terceira estrofe e o
monóstico que o segue:
Ela, chorando mais do que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
1.2.1.7 – Figuras
de regência
Ocorre
a elipse e a zeugma. Elipse do sujeito, uma vez com o pronome nós em amamos,
cinco vezes com o pronome eu: lhe disse
– volvi – Voltarei – voltei – Entrei e uma vez em descansa!...,
o tu desse imperativo. Zeugma do verbo
passar, verifica-se no primeiro e segundo versos do terceiro quinteto: Passaram
tempos... (passaram) séc’los de delírio (passaram) Prazeres divinais...
(passaram) gozos do Empíreo...
1.2.1.8 – Figuras
de pensamento
Hipérbole.
Assim, Houaiss a define: “ênfase expressiva
resultante do exagero da significação lingüística; exageração (p.ex.: morrer
de medo, estourar de rir)”. Nesse sentido:
- No primeiro verso do terceiro
quinteto: Passaram
tempos... sé’clos de delírio, Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
- No terceiro e quarto versos do quarto quinteto:
E a voz d’Ela e de um homem lá na
orquestra Preenchiam de amor o azul dos céus.
- Associada a uma comparação no
segundo e terceiro versos do primeiro quinteto: Como as plantas que arrasta a correnteza
A valsa nos levou nos giros seus...
1.2.1.9 – Tropos
– Metáforas
Símile.
Segundo Houaiss: “Figura que estabelece uma comparação entre dois termos de
sentidos diferentes ligados pela palavra como ou por um sinônimo desta (qual,
assim como, do mesmo modo que etc.); ambos estão obrigatoriamente
presentes na frase e um deles, com sentido real, identifica-se com outro mais
expressivo;”. Seguem exemplos:
- Segundo verso do primeiro quinteto: “Como
as plantas que arrasta a correnteza”
- Quinto verso do terceiro quinteto: “Ela,
chorando mais que uma criança,”
Metagoge.
Segundo Houaiss: “figura que consiste em atribuir características peculiares
dos seres humanos aos animais e às coisas inanimadas;”
- Está presente no quarto quinteto: Quando
voltei... era o palácio em festa!
1.2.1.10 – Sinais
de pontuação
Com
freqüência, o Poeta também se expressa por sinais de pontuação tais como
reticências, exclamações, travessões e três pontos. Não raro, agrupados.
Seguem exemplos:
·
O sinal de exclamação usado como na palavra
“Adeus!”, serve, entre outras coisas, para identificá-lo como interjeição,
expressando emoção, e não como substantivo; no total esse sinal utilizado em
10 oportunidades, exprime os diferentes estados anímicos do locutor; a exclamação
utilizada criteriosamente pelos oradores como uma figura de pensamento para
mover, como tal não é considerada nos bons dicionários nem na literatura em
geral.
·
O sinal de aspas duplas, como visto, também
na palavra “Adeus!”, tem por objetivo mais provável, chamar atenção,
destacar a importância de tal termo, realçá-lo.
·
O sinal de reticências ocorre 17 vezes e três
pontos uma vez. Como se pode notar, após o imperativo descansa!... , as reticências, propositadamente, atenuam o
imperativo. As demais situações denotam suspensão da frase, ora temporária
ora definitiva. Esta, como no primeiro verso da segunda estrofe, que assim
termina: entreabriu-se um reposteiro...
O verbo intransitivo entreabrir-se, não exige complementos e se liga ao verso
seguinte por meio do conectivo ‘E’. Logo, não induz o leitor ao
subjetivismo para completá-la, ou auxiliar a cadência, como nos demais casos.
·
Uma única vez, os três pontos que
caracterizam as reticências estão na frente da frase com um espaço entre eles
e a próxima palavra, no terceiro verso do terceiro quinteto: ... Mas um dia volvi aos lares meus. Neste caso, não se trata
propriamente de reticências e sim de três pontos. Eles antecedem o verso para
indicar omissão de parte do texto.
·
O travessão aparece apenas uma vez: Partindo
eu disse – “Voltarei!... descansa!...”. Por conseguinte, para
intensificar uma ênfase, ou seja, causar o impacto necessário ao transmitir e
demonstrar convicção sob dois aspectos: a firmeza de sua promessa de voltar,
após um afastamento, ainda que temporário; e, de que Teresa deveria estar
descansada e convicta de seu regresso, para dar continuidade ao arrebatado
romance. A determinação das promessas de um lado e o silêncio aquiescente de
outro, corresponderia, pois, a um compromisso, voluntariamente, assumido por
ambas as partes. Aparentemente, não só fundamentado nos antecedentes da relação,
como também nas manifestações, não verbais, de Teresa durante a cena da
despedida. No entanto, seu regresso inesperado quebrou a suposta aliança. O
desfecho se deu ao surpreender Teresa em flagrante desapego a qualquer
compromisso emocional ou moral com ele. A imagem construída de amante ardorosa
e devotada, subitamente, transfigura-se na de uma mulher vulgar, volúvel e
indigna de seu olhar.
1.2.1.11 – Observações:
A poesia O
“Adeus” de Teresa tomada como referência, prestou-se a dissecação de
inúmeros aspectos relevantes da literatura. Porém, ela não esgota todos os
recursos literários apresentados pelo seu autor ao longo de toda sua obra. Por
essa razão, para ilustrar mais alguns poucos desses recursos, utilizados no âmbito
do lirismo, apresentar-se-ão trechos de outros trabalhos em que eles se tornam
evidentes. Inclusive, naquilo em que ele se diferencia dos poetas que o
antecederam.
1.2.1.12 – Lirismo:
Os
poetas que antecederam a Castro Alves, com referência a temática do amor,
dirigiam-se a uma amada distante, intocada e idealizada. Ele, pelo contrário,
freqüentemente inspirado em nível autobiográfico, enfatiza o vigor da paixão,
a intensidade do sentimento e inclusive a experiência amorosa realizada no
plano físico. A amante do poeta é de carne e osso, ele associa o desejo com o
envolvimento sentimental e carnal. O segundo quinteto de O "Adeus"
de Teresa é um exemplo dessa amada, que passa a noite com o eu lírico. O
primeiro quarteto do poema Adormecida completa
essa visão:
Uma
noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.”
1.2.1.13 – Sensualidade – Natureza
Acrescente-se
no exemplo a seguir não só o sentimental, mas também o sensual, uma poesia
que recorre aos sentidos, plena de sensualidade. Também às metáforas
relativas a natureza. A seguir, a transcrição do sétimo ao nono quarteto que
fazem parte do poema “O Gondoleiro do Amor”:
Teu
seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;
Como
é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?
Teu
amor na treva é – um astro,
No
silêncio uma canção,
É
brisa – nas calmarias,
É
abrigo – no tufão;
Uma
figura de palavra por contraposição revela-se nesse trecho. Antítese.
Figura que caracterizou a obra de Castro Alves pelo seu freqüente emprego.
Segundo Houaiss, “figura pela qual se opõem, numa mesma frase,
duas palavras ou dois pensamentos de sentido contrário”. Todos os versos do
nono quarteto acima transcrito consistem de antíteses.
Esta análise do poema, O
“Adeus” de Teresa, realiza-se propositadamente com menos
superficialidade do que os trechos sobre O
Livro e a América. Qual o seu propósito? Obviamente, o de ensejar a
oportunidade de destacar não só as características como também, e
principalmente, o zelo de Castro Alves ao compor suas poesias. Por que fazer
isso? Para contribuir, de algum modo, para que o trabalho de Castro Alves possa
ser mais bem observado, e avaliado com isenção, em seu trabalho como poeta.
1.2.1.14
– O Navio Negreiro
O
Navio Negreiro – Tragédia no Mar juntamente com Vozes
D’África são os dois poemas mais conhecidos de Castro Alves ligados
ao período da escravidão no Brasil. Para continuar uma análise da obra e da
atitude do Poeta com respeito a essa questão, escolheu-se o primeiro poema. O Navio Negreiro, concluído em 18 de abril de 1868, declamado no
Teatro São José, em São Paulo, em 7 de julho do mesmo ano, segundo consta,
resultou em extraordinário êxito.
É um dos
poemas mais conhecidos da literatura brasileira. Conta com mais de trinta estâncias
e alterna métricas variadas, para obter, em cada situação retratada, o ritmo
mais adequado. Esse poema encontra-se traduzido para o inglês, francês e
esperanto. Como o propósito desta análise será mais ideológico do que
formal, utilizar-se-á uma metodologia diferente das que foram empregadas
anteriormente. Devido à extensão do poema, apresentar-se-á, quando necessário,
para fins de ilustração alguns de seus trechos.
O Poeta dividiu-o em seis partes.
A primeira
parte comporta onze quartetos. Todos com versos decassílabos. O Poeta inicia em
alto estilo condoreiro. Descreve a visão noturna dos reflexos sobre as ondas do
mar. Situa os ouvintes diante do cenário, por meio de imagens, comparações, símbolos,
metáforas, figuras e interrogações. Eis a introdução da primeira parte:
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada
borboleta;
E as vagas após ele
correm... cansam
Como turba de infantes
inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como
espumas de ouro...
O mar em troca acende as
ardentias,
— Constelações do líquido
tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço
insano,
Azuis, dourados, plácidos,
sublimes...
Qual dos dous é o céu?
qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações
marinhas,
Veleiro brigue corre à flor
dos mares,
Como roçam na vaga as
andorinhas...
(.....)
Na segunda
parte do poema, composta em versos heptassílabos ou redondilha maior, o Poeta
afirma que pouco importa a procedência dos marujos se eles têm como lar o mar,
e amam o que deste aprendeu: a harmonia da navegação e a audição de suas canções.
Em seguida, em estilo poético invejável, menciona o que a saudosa bandeira
acena as diferentes nacionalidades dos tripulantes, a saber: espanhóis,
italianos, ingleses, franceses e gregos. Os recursos poéticos empregados a cada
leitura suscitam nos leitores novas imagens e interpretações:
Que
importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do
Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
(.....)
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu...
...Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu...
A terceira parte contém apenas uma estrofe composta em versos de doze sílabas
ou alexandrinos. O eu lírico avista um quadro genérico de amarguras e diante
de cena infame e vil horroriza-se:
Desce do espaço imenso, ó águia do
oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
A quarta
parte, consta de seis estrofes heterométricas, combinando versos de doze sílabas
ou alexandrinos com hexassílabos,
presta-se admiravelmente ao verso direto. Agora com maiores detalhes expõe o
quadro de horror e aguça a indignação:
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
(.....)
A quinta
parte, em décimas, composta em redondilha maior, com rima variada, agrava a
indignação. Descreve a vida livre dos africanos em sua terra natal, em
contraste com a condição de escravos na embarcação. A declamação procura
sensibilizar as consciências, através da imprecação e da apóstrofe. Para
motivar e comover, o Poeta também mobiliza os sentidos para impor uma pronta
adesão. Inicia e termina com a mesma estância, como um estribilho em que
invoca o Deus dos desgraçados e a natureza para varrer o brigue dos horrores:
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão...
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
(.....)
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
Por fim, na
sexta parte, composta de três oitavas em versos decassílabos, o Poeta, a
semelhança de uma peroração, protesta com veemência contra o tráfico de
escravos. Ele soube começar, desenvolver os diversos quadros e agora em
majestoso final apresenta alguns dos versos mais fascinantes e admiráveis da
poesia brasileira. Ao mesmo tempo, recorre aos heróis do Novo Mundo e externa
toda a carga emotiva de sua mensagem:
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
1.3 – Interpretação dos dados
Os dados
levantados sobre a vida e obra de Castro Alves podem ser interpretados sob
diversos aspectos e pontos de vista. A seguir uma abordagem entre várias opções
possíveis que os mesmos dados podem levantar.
1.3.1 – Castro Alves e gêneros de Poesia
Como se pode
notar a poesia O
“Adeus” de Teresa, trechos das poesias O
Livro e a América e de O Navio
Negreiro foram os principais alicerces sobre o qual se sustentou o presente
trabalho. Juntamente com as demais passagens selecionadas, que pontuaram
características específicas, emerge uma visão abrangente da obra do Poeta
como um todo.
A
poesia O “Adeus” de Teresa pode
ser considerada “lírica”; O Livro e a
América, além disso, “social humanitária”; e, O
Navio Negreiro, da mesma forma e engajada. O Poeta também compôs
poesia de cunho republicano e patriótico, deixadas de lado por classificarem-se
igualmente como engajadas. Três tipos de conteúdos, pelo menos, dessa forma,
foram ilustrados.
O
“Adeus” de Teresa contribuiu para
ilustrar um gênero de poesia: a lírica. Assim chamada porque na antiguidade,
durante a declamação, ela era acompanhada de um instrumento musical chamado
lira. Nessa poesia, o Poeta expressa um desabafo e ilustra um fato ocorrido
entre dois amantes. A poesia apresenta recursos literários, devidamente
demonstrados em detalhes para chamar atenção do leitor. Ela dá um exemplo de
arte que a diferencia de outros tipos de “poesias” porque nestas, os
recursos ali contidos, ou outros semelhantes, estão ausentes. Não é qualquer
poeta, muito menos qualquer pessoa, que na posse de uma mensagem, consegue
obedecer às exigências de tantos condicionantes da poesia clássica e alcançar
a beleza na forma de expressão. Não é o mesmo que juntar os ingredientes e
fazer um bolo. O
“Adeus” de Teresa demonstra, pois, o que é uma poesia artisticamente
elaborada com início meio e fim.
O
“Adeus” de Teresa, a par de seu brilho
literário no que diz respeito à forma, quanto ao conteúdo pode ser
classificada simplesmente como uma poesia lírica ou romântica. Ela se refere a
uma experiência de conteúdo meramente emocional. O social é praticamente
nulo. Quando muito pode ser considerada do ponto de vista do comportamento entre
amantes convivendo uma relação volúvel e apaixonada. Melhor seria classificá-la
como uma poesia burguesa: não molesta os interesses de ninguém; acomodada
relativamente ao social; feita com esmero e demonstra, sob o aspecto social, uma
arte neutra; serve para distrair e deleitar. Está de acordo com a filosofia:
poeta é para fazer poesia, não deve meter-se em política; o mesmo diga-se
para o padre que só pode rezar, etc. Política é só para quem está solidário
com o poder. Somente o poder entende o que é bem comum e ponto final.
Os
trechos da poesia O Livro e a América revelam
um passo à frente quanto ao social. Essa escolha visou dupla finalidade:
introduzir o leitor ao ambiente da poesia e, simultaneamente, demonstrar sua
utilidade como veículo de idéias sadias. A introdução foi didática.
Utilizou-se, inclusive, de exemplos anteriormente escolhidos por autores que
tiveram o mesmo objetivo. Porém, o principal é, neste caso, justificar onde
está o passo à frente com referência à poesia O
“Adeus” de Teresa.
Em
O Livro e a América o Poeta
exemplifica uma poesia que exterioriza uma mensagem social e humanitária. Nela,
ele se esquiva de empregar o talento de modo perfunctório para exprimir-se
emocionalmente em alto estilo. Como foi visto, ele fez uma apologia à
divulgação do livro e bendiz aqueles que o semeiam. Incentiva a criação de
condições e o proveito delas para levar o povo a refletir. Em outras palavras,
ele deixa de lado a projeção de conflitos intrapsíquicos e estimula as
necessidades de progresso da coletividade. Em vez de provocar a concentração
num eu, ele dá prioridade ao crescimento do outro. Ocupa-se com a sociedade,
com todos. “Quanto maior a instrução do povo, melhor será para todos tanto
na terra como no céu”. Isto é: quer o bem comum.
O bem comum
é o mesmo que política em sentido amplo e sadio. No exemplo em questão, a política
não é partidária e não incomoda os detentores do poder. Eles também
reconhecem a necessidade de pessoas inteligentes e cultas para lhes prestarem
bons serviços ocasional ou permanentemente. É, pois, a política destituída
de conflito. Ela se limita ao aperfeiçoamento da sociedade vigente. Por via de
conseqüência, longe de visar mudanças estruturais. Logo, bem aceita pelo
poder em qualquer época. É, por excelência, a política atualmente tachada de
burguesa. Ela tem passe livre em qualquer estamento social. É uma forma de política
de reconhecida utilidade, acomodada e que atrai aplausos. Mesmo assim, muitos,
por ignorância ou temor, dela fogem acovardados. Dependendo das circunstâncias,
até por prudência nos ambientes ultra-reacionários de curta visão, tão bem
simbolizado na série cinematográfica “O Planeta dos Macacos”.
A poesia O
Navio Negreiro, pelo contrário, pode ser
considerada do ponto de vista social até mesmo como revolucionária, ainda que
o Poeta disso não estivesse consciente. Senão veja-se o seguinte: o que
significa revolução em sociologia? O Dicionário de Sociologia Globo diz:
“... Revolução significa, portanto, reestruturação social e, ao mesmo
tempo, mudança radical de valores culturais básicos”. O que é estrutura
social? “A totalidade dos status que tornam interdependentes os indivíduos e grupos de uma
sociedade”. Logo, só pode haver revolução quando há mudança de estrutura
social. Neste caso, a sociedade divide-se entre os que a desejam para melhorarem
a situação do grupo social a que pertencem, os que serão radicalmente contrários
devido à perda de privilégios e os indiferentes, isto é, em qualquer regime
suas condições de vida não se alteram.
Para
haver mudança na estrutura social, também chamada de superestrutura, precisa
haver, simultaneamente, mudança na base econômica. Quando isso não acontece,
a revolução é uma fraude. Logo, o termo revolução é o biombo atrás do
qual, costumeiramente, o golpe de Estado se disfarça. Esta anomalia ocorre com
freqüência nas chamadas repúblicas de bananas. Ela somente é bem entendida
quando ocorre no país dos outros. Quando ocorre no nosso, evidentemente, muitos
fingem não se dar conta sequer da presença de uma ditadura, por maiores que
sejam as evidências. Tais ocorrências também influenciam a arte, suscitam
enredos de ação quase sempre acompanhados de uma conotação irônica ou humorística.
Além de influenciar a literatura em geral, também influencia a indústria da
arte cinematográfica norte-americana que costuma exagerar as virtudes de
supostos heróis, exibem um arsenal de guerra intimidador e ironizam a faceta
ridícula da ética dos ditadores bigodudos ou supostos revolucionários.
Quais
são as estruturas econômico-sociais conhecidas? Comuna primitiva, escravismo,
feudalismo, capitalismo e socialismo. Essas formações econômico-sociais são
excludentes entre si? A resposta é não. Elas são radicalmente diferentes umas
das outras, porém podem conviver simultaneamente. Exemplo disso ocorreu no século
em que Castro Alves viveu. Os índios viviam no regime denominado comuna
primitiva. Os negros sofriam no regime da escravidão e tinham os latifundiários
como seus proprietários. A família real e os portadores de títulos de nobreza
viviam numa ilusão de feudalismo. No Brasil, a maioria dos portadores de títulos
nobiliárquicos receberam-no sem a correspondente fração de terra, a principal
riqueza da época em função da qual se hierarquizava os títulos. Capitalismo
ou socialismo nem se podia pensar, tal era o atraso.
Nessa
época, os índios brasileiros conviviam no regime chamado comuna primitiva, não
conheciam a propriedade privada nem dinheiro. Terra, ar, água, vegetais,
animais e peixes estavam à disposição deles na natureza. Repartiam o
resultado do trabalho comunitário entre si. Assim, sobreviviam. Por via de
conseqüência, não havia classes sociais nem mudanças nas relações sociais.
Viviam no regime econômico-social mais atrasado, em plena pré-história há
muito ultrapassado pelo caucasiano.
Os
negros africanos e seus descendentes, por outro lado, impuseram-lhes uma classe
social, a de escravos. Viviam em completa dependência de outra classe, a de
seus senhores ou proprietários. Estes, via de regra, eram proprietários da
terra onde os escravos trabalhavam e de todos os demais meios de produção.
Eles compravam os escravos como se estes fossem mercadorias e dispensavam-lhes o
tratamento de animais irracionais. Esse regime desumano, na história da
sociedade, é o substituto da comuna primitiva. Essa mudança representou uma
evolução no passado remoto. As tribos que disputavam o mesmo território para
sobreviverem, geralmente nômades, em lugar de matar os inimigos e comê-los,
como antes acontecia, com o surgimento dos instrumentos de metal, era possível
estabelecer-se em locais favoráveis, cultivar a terra e surgir excedentes para
comerciar e alimentar a nova classe que surgiria. Assim tornou-se possível a
construção de cidades, a aparição da propriedade privada da terra e a colocação
dos inimigos capturados na condição de escravos, devido às vantagens
proporcionadas. Com isso, os escravos permaneciam vivos e os senhores ganhavam
tempo para dedicarem-se ao lazer, às matemáticas, a astronomia, às artes e à
filosofia. Tanto que, somente durante esse regime, surgiram filósofos como
servem de exemplo, entre outros, Platão e Aristóteles.
A
passagem de um regime sócio-econômico para outro representa uma evolução da
sociedade em vários sentidos. Somente, pois, quando se altera a base econômica,
seguem-se alterações nas relações sociais. Pois o escravo, depois de livre e
independente, não mais obrigado a prestar serviços gratuitos para outro homem,
só o faz mediante remuneração. Em outras palavras, a alteração da estrutura
econômica provoca simultaneamente a mudança da estrutura social. Uma
quantidade maior de indivíduos terá dinheiro e liberdade para consumir e terá
acesso aos benefícios do progresso social como um todo.
1.3.2 – Castro Alves – Poeta engajado
No
decurso deste trabalho foi empregado o termo engajamento no sentido genérico
definido por Houaiss. Discorreu-se, também, sobre outros conceitos de
engajamento, fundamentados em filosofias e das diferentes formas como no passado
foi utilizado com o mesmo significado: útil, tendencioso. Embora o engajamento
de Castro Alves no social seja evidente por si mesmo, inclusive sancionado
pejorativamente por seus críticos, é o momento adequado para comparar uma
parcela significativa de sua obra com as formalidades lógicas. para formalizar
motivo até de críticainclusive, aceitando-se a terminologia antecedente com o
mesmo sentido genérico atribuído por Houaiss: útil, tendencioso. Neste ponto, no qual o autor deste trabalho está livre expor
sua interpretação dos dados antes levantados e sua avaliação crítica sobre
a obra de Castro Alves, ...
Sob
o ponto de vista de Platão, o poema Navio Negreiros poderia ser considerado útil?
Sob
o ponto de vista do Marxismo, o poema Navio Negreiros poderia ser considerado
engajado?
Sob
o ponto de vista de Sartre, o mesmo poema poderia ser considerado engajado?
Sob
o ponto de vista dos
Nesse
clima de mudança, Castro Alves atuou como poeta não só lírico, mas também
como poeta engajado. Nessa condição, ajudou a lançar a pá de cal no regime
social agonizante do mundo civilizado. Evidentemente, não foram poesias que
derrubaram o regime. Porém, contribuíram para formação do clima psicológico
para tal de modo expressivo. Deram argumentos para neutralizar a reação dos
proprietários de escravos, campeões mundiais da manutenção do escravismo.
Confirmada
a utilidade na literatura engajada, o que ela significa? Segue-se uma resposta,
resumida na medida do possível, porém sem descurar sua importância. Antes de
tudo, para demonstrar a longevidade da questão com referência ao tema, segue
uma transcrição de Platão (República, X, 607 d ; em Aristóteles, Arte Retórica
e Arte Poética, Coleção Universidade, pg 275Editora Tecnoprint Rio de
Janeiro):
“Sem
dúvida outorgaremos a todos aqueles que, sendo amigos dos poetas sem praticarem
a poesia, constituem-se patronos dos mesmos, o direito de pronunciar em prosa um
discurso em favor da poesia... o discurso, nós o ouviremos com benevolência,
pois será incontestavelmente um bem para nós mostrar que a poesia é, não
somente agradável, mas ainda útil!”
Como
se pode notar, exigir que a poesia além de agradável deva ser útil,
afigura-se como uma questão antiga. A utilidade da poesia tem a ver com o
engajamento. Engajamento é o termo utilizado a partir de Sartre tendo-se em
mente uma utilidade específica, agora generalizada para todas as formas do
social. Motivo pelo qual o conceito pode retroceder no tempo. Em regra, o poeta
quando pretende ser útil, resolve a questão ao objetivar o bem comum. E como
foi visto, há vários graus de utilidade e de engajamento. Roland Barhes assim
focaliza essa questão:
“A
nossa literatura será portanto sempre condenada a esse vai-e-vem esgotante
entre o realismo político e a arte pela arte, entre uma moral do engajamento e
um purismo estético, entre o compromisso e a assepsia?” (Barthes: 1964)
O que se
tenta pôr em evidência são as relações entre o literário e o social. Em
outras palavras, o papel que a sociedade espera da produção daquele que
escreve, ou que este atribui a si mesmo, com respeito à sociedade ou à
humanidade como um todo. O escritor ou intelectual têm o dever de entender e
assimilar o sentido do engajamento. Em sentido figurado, segundo Houaiss, “dedicar-se
com afinco a”, de onde se denota uma prévia opção voluntária, um rumo
determinado, a integração em uma causa, dar uma contribuição ou sentido
social à vida, enfim servir de algum modo à humanidade. Ter em mente o lema:
“Quem não vive para servir não serve para viver”. Eis aí, em síntese, o
sentido da utilidade aos seus semelhantes e do engajamento.
O
engajamento pressupõe uma tomada de consciência do homem e do escritor quanto
ao pertencimento à sociedade, ao mundo do seu tempo e a sua correspondente
responsabilidade social. Exige renuncia à condição de simples testemunha e
impele o indivíduo a colocar seus argumentos, ou arte, ao serviço de uma causa
coletiva. É um ato voluntário de fidelidade para consigo mesmo em obediência
a sua ética, compromissos com o outro, ou juramentos. É um imperativo moral.
É colocar o interesse coletivo acima dos individuais em suas agendas. É
trilhar o caminho que desemboca na ação, na participação da vida coletiva e
na história dos povos. É o lugar onde se conjugam e se unem os esforços e
competências do indivíduo com as necessidades da coletividade. O lugar em que,
na convergência das ações, todos são importantes e cada um deve fazer a
parte que lhe cabe, segundo suas aptidões. Nesse caso, o que faz o poeta?
Poetar, isto é, expressar, os sentimentos com arte. O intelectual? Convencer
com argumentos sólidos. O escritor? Retratar de alguma forma a necessidade de
mudanças. Da mesma forma o compositor musical, o artista plástico e tantos
outros, cada um se engaja segundo as habilidades de sua categoria. Quem faça o
restante não faltará. É assim
que a sociedade funciona quando almeja concretizar o progresso.
Foi
com idéia semelhante que Castro Alves engajou-se também na questão social. No
entanto, nem todos poetas pensam como ele. Razão pela qual, os que o criticam
com mais veemência, são os partidários da arte pela arte, do purismo estético,
da assepsia. São os partidários do que Camus (1965) denuncia como a
“frivolidade” de uma literatura preocupada unicamente com ela mesma,
produtora de “mentiras luxuosas”, puros objetos estéticos afastados das
contingências humanas e dos deveres que impõe as circunstâncias do mundo.
Para
constatar que tal fenômeno não é obra exclusiva de brasileiros, mais uma vez,
os franceses acodem em socorro. Agora, com uma citação de Jean Paulhan (1941),
que apresenta uma visão crítica, ou, o contraditório:
“Todos
sabem que há, nos nossos dias, duas literaturas: a má, que é propriamente
ilegível (muito lida). E a boa, que não se lê. É isso que tem sido chamado,
entre outros nomes, o divórcio do escritor com o público”.
Na
verdade, o divórcio se dá não somente entre o escritor purista e o público
leitor. Isolado em sua pureza, também se dá entre ele e toda a sociedade.
Quando Castro Alves escreveu em favor dos escravos, estes, seus beneficiários,
não tinham condições de comparecer aos teatros para aplaudi-lo, possivelmente
nem sequer entenderiam o que estaria a ocorrer. O engajamento do Poeta
manifestava-se por escrever no lugar deles, em benefício deles e da sociedade.
Fez com que o sofrimento, a dor, a humilhação fossem sentidas por outros mais,
antes alheios a sua sorte. Ele não foi político no sentido de apresentar
propostas, alternativas, programas de ação para derrubar o regime. Também não
carregou bandeiras, distribuiu panfletos, pichou muros ou promoveu arruaças.
Como poeta que era, fez poesia. Poesia com arte, engajada e muito lida até
estes dias. Várias editoras publicam seus livros em sucessivas edições.
Na
fortuna crítica de Castro Alves constou algumas opiniões discordantes. Em
resumo, algumas das expressões e termos a seguir: “grandes defeitos;
extravagâncias verbais; o grande poeta que ele poderia ter sido; escravizado ao
assunto; desmedindo-se em violentas antíteses, em retumbantes onomatopéias;
malgrado os excessos e o mau gosto”.
Uma refutação,
ponto por ponto, não é o propósito deste trabalho. Contudo, não é demais
lembrar, que as motivações para críticas desse gênero são múltiplas.
Inclusive, não se exclui o narcisismo de seus próprios autores. Portanto, cada
poeta tem o direito de supor que é capaz de fazer melhor do que Castro Alves;
que seu bom gosto é mais refinado, que propositadamente não comete excessos
quando julga necessário e assim por diante. Porém, ninguém pode impedir o
leitor, que vivencia as aflições de um determinado momento histórico, de dar
valor à mensagem que transmite com vigor os sentimentos com que melhor se
identifica e de escolher seus poetas. Do mesmo modo, que aqueles que fogem da
realidade e refugiam-se na fantasia ou na jocosidade escolherão outros autores.
São os
ouvintes ou leitores que sabem quando uma mensagem é bela, útil e oportuna. São
os leitores ou ouvintes que sabem quando um poeta deu tudo de si para fazer uma
poesia a fim de conscientizá-lo ou para provocar inovações ou polêmica entre
seus pares. O leitor também pressente que o poeta poderia fazer melhor, caso a
história pudesse esperar, para que além de útil, ele antes atingisse uma
perfeição metafísica. Também percebe que as bases da poesia podem ser
descaracterizadas, o seu conceito estendido e, desse modo, favorecer a inscrição
de figurões no círculo fechado dos verdadeiros poetas, que se tornam cada vez
mais raros.
Um dos
expedientes para estenderem o conceito de poesia é a criação de foros para a
deturpação de seus fundamentos. Desse modo, uma prosa naturalmente liberada
dos condicionantes clássicos da poesia, como tal pode ser batizada. Assim nasce
a poesia sem arte, ou poesia sem poesia. Isto é, poesia não só falta de
utilidade, mas até mesmo sem aparência, sem métrica, sem rima, sem harmonia,
etc. Seguem poucos exemplos como ilustração. Propositadamente de autores que
criticaram Castro Alves, porém bem recomendados. O próprio leitor deverá
elaborar sua própria interpretação.
De Manuel Bandeira: “Teresa”
A
primeira vez que vi Teresa
Achei
que tinha pernas estúpidas
Achei
também que a cara parecia uma perna
Quando
vi Teresa de novo
Achei
que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os
olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da
terceira vez não vi mais nada
Os
céus se misturaram com a terra
E
o espírito de Deus voltou a se mover sobre as águas.
Outra do mesmo autor:
O
major morreu
Reformado
Veterano
da Guerra do Paraguai
Herói
da ponte de Itororó.
Não
quis honras militares.
Não
quis discursos.
Apenas
À
hora do enterro
O
corneteiro de um batalhão de linha
Deu
à boca do túmulo
O
toque de silêncio
De Carlos Drummond de Andrade:
Pneumotórax
Febre,
hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse,
tosse, tosse.
Mandou
chamar o médico:
- Diga trinta
e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . .
- O sr. tem uma excavação no pulmão esquerddo e o pulmão direito infiltrado.
-
Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única
coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Sem comentários.
2 – Conclusão
A análise
transcorrida no decurso do desenvolvimento deste ensaio evidencia o seguinte: a
poesia, quanto à forma, obedece a certas normas que a distinguem da prosa.
Algumas delas realçadas e comentadas no exame da poesia O “Adeus” de Teresa:
estrofe, metro, ritmo, som, rima, figuras, etc. Enfim, uma abundância de
recursos formais concentrados em uma mensagem que, desde a antiguidade, encantam
e provocam a mais sentida admiração.
Esse gênero
literário, quando fiel à forma, deve ocupar o primeiro lugar no pódio. O
prestígio intelectual e artístico do poeta competente, como conseqüência, não
tem par em termos de literatura. Por outro lado, aspirar essa posição ou
usurpar suas honras, configura uma ousadia quando os fundamentos que,
tradicionalmente, caracterizam a poesia estão ausentes na produção literária.
Assim pensava Castro Alves que sempre se houve como poeta.
Quanto ao
conteúdo, Platão (427-347 A.N.E.) oferecia ouvidos benevolentes aos patronos
dos poetas para estes demonstrarem que a poesia, além de agradável, pudesse
também ser útil. Naquela época os poetas viviam às custas do erário ou de
patronos. A poesia, portanto, era útil, antes de tudo, ao próprio poeta. Em
primeiro lugar, porque, como é sabido, a poesia funciona como uma espécie de
catarse para o próprio autor: alivia seus conflitos emocionais. Em segundo
lugar, porque ao fazer isso com arte, embevecia o público, sempre em busca de
novidades e assim garantia sua sobrevivência. Os patrocinadores, por sua vez,
ao promoverem a arte, mantinham-se nas boas graças do povo e cresciam em
popularidade. Platão, todavia, esperava um tanto mais que beleza para
justificar o investimento. Queria uma utilidade mais ampla. Queria poesias úteis,
isto é, com algum conteúdo social. Não, obviamente, em favor dos escravos ou
revolucionária, mas sem dúvida, em favor do aperfeiçoamento do homem e da república.
A poesia de
Castro Alves, vinte e dois séculos após, preenche os requisitos básicos
almejados por Platão. Ela agrada, transmite mensagens úteis e estimula o bem
comum. Suas poesias abriram-lhe a porta da frente da imortalidade na memória
dos brasileiros. Ele foi poeta amador, autônomo e livre. Sem patronos, pelo
contrário, foi patrocinador de todas as boas causas de seu tempo. Soube manejar
a lira como ninguém. Tirante as poesias de cunho autobiográficas, úteis a si
mesmo, as demais foram úteis ou engajadas no sentido antes descrito.
Na leitura de
uma poesia, podem-se observar os seguintes parâmetros:
·
Poesia com forma e conteúdo social;
·
Poesia com forma e sem conteúdo social;
·
Poesia sem forma e sem conteúdo social;
·
Poesia sem forma e com conteúdo social;
·
O conteúdo pode ser útil, ou não, do ponto de vista social;
·
A utilidade do conteúdo pode ser individual ou social;
·
A utilidade individual se reflete na catarse de seu autor e no estímulo
à admiração para o ouvinte ou leitor;
·
O conteúdo de utilidade social, com mais ou menos profundidade,
sempre favorece o bem comum em geral, etc.
As poesias de
Castro Alves apresentadas segundo as análises realizadas podem ser assim
grosseiramente sintetizadas:
·
“O ‘Adeus’ de Teresa”: poesia com forma e sem conteúdo
social;
·
“O Livro e a América”: poesia com forma e conteúdo de
utilidade social, favorece o bem comum;
·
“O Navio Negreiro”: poesia com forma e conteúdo de utilidade
social; eminentemente engajada; poesia de cunho político e revolucionário.
Face ao sumário
acima exposto, pode-se concluir que as poesias de Castro Alves obedecem à forma
tradicional, e quanto ao conteúdo, compôs vários gêneros. No entanto, as
poesias que mais o distinguiram foram as engajadas. Seu talento engajado
estimulou a maior parte das críticas a ele dirigidas. Provavelmente, a maioria
inteiramente justa e algumas baseadas nas insuficiências dos que exigem dos
outros o que eles próprios não são capazes de realizar. O mesmo se deu com
Victor Hugo na França pelos mesmos motivos. Como visto na biografia, ambos eram
maçons, aderiram ao movimento romântico e militaram em prol da Liberdade,
Igualdade e Fraternidade, bandeira desfraldada durante a Revolução Francesa.
Castro Alves,
como homem e como maçom cumpriu suas obrigações de cidadão e de obreiro da
Ordem. No cumprimento de seus deveres, deu um exemplo de devoção ao bem comum
compatível com suas aptidões. Caso ele fosse apenas profano, teria dado
exemplo ainda maior. Pois, nessa condição, teria excedido muitos maçons que
deixam de cumprir com regularidade os mais elementares deveres: a freqüência
às sessões e a manutenção dos metais em dia. E também, todos os que
perseguem e acumulam honrarias e não realizações.
Sem dúvida,
Castro Alves, determinado a cumprir seu papel histórico, desempenhou
exemplarmente sua nobre missão. Soube conjugar o talento individual com a pena,
deu um elevado sentido a sua vida e transformou-se num exemplo para as futuras
gerações.
OBRAS CONSULTADAS
ALVES,
Castro. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1997.
AMADO, Jorge.
ABC de Castro Alves. 9ª edição. São
Paulo: Martins Editora. S/D.
BEAU, Albin
Eduard. Taschenwörterbuch
Der Portuguiesischen und Deutschen Sprache. Berlin:
Langenscheidt. 1969.
BENOÎT,
Denis. Literatura e Engajamento de Pascal a Sartre. São Paulo: Edusc.
2002.
BORDINI,
Maria da Glória. Poesia Infantil. São
Paulo: Atlas, 1986.
BOSI,
Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix.
1994.
COELHO,
Nelly Novaes. Literatura & Linguagem. Rio de Janeiro: José Olympio/INL.
1974.
COUTINHO, Afrânio.
A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: São José. 1955.
ELIOT, T.S. Ensaios
de Doutrina Crítica. Lisboa: Guimarães Editores. 1997.
__________,
A Essência da Poesia. Rio de Janeiro: Artenova. 1972.
GOLDSTEIN,
Norma. Análise do Poema. São Paulo:
Editora Ática. 1988.
SILVA,
Francisco Pereira da. A Vida dos Grandes Brasileiros – Castro Alves. São
Paulo: Três. S/D.
TUDO. Dicionário
Enciclopédico Ilustrado. São Paulo: Abril Cultural. 1977.
VICTOR HUGO. Os
trabalhadores do mar. São Paulo: Abril cultural. 1979.
|