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CARTA ENCÍCLICA
VERITATIS SPLENDOR
DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II
A TODOS OS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE ALGUMAS QUESTÕES FUNDAMENTAIS
DO ENSINO MORAL DA IGREJA
Veneráveis Irmãos no Episcopado:
Saúde e Bênção Apostólica!
O esplendor da Verdade brilha em todas as obras do Criador, particularmente
no homem criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,
26): a verdade ilumina a inteligência e modela a liberdade do homem,
que, deste modo, é levado a conhecer e a amar o Senhor. Por isso,
reza o salmista: "Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da
vossa face" (Sal 4, 7).
INTRODUÇÃO
Jesus Cristo, luz verdadeira que a todo o homem ilumina
1. Chamados à salvação pela fé em Jesus Cristo,
"luz verdadeira que a todo o homem ilumina" (Jo 1, 9), os homens
tornam-se "luz no Senhor" e "filhos da luz" (Ef 5,
8) e santificam-se pela "obediência à verdade"
(1 Pd 1, 22).
Esta obediência nem sempre é fácil. Na sequência
daquele misterioso pecado de origem, cometido por instigação
de Satanás, que é "mentiroso e pai da mentira"
(Jo 8, 44), o homem é continuamente tentado a desviar o seu olhar
do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos (cf. 1 Ts 1,
9), trocando "a verdade de Deus pela mentira" (Rm 1, 25); então
também a sua capacidade para conhecer a verdade fica ofuscada,
e enfraquecida a sua vontade para se submeter a ela. E assim, abandonando-se
ao relativismo e ao cepticismo (cf. Jo 18, 38), ele vai à procura
de uma ilusória liberdade fora da própria verdade.
Mas nenhuma sombra de erro e de pecado pode eliminar totalmente do homem
a luz de Deus Criador. Nas profundezas do seu coração, permanece
sempre a nostalgia da verdade absoluta e a sede de chegar à plenitude
do seu conhecimento. Prova-o, de modo eloquente, a incansável pesquisa
do homem em todas as áreas e sectores. Demonstra-o ainda mais a
sua busca do sentido da vida. O progresso da ciência e da técnica,
esplêndido testemunho da capacidade da inteligência e da tenacidade
dos homens, não dispensa a humanidade de pôr-se as questões
religiosas últimas, mas antes, estimula-a a enfrentar as lutas
mais dolorosas e decisivas, que são as do coração
e da consciência moral.
2. Nenhum homem pode esquivar-se às perguntas fundamentais: Que
devo fazer? Como discernir o bem do mal? A resposta somente é possível
graças ao esplendor da verdade que brilha no íntimo do espírito
humano, como atesta o salmista: "Muitos dizem: "Quem nos fará
ver o bem?" Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa
face" (Sal 4, 7).
A luz da face de Deus resplandece em toda a sua beleza no rosto de Jesus
Cristo, "imagem do Deus invisível" (Col 1, 15), "resplendor
da sua glória" (Heb 1, 3), "cheio de graça e de
verdade" (Jo 1, 14): Ele é "o caminho, a verdade e a
vida" (Jo 14, 6). Por isso, a resposta decisiva a cada interrogação
do homem, e particularmente às suas questões religiosas
e morais, é dada por Jesus Cristo, mais, é o próprio
Jesus Cristo, como lembra o Concílio Vaticano II: "Na realidade,
o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério
do Verbo Encarnado. Efectivamente, Adão, o primeiro homem, era
figura do que havia de vir, Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na
mesma revelação do mistério do Pai e do seu amor,
manifesta perfeitamente o homem ao próprio homem e descobre- -lhe
a sublimidade da sua vocação".1 Jesus Cristo, "luz
dos povos", ilumina a face da sua Igreja, que Ele envia pelo mundo
inteiro a anunciar o Evangelho a toda criatura (cf. Mc 16, 15).2 Assim
a Igreja, Povo de Deus no meio das nações,3 ao mesmo tempo
que permanece atenta aos novos desafios da história e aos esforços
que os homens realizam na procura do sentido da vida, oferece a todos
a resposta que provém da verdade de Jesus Cristo e do seu Evangelho.
Na Igreja, permanece sempre viva a consciência do seu "dever
de investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los
à luz do Evangelho, para que assim possa responder, de modo adaptado
em cada geração, às eternas perguntas dos homens
acerca do sentido da vida presente e da futura e da relação
entre ambas".4
3. Os Pastores da Igreja, em comunhão com o Sucessor de Pedro,
estão solidários com os fiéis neste esforço,
acompanham e guiam-nos com o seu magistério, encontrando expressões
sempre novas de amor e misericórdia para se dirigirem não
só aos crentes, mas a todos os homens de boa vontade. O Concílio
Vaticano II permanece um testemunho extraordinário desta atitude
da Igreja que, "perita em humanidade",5 se põe ao serviço
de cada homem e do mundo inteiro.6
A Igreja sabe que a instância moral atinge em profundidade cada
homem, compromete a todos, inclusive aqueles que não conhecem Cristo
e o Seu Evangelho, ou nem mesmo a Deus. Ela sabe que precisamente sobre
o caminho da vida moral se abre para todos a via da salvação,
como claramente o recordou o Concílio Vaticano II ao escrever:
"Aqueles que ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja,
procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam,
sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada
pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar
a salvação eterna". E acrescenta: "Nem a divina
Providência nega os auxílios necessários à
salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram
ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não
sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o
que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja
como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele
que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida".7
O objeto da presente Encíclica
4. Sempre, mas sobretudo ao longo dos dois últimos séculos,
os Sumos Pontífices, quer pessoalmente quer em conjunto com o Colégio
Episcopal, desenvolveram e propuseram um ensinamento moral relativo aos
múltiplos e diferentes âmbitos da vida humana. Em nome e
com a autoridade de Jesus Cristo, eles exortaram, denunciaram, explicaram;
fiéis à sua missão, nas lutas a favor do homem, confirmaram,
ampararam, consolaram; com a garantia da assistência do Espírito
da verdade, contribuíram para uma melhor compreensão das
exigências morais nos âmbitos da sexualidade humana, da família,
da vida social, económica e política. O seu ensinamento
constitui um contínuo aprofundamento do conhecimento moral, dentro
da tradição da Igreja e da história da humanidade.8
Hoje, porém, parece necessário reflectir sobre o conjunto
do ensinamento moral da Igreja, com a finalidade concreta de evocar algumas
verdades fundamentais da doutrina católica que, no actual contexto,
correm o risco de serem deformadas ou negadas. De facto, formou-se uma
nova situação dentro da própria comunidade cristã,
que experimentou a difusão de múltiplas dúvidas e
objecções de ordem humana e psicológica, social e
cultural, religiosa e até mesmo teológica, a propósito
dos ensinamentos morais da Igreja. Não se trata já de contestações
parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática
do património moral, baseada sobre determinadas concepções
antropológicas e éticas. Na sua raiz, está a influência,
mais ou menos velada de correntes de pensamento que acabam por desarraigar
a liberdade humana da sua relação essencial e constitutiva
com a verdade. Rejeita-se, assim, a doutrina tradicional sobre a lei natural,
sobre a universalidade e a permanente validade dos seus preceitos; consideram-se
simplesmente inaceitáveis alguns ensinamentos morais da Igreja;
pensa-se que o próprio Magistério possa intervir em matéria
moral, somente para "exortar as consciências" e "propor
os valores", nos quais depois cada um inspirará, de forma
autónoma, as decisões e as escolhas da vida.
Em particular, deve-se ressaltar a discordância entre a resposta
tradicional da Igreja e algumas posições teológicas,
difundidas mesmo nos Seminários e Faculdades eclesiásticas,
sobre questões da máxima importância para a Igreja
e a vida de fé dos cristãos, bem como para a própria
convivência humana. Em particular, pergunta-se: os mandamentos de
Deus, que estão escritos no coração do homem e fazem
parte da Aliança, têm verdadeiramente a capacidade de iluminar
as opções quotidianas dos indivíduos e das sociedades
inteiras? É possível obedecer a Deus e, portanto, amar a
Deus e ao próximo, sem respeitar em todas as circunstâncias
estes mandamentos? Generalizada se encontra também a opinião
que põe em dúvida o nexo intrínseco e indivisível
que une entre si a fé e a moral, como se a pertença à
Igreja e a sua unidade interna se devessem decidir unicamente em relação
à fé, ao passo que se poderia tolerar no âmbito moral
um pluralismo de opiniões e de comportamentos, deixados ao juízo
da consciência subjectiva individual ou à diversidade dos
contextos sociais e culturais.
5. Neste contexto, ainda agora actual, amadureceu em mim a decisão
de escrever - como já anunciei na Carta Apostólica Spiritus
Domini, publicada no dia 1 de Agosto de 1987, por ocasião do segundo
centenário da morte de S. Afonso Maria de Ligório - uma
Encíclica destinada a tratar "mais ampla e profundamente das
questões relativas aos próprios fundamentos da teologia
moral" 9, fundamentos esses que são atacados por algumas tendências
actuais.
Dirijo-me a vós, veneráveis Irmãos no Episcopado,
que partilhais comigo a responsabilidade de guardar a "sã
doutrina" (2 Tim 4, 3), com a intenção de precisar
alguns aspectos doutrinais que se revelam decisivos para debelar aquela
que constitui, sem dúvida, uma verdadeira crise, tão graves
são as dificuldades que acarreta à vida moral dos fiéis
e à comunhão da Igreja, bem como a uma convivência
social justa e solidária.
Se esta Encíclica, há muito esperada, é publicada
somente agora, é porque pareceu conveniente fazê-la preceder
do Catecismo da Igreja Católica, que contém uma exposição
completa e sistemática da doutrina moral cristã. O Catecismo
apresenta a vida moral dos crentes, nos seus fundamentos e múltiplos
conteúdos, como vida dos "filhos de Deus": "Reconhecendo
na fé a sua nova dignidade, os cristãos são chamados
a levar desde agora, uma "vida digna do Evangelho de Cristo"
(Fil 1, 27). Pelos sacramentos e pela oração, recebem a
graça de Cristo e os dons do Seu Espírito, que disso os
tornaram capazes".10 Portanto, ao remeter para o Catecismo "como
texto de referência, seguro e autêntico, para o ensino da
doutrina católica",11 a Encíclica limitar-se-á
a afrontar algumas questões fundamentais do ensinamento moral da
Igreja, sob a forma de um necessário discernimento sobre problemas
controversos entre os estudiosos da ética e da teologia moral.
Este é o objecto específico da actual Encíclica,
que pretende expor, sobre os problemas em discussão, as razões
de um ensinamento moral baseado na Sagrada Escritura e na viva Tradição
apostólica,12 pondo em evidência, ao mesmo tempo, os pressupostos
e as consequências das contestações que atingem um
tal ensinamento.
I
"MESTRE, QUE DEVO FAZER DE BOM...?" (MT 19,16)
Jesus Cristo e a resposta à questão moral
"Aproximou-se d'Ele um jovem... " (Mt 19, 16)
6. O diálogo de Jesus com o jovem rico, narrado no capítulo
19 do Evangelho de S. Mateus, pode constituir uma válida pista
para ouvir novamente, de um modo vivo e incisivo, o Seu ensinamento moral:
"Aproximou-se d'Ele um jovem e disse-Lhe: "Mestre, que devo
fazer de bom para alcançar a vida eterna?". Jesus respondeu-lhe:
"Por que me interrogas sobre o que é bom? Um só é
bom. Mas se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos".
"Quais?" - perguntou-Lhe. Replicou Jesus: "Não matarás;
não cometerás adultério; não roubarás;
não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe;
e ainda, amarás o teu próximo como a ti mesmo". Disse-Lhe
o jovem: "Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?" Disse-lhe
Jesus: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus;
depois, vem e segue-Me"" (Mt 19, 16-21).13
7. "Aproximou-se d'Ele um jovem... ". No jovem, que o Evangelho
de Mateus deixa sem nome, podemos reconhecer cada homem que, conscientemente
ou não, se aproxima de Cristo, Redentor do homem, e lhe coloca
a questão moral. Para o jovem, mais do que uma pergunta sobre as
normas a observar, trata- -se de uma questão de plenitude de significado
para a vida. Esta é efectivamente a aspiração que
está no âmago de cada decisão e de cada acção
humana, a inquietude secreta e o impulso íntimo que movem a liberdade.
Esta pergunta é, em última análise, um apelo ao Bem
absoluto que nos atrai e chama para Si, é o eco de uma vocação
de Deus, origem e fim da vida do homem. Precisamente nesta perspectiva,
o Concílio Vaticano II convidou a aperfeiçoar a teologia
moral de modo que a sua exposição ilustre a sublime vocação
que os fiéis receberam em Cristo,14 única resposta que sacia
plenamente o anseio do seu coração humano.
Para que os homens possam realizar este "encontro" com Cristo,
Deus quis a sua Igreja. Ela, de facto, "deseja servir esta única
finalidade: que cada homem possa encontrar Cristo, a fim de que Cristo
possa percorrer juntamente com cada homem o caminho da vida".15
"Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?"
(Mt 19, 16)
8. Do fundo do coração surge a pergunta que o jovem rico
dirige a Jesus de Nazaré, uma pergunta essencial e irresistível
na vida de cada homem: refere-se, de facto, ao bem moral a praticar e
à vida eterna. O interlocutor de Jesus intui que existe um nexo
entre o bem moral e a plena realização do próprio
destino. Trata-se de um piedoso israelita que cresceu, por assim dizer,
à sombra da Lei do Senhor. Podemos imaginar que, se faz esta pergunta
a Jesus, não é por ignorar a resposta contida na Lei. É
mais provável que o fascínio da pessoa de Jesus tenha feito
surgir nele novas interrogações acerca do bem moral. Sente
a exigência de se confrontar com Aquele que tinha começado
a sua pregação com este novo e decisivo anúncio:
"Completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto: convertei-vos
e crede no Evangelho" (Mc 1, 15).
Impõe-se que o homem de hoje se volte novamente para Cristo, a
fim de obter d'Ele a resposta sobre o que é bem e o que é
mal. Ele é o Mestre, o Ressuscitado que possui em Si a vida e que
sempre está presente na sua Igreja e no mundo. É Ele que
desvenda aos fiéis o livro das Escrituras e, revelando plenamente
a vontade do Pai, ensina a verdade sobre o agir moral. Cristo, fonte e
vértice da economia da salvação, Alfa e Ómega
da história humana (cf. Ap 1, 8; 21, 6; 22, 13), revela a condição
do homem e a sua vocação integral. Por isso, "o homem
que quiser compreender-se a si mesmo profundamente - não apenas
segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até
mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio
ser - deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e
pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo.
Deve, por assim dizer, entrar n'Ele com tudo o que é em si mesmo,
deve "apropriar-se" e assimilar toda a realidade da Encarnação
e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem
se actuar este processo profundo, então ele produz frutos, não
somente de adoração de Deus, mas também de profunda
maravilha perante si próprio".16
Se quisermos então penetrar no âmago da moral evangélica
e identificar o seu conteúdo profundo e imutável, devemos
procurar diligentemente o sentido da questão posta pelo jovem rico
do Evangelho e, mais ainda, o sentido da resposta de Jesus, deixando-
-nos guiar por Ele. De facto, Jesus, com delicado tacto pedagógico,
responde conduzindo o jovem quase pela mão, passo a passo, em direcção
à verdade plena.
"Um só é bom" (Mt 19, 17)
9. Jesus diz: "Por que me interrogas sobre o que é bom? Um
só é bom. Mas se queres entrar na vida eterna, cumpre os
mandamentos" (Mt 19, 17). Na versão dos evangelistas Marcos
e Lucas, a pergunta aparece assim formulada: "Por que Me chamas bom?
Ninguém é bom, senão só Deus" (Mc 10,
18; cf. Lc 18, 19).
Antes de responder à pergunta, Jesus quer que o jovem se esclareça
a si próprio sobre o motivo por que O interroga. O "bom Mestre"
indica ao seu interlocutor - e a todos nós - que a resposta à
questão "que devo fazer de bom para alcançar a vida
eterna?", apenas pode ser encontrada dirigindo a mente e o coração
para Aquele que "só é bom": "Ninguém
é bom, senão só Deus" (Mc 10, 18; cf. Lc 18,
19). Só Deus pode responder à questão sobre o bem,
porque Ele é o Bem.
Interrogar-se sobre o bem, com efeito, significa dirigir-se em última
análise a Deus, plenitude da bondade. Jesus mostra que a pergunta
do jovem é, na verdade, uma pergunta religiosa, e que a bondade
que atrai e simultaneamente vincula o homem, tem a sua fonte em Deus,
mais, é o próprio Deus, o único que é digno
de ser amado "com todo o coração, com toda a alma e
com toda a mente" (Mt 22, 37), Aquele que é a fonte da felicidade
do homem. Jesus reconduz a questão da acção moralmente
boa às suas raízes religiosas, ao reconhecimento de Deus,
única bondade, plenitude da vida, termo último do agir humano,
felicidade perfeita.
10. A Igreja, instruída pelas palavras do Mestre, crê que
o homem, feito à imagem do Criador, redimido pelo Sangue de Cristo
e santificado pela presença do Espírito Santo, tem como
fim último da sua vida ser "para louvor da glória"
de Deus (cf. Ef 1, 12), vivendo de modo que cada uma das suas acções
irradie o Seu esplendor. "Conhece-te, pois, a ti mesma, ó
alma bela: tu és a imagem de Deus - escreve S. Ambrósio.
Conhece-te a ti mesmo, ó homem: tu és a glória de
Deus (1 Cor 11, 7). Escuta de que modo és a sua glória.
Diz o profeta: Admirável se tornou a Vossa ciência que irradia
de mim (Sal 138, 6), ou seja: nas minhas obras, a vossa majestade é
mais admirável, a vossa sabedoria é exaltada na mente do
homem. Ao debruçar-me sobre mim mesmo, que Vós perscrutais
até nos pensamentos secretos e nos íntimos sentimentos,
eu reconheço os mistérios da vossa ciência. Conhece-te,
pois, a ti mesmo, ó homem, quão grande és, e vigia
sobre ti... ".17
Aquilo que o homem é e deve fazer, manifesta-se no momento em que
Deus se revela a Si próprio. O Decálogo, com efeito, baseia-se
sobre estas palavras: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair
do Egipto, de uma casa de escravidão. Não terás outro
deus além de mim" (Êx 20, 2-3). Nas "dez palavras"
da Aliança com Israel e em toda a Lei, Deus dá-se a conhecer
e identifica-se como Aquele que "só é bom"; como
Aquele que, não obstante o pecado do homem, continua sendo o "modelo"
do agir moral, conforme o Seu próprio apelo: "Sede santos,
porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo" (Lv 19, 2); como Aquele
que, fiel ao Seu amor pelo homem, lhe dá a Sua Lei (cf. Êx
19, 9-24; 20, 18-21), para restabelecer a harmonia original com o Criador
e com toda a criação, e mais ainda, para introduzi-lo no
Seu amor: "Caminharei no meio de vós, serei o vosso Deus,
e vós sereis o meu povo" (Lv 26, 12).
A vida moral apresenta-se como a resposta devida às iniciativas
gratuitas que o amor de Deus multiplica em favor do homem. É uma
resposta de amor, segundo o enunciado que o Deuteronómio faz do
mandamento fundamental: "Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso
Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas
as tuas forças. Estes mandamentos que hoje te imponho serão
gravados no teu coração. Ensiná- -los-ás aos
teus filhos" (Dt 6, 4-7). Assim a vida moral, implicada na gratuidade
do amor de Deus, é chamada a reflectir a Sua glória: "Para
quem ama a Deus, basta-lhe agradar Àquele que ama, uma vez que
não se deve procurar qualquer outra recompensa maior do que o próprio
amor; a caridade, de facto, provém de Deus de modo tal que o próprio
Deus é caridade".18
11. A afirmação de que "um só é bom"
reconduz-nos assim à "primeira tábua" dos mandamentos,
que convida a reconhecer Deus como Senhor único e absoluto e só
a Ele prestar culto, por causa da Sua santidade infinita (cf. Êx
20, 2-11). O bem consiste em pertencer a Deus, obedecer-Lhe, caminhar
humildemente com Ele, praticando a justiça e amando a piedade (cf.
Miq 6, 8). Reconhecer o Senhor como Deus é o núcleo fundamental,
o coração da Lei, do qual derivam e para o qual se ordenam
os preceitos particulares. É através da moral dos mandamentos
que se manifesta a pertença do povo de Israel ao Senhor, porque
só Deus é Aquele que é bom. Este é o testemunho
da Sagrada Escritura, permeada, em cada uma das suas páginas, pela
viva percepção da absoluta santidade de Deus: "Santo,
Santo, Santo é o Senhor dos exércitos" (Is 6, 3).
Mas, se só Deus é o Bem, nenhum esforço humano, nem
sequer a observância mais rigorosa dos mandamentos, consegue "cumprir"
a Lei, isto é, reconhecer o Senhor como Deus e prestar-Lhe a adoração
que só a Ele é devida (cf. Mt 4, 10). O "cumprimento"
pode vir apenas de um dom de Deus: é a oferta de uma participação
na Bondade divina que se revela e comunica em Jesus, Aquele a quem o jovem
rico designa com os termos "bom Mestre" (Mc 10, 17; Lc 18, 18).
Aquilo que por agora o jovem talvez consegue somente intuir, ser-lhe-á
no fim plenamente revelado pelo próprio Jesus no convite: "Vem
e segue-Me" (Mt 19, 21).
"Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos" (Mt
19, 17)
12. Só Deus pode responder à pergunta sobre o bem, porque
Ele é o Bem. Mas Deus respondeu já a esta pergunta: fê-lo,
criando o homem e ordenando-o com sabedoria e amor ao seu fim, mediante
a lei inscrita no seu coração (cf. Rm 2, 15), a "lei
natural". Esta "não é mais do que a luz da inteligência
infundida por Deus em nós. Graças a ela, conhecemos o que
se deve cumprir e o que se deve evitar. Esta luz e esta lei, Deus as concedeu
na criação".19 Fê-lo, depois, na história
de Israel, particularmente com as "dez palavras", ou seja, os
mandamentos do Sinai, pelos quais Ele fundou a existência do povo
da Aliança (cf. Êx 24) e chamou-o a ser sua "propriedade
entre todos os povos", "uma nação santa"
(Êx 19, 5-6), que fizesse resplandecer a Sua santidade no meio de
todas as nações (cf. Sab 18, 4; Ez 20, 41). O dom do Decálogo
é promessa e sinal da Nova Aliança, quando a lei for nova
e definitivamente escrita no coração do homem (cf. Jer 31,
31-34), substituindo a lei do pecado, que aquele coração
tinha deturpado (cf. Jer 17, 1). Então será dado "um
coração novo", porque nele habitará "um
espírito novo", o Espírito de Deus (cf. Ez 36, 24-28).20
Por isso, depois do importante esclarecimento "Um só é
bom", Jesus responde ao jovem: "Se queres entrar na vida eterna,
guarda os mandamentos" (Mt 19, 17). Deste modo, enuncia-se uma estreita
relação entre a vida eterna e a obediência aos mandamentos
de Deus: são estes que indicam ao homem o caminho da vida e a ela
conduzem. Pela boca de Jesus, novo Moisés, são entregues
novamente aos homens os mandamentos do Decálogo; Ele mesmo os confirma
definitivamente e no-los propõe como caminho e condição
de salvação. O mandamento está unido a uma promessa:
o objecto da promessa, na Antiga Aliança, era a posse de uma terra
onde o povo pudesse viver uma existência em liberdade e conforme
à justiça (cf. Dt 6, 20-25); na Nova Aliança, o objecto
da promessa é o "reino dos céus", como Jesus afirma
ao início do "Discurso da Montanha" - discurso que contém
a formulação mais ampla e completa da Nova Lei (cf. Mt 5-7),
em conexão evidente com o Decálogo confiado por Deus a Moisés
no monte Sinai. À realidade mesma do Reino se refere a expressão
"vida eterna", que é participação na própria
vida de Deus: só depois da morte se realizará em toda a
sua perfeição, mas, pela fé, ela já é
agora luz de verdade, fonte de sentido para a vida, participação
inicial da sua plenitude no seguimento de Cristo. De facto, Jesus diz
aos discípulos, depois do encontro com o jovem rico: "Todo
aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe,
mulher, filhos ou terras por causa do Meu nome, receberá cem vezes
mais e terá por herança a vida eterna" (Mt 19, 29).
13. A resposta de Jesus não basta ao jovem, que insiste interrogando
o Mestre sobre os mandamentos a observar: ""Quais?" - perguntou
ele" (Mt 19, 18). Pede o que deve fazer na vida para pôr em
evidência o reconhecimento da santidade de Deus. Depois de ter orientado
o olhar do jovem para Deus, Jesus lembra- -lhe os mandamentos do Decálogo
que se referem ao próximo: "Replicou Jesus: "Não
matarás; não cometerás adultério; não
roubarás; não levantarás falso testemunho; honra
teu pai e tua mãe; e ainda, amarás o teu próximo
como a ti mesmo"" (Mt 19, 18-19).
Pelo contexto do diálogo e especialmente pela comparação
do texto de Mateus com as passagens paralelas de Marcos e de Lucas, vê-se
que Jesus não pretende enumerar todos e cada um dos mandamentos
necessários para "entrar na vida", mas sobretudo, remeter
o jovem para a "centralidade" do Decálogo relativamente
a qualquer outro preceito, como interpretação daquilo que
significa para o homem "Eu sou o Senhor, teu Deus". De qualquer
modo, não podem escapar à nossa atenção os
mandamentos da Lei que o Senhor Jesus lembra ao jovem: são alguns
que pertencem à designada "segunda Tábua" do Decálogo,
cujo resumo (cf. Rm 13, 8-10) e fundamento é o mandamento do amor
ao próximo: "Ama o teu próximo como a ti mesmo"
(Mt 19, 19; cf. Mc 12, 31). Neste mandamento, exprime-se precisamente
a singular dignidade da pessoa humana, que é "a única
criatura na terra a ser querida por Deus por si mesma".21 De facto,
os diversos mandamentos do Decálogo não são mais
do que a refracção do único mandamento referente
ao bem da pessoa, ao nível dos múltiplos bens que revelam
a sua identidade de ser espiritual e corpóreo, em relação
com Deus, com o próximo e com o mundo das coisas. Como lemos no
Catecismo da Igreja Católica, "os Dez Mandamentos fazem parte
da revelação de Deus. Mas, ao mesmo tempo, ensinam-nos a
verdadeira humanidade do homem. Põem em relevo os deveres essenciais
e, por conseguinte, indirectamente, os direitos fundamentais inerentes
à natureza da pessoa humana".22
Os mandamentos, lembrados por Jesus ao jovem interlocutor, destinam-se
a tutelar o bem da pessoa, imagem de Deus, mediante a protecção
dos seus bens. "Não matarás, não cometerás
adultério, não roubarás, não levantarás
falso testemunho" são normas morais formuladas em termos de
proibição. Os preceitos negativos exprimem, com uma força
particular, a exigência irreprimível de proteger a vida humana,
a comunhão das pessoas no matrimónio, a propriedade privada,
a veracidade e a boa fama.
Os mandamentos representam, portanto, a condição básica
para o amor ao próximo; e são, ao mesmo tempo, a sua confirmação.
Constituem a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade,
o seu início: "A primeira liberdade - escreve S. Agostinho
- consiste em estar isento de crimes (...) como são o homicídio,
o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio
e assim por diante. Quando alguém principia a não ter estes
crimes (e nenhum cristão os deve ter), começa a levantar
a cabeça para a liberdade, mas isto é apenas o início
da liberdade, não a liberdade perfeita... ".23
14. Certamente isto não significa que Jesus queira dar precedência
ao amor do próximo ou até separá-lo do amor de Deus.
Testemunha-o o seu diálogo com o doutor da Lei: a este, que faz
uma pergunta muito semelhante à do jovem, Jesus recorda-lhe os
dois mandamentos do amor de Deus e do amor do próximo (cf. Lc 10,
25-27), e lembra-lhe que somente o seu cumprimento conduz à vida
eterna: "Faz isso e viverás" (Lc 10, 28). No entanto,
é significativo que seja precisamente o segundo destes mandamentos
a suscitar a curiosidade e a pergunta do doutor da Lei: "E quem é
o meu próximo?" (Lc 10, 29). O Mestre responde com a parábola
do bom Samaritano, a parábola-chave para a plena compreensão
do mandamento do amor ao próximo (cf. Lc 10, 30-37).
Os dois mandamentos, de que "depende toda a Lei e os Profetas"
(Mt 22, 40), estão profundamente unidos entre si e compenetram-se
reciprocamente. A sua unidade indivisível é testemunhada
por Jesus com as palavras e a vida: a sua missão culmina na Cruz
que redime (cf. Jo 3, 14-15), sinal do Seu amor indiviso ao Pai e à
humanidade (cf. Jo 13, 1).
Tanto o Antigo como o Novo Testamento afirmam explicitamente que sem o
amor ao próximo, concretizado na observância dos mandamentos,
não é possível o autêntico amor a Deus. S.
João escreve-o com um vigor extraordinário: "Se alguém
disser: "Eu amo a Deus", mas odiar a seu irmão, é
mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, ao qual vê,
como pode amar a Deus, que não vê?" (1 Jo 4, 20). O
evangelista faz-se eco da pregação moral de Cristo, expressa
de um modo admirável e inequívoco na parábola do
bom Samaritano (cf. Lc 10, 30-37) e no "discurso" do juízo
final (cf. Mt 25, 31-46).
15. No "Discurso da Montanha" que constitui a magna charta da
moral evangélica,24 Jesus diz: "Não penseis que vim
revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogá-la, mas completá-la"
(Mt 5, 17). Cristo é a chave das Escrituras: "Vós esquadrinhais
as Escrituras: elas dão testemunho de Mim" (cf. Jo 5, 39);
é o centro da economia da salvação, a recapitulação
do Antigo e do Novo Testamento, das promessas da Lei e do seu cumprimento
no Evangelho; é o elo vivo e eterno entre a Antiga e a Nova Aliança.
Ao comentar a afirmação de Paulo "o termo da lei é
Cristo" (Rm 10, 4), Santo Ambrósio escreve: "Fim, não
enquanto carência, mas como plenitude da lei: esta realiza-se em
Cristo (plenitudo legis in Christo est), uma vez que Ele veio, não
para ab-rogar a lei, mas para levá-la a cumprimento. Da mesma forma
que há um Antigo Testamento, mas a verdade total está contida
dentro do Novo Testamento, assim se dá com a lei: aquela que foi
dada através de Moisés é figura da verdadeira lei.
Portanto, a lei mosaica é cópia da verdade".25
Jesus leva a cumprimento os mandamentos de Deus, nomeadamente o mandamento
do amor ao próximo, interiorizando e radicalizando as suas exigências:
o amor ao próximo nasce de um coração que ama, e,
precisamente porque ama, está disposto a viver as mais elevadas
exigências. Jesus mostra que os mandamentos não devem ser
entendidos como um limite mínimo a não ultrapassar, mas
antes, como uma estrada aberta para um caminho moral e espiritual de perfeição,
cuja alma é o amor (cf. Col 3, 14). Assim, o mandamento "Não
matarás" torna-se apelo a um amor solícito que tutela
e promove a vida do próximo; o preceito que proibe o adultério
torna-se convite a um olhar puro, capaz de respeitar o significado esponsal
do corpo: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás;
aquele que matar está sujeito a ser condenado. Eu, porém,
digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu
perante o tribunal (...) Ouvistes que foi dito: Não cometerás
adultério; eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar
para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela
no seu coração" (Mt 5, 21-22.27-28). O próprio
Jesus é o "cumprimento" vivo da Lei, visto que Ele realiza
o seu significado autêntico com o dom total de Si: Ele mesmo se
torna Lei viva e pessoal que convida ao seu seguimento, dá, mediante
o Espírito, a graça de partilhar a Sua própria vida
e amor, e oferece a força para O testemunhar nas opções
e nas obras (cf. Jo 13, 34-35).
"Se queres ser perfeito" (Mt 19, 21)
16. A resposta sobre os mandamentos não satisfaz o jovem, que pergunta
a Jesus: "Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda? " (Mt
19, 20). Não é fácil dizer em sã consciência:
"tenho cumprido tudo isto", quando se começa a compreender
o alcance efectivo das exigências contidas na Lei de Deus. E contudo,
mesmo sendo-lhe possível dar semelhante resposta, mesmo tendo seguido
o ideal moral com seriedade e generosidade desde a sua infância,
o jovem rico sabe que está ainda longe da meta: diante da pessoa
de Jesus, percebe que ainda lhe falta alguma coisa. É à
consciência desta insuficiência que se dirige Jesus, na Sua
última resposta: aproveitando a nostalgia de uma plenitude que
supere a interpretação legalista dos mandamentos, o bom
Mestre convida o jovem a tomar a estrada da perfeição: "Se
queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá
o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois,
vem e segue-Me" (Mt 19, 21).
Tal como já sucedeu na passagem precedente da resposta de Jesus,
também esta deve ser lida e interpretada no contexto de toda a
mensagem moral do Evangelho e, especialmente, no contexto do Discurso
da Montanha, das bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12), a primeira
das quais é precisamente a bem-aventurança dos pobres, dos
"pobres em espírito", como esclarece S. Mateus (Mt 5,
3), ou seja, dos humildes. Neste sentido, pode-se dizer que também
as bem-aventuranças entram no espaço aberto pela resposta
de Jesus à pergunta do jovem: "Que devo fazer de bom para
alcançar a vida eterna?". De facto, cada bem-aventurança
promete, desde uma particular perspectiva, precisamente aquele "bem"
que abre o homem à vida eterna, mais, que é a própria
vida eterna.
As bem-aventuranças não têm propriamente por objecto
normas particulares de comportamento, mas falam de atitudes e disposições
de fundo da existência e, portanto, não coincidem exactamente
com os mandamentos. Por outro lado, não há separação
ou oposição entre as bem-aventuranças e os mandamentos:
ambos se referem ao bem, à vida eterna. O Discurso da Montanha
começa pelo anúncio das bem-aventuranças, mas contém
também a referência aos mandamentos (cf. Mt 5, 20-48). Ao
mesmo tempo, esse Discurso mostra a abertura e a orientação
dos mandamentos para a perspectiva da perfeição, própria
das bem-aventuranças. Estas são, antes de tudo, promessas,
das quais de modo indirecto derivam também indicações
normativas para a vida moral. Na sua profundidade original, são
uma espécie de auto-retrato de Cristo e, precisamente por isso,
constituem convites ao Seu seguimento e à comunhão de vida
com Ele.26
17. Não sabemos até que ponto o jovem do Evangelho tenha
compreendido o conteúdo profundo e exigente da primeira resposta
dada por Jesus: "Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos";
certo é, porém, que o compromisso professado pelo jovem
a respeito de todas as exigências morais dos mandamentos, constitui
o terreno indispensável onde poderá germinar e amadurecer
o desejo da perfeição, ou seja, da realização
do seu sentido mais amplo no seguimento de Cristo. O diálogo de
Jesus com o jovem ajuda-nos a identificar as condições necessárias
para o crescimento moral do homem chamado à perfeição:
o jovem, que observou todos os mandamentos, mostra-se incapaz de, unicamente
com as suas forças, dar o passo seguinte. Para o conseguir, são
precisos uma liberdade humana amadurecida: "Se queres", e o
dom divino da graça: "Vem, e segue-Me".
A perfeição exige aquela maturidade no dom de si, a que
é chamada a liberdade do homem. Jesus indica ao jovem os mandamentos
como a primeira condição imprescindível para obter
a vida eterna; o abandono de tudo quanto o jovem possui e o seguimento
do Senhor assumem, pelo contrário, o carácter de uma proposta:
"Se queres... ". A palavra de Jesus revela a dinâmica
particular do crescimento da liberdade em direcção à
sua maturidade e, ao mesmo tempo, comprova a relação fundamental
da liberdade com a lei divina. A liberdade do homem e a lei de Deus não
se opõem, pelo contrário, reclamam-se mutuamente. O discípulo
de Cristo sabe que a sua é uma vocação para a liberdade.
"Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade"
(Gál 5, 13), proclama com alegria e orgulho o apóstolo Paulo.
Mas logo precisa: "Não tomeis, porém, a liberdade como
pretexto para servir a carne. Pelo contrário, fazei-vos servos
uns dos outros pela caridade" (ibid.). A firmeza com que o Apóstolo
se opõe a quem confia a própria justificação
à Lei, nada tem a ver com a "libertação"
do homem dos preceitos, os quais, pelo contrário, estão
ao serviço da prática do amor: "Pois quem ama o próximo
cumpre a Lei. Com efeito, o preceito: Não cometerás adultério,
não matarás, não furtarás, não cobiçarás
e qualquer um dos outros mandamentos resumem-se nestas palavras: Amarás
o próximo como a ti mesmo" (Rm 13, 8-9). O mesmo S. Agostinho,
depois de ter falado da observância dos mandamentos como sendo a
primeira e imperfeita liberdade, assim continua: "Não é
ainda perfeita, por quê? - perguntará alguém. Porque
"sinto nos meus membros uma outra lei em conflito com a lei da minha
razão" (...) Liberdade parcial, parcial escravidão:
a liberdade ainda não é completa, não é ainda
pura, não é ainda plena, porque ainda não estamos
na eternidade. Conservamos, em parte, a fraqueza, e, em parte, alcançamos
já a liberdade. Todos os nossos pecados foram destruídos
no baptismo, mas porventura desapareceu a fraqueza, depois de ter sido
destruída a iniquidade? Se aquela tivesse desaparecido, viver-se-ia
na terra sem pecado. Quem ousará afirmar isto a não ser
o soberbo ou quem é indigno da misericórdia do libertador?
(...) Ora, uma vez que ficou em nós alguma fraqueza, ouso dizer
que, na medida em que servimos a Deus somos livres, mas somos escravos
na medida em que seguimos a lei do pecado".27
18. Quem vive "segundo a carne" sente a lei de Deus como um
peso, mais, como uma negação ou, pelo menos, uma restrição
da própria liberdade. Ao contrário, quem é animado
pelo amor e "caminha segundo o Espírito" (Gál
5, 16) e deseja servir os outros, encontra na lei de Deus o caminho fundamental
e necessário para praticar o amor, livremente escolhido e vivido.
Mais ainda, ele percebe a urgência interior - uma verdadeira e própria
"necessidade", e não já uma imposição
- de não se deter nas exigências mínimas da lei, mas
de vivê-las em toda a sua "plenitude". É um caminho
ainda incerto e frágil, enquanto estivermos na terra, mas tornado
possível pela graça que nos outorga a posse da plena liberdade
dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21) e, portanto, de responder na vida moral
à sublime vocação de ser "filhos no Filho".
Esta vocação ao amor perfeito não está reservada
só para um círculo de pessoas. O convite "vai, vende
tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres" com
a promessa "terás um tesouro no céu", dirige-se
a todos, porque é uma radicalização do mandamento
do amor ao próximo, assim como o convite posterior "vem e
segue-Me" é a nova forma concreta do mandamento do amor de
Deus. Os mandamentos e o convite de Jesus ao jovem rico estão ao
serviço de uma única e indivisível caridade, que
espontaneamente tende à perfeição, cuja medida é
só Deus: "Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o
vosso Pai celeste" (Mt 5, 48). No Evangelho de S. Lucas, Jesus precisa
ainda mais o sentido desta perfeição: "Sede misericordiosos,
como também o vosso Pai é misericordioso" (Lc 6, 36).
"Vem e segue-Me" (Mt 19, 21)
19. O caminho e, simultaneamente, o conteúdo desta perfeição
consiste na sequela Christi, no seguir Jesus, depois de ter renunciado
aos próprios bens e a si mesmo. Esta é precisamente a conclusão
do diálogo de Jesus com o jovem: "Depois, vem e segue-Me"
(Mt 19, 21). É um convite, cuja maravilhosa profundidade será
plenamente compreendida pelos discípulos só depois da ressurreição
de Cristo, quando o Espírito Santo os guiar para a verdade total
(cf. Jo 16, 13).
É o próprio Jesus que toma a iniciativa, chamando para O
seguir. O apelo é feito, antes de mais, àqueles a quem Ele
confia uma missão particular, a começar pelos Doze; mas
vê-se claramente também que ser discípulo de Cristo
é a condição de todo o crente (cf. Act 6, 1). Por
isso, seguir Cristo é o fundamento essencial e original da moral
cristã: como o povo de Israel seguia Deus que o conduzia no deserto
rumo à Terra Prometida (cf. Êx 13, 21), assim o discípulo
deve seguir Jesus, para o Qual é atraído pelo próprio
Pai (cf. Jo 6, 44).
Aqui não se trata apenas de dispor-se a ouvir um ensinamento e
de acolher na obediência um mandamento. Trata-se, mais radicalmente,
de aderir à própria pessoa de Cristo, de compartilhar a
sua vida e o seu destino, de participar da sua obediência livre
e amorosa à vontade do Pai. Seguindo, mediante a resposta da fé,
Aquele que é a Sabedoria encarnada, o discípulo de Jesus
torna-se verdadeiramente discípulo de Deus (cf. Jo 6, 45). De facto,
Jesus é a luz do mundo, a luz da vida (cf. Jo 8, 12); é
o pastor que guia e alimenta as ovelhas (cf. Jo 10, 11-16), é o
caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14, 6), é Aquele que conduz
ao Pai, ao ponto que vê-Lo a Ele, o Filho, é ver o Pai (cf.
Jo 14, 6-10). Portanto, imitar o Filho, "a imagem do Deus invisível"
(Col 1, 15), significa imitar o Pai.
20. Jesus pede para O seguir e imitar pelo caminho do amor, de um amor
que se dá totalmente aos irmãos por amor de Deus: "O
meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, como eu vos
amei" (Jo 15, 12). Este "como" exige a imitação
de Jesus, do seu amor, de que o lava-pés é sinal: "Se
eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós
deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que,
como eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13,
14-15). O comportamento de Jesus e a Sua palavra, as Suas acções
e os Seus preceitos constituem a regra moral da vida cristã. De
facto, estas suas acções e, particularmente, a sua paixão
e morte na cruz são a revelação viva do Seu amor
pelo Pai e pelos homens. É precisamente este amor que Jesus pede
seja imitado por quantos O seguem. Este é o mandamento "novo":
"Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim
como eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros.
É por isto que todos saberão que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros" (Jo 13, 34-35).
Este "como" indica também a medida com que Jesus amou,
e com a qual os seus discípulos se devem amar entre si. Depois
de ter dito: "O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos
outros,como eu vos amei" (Jo 15, 12), Jesus prossegue com as palavras
que indicam o dom sacrifical da sua vida na cruz, como testemunho de um
amor "até ao fim" (Jo 13, 1): "Ninguém tem
maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos"
(Jo 15, 13).
Ao chamar o jovem para O seguir pelo caminho da perfeição,
Jesus pede-lhe para ser perfeito no mandamento do amor, no "Seu"
mandamento: para inserir-se no movimento da Sua doação total,
para imitar e reviver o próprio amor do Mestre "bom",
d'Aquele que amou "até ao fim". É o que Jesus
pede a cada homem que quer segui-l'O: "Se alguém quiser vir
após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me"
(Mt 16, 24).
21. Seguir Cristo não é uma imitação exterior,
já que atinge o homem na sua profunda interioridade. Ser discípulo
de Jesus significa tornar-se conforme a Ele, que Se fez servo até
ao dom de Si sobre a cruz (cf. Fil 2, 5-8). Pela fé, Cristo habita
no coração do crente (cf. Ef 3, 17), e assim o discípulo
é assimilado ao seu Senhor e configurado com Ele. Isto é
fruto da graça, da presença operante do Espírito
Santo em nós.
Inserido em Cristo, o cristão torna-se membro do Seu Corpo, que
é a Igreja (cf. 1 Cor 12, 13.27). Sob o influxo do Espírito,
o Baptismo configura radicalmente o fiel a Cristo no mistério pascal
da morte e ressurreição, "reveste-o" de Cristo
(cf. Gál 3, 27): "Alegremo-nos e agradeçamos - exclama
S. Agostinho dirigindo-se aos baptizados -: tornamo-nos não apenas
cristãos, mas Cristo (...). Maravilhai-vos e regozijai: tornamo-nos
Cristo!".28 Morto para o pecado, o baptizado recebe a vida nova (cf.
Rm 6, 3-11): vivendo para Deus em Jesus Cristo, é chamado a caminhar
segundo o Espírito e a manifestar na vida os seus frutos (cf. Gál
5, 16-25). Depois a participação na Eucaristia, sacramento
da Nova Aliança (cf. 1 Cor 11, 23-29), é o ápice
da assimilação a Cristo, fonte de "vida eterna"
(cf. Jo 6, 51-58), princípio e força do dom total de si
mesmo, que Jesus - segundo o testemunho transmitido por S. Paulo - manda
rememorar na celebração e na vida: "Sempre que comerdes
este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor
até que Ele venha" (1 Cor 11, 26).
"A Deus tudo é possível" (Mt 19, 26)
22. Amarga é a conclusão do colóquio de Jesus com
o jovem rico: "Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque
possuía muitos bens" (Mt 19, 22). Não só o homem
rico, mas também os próprios discípulos se assustam
com o apelo de Jesus para O seguir, cujas exigências superam as
aspirações e as forças humanas: "Ao ouvir isto,
os discípulos ficaram estupefactos e disseram: "Quem pode
então salvar-se?"" (Mt 19, 25). Mas o Mestre faz apelo
ao poder de Deus: "Aos homens é impossível, mas a Deus
tudo é possível" (Mt 19, 26).
No mesmo capítulo do Evangelho de Mateus (19, 3-10), Jesus, ao
interpretar a Lei mosaica sobre o matrimónio, rejeita o direito
de repúdio, apoiando-se num "princípio" mais original
e autêntico que a Lei de Moisés: o desígnio primordial
de Deus sobre o homem, um desígnio para o qual o homem, após
o pecado, se tornou inadequado: "Por causa da dureza do vosso coração,
Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres, mas
ao princípio não foi assim" (Mt 19, 8). A chamada ao
"princípio" abala os discípulos, que comentam
com estas palavras: "Se essa é a situação do
homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!"
(Mt 19, 10). E Jesus, referindo-se especificamente ao carisma do celibato
"pelo Reino dos céus" (Mt 19, 12), mas enunciando uma
regra geral, apela para a nova e surpreendente possibilidade aberta ao
homem pela graça de Deus: "Ele respondeu-lhes: "Nem todos
compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado""
(Mt 19, 11).
Ao homem, não é possível imitar e reviver o amor
de Cristo unicamente com as suas forças. Torna-se capaz deste amor
somente em virtude de um dom recebido. Tal como o Senhor Jesus recebe
o amor do seu Pai, assim Ele, por Sua vez, comunica-o gratuitamente aos
discípulos: "Como o Pai Me amou, também Eu vos amei;
permanecei no Meu amor" (Jo 15, 9). O dom de Cristo é o Seu
Espírito, cujo "fruto" primeiro (cf. Gál 5, 22)
é a caridade: "O amor de Deus foi derramado em nossos corações,
pelo Espírito Santo, que nos foi concedido" (Rm 5, 5). S.
Agostinho pergunta- -se: "É o amor que nos faz cumprir os
mandamentos, ou é a observância dos mandamentos que faz nascer
o amor?". E responde: "Mas quem pode pôr em dúvida
que o amor precede a observância? Quem, de facto, não ama
está privado de motivações para cumprir os mandamentos".29
23. "A lei do Espírito de vida em Cristo Jesus, libertou-nos
da lei do pecado e da morte" (Rm 8, 2). Com estas palavras, o apóstolo
Paulo nos leva a considerar, na perspectiva da história da Salvação
que se cumpre em Cristo, a relação entre a Lei (antiga)
e a graça (nova Lei). Ele reconhece o papel pedagógico da
Lei, a qual permitindo ao homem pecador medir a sua fraqueza e retirando-lhe
a presunção da auto-suficiência, abre-o à invocação
e ao acolhimento da "vida no Espírito". Só nesta
vida nova é possível a prática dos mandamentos de
Deus. Com efeito, é pela fé em Cristo que fomos justificados
(cf. Rm 3, 28): a "justiça" que a Lei exige, mas não
pode dar a ninguém, encontra-a o crente manifestada e concedida
pelo Senhor Jesus. De forma admirável, o mesmo S. Agostinho sintetiza
a dialéctica paulina sobre a lei e a graça: "Portanto,
a lei foi dada para se invocar a graça; a graça foi dada
para que se observasse a lei".30
O amor e a vida segundo o Evangelho não podem ser pensados primariamente
em termos de preceito, porque o que eles pedem supera as forças
do homem: apenas são possíveis como fruto de um dom de Deus,
que restaura, cura e transforma o coração do homem através
da Sua graça: "Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés,
a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo 1,
17). Por isso, a promessa da vida eterna está unida ao dom da graça,
e o dom do Espírito que recebemos é já "penhor
da nossa herança" (cf. Ef 1, 14).
24. Revela-se assim a face autêntica e original do mandamento do
amor e da perfeição, à qual aquele se ordena: trata-se
de umapossibilidade aberta ao homem exclusivamente pela graça,
pelo dom de Deus, pelo Seu amor. Por outro lado, precisamente a consciência
de ter recebido o dom, de possuir em Jesus Cristo o amor de Deus, gera
e sustenta a resposta responsável de um amor total a Deus e entre
os irmãos, como insistentemente lembra o apóstolo João
na sua primeira Carta: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros,
porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece-O.
Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é
amor (...) Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nos
devemos amar uns aos outros (...) Nós amamo-Lo, porque Ele nos
amou primeiro" (1 Jo 4, 7-8. 11. 19).
Esta conexão indivisível entre a graça do Senhor
e a liberdade do homem, entre o dom e o dever, foi expressa, em termos
simples e profundos, por S. Agostinho, ao rezar assim: "Da quod iubes
et iube quod vis" (dá o que mandas e manda o que quiseres).31
O dom não diminui, mas reforça a exigência moral do
amor: "O Seu mandamento é este: que creiamos no nome de Seu
Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, como Ele nos mandou"
(1 Jo 3, 23). Só se pode "permanecer" no amor, com a
condição de observar os mandamentos, como afirma Jesus:
"Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, do
mesmo modo que Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço
no Seu amor" (Jo 15, 10).
Recolhendo aquilo que constitui o âmago da mensagem moral de Jesus
e da pregação dos Apóstolos, e repropondo numa síntese
admirável a grande tradição dos Padres do Oriente
e do Ocidente - particularmente de S. Agostinho 32 -, S. Tomás
pôde escrever que a Nova Lei é a graça do Espírito
Santo dada pela fé em Cristo.33 Os preceitos externos, de que,
aliás, fala o Evangelho, dispõem para esta graça
ou prolongam os seus efeitos na vida. De facto, a Nova Lei não
se contenta em dizer o que se deve fazer, mas dá também
a força "de praticar a verdade" (cf. Jo 3, 21). Ao mesmo
tempo, S. João Crisóstomo observou que a Nova Lei foi promulgada
precisamente quando o Espírito Santo desceu do céu no dia
de Pentecostes, e que os Apóstolos "não desceram do
monte trazendo em suas mãos, como Moisés, tábuas
de pedra; mas traziam o Espírito Santo em seus corações,
(...) tornados pela Sua graça uma lei viva, um livro com vida".34
"Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt
28, 20)
25. O colóquio de Jesus com o jovem rico continua, de certa forma,
em cada época da história, hoje também. A pergunta:
"Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?",
desabrocha no coração de cada homem, e é sempre Cristo
e unicamente Ele a oferecer a resposta plena e decisiva. O Mestre, que
ensina os mandamentos de Deus, que convida ao Seu seguimento e dá
a graça para uma vida nova, está sempre presente e operante
no meio de nós, como prometeu: "Eu estarei sempre convosco,
até ao fim do mundo" (Mt 28, 20). A contemporaneidade de Cristo
ao homem de cada época realiza-se no Seu corpo, que é a
Igreja. Por esta razão, o Senhor prometeu aos Seus discípulos
o Espírito Santo, que lhes haveria de "lembrar" e fazer
compreender os seus mandamentos (cf. Jo 14, 26) e seria o princípio
fontal de uma nova vida no mundo (cf. Jo 3, 5-8; Rm 8, 1-13).
As prescrições morais, emanadas por Deus na Antiga Aliança
e levadas à sua perfeição na Nova e Eterna Aliança
pela Pessoa mesma do Filho de Deus feito homem, devem ser fielmente conservadas
e permanentemente actualizadas nas diferentes culturas, ao longo da história.
A tarefa da sua interpretação foi confiada por Jesus aos
Apóstolos e aos seus sucessores, com a especial assistência
do Espírito da verdade: "Quem vos ouve é a Mim que
ouve" (Lc 10, 16). Com a luz e a força deste Espírito,
os Apóstolos cumpriram a missão de pregar o Evangelho e
de indicar a "via" do Senhor (cf. Act 18, 25), ensinando, antes
de mais, a seguir e a imitar Cristo: "Para mim, o viver é
Cristo" (Fil 1, 21).
26. Na catequese moral dos Apóstolos, a par de exortações
e indicações ligadas ao contexto histórico e cultural,
há um ensinamento ético com normas precisas de comportamento.
Comprovam-no as suas Cartas que contêm a interpretação,
guiada pelo Espírito Santo, dos preceitos do Senhor vividos nas
distintas circunstâncias culturais (cf. Rm 12-15; 1 Cor 11-14; Gál
5-6; Ef 4-6; Col 3-4; 1 Pd e Tg ). Incumbidos de pregar o Evangelho, os
Apóstolos, desde as origens da Igreja, movidos pela sua responsabilidade
pastoral, vigiaram sobre a rectidão da conduta dos cristãos,35
da mesma forma que vigiaram sobre a pureza da fé e sobre a transmissão
dos dons divinos através dos Sacramentos.36 Os primeiros cristãos,
provindos quer do povo judaico quer dos gentios, diferenciavam-se dos
pagãos não somente pela sua fé e pela liturgia, mas
também pelo testemunho da própria conduta moral, inspirada
na Nova Lei.37 De facto, a Igreja é, ao mesmo tempo, comunhão
de fé e de vida; a sua norma é "a fé que actua
pela caridade" (Gál 5, 6).
Nenhuma dilaceração deve atentar contra a harmonia entre
a fé e a vida: a unidade da Igreja é ferida não apenas
pelos cristãos que recusam ou alteram as verdades da fé,
mas também por aqueles que desconhecem as obrigações
morais a que o Evangelho os chama (cf. 1 Cor 5, 9-13). Os Apóstolos
recusaram, com decisão, qualquer ruptura entre o compromisso do
coração e os gestos que o exprimem e comprovam (cf. 1 Jo
2, 3-6). E, desde os tempos apostólicos, os Pastores da Igreja
denunciaram abertamente os modos de agir daqueles que eram fautores de
divisão com os seus ensinamentos ou com o seus comportamentos.38
27. Promover e guardar, na unidade da Igreja, a fé e a vida moral
é a tarefa confiada aos Apóstolos por Jesus (cf. Mt 28,
19-20), que continua no ministério dos seus sucessores. É
o que se encontra na Tradição viva, através da qual
- como ensina o Concílio Vaticano II - "a Igreja, na sua doutrina,
vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo
aquilo que ela é e tudo quanto acredita. Esta tradição
apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito
Santo".39 No Espírito, a Igreja acolhe e transmite a Escritura
como testemunho das "grandes coisas" que Deus faz na história
(cf. Lc 1, 49), confessa pela boca dos Padres e Doutores a verdade do
Verbo feito carne, põe em prática os preceitos e a caridade
na vida dos Santos e Santas e no sacrifício dos Mártires,
celebra a esperança na Liturgia: através da mesma Tradição,
os cristãos recebem "a voz do Evangelho que ressoa viva",40
como expressão fiel da sabedoria e da vontade divina.
Dentro da Tradição, desenvolve-se, com a assistência
do Espírito Santo, a interpretação autêntica
da lei do Senhor. O mesmo Espírito, que está na origem da
Revelação dos mandamentos e dos ensinamentos de Jesus, garante
que sejam santamente conservados, fielmente expostos e correctamente aplicados,
nos vários tempos e circunstâncias. Esta "actualização"
dos mandamentos é sinal e fruto de uma penetração
mais profunda da Revelação, e de uma compreensão
à luz da fé das novas situações históricas
e culturais. Todavia, aquela não pode deixar de confirmar a validade
da Revelação, inserindo-se no sulco da interpretação
dada pela grande Tradição de ensinamento e vida da Igreja,
que tem como testemunhas a doutrina dos Padres, a vida dos Santos, a liturgia
da Igreja e o ensinamento do Magistério.
Mais em particular, como afirma o Concílio, "o encargo de
interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida pela
Tradição foi confiado unicamente ao Magistério vivo
da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo".41
Assim a Igreja, na sua vida e ensinamento, apresenta-se como "coluna
e sustentáculo da verdade" (1 Tim 3, 15), inclusive da verdade
sobre o agir moral. De facto, "à Igreja compete anunciar sempre
e em toda a parte os princípios morais, mesmo de ordem social,
bem como emitir juízo acerca de quaisquer realidades humanas, na
medida em que o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana ou a
salvação das almas".42
Precisamente sobre as questões que caracterizam hoje o debate moral
e à volta das quais se desenvolveram novas tendências e teorias,
o Magistério, por fidelidade a Jesus Cristo e em continuidade com
a tradição da Igreja, sente com maior urgência o dever
de oferecer o próprio discernimento e ensinamento, para ajudar
o homem no seu caminho em busca da verdade e da liberdade.
II
"NÃO VOS CONFORMEIS COM A MENTALIDADE DESTE MUNDO" (RM
12,2)
A Igreja e o discernimento de algumas tendências da teologia moral
hodierna
Ensinar o que é conforme à sã doutrina (cf. Tit 2,
1)
28. A meditação do diálogo entre Jesus e o jovem
rico permitiu-nos recolher os conteúdos essenciais da Revelação
do Antigo e do Novo Testamento sobre o agir moral. Ou sejam: a subordinação
do homem e da sua acção a Deus, Aquele que "só
é bom"; a relação entre o bem moral dos actos
humanos e a vida eterna; o seguimento de Cristo, que abre ao homem a perspectiva
do amor perfeito; e, enfim, o dom do Espírito Santo, fonte e auxílio
da vida moral da "nova criatura" (cf. 2 Cor 5, 17).
Na sua reflexão moral, a Igreja teve constantemente presente as
palavras, que Jesus dirigiu ao jovem rico. A Sagrada Escritura, de facto,
permanece a fonte viva e fecunda da doutrina moral da Igreja, como recordou
o Concílio Vaticano II: "O Evangelho é (...) fonte
de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes".43
Aquela conservou fielmente aquilo que a palavra de Deus ensina, tanto
acerca das verdades a acreditar, como sobre o agir moral, isto é,
o agir agradável a Deus (cf. 1 Ts 4, 1), realizando um progresso
doutrinal análogo ao verificado no âmbito das verdades da
fé. Assistida pelo Espírito Santo que a guia para a verdade
total (cf. Jo 16, 13), a Igreja nunca cessou, nem poderá cessar,
de perscrutar o "mistério do Verbo encarnado", no qual
"se esclarece verdadeiramente o mistério do homem".44
29. A reflexão moral da Igreja, sempre realizada à luz de
Cristo, o "bom Mestre", desenvolveu-se também na forma
específica de ciência teológica, chamada "teologia
moral", uma ciência que acolhe e interroga a Revelação
divina e, ao mesmo tempo, responde às exigências da razão
humana. A teologia moral é uma reflexão que se refere à
"moralidade", ou seja, ao bem e ao mal dos actos humanos e da
pessoa que os realiza, e neste sentido está aberta a todos os homens;
mas é também "teologia", enquanto reconhece o
princípio e o fim do agir moral n'Aquele que "só é
bom" e que, doando-Se ao homem em Cristo, lhe oferece a bem-aventurança
da vida divina.
O Concílio Vaticano II convidou os estudiosos a porem "especial
cuidado em aperfeiçoar a teologia moral, cuja exposição
científica, mais alimentada pela Sagrada Escritura, deve revelar
a grandeza da vocação dos fiéis em Cristo e a sua
obrigação de dar frutos na caridade para a vida do mundo".45
O mesmo Concílio convidou os teólogos "a buscar constantemente,
de acordo com os métodos e exigências próprias do
conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina
aos homens do seu tempo; porque uma coisa é o depósito da
fé ou as suas verdades, outra, o modo como elas se enunciam, sempre,
porém, com o mesmo sentido e significado".46 Daí o
posterior convite, lançado a todos os fiéis, mas dirigido
particularmente aos teólogos: "vivam, pois, os fiéis
em estreita união com os demais homens do seu tempo, e procurem
compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime
pela cultura".47
O esforço de muitos teólogos, incentivados pelo encorajamento
do Concílio, já deu os seus frutos com interessantes e úteis
reflexões sobre as verdades da fé a crer e a aplicar na
vida, apresentadas de forma mais adequada à sensibilidade e às
questões dos homens do nosso tempo. A Igreja e, em particular,
os Bispos, a quem Jesus Cristo confiou primariamente o ministério
de ensinar, acolham com gratidão um tal esforço e estimulem
os teólogos a prosseguirem o trabalho, animados por um profundo
e autêntico temor do Senhor, que é o princípio da
sabedoria (cf. Prov 1, 7).
Ao mesmo tempo, porém, no âmbito das discussões teológicas
pós-conciliares, foram-se desenvolvendo algumas interpretações
da moral cristã que não são compatíveis com
a "sã doutrina" (2 Tim 4, 3). Certamente o Magistério
da Igreja não pretende impor aos fiéis nenhum sistema teológico
particular nem mesmo filosófico, mas para "guardar religiosamente
e expor fielmente" a Palavra de Deus,48 ele tem o dever de declarar
a incompatibilidade com a verdade revelada de certas orientações
do pensamento teológico ou de algumas afirmações
filosóficas.49
30. Ao dirigir-me com esta Encíclica a vós, Irmãos
no Episcopado, desejo enunciar os princípios necessários
para o discernimento daquilo que é contrário à "sã
doutrina", apelando para aqueles elementos do ensinamento moral da
Igreja, que hoje parecem particularmente expostos ao erro, à ambiguidade
ou ao esquecimento. De resto, são os elementos de que depende "a
resposta para os enigmas da condição humana que, hoje como
ontem, profundamente preocupam os seus corações: que é
o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado?
donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para
alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte, o juízo
e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério
último e inefável envolve a nossa existência, do qual
vimos e para onde vamos?".50 Estas e outras questões - como:
que é a liberdade e qual a sua relação com a verdade
contida na lei de Deus? qual é o papel da consciência na
formação do perfil moral do homem? como discernir, em conformidade
com a verdade sobre o bem, os direitos e os deveres concretos da pessoa
humana? - podem-se resumir na pergunta fundamental que o jovem do Evangelho
pôs a Jesus: "Mestre, que devo fazer de bom para alcançar
a vida eterna?". Enviada por Jesus a pregar o Evangelho e a "instruir
todas as nações (...) ensinando-as a observar tudo"
o que Ele mandou (cf. Mt 28, 19-20), a Igreja propõe sempre de
novo, hoje também, a resposta do Mestre: esta possui luz e força
capazes de resolver inclusive as questões mais discutidas e complexas.
Esta mesma luz e força impelem a Igreja a desenvolver constantemente
a reflexão não só dogmática mas também
moral, num âmbito interdisciplinar, tal como é necessário
especialmente para os novos problemas.51
É sempre nessa mesma luz e força que o Magistério
da Igreja realiza a sua obra de discernimento, acolhendo e pondo em prática
a admoestação que o apóstolo Paulo dirigia a Timóteo:
"Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo que há-de julgar
os vivos e os mortos, e em nome da Sua aparição e do Seu
Reino: prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende,
censura e exorta com bondade e doutrina. Porque virá o tempo em
que os homens já não suportarão a sã doutrina.
Desejosos de ouvir novidades, escolherão para si uma multidão
de mestres, ao sabor das paixões, e hão-de afastar os ouvidos
da verdade, aplicando-os às fábulas. Tu, porém, sê
prudente em tudo, suporta os trabalhos, evangeliza e consagra-te ao teu
ministério" (2 Tim 4, 1-5; cf. Tit 1, 10.13-14).
"Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres"
(Jo 8, 32)
31. Os problemas humanos mais debatidos e diversamente resolvidos na reflexão
moral contemporânea, estão ligados, mesmo se de várias
maneiras, a um problema crucial: o da liberdade do homem.
Não há dúvida que a nossa época adquiriu uma
percepção particularmente viva da liberdade. "Os homens
de hoje tornam-se cada vez mais conscientes da dignidade da pessoa humana",
como já constatava a Declaração conciliar Dignitatis
humanae sobre a liberdade religiosa.52 Daí a reivindicação
de que os homens possam "agir segundo a própria convicção
e com liberdade responsável, não forçados por coacção,
mas levados pela consciência do dever".53 Em particular, o
direito à liberdade religiosa e ao respeito da consciência
no seu caminho para a verdade é sentido cada vez mais como fundamento
dos direitos da pessoa, considerados no seu conjunto.54
Assim, o sentido mais agudo da dignidade e da unicidade da pessoa humana,
bem como do respeito devido ao caminho da consciência, constitui
certamente uma conquista positiva da cultura moderna. Esta percepção,
em si mesma autêntica, encontrou múltiplas expressões,
mais ou menos adequadas, algumas das quais, porém, se afastam da
verdade do homem enquanto criatura e imagem de Deus, e requerem, portanto,
ser corrigidas ou purificadas à luz da fé.55
32. Em algumas correntes do pensamento moderno, chegou-se a exaltar a
liberdade até ao ponto de se tornar um absoluto, que seria a fonte
dos valores. Nesta direcção, movem-se as doutrinas que perderam
o sentido da transcendência ou as que são explicitamente
ateias. Atribuiram-se à consciência individual as prerrogativas
de instância suprema do juízo moral, que decide categórica
e infalivelmente o bem e o mal. À afirmação do dever
de seguir a própria consciência foi indevidamente acrescentada
aqueloutra de que o juízo moral é verdadeiro pelo próprio
facto de provir da consciência. Deste modo, porém, a imprescindível
exigência de verdade desapareceu em prol de um critério de
sinceridade, de autenticidade, de "acordo consigo próprio",
a ponto de se ter chegado a uma concepção radicalmente subjectivista
do juízo moral.
Como facilmente se compreende, não é alheia a esta evolução,a
crise em torno da verdade. Perdida a ideia de uma verdade universal sobre
o bem, cognoscível pela razão humana, mudou também
inevitavelmente a concepção da consciência: esta deixa
de ser considerada na sua realidade original, ou seja, como um acto da
inteligência da pessoa, a quem cabe aplicar o conhecimento universal
do bem numa determinada situação e exprimir assim um juízo
sobre a conduta justa a eleger, aqui e agora; tende-se a conceder à
consciência do indivíduo o privilégio de estabelecer
autonomamente os critérios do bem e do mal e agir em consequência.
Esta visão identifica-se com uma ética individualista, na
qual cada um se vê confrontado com a sua verdade, diferente da verdade
dos outros. Levado às últimas consequências, o individualismo
desemboca na negação da ideia mesma de natureza humana.
Estas diversas concepções estão na origem das orientações
de pensamento que sustentam a antinomia entre lei moral e consciência,
entre natureza e liberdade.
33. Paralelamente à exaltação da liberdade, e paradoxalmente
em contraste com ela, a cultura moderna põe radicalmente em questão
a própria liberdade. Um conjunto de disciplinas, agrupadas sob
o nome de "ciências humanas", chamou justamente a atenção
para os condicionamentos de ordem psicológica e social, que pesam
sobre o exercício da liberdade humana. O conhecimento desses condicionalismos
e a atenção que lhes é prestada são conquistas
importantes, que encontraram aplicação em diversos âmbitos
da existência, como, por exemplo, na pedagogia ou na administração
da justiça. Mas alguns, ultrapassando as conclusões, que
legitimamente se podem tirar destas observações, chegaram
ao ponto de pôr em dúvida ou de negar a própria realidade
da liberdade humana.
São de lembrar ainda algumas interpretações abusivas
da pesquisa científica a nível antropológico. Partindo
da grande variedade de tradições, hábitos e instituições
existentes na humanidade, concluem, senão sempre pela negação
de valores humanos universais, pelo menos com uma concepção
relativista da moral.
34. "Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?".
A pergunta moral, à qual responde Cristo, não pode prescindir
da questão da liberdade, pelo contrário, coloca-a no centro
dela, porque não há moral sem liberdade: "Só
na liberdade é que o homem se pode converter ao bem".56 Mas
qual liberdade? Perante os nossos contemporâneos que "apreciam
grandemente" a liberdade e que a "procuram com ardor",
mas que "muitas vezes a fomentam dum modo condenável, como
se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o
mal, contanto que agrade", o Concílio apresenta a "verdadeira
" liberdade: "A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado
da imagem divina no homem. Pois Deus quis "deixar o homem entregue
à sua própria decisão" (cf. Sir 15, 14), para
que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total
e beatífica perfeição, aderindo a Ele".57 Se
existe o direito de ser respeitado no próprio caminho em busca
da verdade, há ainda antes a obrigação moral grave
para cada um de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida.58
Neste sentido, afirmava com decisão o Cardeal J. H. Newman, eminente
defensor dos direitos da consciência: "A consciência
tem direitos, porque tem deveres".59
Algumas tendências da teologia moral hodierna, sob a influência
das correntes subjectivistas e individualistas agora lembradas, interpretam
de um modo novo a relação da liberdade com a lei moral,
com a natureza humana e com a consciência, e propõem critérios
inovadores de avaliação moral dos actos: são tendências
que, em sua variedade, coincidem no facto de atenuar ou mesmo negar a
dependência da liberdade da verdade.
Se queremos realizar um discernimento crítico destas tendências,
capaz de reconhecer o que nelas existe de legítimo, útil
e válido, e indicar, ao mesmo tempo, as suas ambiguidades, perigos
e erros, devemos examiná-las à luz da dependência
fundamental da liberdade da verdade, dependência que foi expressa
do modo mais claro e autorizado pelas palavras de Cristo: "Conhecereis
a verdade, e a verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32).
I. A liberdade e a lei
"Não comas da árvore da ciência do bem e do mal"
(Gn 2, 17)
35. Lemos no livro do Génesis: "O Senhor deu esta ordem ao
homem: "Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim;
mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal,
porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás""
(Gn 2, 16-17).
Com esta imagem, a Revelação ensina que não pertence
ao homem o poder de decidir o bem e o mal, mas somente a Deus. O homem
é certamente livre, uma vez que pode compreender e acolher os mandamentos
de Deus. E goza de uma liberdade bastante ampla, já que pode comer
"de todas as árvores do jardim". Mas esta liberdade não
é ilimitada: deve deter-se diante da "árvore da ciência
do bem e do mal", chamada que é a aceitar a lei moral que
Deus dá ao homem. Na verdade, a liberdade do homem encontra a sua
verdadeira e plena realização, precisamente nesta aceitação.
Deus, que "só é bom", conhece perfeitamente o
que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, propõe-lo
nos mandamentos.
Portanto, a lei de Deus não diminui e muito menos elimina a liberdade
do homem, pelo contrário, garante-a e promove-a. Bem distintas
se apresentam, porém, algumas tendências culturais hodiernas,
que estão na origem de muitas orientações éticas
que colocam no centro do seu pensamento um suposto conflito entre a liberdade
e a lei. Tais são as doutrinas que atribuem a simples indivíduos
ou a grupos sociais a faculdade de decidir o bem e o mal: a liberdade
humana poderia "criar os valores", e gozaria de uma primazia
sobre a verdade, até ao ponto de a própria verdade ser considerada
uma criação da liberdade. Esta, portanto, reivindicaria
tal autonomia moral, que, praticamente, significaria a sua soberania absoluta.
36. A exigência moderna de autonomia não deixou de exercer
o seu influxo também no âmbito da teologia moral católica.
Se é certo que esta nunca pretendeu contrapor a liberdade humana
à lei divina, nem pôr em dúvida a existência
de um fundamento religioso último das normas morais, foi, porém,
incitada a uma profunda revisão do papel da razão e da fé
na individuação das normas morais que se referem aos comportamentos
específicos "intramundanos", ou seja, relativos ao próprio
sujeito, aos outros e ao mundo das coisas.
Deve-se reconhecer que, na origem deste esforço de revisão,
acham-se algumas instâncias positivas, que em boa parte, aliás,
pertencem à melhor tradição do pensamento católico.
Solicitados pelo Concílio Vaticano II,60 quis-se favorecer o diálogo
com a cultura moderna, pondo em evidência o carácter racional
- e, portanto, universalmente compreensível e comunicável
- das normas morais que pertencem ao âmbito da lei moral natural.61
Pretendeu-se, além disso, confirmar o carácter interior
das exigências éticas que dela derivam e que só se
impõem à vontade como uma obrigação por força
do reconhecimento prévio da razão humana e, em concreto,
da consciência pessoal.
Esquecendo, porém, a dependência da razão humana da
Sabedoria divina e, no actual estado de natureza decaída, a necessidade,
mais, a efectiva realidade da Revelação divina para o conhecimento
das verdades morais, mesmo de ordem natural,62 alguns chegaram a teorizar
uma completa soberania da razão no âmbito das normas morais,
relativas à recta ordenação da vida neste mundo:
tais normas constituiriam o âmbito de uma moral puramente "humana",
isto é, seriam a expressão de uma lei que o homem autonomamente
daria a si próprio, com a sua fonte exclusiva na razão humana.
Desta lei, Deus não poderia de modo algum ser considerado Autor,
salvo no sentido que a razão humana exerceria a sua autonomia legislativa
por força de um mandato original e total de Deus ao homem. Ora,
estas tendências de pensamento levaram a negar, contra a Sagrada
Escritura e a doutrina constante da Igreja, que a lei moral natural tenha
Deus como autor e que o homem, mediante a sua razão, participe
da lei eterna, dado que não é ele a estabelecê-la.
37. Querendo, porém, manter a vida moral num contexto cristão,
foi introduzida por alguns teólogos moralistas uma nítida
distinção, contrária à doutrina católica,63
entre uma ordem ética, que teria origem humana e valor apenas temporal,
e uma ordem da salvação, para a qual contariam somente algumas
intenções e atitudes interiores relativas a Deus e ao próximo.
Consequentemente, chegou-se ao ponto de negar, na Revelação
divina, a existência de um conteúdo moral específico
e determinado, universalmente válido e permanente: a Palavra de
Deus limitar-se-ia a propor uma exortação, uma genérica
parénese, que depois unicamente a razão autónoma
teria a tarefa de preencher com determinações normativas
verdadeiramente "objectivas", ou seja, adequadas à situação
histórica concreta. Naturalmente, uma autonomia assim concebida
comporta também a negação à Igreja e ao seu
Magistério de uma competência doutrinal específica
sobre normas morais concretas relacionadas com o chamado "bem humano":
elas não pertenceriam ao conteúdo próprio da Revelação,
nem seriam em si próprias relevantes para a salvação.
É impossível não ver que uma tal interpretação
da autonomia da razão humana comporta teses incompatíveis
com a doutrina católica.
Neste contexto, é absolutamente necessário esclarecer, à
luz da Palavra de Deus e da tradição viva da Igreja, as
noções fundamentais da liberdade humana e da lei moral,
como também as suas relações profundas e interiores.
Só assim será possível corresponder às justas
exigências da racionalidade humana, integrando os elementos válidos
de algumas correntes da teologia moral hodierna sem prejudicar o património
moral da Igreja com teses derivadas de um conceito erróneo de autonomia.
Deus quis deixar o homem "entregue à sua própria decisão"
(Sir 15, 14)
38. Retomando as palavras do Sirácida, o Concílio Vaticano
II explica assim a "verdadeira liberdade", que, no homem, é
"sinal privilegiado da imagem divina": "Deus quis "deixar
o homem entregue à sua própria decisão", para
que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total
e beatífica perfeição, aderindo a Ele".64 Estas
palavras indicam a maravilhosa profundidade da participação
na soberania divina, à qual foi chamado o homem: indicam que o
poder do homem se estende, de certa maneira, sobre si mesmo. Este é
um aspecto constantemente acentuado na reflexão teológica
sobre a liberdade humana, interpretada como uma forma de realeza. Escreve,
por exemplo, S. Gregório de Nissa: "O espírito manifesta
a sua realeza e excelência (...) pelo facto de ser sem dono e livre,
governando-se soberanamente pelo seu querer. De quem é próprio
isto, senão de um rei? (...) Assim a natureza humana, criada para
ser senhora das outras criaturas, pela semelhança com o Soberano
do universo, foi estabelecida como uma imagem viva, participante da dignidade
e do nome do Arquétipo".65
Já o governar o mundo constitui para o homem uma tarefa grande
e cheia de responsabilidade, que compromete a sua liberdade na obediência
ao Criador: "Enchei e dominai a terra" (Gn 1, 28). Sob este
aspecto, compete ao indivíduo, bem como à comunidade humana,
uma justa autonomia, à qual a Constituição conciliar
Gaudium et spes dedica uma especial atenção. É a
autonomia das realidades terrenas, significando que "as coisas criadas
e as próprias sociedades têm leis e valores próprios,
que o homem irá gradualmente descobrindo, utilizando e organizando".66
39. Não só o mundo, mas o homem mesmo foi confiado ao seu
próprio cuidado e responsabilidade. Deus deixou-o "entregue
à sua própria decisão" (Sir 15, 14), para que
procurasse o seu Criador e alcançasse livremente a perfeição.
Alcançar significa edificar pessoalmente em si próprio tal
perfeição. Com efeito, do mesmo modo que ao governar o mundo,
o homem o forma segundo a sua inteligência e vontade, assim também
praticando actos moralmente bons, o homem confirma, desenvolve e consolida
em si mesmo a semelhança com Deus.
No entanto, o Concílio pede vigilância perante um falso conceito
da autonomia das realidades terrenas, ou seja, o de considerar que "as
criaturas não dependem de Deus e que o homem pode usar delas sem
as ordenar ao Criador".67 Aplicado depois ao homem, tal conceito
de autonomia produz efeitos particularmente danosos, assumindo, em última
análise, um carácterateu: "Pois, sem o Criador, a criatura
não subsiste. (...) Antes, se se esquece de Deus, a própria
criatura se obscurece".68
40. O ensinamento do Concílio sublinha, por um lado, a actividade
da razão humana na descoberta e na aplicação da lei
moral: a vida moral exige a criatividade e o engenho próprios da
pessoa, fonte e causa dos seus actos deliberados. Por outro lado, a razão
obtém a sua verdade e autoridade da lei eterna, que não
é senão a própria sabedoria divina.69 Na base da
vida moral, está, pois, o princípio de uma "justa autonomia"70
do homem, sujeito pessoal dos seus actos. A lei moral provém de
Deus e n'Ele encontra sempre a sua fonte: em virtude da razão natural,
que deriva da sabedoria divina, ela é simultaneamente a lei própria
do homem. De facto, a lei natural, como vimos, "não é
mais do que a luz da inteligência infundida por Deus em nós.
Graças a ela, conhecemos o que se deve cumprir e o que se deve
evitar. Esta luz e esta lei, Deus a concedeu na criação".71
A justa autonomia da razão prática significa que o homem
possui em si mesmo a própria lei, recebida do Criador. Mas, a autonomia
da razão não pode significar a criação, por
parte da mesma razão, dos valores e normas morais.72 Se esta autonomia
implicasse uma negação da participação da
razão prática na sabedoria do divino Criador e Legislador,
ou então se sugerisse uma liberdade criadora das normas morais,
segundo as contingências da história ou das diversas sociedades
e culturas, uma tal suposta autonomia contradiria o ensinamento da Igreja
sobre a verdade do homem.73 Seria a morte da verdadeira liberdade: "Mas
não comas da árvore da ciência do bem e do mal, porque,
no dia em que comeres, certamente morrerás (Gn 2, 17).
41. A verdadeira autonomia moral do homem de modo algum significa a recusa,
mas sim o acolhimento da lei moral, do mandamento de Deus: "O Senhor
deu esta ordem ao homem... " (Gn 2, 16). A liberdade do homem e a
lei de Deus encontram-se e são chamadas a compenetrar-se entre
si, no sentido de uma livre obediência do homem a Deus e da benevolência
gratuita de Deus ao homem. E, portanto, a obediência a Deus não
é, como pensam alguns, uma heteronomia, de modo que a vida moral
estivesse submetida à vontade de uma omnipotência absoluta,
externa ao homem e contrária à afirmação da
sua liberdade. Na verdade, se heteronomia da moral significasse negação
da autodeterminação do homem ou imposição
de normas estranhas ao seu bem, estaria em contradição com
a revelação da Aliança e da Encarnação
redentora. Semelhante heteronomia seria apenas uma forma de alienação,
contrária à sabedoria divina e à dignidade da pessoa
humana.
Alguns falam, justamente, de teonomia, ou de teonomia participada, porque
a livre obediência do homem à lei de Deus implica, de facto,
a participação da razão e da vontade humana na sabedoria
e providência de Deus. Proibindo ao homem comer da "árvore
da ciência do bem e do mal", Deus afirma que o homem não
possui originariamente como própria esta "ciência",
mas só participa nela através da luz da razão natural
e da revelação divina, que lhe manifestam as exigências
e os apelos da sabedoria eterna. A lei, portanto, deve entender-se como
uma expressão da sabedoria divina: ao submeter-se a ela, a liberdade
submete-se à verdade da criação. Por isso, é
necessário reconhecer na liberdade da pessoa humana, a imagem e
a proximidade de Deus, que Se "encontra em todos" (cf. Ef 4,
6); da mesma forma, impõe-se confessar a majestade do Deus do universo
e venerar a santidade da lei de Deus infinitamente transcendente. Deus
sempre maior.74
Feliz o homem que põe o seu enlevo na lei do Senhor (cf. Sal 1,
1-2)
42. Modelada sobre a de Deus, a liberdade do homem não só
não é negada pela sua obediência à lei divina,
mas apenas mediante essa obediência, ela permanece na verdade e
é conforme à dignidade do homem, como diz claramente o Concílio:
"A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria
consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido
pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores
ou por mera coacção externa. O homem atinge esta dignidade
quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para
o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente
iniciativa os meios convenientes".75
Na sua inclinação para Deus, para Aquele que "só
é bom", o homem deve livremente fazer o bem e evitar o mal.
Mas para isso, o homem deve poder distinguir o bem do mal. Fá-lo,
antes de mais, graças à luz da razão natural, reflexo
no homem do esplendor da face de Deus. Neste sentido, escreve S. Tomás
ao comentar um versículo do Salmo 4: "Depois de ter dito:
Oferecei sacrifícios de justiça (Sal 4, 6), como se alguns
lhe pedissem quais são as obras da justiça, o Salmista acrescenta:
Muitos dizem: quem nos fará ver o bem? E, respondendo à
pergunta, diz: A luz da Vossa face, Senhor, foi impressa em nós.
Como se quisesse dizer que a luz da razão natural, pela qual distinguimos
o bem do mal - naquilo que é da competência da lei natural
- nada mais é senão um vestígio da luz divina em
nós".76 Disto se deduz também o motivo pelo qual esta
lei é chamada lei natural: chama-se assim, não por referência
à natureza dos seres irracionais, mas porque a razão, que
a dita, é própria da natureza humana.77
43. O Concílio Vaticano II lembra que "a suprema norma da
vida humana é a própria lei divina, objectiva e universal,
com a qual Deus, no desígnio da sua sabedoria e amor, ordena, dirige
e governa o universo inteiro e os caminhos da comunidade humana. Desta
sua lei, Deus torna o homem participante, de modo que este, segundo a
suave disposição da divina providência, possa conhecer
cada vez mais a verdade imutável".78
O Concílio remete para a doutrina clássica sobre a lei eterna
de Deus. S. Agostinho define-a como "a razão ou a vontade
de Deus que manda observar a ordem natural e proibe alterá-la";79
S. Tomás identifica-a com "a razão da divina sabedoria
que conduz tudo ao devido fim".80 E a sabedoria de Deus é
providência, amor que cuida com diligência. É o próprio
Deus, portanto, que ama e cuida, no sentido mais literal e fundamental,
de toda a criação (cf. Sab 7, 22; 8, 11). Mas aos homens,
Deus provê de um modo diferente do usado com os seres que não
são pessoas: não "de fora", através das
leis da natureza física, mas "de dentro", mediante a
razão que, conhecendo pela luz natural a lei eterna de Deus, está,
por isso mesmo, em condições de indicar ao homem a justa
direcção do seu livre agir.81 Deste modo, Deus chama o homem
a participar da Sua providência, querendo dirigir o mundo, por meio
do próprio homem, ou seja, através do seu cuidado consciencioso
e responsável: não só o mundo das coisas, mas também
o das pessoas humanas. Neste contexto se situa a lei natural como a expressão
humana da lei eterna de Deus: "Em relação às
outras criaturas - escreve S. Tomás -, a criatura racional está
sujeita de um modo mais excelente à divina providência, enquanto
ela também se torna participante da providência ao cuidar
de si própria e dos outros. Por isso, ela participa da razão
eterna, graças à qual tem uma inclinação natural
para o acto e o fim devidos; esta participação da lei eterna
na criatura racional é chamada lei natural".82
44. A Igreja referiu-se frequentemente à doutrina tomista da lei
natural, assumindo-a no próprio ensinamento moral. Assim, o meu
venerado predecessor Leão XIII sublinhou a essencial subordinação
da razão e da lei humana à Sabedoria de Deus e à
Sua lei. Depois de dizer que "a lei natural está escrita e
esculpida no coração de todos e de cada um dos homens, visto
que esta não é mais do que a mesma razão humana enquanto
nos ordena fazer o bem e intima a não pecar", Leão
XIII remete para a "razão mais elevada" do divino Legislador:
"Mas esta prescrição da razão humana não
poderia ter força de lei, se não fosse a voz e a intérprete
de uma razão mais alta, à qual o nosso espírito e
a nossa liberdade devem estar submetidos". De facto, a força
da lei reside na sua autoridade de impor deveres, conferir direitos e
aplicar a sanção a certos comportamentos: "Ora, nada
disso poderia existir no homem, se fosse ele mesmo a estipular, como legislador
supremo, a norma das suas acções". E conclui: "Daí
decorre que a lei natural é a mesma lei eterna, inscrita nos seres
dotados de razão, que os inclina para o acto e o fim que lhes convém;
ela é a própria razão eterna do Criador e governador
do universo".83
O homem pode reconhecer o bem e o mal, graças àquele discernimento
entre o bem e o mal que ele mesmo realiza com a sua razão, em particular
com a sua razão iluminada pela Revelação divina e
pela fé, em virtude da lei que Deus outorgou ao povo eleito, a
começar pelos mandamentos do Sinai. Israel foi chamado a acolher
e viver a lei de Deus como particular dom e sinal da eleição
e da Aliança divina, e, ao mesmo tempo, como garantia da bênção
de Deus. Assim, Moisés podia dirigir-se aos filhos de Israel, perguntando-lhes:
"Que povo há tão grande que tenha deuses como o Senhor,
nosso Deus, sempre pronto a atender-nos quando O invocamos? Qual é
o grande povo, que possua mandamentos e preceitos tão justos como
esta Lei que hoje vos apresento? (Dt 4, 7-8). Nos Salmos, encontramos
os sentimentos de louvor, gratidão e veneração que
o povo eleito é chamado a nutrir pela lei de Deus, a par da exortação
a conhecê-la, meditá-la e levá-la à vida: "Feliz
do homem que não segue o conselho dos ímpios, não
se detém no caminho dos pecadores, nem toma assento na reunião
dos enganadores; antes, põe o seu enlevo na lei do Senhor e sobre
ela medita, dia e noite" (Sal 1, 1-2); "A lei do Senhor é
perfeita, reconforta o espírito; os Seus testemunhos são
fiéis, tornam sábio o homem simples. Os Seus mandamentos
são rectos, deleitam o coração; os Seus preceitos
são puros, iluminam os olhos" (Sal 1819, 8-9).
45. A Igreja acolhe com gratidão e guarda com amor todo o depósito
da Revelação, tratando-o com religioso respeito e cumprindo
a sua missão de interpretar autenticamente a lei de Deus à
luz do Evangelho. Além disso, a Igreja recebe como dom a nova Lei,
que é o "cumprimento" da lei de Deus em Jesus Cristo
e no Seu Espírito: é uma lei "interior" (cf. Jer
31, 31-33), "escrita, não com tinta, mas com o Espírito
de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas
de carne, nos nossos corações" (2 Cor 3, 3); uma lei
de perfeição e de liberdade (cf. 2 Cor 3, 17); é
"a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus" (Rm 8, 2).
A propósito desta lei, escreve S. Tomás: "Esta pode
ser denominada lei num duplo sentido. Primeiramente, lei do espírito
é o Espírito Santo (...) que, habitando na alma, não
só ensina o que é necessário realizar pela iluminação
da inteligência sobre as coisas a serem cumpridas, mas inclina também
a agir com rectidão (...) Num segundo sentido, lei do espírito
pode designar o efeito próprio do Espírito Santo, ou seja,
a fé que actua pela caridade (Gál 5, 6), a qual, portanto,
ensina interiormente sobre as coisas que devem ser feitas (...) e inclina
o afecto a agir".84
Apesar de habitualmente, na reflexão teológico-moral, se
distinguirem a lei de Deus positiva ou revelada da lei natural, e, na
economia da salvação, a lei "antiga" da lei "nova",
não se pode esquecer que estas e outras distinções
úteis referem-se sempre à lei, cujo autor é o mesmo
e único Deus e o destinatário é o homem. As diversas
maneiras como, na história, Deus cuida do mundo e do homem, não
só não se excluem entre si, mas, pelo contrário,
apoiam-se e compenetram-se mutuamente. Todas elas derivam e terminam no
sábio e amoroso desígnio eterno com que Deus predestina
os homens "a serem conformes à imagem do Seu Filho" (Rm
8, 29). Neste desígnio, não há qualquer ameaça
à verdadeira liberdade do homem: pelo contrário, o seu acolhimento
é o único caminho para a afirmação da liberdade.
"O que a lei ordena está escrito nos seus corações"
(Rm 2, 15)
46. O suposto conflito entre liberdade e lei afirma-se hoje com especial
intensidade no caso da lei natural, e particularmente no que se refere
à natureza. Na verdade, os debates sobre natureza e liberdade acompanharam
sempre a história da reflexão moral, subindo de tom no Renascimento
e na Reforma, como se pode deduzir dos ensinamentos do Concílio
de Trento.85 A época contemporânea está caracterizada
por uma tensão análoga, mesmo se num sentido diferente:
o gosto pela observação empírica, os processos de
objectivação científica, o progresso técnico,
algumas formas de liberalismo levaram a contrapor os dois termos, como
se a dialéctica - senão mesmo o conflito - entre liberdade
e natureza fosse uma característica estrutural da história
humana. Noutras épocas, parecia que a "natureza" submetesse
totalmente o homem aos seus dinamismos e até aos seus determinismos.
Ainda hoje, as coordenadas espaço-temporais do mundo sensível,
as constantes físico-químicas, os dinamismos corpóreos,
os impulsos psíquicos, os condicionamentos sociais parecem ser,
para muitos, os únicos factores realmente decisivos das realidades
humanas. Neste contexto, também os factos morais, não obstante
a sua especificidade, são com frequência tratados como se
fossem dados estatisticamente comprováveis, como comportamentos
observáveis ou explicáveis somente com as categorias dos
mecanismos psicossociais. E assim alguns estudiosos de ética, obrigados
por profissão a examinar os factos e os gestos do homem, podem
ser tentados a medir a própria ciência, senão as suas
prescrições, baseando-se numa relação estatística
dos comportamentos humanos concretos e das opiniões morais da maioria.
Outros moralistas, pelo contrário, preocupados em educar para os
valores, mantêm-se sensíveis ao prestígio da liberdade,
mas com frequência concebem-na em oposição, ou em
contraste, com a natureza material e biológica, sobre a qual deveria
progressivamente ir-se afirmando. A propósito disto, diferentes
concepções convergem no facto de esquecerem a dimensão
de criatura da natureza e desconhecerem a sua totalidade. Para alguns,
a natureza fica reduzida a simples material ao dispor do agir humano e
do seu poder: ela deveria ser profundamente transformada, antes, superada
pela liberdade, dado que constituiria um seu limite e negação.
Para outros, é na promoção ilimitada do poder humano
ou da sua liberdade, que se constituem os valores económicos, sociais,
culturais e até morais: a natureza serviria para significar tudo
aquilo que no homem e no mundo se coloca fora da liberdade. Tal natureza
compreenderia, em primeiro lugar, o corpo humano, a sua constituição
e os seus dinamismos: a este dado físico, opor-se-ia tudo o que
é "construído", isto é, a "cultura",
como obra e produto da liberdade. A natureza humana, assim entendida,
poderia ser reduzida e tratada como mero material biológico ou
social, sempre disponível. O que significa, em última análise,
definir a liberdade por si mesma, tornando-a uma instância criadora
de si própria e dos seus valores. Desta forma, no caso extremo,
o homem nem sequer teria natureza, e seria por si mesmo o próprio
projecto de existência. O homem nada mais seria que a sua liberdade!
47. Neste contexto, surgiram as objecções de fisicismo e
naturalismo contra a concepção tradicional da lei natural:
esta apresentaria como leis morais, leis que, em si próprias, seriam
somente biológicas. Assim, com grande superficialidade, ter-se-ia
atribuído a alguns comportamentos humanos um carácter permanente
e imutável e, nesta base, pretender-se-ia formular normas morais
válidas universalmente. Segundo alguns teólogos, semelhante
"argumentação biologista ou naturalista" estaria
também presente em certos documentos do Magistério da Igreja,
especialmente naqueles que se referem ao âmbito da ética
sexual e matrimonial. Com base numa concepção naturalista
do acto sexual, teriam sido condenadas como moralmente inadmissíveis
a contracepção, a esterilização directa, a
masturbação, as relações pré-matrimoniais,
as relações homossexuais, como também a fecundação
artificial. Ora, segundo o parecer destes teólogos, a avaliação
moralmente negativa de tais actos não teria em suficiente consideração
o carácter racional e livre do homem, nem o condicionamento cultural
de cada norma moral. Dizem eles que o homem, como ser racional, não
só pode, mas até deve decidir livremente o sentido dos seus
comportamentos. Este "decidir o sentido" deverá ter em
conta, obviamente, as múltiplas limitações do ser
humano, que possui uma condição corpórea e histórica.
Deverá, além disso, tomar em consideração
os modelos de comportamento e os significados que estes assumem numa determinada
cultura. E, sobretudo, deverá respeitar o mandamento fundamental
do amor de Deus e do próximo. Mas Deus - afirmam ainda - fez o
homem como um ser racionalmente livre, deixou-o "entregue à
sua própria decisão", e dele espera uma própria
formação racional da sua vida. O amor do próximo
significaria sobretudo, ou mesmo exclusivamente, respeito pela livre decisão
de si próprio. Os mecanismos dos comportamentos típicos
do homem e também das chamadas "inclinações
naturais", no máximo, estabeleceriam - como dizem - uma orientação
geral do comportamento correcto, mas não poderiam determinar a
avaliação moral de cada um dos actos humanos, tão
complexos do ponto de vista das situações.
48. Perante uma tal interpretação, ocorre considerar atentamente
a recta relação que existe entre a liberdade e a natureza
humana, e particularmente o lugar que ocupa o corpo humano nas questões
da lei natural.
Uma liberdade, que pretenda ser absoluta, acaba por tratar o corpo humano
como um dado bruto, desprovido de significados e de valores morais enquanto
aquela não o tiver moldado com o seu projecto. Consequentemente,
a natureza humana e o corpo aparecem como pressupostos ou preliminares,
materialmente necessários para a opção da liberdade,
mas extrínsecos à pessoa, ao sujeito e ao acto humano. Os
seus dinamismos não poderiam constituir pontos de referência
para a opção moral, uma vez que as finalidades destas inclinações
seriam só bens "físicos", chamados por alguns
"pré-morais". Fazer-lhes referência, para procurar
indicações racionais sobre a ordem da moralidade, deveria
ser qualificado como fisicismo ou biologismo. Em semelhante contexto,
a tensão entre a liberdade e uma natureza concebida em sentido
redutivo, termina numa divisão no mesmo homem.
Esta teoria moral não está de acordo com a verdade sobre
o homem e sobre a sua liberdade. Contradiz os ensinamentos da Igreja sobre
a unidade do ser humano, cuja alma racional é per se et essentialiter
a forma do corpo.86 A alma espiritual e imortal é o princípio
de unidade do ser humano, é aquilo pelo qual este existe como um
todo - "corpore et anima unus"87 - enquanto pessoa. Estas definições
não indicam apenas que o corpo, ao qual é prometida a ressurreição,
também participará da glória; elas lembram igualmente
a ligação da razão e da vontade livre com todas as
faculdades corpóreas e sensíveis. A pessoa, incluindo o
corpo, está totalmente confiada a si própria, e é
na unidade da alma e do corpo que ela é o sujeito dos próprios
actos morais. A pessoa, através da luz da razão e do apoio
da virtude, descobre no seu corpo os sinais prévios, a expressão
e a promessa do dom de si, de acordo com o sábio desígnio
do Criador. É à luz da dignidade da pessoa humana - que
se afirma por si própria - que a razão depreende o valor
moral específico de alguns bens, aos quais a pessoa está
naturalmente inclinada. E tendo em vista que a pessoa humana não
é redutível a uma liberdade que se autoprojecta, mas comporta
uma estrutura espiritual e corpórea determinada, a exigência
moral originária de amar e respeitar a pessoa como um fim e nunca
como um simples meio, implica também, intrinsecamente, o respeito
de alguns bens fundamentais, sem os quais cai-se no relativismo e no arbitrário.
49. Uma doutrina que separe o acto moral das dimensões corpóreas
do seu exercício, é contrária aos ensinamentos da
Sagrada Escritura e da Tradição: essa doutrina faz reviver,
sob novas formas, alguns velhos erros sempre combatidos pela Igreja, porquanto
reduzem a pessoa humana a uma liberdade "espiritual", puramente
formal. Esta redução desconhece o significado moral do corpo
e dos comportamentos que a ele se referem (cf. 1 Cor 6, 19). O apóstolo
Paulo declara excluídos do Reino dos céus os "imorais,
idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões,
avarentos, bêbados, maldizentes e salteadores" (cf. 1 Cor 6,
9-10). Tal condenação - assumida pelo Concílio de
Trento 88 - enumera como "pecados mortais", ou "práticas
infames", alguns comportamentos específicos, cuja aceitação
voluntária impede os crentes de terem parte na herança prometida.
De facto, corpo e alma são inseparáveis: na pessoa, no agente
voluntário e no acto deliberado, eles salvam-se ou perdem-se juntos.
50. Pode-se agora compreender o verdadeiro significado da lei natural:
ela refere-se à natureza própria e original do homem, à
"natureza da pessoa humana",89 que é a pessoa mesma na
unidade de alma e corpo, na unidade das suas inclinações
tanto de ordem espiritual como biológica, e de todas as outras
características específicas, necessárias para a obtenção
do seu fim. "A lei moral natural exprime e prescreve as finalidades,
os direitos e os deveres que se fundamentam sobre a natureza corporal
e espiritual da pessoa humana. Portanto, não pode ser concebida
como uma tendência normativa meramente biológica, mas deve
ser definida como a ordem racional segundo a qual o homem é chamado
pelo Criador a dirigir e regular a sua vida e os seus actos e, particularmente,
a usar e dispor do próprio corpo".90 Por exemplo, a origem
e o fundamento do dever de respeitar absolutamente a vida humana devem-se
encontrar na dignidade própria da pessoa, e não simplesmente
na inclinação natural para conservar a própria vida
física. Assim, a vida humana, mesmo sendo um bem fundamental do
homem, ganha um significado moral pela referência ao bem da pessoa,
que deve ser sempre afirmada por si própria: enquanto é
sempre moralmente ilícito matar um ser humano inocente, pode ser
lícito, louvável ou até mesmo obrigatório
dar a própria vida (cf. Jo 15, 13) por amor do próximo ou
em testemunho da verdade. Na realidade, só fazendo referência
à pessoa humana na sua "totalidade unificada", ou seja,
"alma que se exprime no corpo e corpo informado por um espírito
imortal",91 pode ser lido o significado especificamente humano do
corpo. Com efeito, as inclinações naturais adquirem dimensão
moral, apenas enquanto se referem à pessoa humana e à sua
autêntica realização, a qual, por seu lado, pode acontecer
sempre e somente na natureza humana. Rejeitando as manipulações
da corporeidade que alteram o seu significado humano, a Igreja serve o
homem indicando-lhe o caminho do verdadeiro amor, o único onde
ele pode encontrar o verdadeiro Deus.
A lei natural, assim entendida, não deixa espaço à
divisão entre liberdade e natureza. De facto, estas estão
harmonicamente ligadas entre si, e intimamente aliadas uma à outra.
"Mas ao princípio não foi assim" (Mt 19, 8)
51. O suposto conflito entre liberdade e natureza repercute-se também
sobre a interpretação de alguns aspectos específicos
da lei natural, sobretudo da sua universalidade e imutabilidade. "Onde
estão, pois, escritas estas regras - perguntava-se S. Agostinho
- a não ser no livro daquela luz que se chama verdade? Daqui, portanto,
é ditada toda a lei justa e se transfere directamente ao coração
do homem que pratica a justiça, não vivendo aí como
estrangeira, mas quase que imprimindo-se nele, à semelhança
da imagem que passa do anel à cera, sem abandonar todavia o anel".92
Graças precisamente a esta "verdade", a lei natural implica
a universalidade. Aquela, enquanto inscrita na natureza racional da pessoa,
impõe-se a todo o ser dotado de razão e presente na história.
Para se aperfeiçoar na sua ordem específica, a pessoa deve
fazer o bem e evitar o mal, deve vigiar pela transmissão e conservação
da vida, aperfeiçoar e desenvolver as riquezas do mundo sensível,
promover a vida social, procurar o verdadeiro, praticar o bem, contemplar
a beleza.93
A cisão criada por alguns entre a liberdade dos indivíduos
e a natureza comum a todos, como emerge de certas teorias filosóficas
de grande repercussão na cultura contemporânea, obscurece
a percepção da universalidade da lei moral por parte da
razão. Mas, enquanto exprime a dignidade da pessoa humana e põe
a base dos seus direitos e deveres fundamentais, a lei natural é
universal nos seus preceitos e a sua autoridade estende-se a todos os
homens. Esta universalidade não prescinde da individualidade dos
seres humanos, nem se opõe à unicidade e irrepetibilidade
de cada pessoa: pelo contrário, abraça pela raiz cada um
dos seus actos livres, que devem atestar a universalidade do verdadeiro
bem. Submetendo-se à lei comum, os nossos actos edificam a verdadeira
comunhão das pessoas e, pela graça de Deus, exercem a caridade,
"vínculo da perfeição" (Col 3, 14). Quando,
pelo contrário, desconhecem ou simplesmente ignoram a lei, de forma
imputável ou não, os nossos actos ferem a comunhão
das pessoas, com prejuízo para todos.
52. É justo e bom, sempre e para todos, servir a Deus, prestar-Lhe
o culto devido e honrar verdadeiramente os pais. Tais preceitos positivos,
que prescrevem cumprir certas acções e promover determinadas
atitudes, obrigam universalmente; são imutáveis;94 congregam
no mesmo bem comum todos os homens de cada época da história,
criados para "a mesma vocação e o mesmo destino divino".95
Estas leis universais e permanentes correspondem a conhecimentos da razão
prática e são aplicadas aos actos particulares através
do juízo da consciência. O sujeito agente assimila pessoalmente
a verdade contida na lei: apropria- -se, faz sua esta verdade do seu ser,
mediante os actos e as correlativas virtudes. Os preceitos negativos da
lei natural são universalmente válidos: obrigam a todos
e cada um, sempre e em qualquer circunstância. Trata-se, com efeito,
de proibições que vetam uma determinada acção
semper et pro semper, sem excepções, porque a escolha de
um tal comportamento nunca é compatível com a bondade da
vontade da pessoa que age, com a sua vocação para a vida
com Deus e para a comunhão com o próximo. É proibido
a cada um e sempre infringir preceitos que vinculam, todos e a qualquer
preço, a não ofender em ninguém e, antes de mais,
em si próprio, a dignidade pessoal e comum a todos.
Por outro lado, o facto de que apenas os mandamentos negativos obrigam
sempre e em qualquer circunstância, não significa que na
vida moral as proibições sejam mais importantes que o compromisso
de praticar o bem indicado pelos mandamentos positivos. O motivo é
sobretudo o seguinte: o mandamento do amor de Deus e do próximo
não tem, na sua dinâmica positiva, qualquer limite superior,
mas possui limite inferior, abaixo do qual se viola o mandamento. Além
disso, o que deve ser feito numa determinada situação depende
das circunstâncias, que não se podem prever todas de antemão;
pelo contrário, há comportamentos que em nenhuma situação
e jamais podem ser uma resposta adequada - isto é, conforme à
dignidade da pessoa. Enfim, é sempre possível que o homem,
por coacção ou por outras circunstâncias, seja impedido
de levar a cabo determinadas acções boas; porém,
nunca pode ser impedido de não fazer certas acções,
sobretudo se ele está disposto a morrer antes que fazer o mal.
A Igreja sempre ensinou que nunca se devem escolher comportamentos proibidos
pelos mandamentos morais, expressos de forma negativa no Antigo e no Novo
Testamento. Como vimos, Jesus mesmo reitera a irrevogabilidade destas
proibições: "Se queres entrar na vida, cumpre os mandamentos
(...): não matarás; não cometerás adultério;
não roubarás, não levantarás falso testemunho"
(Mt 19, 17-18).
53. A grande sensibilidade, que o homem contemporâneo testemunha
pela historicidade e pela cultura, leva alguns a duvidar da imutabilidade
da mesma lei natural, e consequentemente, da existência de "normas
objectivas de moralidade" 96, válidas para todos os homens
do presente e do futuro, como o foram já para os do passado: será
possível afirmar como válidas universalmente para todos
e sempre permanentes certas determinações racionais estabelecidas
no passado, quando se ignorava o progresso que a humanidade haveria de
fazer posteriormente?
Não se pode negar que o homem sempre existe dentro de uma cultura
particular, mas também não se pode negar que o homem não
se esgota nesta mesma cultura. De resto, o próprio progresso das
culturas demonstra que, no homem, existe algo que transcende as culturas.
Este "algo" é precisamente a natureza do homem: esta
natureza é exactamente a medida da cultura, e constitui a condição
para que o homem não seja prisioneiro de nenhuma das suas culturas,
mas afirme a sua dignidade pessoal pelo viver conforme à verdade
profunda do seu ser. Pôr em discussão os elementos estruturais
permanentes do homem, conexos também com a própria dimensão
corpórea, não só estaria em conflito com a experiência
comum, mas tornaria incompreensível a referência que Jesus
fez ao "princípio", precisamente onde o contexto social
e cultural da época tinha deformado o sentido original e o papel
de algumas normas morais (cf. Mt 19, 1-9). Neste sentido, a Igreja afirma
que "subjacentes a todas as transformações, há
muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é
Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre".97 É Ele o "Princípio"
que, tendo assumido a natureza humana, a ilumina definitivamente nos seus
elementos constitutivos e no seu dinamismo de caridade para com Deus e
o próximo.98
Ocorre, sem dúvida, procurar e encontrar, para as normas morais
universais e permanentes, a formulação mais adequada aos
diversos contextos culturais, mais capaz de lhes exprimir incessantemente
a actualidade histórica, de fazer compreender e interpretar autenticamente
a sua verdade. Esta verdade da lei moral - como a do "depósito
da fé" - explicita-se ao longo dos séculos: as normas
que a exprimem, permanecem válidas em sua substância, mas
devem ser precisadas e determinadas "eodem sensu eademque sententia
" 99 conforme as circunstâncias históricas do Magistério
da Igreja, cuja decisão é precedida e acompanhada pelo esforço
de leitura e de formulação próprio da razão
dos crentes e da reflexão teológica.100
II. A consciência e a verdade
O santuário do homem
54. A relação que existe entre a liberdade do homem e a
lei de Deus tem a sua sede viva no "coração" da
pessoa, ou seja, na sua consciência moral: "No fundo da própria
consciência - escreve o Concílio Vaticano II - o homem descobre
uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve
obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e
fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração:
faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei
escrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe,
e por ela é que será julgado (cf. Rm 2, 14-16)".101p>
Por isso, o modo como se concebe a relação entre a liberdade
e a lei está ligado intimamente com a interpretação
que se atribui à consciência moral. Neste sentido, as tendências
culturais acima indicadas, que contrapõem e separam entre si a
liberdade e a lei, e exaltam idolatricamente a liberdade, conduzem a uma
interpretação "criativa" da consciência
moral, que se afasta da posição da tradição
da Igreja e do seu Magistério.
55. Segundo a opinião de vários teólogos, a função
da consciência teria sido reduzida, pelo menos num certo período
do passado, a uma simples aplicação de normas morais gerais
aos casos individuais da vida da pessoa. Mas, tais normas - dizem - não
podem ser capazes de acolher e respeitar toda a irrepetível especificidade
de cada um dos actos concretos das pessoas; podem, de algum modo, contribuir
para uma justa avaliação da situação, mas
não podem substituir as pessoas quando tomam uma decisão
pessoal sobre o modo como comportar-se nos determinados casos particulares.
Mais, a crítica acima indicada à interpretação
tradicional da natureza humana e da sua importância para a vida
moral induz alguns autores a afirmarem que estas normas não são
tanto um critério objectivo vinculante para os juízos da
consciência, como sobretudo uma perspectiva geral que ajuda o homem,
numa primeira estimativa, a ordenar a sua vida pessoal e social. Além
disso, eles põem em relevo a complexidade típica do fenómeno
da consciência: esta relaciona-se profundamente com toda a esfera
psicológica e afectiva e com os múltiplos influxos do ambiente
social e cultural da pessoa. Por outro lado, exalta-se ao máximo
o valor da consciência, que o próprio Concílio definiu
"o santuário do homem, no qual se encontra a sós com
Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser".102 Esta voz
- diz-se - induz o homem não tanto a uma observância meticulosa
das normas universais, como sobretudo a uma assunção criativa
e responsável das tarefas pessoais que Deus lhe confia.
Ao querer pôr em evidência o carácter "criativo"
da consciência, alguns autores já não chamam os seus
actos com o nome de "juízos", mas "decisões":
só assumindo "autonomamente" estas decisões é
que o homem poderia alcançar a sua maturidade moral. Não
falta mesmo quem considere que este processo de amadurecimento seria dificultado
pela posição demasiado categórica, que, em muitas
questões morais, assume o Magistério da Igreja, cujas intervenções
seriam causa do despertar de inúteis conflitos de consciência
nos fiéis.
56. Para justificar semelhantes posições, alguns propuseram
uma espécie de duplo estatuto da verdade moral. Para além
do nível doutrinal e abstracto, seria necessário reconhecer
a originalidade de uma certa consideração existencial mais
concreta. Esta, tendo em conta as circunstâncias e a situação,
poderia legitimamente estabelecer excepções à regra
geral permitindo desta forma cumprir praticamente, em boa consciência,
aquilo que a lei moral qualifica como intrinsecamente mau. Deste modo,
instala-se, em alguns casos, uma separação, ou até
oposição entre a doutrina do preceito válido em geral
e a norma da consciência individual, que decidiria, de facto, em
última instância, o bem e o mal. Sobre esta base, pretende-se
estabelecer a legitimidade de soluções chamadas "pastorais",
contrárias aos ensinamentos do Magistério, e justificar
uma hermenêutica "criadora", segundo a qual a consciência
moral não estaria de modo algum obrigada, em todos os casos, por
um preceito negativo particular.
É impossível não ver como, nestas posições,
é posta em questão a identidade mesma da consciência
moral, face à liberdade do homem e à lei de Deus. Apenas
o esclarecimento precedente sobre a relação entre liberdade
e lei, apoiada na verdade, torna possível o discernimento acerca
desta interpretação "criativa" da consciência.
O juízo da consciência
57. O mesmo texto da Carta aos Romanos, que nos fez ver a essência
da lei natural, também indica o sentido bíblico da consciência,
especialmente na sua conexão específica com a lei: "Porque,
quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente
os preceitos da lei, não tendo eles lei, a si mesmos servem de
lei. Deste modo, demonstram que o que a lei ordena está escrito
nos seus corações, dando-lhes testemunho disso a sua consciência
e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os" (Rm
2, 14-15).
De acordo com as palavras de S. Paulo, a consciência, de certo modo,
põe o homem perante a lei, tornando-se ela mesma "testemunha"
para o homem: testemunha da sua fidelidade ou infidelidade relativamente
à lei, ou seja, da sua essencial rectidão ou maldade moral.
A consciência é a única testemunha: o que acontece
na intimidade da pessoa fica velado aos olhos de quem vê de fora.
Ela dirige o seu testemunho somente à própria pessoa. E,
por sua vez, só esta conhece a própria resposta à
voz da consciência.
58. Jamais se apreciará adequadamente a importância deste
íntimo diálogo do homem consigo mesmo. Mas, na verdade,
este é o diálogo do homem com Deus, autor da lei, modelo
primeiro e fim último do homem. "A consciência - escreve
S. Boaventura - é como o arauto de Deus e o seu mensageiro, e o
que diz não o ordena de si própria mas como proveniente
de Deus, à semelhança de um arauto quando proclama o édito
do rei. E disto deriva o facto de a consciência ter a força
de obrigar".103 Portanto, pode-se dizer que a consciência dá
ao próprio homem o testemunho da sua rectidão ou da sua
maldade, mas conjuntamente, e antes mesmo, é testemunho do próprio
Deus, cuja voz e juízo penetram no íntimo do homem até
às raízes da sua alma, chamando-o fortiter et suaviter à
obediência: "A consciência moral não encerra o
homem dentro de uma solidão intransponível e impenetrável,
mas abre-o à chamada, à voz de Deus. Nisto, e em nada mais,
se encontra todo o mistério e dignidade da consciência moral:
em ser o lugar, o espaço santo no qual Deus fala ao homem".104
59. S. Paulo não se limita a reconhecer que a consciência
faz de "testemunha", mas revela também o modo como ela
cumpre uma tal função. Trata-se de "pensamentos",
que acusam ou defendem os gentios relativamente aos seus comportamentos
(cf. Rm 2, 15). O termo "pensamentos" põe em evidência
o carácter próprio da consciência, o de ser um juízo
moral sobre o homem e sobre os seus actos: é um juízo de
absolvição ou de condenação, segundo os actos
humanos são ou não conformes com a lei de Deus inscrita
no coração. E é precisamente acerca do julgamento
dos actos e, simultaneamente, do seu autor e do momento da sua definitiva
actuação que fala o Apóstolo, no mesmo texto: "Como
se verá no dia em que Deus julgar, por Jesus Cristo, as acções
secretas dos homens, segundo o meu Evangelho" (Rm 2, 16).
O juízo da consciência é um juízo prático,
ou seja, um juízo que dita aquilo que o homem deve fazer ou evitar,
ou então avalia um acto já realizado por ele. É um
juízo que aplica a uma situação concreta a convicção
racional de que se deve amar e fazer o bem e evitar o mal. Este primeiro
princípio da razão prática pertence à lei
natural, mais, constitui o seu próprio fundamento, enquanto exprime
aquela luz originária sobre o bem e o mal, reflexo da sabedoria
criadora de Deus, que, como uma centelha indelével (scintilla animae),
brilha no coração de cada homem. Mas, enquanto a lei natural
põe em evidência as exigências objectivas e universais
do bem moral, a consciência é a aplicação da
lei ao caso particular, a qual se torna assim para o homem um ditame interior,
uma chamada a realizar o bem na realidade concreta da situação.
A consciência formula assim a obrigação moral à
luz da lei natural: é a obrigação de fazer aquilo
que o homem, mediante o acto da sua consciência, conhece como um
bem que lhe é imposto aqui e agora. O carácter universal
da lei e da obrigação não é anulado, antes
fica reconhecido, quando a razão determina as suas aplicações
na realidade concreta. O juízo da consciência afirma por
último a conformidade de um certo comportamento concreto com a
lei; ele formula a norma próxima da moralidade de um acto voluntário,
realizando "a aplicação da lei objectiva a um caso
particular".105
60. Tal como a mesma lei natural e cada conhecimento prático, também
o juízo da consciência tem carácter imperativo: o
homem deve agir de acordo com ele. Se o homem age contra esse juízo,
ou realiza um determinado acto ainda sem a certeza da sua rectidão
e bondade, é condenado pela própria consciência, norma
próxima da moralidade pessoal. A dignidade desta instância
racional e a autoridade da sua voz e dos seus juízos derivam da
verdade sobre o bem e o mal moral, que aquela é chamada a escutar
e a exprimir.
Esta verdade é indicada pela "lei divina", norma universal
e objectiva da moralidade. O juízo da consciência não
estabelece a lei, mas atesta a autoridade da lei natural e da razão
prática face ao bem supremo, do qual a pessoa humana se sente atraída
e acolhe os mandamentos: "A consciência não é
uma fonte autónoma e exclusiva para decidir o que é bom
e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito
profundamente um princípio de obediência relacionado com
a norma objectiva, que fundamenta e condiciona a conformidade das suas
decisões com os mandamentos e as proibições que estão
na base do comportamento humano".106
61. A verdade sobre o bem moral, declarada na lei da razão, é
reconhecida prática e concretamente pelo juízo da consciência,
o qual leva a assumir a responsabilidade do bem realizado e do mal cometido:
se o homem comete o mal, o recto juízo da sua consciência
permanece nele testemunha da verdade universal do bem, como também
da malícia da sua escolha particular. Mas o veredicto da consciência
permanece nele ainda como um penhor de esperança e de misericórdia:
enquanto atesta o mal cometido, lembra também o perdão a
pedir, o bem a praticar e a virtude a cultivar sempre, com a graça
de Deus.
Desta forma, no juízo prático da consciência, que
impõe à pessoa a obrigação de cumprir um determinado
acto, revela-se o vínculo da liberdade com a verdade. Precisamente
por isso a consciência se exprime com actos de "juízo"
que reflectem a verdade do bem, e não com "decisões"
arbitrárias. E a maturidade e responsabilidade daqueles juízos
- e, em definitivo, do homem que é o seu sujeito - medem-se, não
pela libertação da consciência da verdade objectiva
em favor de uma suposta autonomia das próprias decisões,
mas, ao contrário, por uma procura insistente da verdade deixando-se
guiar por ela no agir.
Procurar a verdade e o bem
62. A consciência, como juízo de um acto, não está
isenta da possibilidade de erro. "Não raro porém acontece
que a consciência erra, por ignorância invencível,
sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não
se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem,
e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito
do pecado".107 Com estas breves palavras, o Concílio oferece
uma síntese da doutrina que a Igreja, ao longo dos séculos,
elaborou sobre a consciência errónea.
Sem dúvida, o homem, para ter uma "boa consciência"
(1 Tim 1, 5), deve procurar a verdade e julgar segundo esta mesma verdade.
Como diz o apóstolo Paulo, a consciência deve ser iluminada
pelo Espírito Santo (cf. Rm 9, 1), deve ser "pura" (2
Tim 1, 3), não deve com astúcia adulterar a palavra de Deus,
mas manifestar claramente a verdade (cf. 2 Cor 4, 2). Por outro lado,
o mesmo Apóstolo adverte os cristãos, dizendo: "Não
vos conformeis com a mentalidade deste mundo mas transformai-vos pela
renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade
de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que
é perfeito" (Rm 12, 2).
O aviso de Paulo convida-nos à vigilância, advertindo-nos
de que, nos juízos da nossa consciência, sempre se esconde
a possibilidade do erro. Ela não é um juiz infalível:
pode errar. Todavia o erro da consciência pode ser fruto de uma
ignorância invencível, isto é, de uma ignorância
de que o sujeito não é consciente e donde não pode
sair sozinho.
Quando essa ignorância invencível não é culpável,
lembra-nos o Concílio, a consciência não perde a sua
dignidade, porque ela, mesmo orientando-nos efectivamente de um modo discordante
com a ordem moral objectiva, não deixa de falar em nome daquela
verdade do bem que o sujeito é chamado a procurar sinceramente.
63. De qualquer forma, é sempre da verdade que deriva a dignidade
da consciência: no caso da consciência recta, trata-se da
verdade objectiva acolhida pelo homem; no da consciência errónea,
trata-se daquilo que o homem errando considera subjectivamente verdadeiro.
Nunca é aceitável confundir um erro "subjectivo"
acerca do bem moral com a verdade "objectiva", racionalmente
proposta ao homem em virtude do seu fim, nem equiparar o valor moral do
acto cumprido com uma consciência verdadeira e recta, àquele
realizado seguindo o juízo de uma consciência errónea.108
O mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou
de um erro de juízo não culpável, pode não
ser imputado à pessoa que o realiza; mas, também neste caso,
aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face à verdade
do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui
para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa
nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos
sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência,
deveríamos meditar nas palavras do Salmo: "Quem poderá
discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas" (Sal
19, 13). Existem faltas que não conseguimos ver e que, não
obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar
para a luz (cf. Jo 9, 39-41).
A consciência, como juízo último concreto, compromete
a sua dignidade quando é culpavelmente errónea, ou seja,
"quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem,
e quando a consciência se torna quase cega em consequência
do hábito ao pecado".109 Jesus alude aos perigos da deformação
da consciência, quando admoesta: "A lâmpada do corpo
é o olho; se o teu olho estiver são, todo o teu corpo andará
iluminado. Se, porém, o teu olho for mau, todo o teu corpo andará
em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão
grandes serão essas trevas!" (Mt 6, 22-23).
64. Nas palavras de Jesus agora referidas, encontramos também o
apelo para formar a consciência, fazendo-a objecto de contínua
conversão à verdade e ao bem. Análoga é a
exortação do Apóstolo a não se conformar com
a mentalidade deste mundo, mas a transformar-se pela renovação
da própria mente (cf. Rm 12, 2). Na verdade, o "coração"
convertido ao Senhor e ao amor do bem é a fonte dos juízos
verdadeiros da consciência. Com efeito, "para poder conhecer
a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável
e o que é perfeito" (Rm 12, 2), é necessário
o conhecimento da lei de Deus em geral, mas aquele não é
suficiente: é indispensável uma espécie de "conaturalidade"
entre o homem e o verdadeiro bem.110 Esta conaturalidade fundamenta-se
e desenvolve-se nos comportamentos virtuosos do mesmo homem: a prudência
e as outras virtudes cardeais, e, antes ainda as virtudes teologais da
fé, esperança e caridade. Neste sentido, disse Jesus: "Quem
pratica a verdade aproxima- -se da luz" (Jo 3, 21).
Uma grande ajuda para a formação da consciência têm-na
os cristãos, na Igreja e no seu Magistério, como afirma
o Concílio: "Os fiéis, por sua vez, para formarem a
sua própria consciência, devem atender diligentemente à
doutrina sagrada e certa da Igreja. Pois, por vontade de Cristo, a Igreja
Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer
e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo
declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem
moral que dimanam da natureza humana".111 Portanto, a autoridade
da Igreja, que se pronuncia sobre as questões morais, não
lesa de modo algum a liberdade de consciência dos cristãos:
não apenas porque a liberdade da consciência nunca é
liberdade "da" verdade, mas sempre e só "na"
verdade; mas também porque o Magistério não apresenta
à consciência cristã verdades que lhe são estranhas,
antes manifesta as verdades que deveria já possuir, desenvolvendo-as
a partir do acto originário da fé. A Igreja põe-se
sempre e só ao serviço da consciência, ajudando-a
a não se deixar levar cá e lá por qualquer sopro
de doutrina, ao sabor da maldade dos homens (cf. Ef 4, 14), a não
se desviar da verdade sobre o bem do homem, mas, especialmente nas questões
mais difíceis, a alcançar com segurança a verdade
e a permanecer nela.
III. A opção fundamental e os comportamentos concretos
"Não tomeis, porém, a liberdade, como pretexto para
servir a carne" (Gál 5, 13)
65. O interesse pela liberdade, hoje particularmente sentido, induz muitos
estudiosos de ciências, quer humanas quer teológicas, a desenvolver
uma análise mais profunda da sua natureza e dos seus dinamismos.
Salienta-se acertadamente que a liberdade não é só
a escolha desta ou daquela acção particular; mas é
também, dentro duma tal escolha, decisão sobre si mesmo
e determinação da própria vida a favor ou contra
o Bem, a favor ou contra a Verdade, em última análise, a
favor ou contra Deus. Justamente se destaca a elevada importância
de algumas opções, que dão "forma" a toda
a vida moral de um homem, configurando-se como o sulco dentro do qual
poderão encontrar espaço e incremento as demais escolhas
quotidianas particulares.
Alguns autores, porém, propõem uma revisão bem mais
radical da relação entre pessoa e actos. Falam de uma "liberdade
fundamental", mais profunda e diversa da liberdade de escolha, fora
da qual não se poderiam compreender nem julgar correctamente os
actos humanos. De acordo com esses autores, o papel chave na vida moral
deveria ser atribuído a uma "opção fundamental",
actuada por aquela liberdade fundamental, com que a pessoa decide globalmente
de si própria, não através de uma escolha determinada
e consciente a nível reflexo, mas de maneira "transcendental"
e "atemática". Os actos particulares, derivados desta
opção, constituiriam somente tentativas parciais e nunca
decisivas de exprimi-la, seriam apenas "sinais" ou sintomas
dela. Objecto imediato destes actos - diz-se - não é o Bem
absoluto (diante do qual se exprimiria, a nível transcendental,
a liberdade da pessoa), mas são os bens particulares (também
chamados "categoriais"). Ora, segundo a opinião de alguns
teólogos, nenhum destes bens, por sua natureza parciais, poderia
determinar a liberdade do homem como pessoa na sua totalidade, mesmo que
o homem só pudesse exprimir a própria opção
fundamental, mediante a sua realização ou a sua recusa.
Deste modo, chega-se a introduzir uma distinção entre a
opção fundamental e as escolhas deliberadas de um comportamento
concreto, uma distinção que, nalguns autores, assume a forma
de uma separação, já que eles restringem expressamente
o "bem" e o "mal" moral à dimensão transcendental
própria da opção fundamental, qualificando como "justas"
ou "erradas" as escolhas de comportamentos particulares "intramundanos",
isto é, referentes às relações do homem consigo
próprio, com os outros e com o mundo das coisas. Parece assim delinear-se,
no interior do agir humano, uma cisão entre dois níveis
de moralidade: por um lado, a ordem do bem e do mal que depende da vontade,
e, por outro, os comportamentos determinados, que são julgados
como moralmente justos ou errados, somente em função de
um cálculo técnico da proporção entre bens
e males "pré-morais" ou "físicos", que
efectivamente resultam da acção. E isto até ao ponto
de um comportamento concreto, mesmo escolhido livremente, ser considerado
como um processo simplesmente físico, e não segundo os critérios
próprios de um acto humano. O resultado a que se chega, é
reservar a qualificação propriamente moral da pessoa à
opção fundamental, subtraindo-a total ou parcialmente à
escolha dos actos particulares, dos comportamentos concretos.
66. Não há dúvida que a doutrina moral cristã,
em suas mesmas raízes bíblicas, reconhece a importância
específica de uma opção fundamental que qualifica
a vida moral e que compromete radicalmente a liberdade diante de Deus.
Trata-se da escolha da fé, da obediência da fé (cf.
Rm 16, 26), pela qual "o homem entrega-se total e livremente a Deus
prestando "a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência
e da vontade"".112 Esta fé, que opera mediante a caridade
(cf. Gál 5, 6), provém do mais íntimo do homem, do
seu "coração" (cf. Rm 10, 10), e daí é
chamada a frutificar nas obras (cf. Mt 12, 33-35; Lc 6, 43-45; Rm 8, 5-8;
Gál 5, 22). No Decálogo ao início dos diversos mandamentos,
aparece a cláusula fundamental: "Eu sou o Senhor, teu Deus..."
(Êx 20, 2), a qual, imprimindo o sentido original às múltiplas
e variadas prescrições particulares, assegura à moral
da Aliança uma fisionomia de globalidade, unidade e profundidade.
A opção fundamental de Israel refere-se então ao
mandamento fundamental (cf. Jos 24, 14-25; Êx 19, 3-8; Miq 6, 8).
Também a moral da Nova Aliança está dominada pelo
apelo fundamental de Jesus para O "seguir" - assim diz Ele ao
jovem: "Se queres ser perfeito (...) vem e segue-me" (Mt 19,
21) -: a este apelo, o discípulo responde com uma decisão
e escolha radical. As parábolas evangélicas do tesouro e
da pérola preciosa, pela qual se vende tudo o que se possui, são
imagens eloquentes e efectivas do carácter radical e incondicionado
da opção exigida pelo Reino de Deus. A radicalidade da escolha
de seguir Jesus está maravilhosamente expressa nas suas palavras:
"O que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que
perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á"
(Mc 8, 35).
O apelo de Jesus "vem e segue-Me" indica a máxima exaltação
possível da liberdade do homem e, ao mesmo tempo, atesta a verdade
e a obrigação de actos de fé e de decisões
que se podem designar como opção fundamental. Uma análoga
exaltação da liberdade humana, encontramo-la nas palavras
de S. Paulo: "Vós, irmãos, fostes chamados à
liberdade" (Gál 5, 13). Mas o Apóstolo acrescenta imediatamente
uma grave admoestação: "Não tomeis, porém,
a liberdade como pretexto para servir a carne". Nesta advertência,
ressoam as suas palavras precedentes: "Cristo nos libertou, para
que permaneçamos livres. Ficai, portanto, firmes e não vos
submetais outra vez ao jugo da escravidão" (Gál 5,
1).
O apóstolo Paulo convida-nos à vigilância: a liberdade
está sempre ameaçada pela insídia da escravidão.
E é precisamente este o caso de um acto de fé - no sentido
de uma opção fundamental - que seja separado da escolha
dos actos particulares, conforme opinavam as tendências acima recordadas.
67. Estas tendências são, pois, contrárias ao ensinamento
bíblico, que concebe a opção fundamental como uma
verdadeira e própria escolha da liberdade e une profundamente uma
tal escolha com os actos particulares. Pela opção fundamental,
o homem é capaz de orientar a sua vida e tender, com a ajuda da
graça, para o seu fim, seguindo o apelo divino. Mas esta capacidade
exercita-se, de facto, nas escolhas particulares de actos determinados,
pelos quais o homem se conforma deliberadamente com a vontade, a sabedoria
e a lei de Deus. Portanto, deve-se afirmar que a chamada opção
fundamental, na medida em que se diferencia de uma intenção
genérica e, por conseguinte, ainda não determinada numa
forma vinculante da liberdade, realiza-se sempre através de escolhas
conscientes e livres. Precisamente por isso, ela fica revogada quando
o homem compromete a sua liberdade em escolhas conscientes de sentido
contrário, relativas a matéria moral grave.
Separar a opção fundamental dos comportamentos concretos,
significa contradizer a integridade substancial ou a unidade pessoal do
agente moral no seu corpo e alma. Uma opção fundamental,
que não considere explicitamente as potencialidades que põe
em acto e as determinações que a exprimem, não se
ajusta à finalidade racional imanente ao agir do homem e a cada
uma das suas escolhas deliberadas. Na verdade, a moralidade dos actos
humanos não se deduz somente da intenção, da orientação
ou opção fundamental, interpretada no sentido de uma intenção
vazia de conteúdos vinculantes bem determinados ou de uma intenção
à qual não corresponda um esforço real nas distintas
obrigações da vida moral. A moralidade não pode ser
julgada, se se prescinde da conformidade ou oposição da
escolha deliberada de um comportamento concreto relativamente à
dignidade e à vocação integral da pessoa humana.
Cada escolha implica sempre uma referência da vontade deliberada
aos bens e aos males, indicados pela lei natural como bens a praticar
e males a evitar. No caso dos preceitos morais positivos, a prudência
tem sempre a função de verificar a sua oportunidade numa
determinada situação, por exemplo tendo em conta outros
deveres quem sabe mais importantes ou urgentes. Mas os preceitos morais
negativos, ou seja, os que proibem alguns actos ou comportamentos concretos
como intrinsecamente maus, não admitem qualquer legítima
excepção; eles não deixam nenhum espaço moralmente
aceitável para a "criatividade" de qualquer determinação
contrária. Uma vez reconhecida, em concreto, a espécie moral
de uma acção proibida por uma regra universal, o único
acto moralmente bom é o de obedecer à lei moral e abster-se
da acção que ela proibe.
68. Deve-se acrescentar aqui uma importante consideração
pastoral. Pela lógica das posições acima descritas,
o homem poderia, em virtude de uma opção fundamental, permanecer
fiel a Deus, independentemente da conformidade ou não de algumas
das suas escolhas e dos seus actos determinados com as normas ou regras
morais específicas. Devido a uma opção originária
pela caridade, o homem poderia manter-se moralmente bom, perseverar na
graça de Deus, alcançar a própria salvação,
mesmo se alguns dos seus comportamentos concretos fossem deliberada e
gravemente contrários aos mandamentos de Deus, reafirmados pela
Igreja.
Na verdade, o homem não se perde só pela infidelidade àquela
opção fundamental, pela qual ele se entregou "total
e deliberadamente a Deus".113 Em cada pecado mortal cometido deliberadamente,
ele ofende a Deus que deu a lei e torna-se, portanto, culpável
perante toda a lei (cf. Tg 2, 8-11); mesmo conservando- -se na fé,
ele perde a "graça santificante", a "caridade"
e a "bem-aventurança eterna".114 "A graça
da justificação - ensina o Concílio de Trento -,
uma vez recebida, pode ser perdida não só pela infidelidade
que faz perder a mesma fé, mas também por qualquer outro
pecado mortal".115
Pecado mortal e venial
69. As considerações em torno da opção fundamental
induziram, como acabamos de ver, alguns teólogos a submeterem também
a profunda revisão a distinção tradicional entre
pecados mortais e pecados veniais. Eles sublinham que a oposição
à lei de Deus, que causa a perda da graça santificante -
e, no caso de morte neste estado de pecado, a eterna condenação
- pode ser somente o fruto de um acto que empenhe a pessoa na sua totalidade,
isto é, um acto de opção fundamental. Segundo esses
teólogos, o pecado mortal, que separa o homem de Deus, verificar-se-ia
somente na rejeição de Deus, feita a um nível da
liberdade que não é identificável com um acto de
escolha, nem alcançável com consciência reflexa. Neste
sentido - acrescentam -, é difícil, pelos menos psicologicamente,
aceitar o facto de que um cristão, que quer permanecer unido a
Jesus Cristo e à Sua Igreja, possa cometer pecados mortais tão
fácil e repetidamente, como indicaria, às vezes, a mesma
"matéria" dos seus actos. Seria igualmente difícil
aceitar que o homem é capaz, num breve espaço de tempo,
de romper radicalmente o ligame de comunhão com Deus e, sucessivamente,
converter-se a Ele por uma sincera penitência. É necessário,
portanto, - dizem - medir a gravidade do pecado mais pelo grau de empenho
da liberdade da pessoa que realiza um acto do que pela matéria
de tal acto.
70. A Exortação Apostólica pós-sinodal Reconciliatio
et paenitentia reiterou a importância e a permanente actualidade
da distinção entre pecados mortais e veniais, conforme a
tradição da Igreja. E o Sínodo dos Bispos de 1983,
donde procedia tal Exortação, "não só
reafirmou tudo o que foi proclamado no Concílio de Trento sobre
a existência e a natureza dos pecados mortais e veniais, mas quis
ainda lembrar que é pecado mortal aquele que tem por objecto uma
matéria grave e que, conjuntamente, é cometido com plena
advertência e consentimento deliberado".116
A afirmação do Concílio de Trento não considera
só a "matéria grave" do pecado mortal, mas lembra
também, como sua condição necessária, "a
plena advertência e o consentimento deliberado". De resto,
quer na teologia moral quer na prática pastoral, são bem
conhecidos os casos onde um acto grave, por causa da sua matéria,
não constitui pecado mortal devido à falta de plena advertência
ou do consentimento deliberado de quem o realiza. Por outro lado, "há-de
evitar-se reduzir o pecado mortal a um acto de"opção
fundamental" - como hoje em dia se costuma dizer - contra Deus",
entendendo com isso quer um desprezo explícito e formal de Deus
e do próximo, quer uma recusa implícita e não reflexa
do amor. "Dá-se, efectivamente, o pecado mortal também
quando o homem, sabendo e querendo, por qualquer motivo escolhe alguma
coisa gravemente desordenada. Com efeito, numa escolha assim já
está incluído um desprezo do preceito divino, uma rejeição
do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação:
o homem afasta-se de Deus e perde a caridade. A orientação
fundamental pode, pois, ser radicalmente modificada por actos particulares.
Podem, sem dúvida, verificar- -se situações muito
complexas e obscuras sob o ponto de vista psicológico, que influem
na imputabilidade subjectiva do pecador. Mas, da consideração
da esfera psicológica, não se pode passar para a constituição
de uma categoria teológica, como é precisamente a da "opção
fundamental", entendendo-a de tal modo que, no plano objectivo, mudasse
ou pusesse em dúvida a concepção tradicional de pecado
mortal".117
Deste modo, a separação entre opção fundamental
e escolhas deliberadas de determinados comportamentos - desordenados em
si próprios ou nas circunstâncias - que não a poriam
em causa, supõe o desconhecimento da doutrina católica sobre
o pecado mortal: "Com toda a tradição da Igreja, chamamos
pecado mortal a este acto, pelo qual o homem, com liberdade e advertência
rejeita Deus, a sua lei, a aliança de amor que Deus lhe propõe,
preferindo voltar-se para si mesmo, para qualquer realidade criada e finita,
para algo contrário ao querer divino (conversio ad creaturam).
Isto pode acontecer de modo directo e formal, como nos pecados de idolatria,
apostasia e ateísmo; ou de modo equivalente, como em qualquer desobediência
aos mandamentos de Deus em matéria grave".118
IV. O acto moral
Teleologia e teleologismo
71. A relação entre a liberdade do homem e a lei de Deus,
que encontra a sua sede íntima e viva na consciência moral,
manifesta-se e realiza-se nos actos humanos. É precisamente através
dos seus actos que o homem se aperfeiçoa como homem, como homem
chamado a procurar espontaneamente o seu Criador e a chegar livremente,
pela adesão a Ele, à perfeição total e beatífica.119
Os actos humanos são actos morais, porque exprimem e decidem a
bondade ou malícia do homem que realiza aqueles actos.120 Eles
não produzem apenas uma mudança do estado das coisas externas
ao homem, mas, enquanto escolhas deliberadas, qualificam moralmente a
pessoa que os faz e determinam a sua profunda fisionomia espiritual, como
sublinha sugestivamente S. Gregório de Nissa: "Todos os seres
sujeitos a transformação nunca ficam idênticos a si
próprios, mas passam continuamente de um estado a outro por uma
mudança que sempre se dá, para o bem ou para o mal (...)
Ora, estar sujeito a mudança é nascer continuamente (...)
Mas aqui o nascimento não acontece por uma intervenção
alheia, como se dá nos seres corpóreos (...) Aquele é
o resultado de uma livre escolha e nós somos assim, de certo modo,
os nossos próprios pais, ao criarmo-nos como queremos, e, pela
nossa escolha, dotarmo-nos da forma que queremos".121
72. A moralidade dos actos é definida pela relação
da liberdade do homem com o bem autêntico. Um tal bem é estabelecido
como lei eterna pela Sabedoria de Deus, que ordena cada ser para o seu
fim: esta lei eterna é conhecida tanto pela razão natural
do homem (e assim é "lei natural"), como - de modo integral
e perfeito - através da revelação sobrenatural de
Deus (sendo assim chamada "lei divina"). O agir é moralmente
bom quando as escolhas da liberdade são conformes ao verdadeiro
bem do homem e exprimem, desta forma, a ordenação voluntária
da pessoa para o seu fim último, isto é, o próprio
Deus: o bem supremo, no Qual o homem encontra a sua felicidade plena e
perfeita. A pergunta inicial da conversa do jovem com Jesus: "Que
devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?" (Mt 19, 16),
põe imediatamente em evidência o nexo essencial entre o valor
moral de um acto e o fim último do homem. Na sua resposta, Jesus
confirma a convicção do seu interlocutor: a realização
de actos bons, mandados por Aquele que "só é bom",
constitui a condição indispensável e o caminho para
a bem-aventurança eterna: "Se queres entrar na vida eterna,
cumpre os mandamentos" (Mt 19, 17). A resposta de Jesus com o apelo
aos mandamentos manifesta também que o caminho para o fim último
está assinalado pelo respeito das leis divinas que tutelam o bem
humano. Só o acto conforme ao bem pode ser caminho que conduz à
vida.
A ordenação racional do acto humano para o bem na sua verdade
e a procura voluntária deste bem, conhecido pela razão,
constituem a moralidade. Portanto, o agir humano não pode ser considerado
como moralmente bom só porque destinado a alcançar este
ou aquele objectivo que persegue, ou simplesmente porque a intenção
do sujeito é boa.122 O agir é moralmente bom, quando atesta
e exprime a ordenação voluntária da pessoa para o
fim último e a conformidade da acção concreta com
o bem humano, tal como é reconhecido na sua verdade pela razão.
Se o objecto da acção concreta não está em
sintonia com o verdadeiro bem da pessoa, a escolha de tal acção
torna a nossa vontade e nós próprios moralmente maus e,
portanto, põe-nos em contraste com o nosso fim último, o
bem supremo, isto é, o próprio Deus.
73. O cristão, pela Revelação de Deus e pela fé,
conhece a "novidade" que caracteriza a moralidade dos seus actos;
estes são chamados a exprimir a coerência ou a sua falta
relativamente àquela dignidade e vocação, que lhe
foram dadas pela graça: em Jesus Cristo e no Seu Espírito,
o cristão é "criatura nova", filho de Deus, e,
mediante os seus actos, manifesta a sua conformidade ou discordância
com a imagem do Filho que é o primogénito entre muitos irmãos
(cf. Rm 8, 29), vive a sua fidelidade ou infidelidade ao dom do Espírito
e abre-se ou fecha-se à vida eterna, à comunhão de
visão, de amor e de bem-aventurança com Deus Pai, Filho
e Espírito Santo.123 Cristo "forma-nos à sua imagem
- escreve S. Cirilo de Alexandria -, de modo a fazer brilhar em nós
os traços da sua natureza divina mediante a santificação,
a justiça, e a rectidão de uma vida conforme à virtude
(...) Assim, a beleza desta imagem incomparável resplandece em
nós, que estamos em Cristo, e nos revelamos pessoas de bem pelas
nossas obras".124
Neste sentido, a vida moral possui um essencial carácter "teleológico",
visto que consiste na ordenação deliberada dos actos humanos
para Deus, sumo bem e fim (telos) último do homem. Comprova-o,
mais uma vez, a pergunta do jovem a Jesus: "Que devo fazer de bom
para alcançar a vida eterna?". Mas esta ordenação
ao fim último não é uma dimensão subjectivista,
que depende só da intenção. Ela pressupõe
que aqueles actos sejam em si próprios ordenáveis a um tal
fim, enquanto conformes ao autêntico bem moral do homem, tutelado
pelos mandamentos. É o que lembra Jesus na resposta ao jovem: "Se
queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos" (Mt 19, 17).
Evidentemente deve ser uma ordenação racional e livre, consciente
e deliberada, baseado na qual o homem é "responsável"
dos seus actos e está sujeito ao juízo de Deus, juiz justo
e bom, que premeia o bem e castiga o mal, como nos lembra o apóstolo
Paulo: "Todos, com efeito, havemos de comparecer perante o tribunal
de Cristo, para que cada um receba o que mereceu, conforme o bem ou o
mal que tiver feito, enquanto estava no corpo" (2 Cor 5, 10).
74. Mas de que depende a qualificação moral do livre agir
do homem? Esta ordenação a Deus dos actos humanos, por que
é assegurada? Pela intenção do sujeito que age, pelascircunstâncias
- e, em particular, pelas consequências - do seu agir, pelo próprio
objecto do seu acto?
Este é o problema tradicionalmente chamado das "fontes da
moralidade". Precisamente a respeito de tal problema, nestes decénios
manifestaram-se - ou reconstituiram-se - novas tendências culturais
e teológicas que exigem um cuidadoso discernimento por parte do
Magistério da Igreja.
Algumas teorias éticas, denominadas "teleológicas",
mostram-se atentas à conformidade dos actos humanos com os fins
procurados pelo agente e com os valores que ele tem em vista. Os critérios
para avaliar a rectidão moral de uma acção são
deduzidos da ponderação dos bens não morais ou pré-morais
a conseguir e dos correspondentes valores não morais ou pré-morais
a respeitar. Para alguns, o comportamento concreto seria justo ou errado,
segundo pudesse ou não produzir um melhor estado de coisas para
todas as pessoas interessadas: seria justo o comportamento em grau de
"maximizar" os bens e "minimizar" os males.
Muitos dos moralistas católicos, que seguem esta orientação,
procuram distanciar-se do utilitarismo e do pragmatismo, que avaliam a
moralidade dos actos humanos sem fazer referência ao verdadeiro
fim último do homem. Aqueles sentem justamente a necessidade de
encontrar argumentações racionais, sempre mais consistentes,
para justificar as exigências e fundamentar as normas da vida moral.
Tal pesquisa é legítima e necessária, visto que a
ordem moral, estabelecida pela lei natural, é, em princípio,
acessível à razão humana. Além disso, é
uma pesquisa que corresponde às exigências do diálogo
e colaboração com os não-católicos e os não-crentes,
especialmente nas sociedades pluralistas.
75. Mas, no âmbito do esforço de elaborar essa moral racional
- por isso mesmo, às vezes, chamada "moral autónoma"
-, existem falsas soluções, ligadas em particular a uma
inadequada compreensão do objecto do agir moral. Alguns não
têm em suficiente consideração o facto de que a vontade
fica comprometida com as escolhas concretas que realiza: estas são
condição da sua bondade moral e da sua ordenação
para o fim último da pessoa. Outros, ainda, inspiram-se num conceito
da liberdade que prescinde das condições efectivas do seu
exercício, da sua referência objectiva à verdade sobre
o bem, da sua determinação através de escolhas de
comportamentos concretos. Assim, segundo estas teorias, a vontade livre
não estaria moralmente sujeita a obrigações determinadas,
nem modelada pelas suas opções, embora permanecesse responsável
pelos próprios actos e pelas suas consequências. Este "teleologismo",
como método para a descoberta da norma moral, pode então
ser chamado - segundo as terminologias e perspectivas adoptadas pelas
distintas correntes de pensamento - "consequencialismo" ou "proporcionalismo".
O primeiro pretende deduzir os critérios da rectidão de
um determinado agir somente a partir do cálculo das consequências
que se prevêem derivar da execução de uma opção.
O segundo, ponderando entre si valores e bens procurados, centra-se mais
na proporção reconhecida entre os efeitos bons e maus, em
vista do "maior bem" ou do "menor mal" efectivamente
possível numa situação particular.
As teorias éticas teleológicas (proporcionalismo, consequencialismo),
apesar de reconhecerem que os valores morais são indicados pela
razão e pela Revelação, consideram que nunca se poderá
formular uma proibição absoluta de comportamentos determinados
que estariam em contradição com aqueles valores, em toda
e qualquer circunstância e cultura. O sujeito que age seria certamente
responsável pela obtenção dos valores pretendidos,
mas segundo um duplo aspecto: de facto, os valores ou bens implicados
num acto humano seriam, por um lado, de ordem moral (relativamente a valores
propriamente morais, como o amor de Deus, a benevolência para com
o próximo, a justiça, etc.) e, por outro, de ordem pré-moral,
também chamada não moral, física ou ôntica
(relativamente às vantagens e desvantagens ocasionadas seja a quem
age, seja a qualquer pessoa neles implicada antes ou depois, como por
exemplo, a saúde ou a sua lesão, a integridade física,
a vida, a morte, a perda de bens materiais, etc.). Num mundo onde o bem
sempre estaria misturado com o mal e cada efeito bom ligado a outros efeitos
maus, a moralidade do acto seria julgada de maneira diferenciada: a sua
"bondade" moral, com base na intenção do sujeito
referida aos bens morais, e a sua "rectidão", com base
na consideração dos efeitos ou consequências previsíveis
e da sua proporção. Consequentemente, os comportamentos
concretos seriam qualificados como "rectos" ou "errados",
sem que, por isso, fosse possível avaliar como moralmente "boa"
ou "má" a vontade da pessoa que os escolhe. Deste modo,
um acto, que, pondo-se em contradição com uma norma universal
negativa, viola directamente bens considerados como "pré-morais",
poderia ser qualificado como moralmente aceitável se a intenção
do sujeito se concentrasse, graças a uma ponderação
"responsável" dos bens implicados na acção
concreta, sobre o valor moral considerado decisivo naquela circunstância.
A avaliação das consequências da acção,
com base na proporção do acto com os seus efeitos e dos
efeitos entre si, referir-se-ia apenas à ordem pré-moral.
Quanto à especificidade moral dos actos, ou seja, quanto à
sua bondade ou malícia, decidiria exclusivamente a fidelidade da
pessoa aos valores mais altos da caridade e da prudência, sem que
esta fidelidade fosse necessariamente incompatível com opções
contrárias a certos preceitos morais particulares. Mesmo em matéria
grave, estes últimos deveriam ser considerados como normas operativas,
sempre relativas e susceptíveis de excepções.
Nesta perspectiva, o consentimento deliberado a certos comportamentos,
declarados ilícitos pela moral tradicional, não implicaria
uma malícia moral objectiva.
O objecto do acto deliberado
76. Estas teorias podem adquirir uma certa força persuasiva pela
sua afinidade com a mentalidade científica, justamente preocupada
em ordenar as actividades técnicas e económicas, baseada
no cálculo dos recursos e lucros, dos processos e efeitos. Aquelas
querem libertar das pressões de uma moral da obrigação,
voluntarista e arbitrária, que se revelaria desumana.
Porém, tais teorias não são fiéis à
doutrina da Igreja, já que crêem poder justificar como moralmente
boas, escolhas deliberadas de comportamentos contrários aos mandamentos
da lei divina e natural. Estas teorias não podem apelar à
tradição moral católica: se é verdade que
nesta última se desenvolveu uma casuística atenta a ponderar
em algumas situações concretas as possibilidades maiores
de bem, também é certo que isso se confinava apenas aos
casos onde a lei era incerta, e portanto, não punha em discussão
a validade absoluta dos preceitos morais negativos que obrigam sem excepções.
Os fiéis hão-de reconhecer e respeitar os preceitos morais
específicos, declarados e ensinados pela Igreja em nome de Deus,
Criador e Senhor.125 Quando o apóstolo Paulo recapitula o cumprimento
da lei no preceito de amar o próximo como a si mesmo (cf. Rm 13,
8-10), não atenua os mandamentos, mas antes, os confirma, dado
que revela as suas exigências e gravidade. O amor de Deus e o amor
do próximo são inseparáveis da observância
dos mandamentos da Aliança, renovada no sangue de Jesus Cristo
e no dom do Espírito. Os cristãos têm por própria
honra obedecer a Deus antes que aos homens (cf. Act 4, 19; 5, 29) e, por
isso, aceitar inclusive o martírio, como fizeram os santos e santas
do Antigo e do Novo Testamento, assim reconhecidos por terem dado a sua
vida antes que fazerem este ou aquele gesto particular contrário
à fé ou à virtude.
77. Para oferecer os critérios racionais de uma justa decisão
moral, as mencionadas teorias têm em conta a intenção
e as consequências da acção humana. Certamente, num
acto particular, há que tomar em grande consideração
tanto a intenção - como insiste, com particular vigor, Jesus,
em clara contraposição aos escribas e fariseus que prescreviam
minuciosamente certas obras exteriores, sem atenderem ao coração
(cf. Mc 7, 20-21; Mt 15, 19) - como os bens obtidos e os males evitados,
em decorrência de um acto particular. Trata-se de uma exigência
de responsabilidade. Mas a consideração destas consequências
- como também das intenções - não é
suficiente para avaliar a qualidade moral de uma opção concreta.
A ponderação dos bens e dos males, previsíveis como
consequência de uma acção, não é um
método adequado para determinar se a escolha daquele comportamento
concreto é "segundo a sua espécie", ou "em
si mesma", moralmente boa ou má, lícita ou ilícita.
As consequências previsíveis pertencem àquelas circunstâncias
do acto, que, embora podendo modificar a gravidade de um acto mau, não
podem, porém, mudar a sua espécie moral.
Aliás, cada um conhece as dificuldades - ou melhor, a impossibilidade
- de avaliar todas as consequências e todos os efeitos bons ou maus
- definidos pré-morais - dos próprios actos: não
é possível um cálculo racional exaustivo. Então,
como fazer para estabelecer proporções que dependem de uma
avaliação, cujos critérios permanecem obscuros? De
que modo se poderá justificar uma obrigação absoluta
sobre cálculos tão discutíveis?
78. A moralidade do acto humano depende primária e fundamentalmente
do objecto razoavelmente escolhido pela vontade deliberada, como prova
também a profunda análise, ainda hoje válida, de
S. Tomás.126 Para poder identificar o objecto de um acto que o
especifica moralmente, ocorre, pois, colocar-se na perspectiva da pessoa
que age. De facto, o objecto do acto da vontade é um comportamento
livremente escolhido. Enquanto conforme à ordem da razão,
ele é causa da bondade da vontade, aperfeiçoa-nos moralmente
e dispõe-nos a reconhecer o nosso fim último no bem perfeito,
o amor original. Portanto, não se pode considerar como objecto
de um determinado acto moral, um processo ou um acontecimento de ordem
meramente física, a avaliar enquanto provoca um determinado estado
de coisas no mundo exterior. Aquele é o fim próximo de uma
escolha deliberada, que determina o acto do querer da pessoa que age.
Neste sentido, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, "há
comportamentos concretos pelos quais é sempre errado optar, porque
tal opção inclui uma desordem da vontade, isto é,
um mal moral".127 "De facto, é frequente - escreve o
Aquinate - que alguém aja com recta intenção mas
inutilmente, porque lhe falta a boa vontade: como no caso de alguém
que roubasse para alimentar um pobre, a intenção é
certamente boa, mas falta a devida rectidão da vontade. Consequentemente
nenhum mal, mesmo realizado com recta intenção, pode ser
desculpado: "Como aqueles que dizem: Façamos o mal, para vir
o bem. Desses, é justa a condenação" (Rm 3,
8)".128
A razão pela qual não basta a recta intenção,
mas ocorre também a recta escolha das obras, está no facto
de que o acto humano depende do seu objecto, quer dizer, se este é
ou não ordenável a Deus, Aquele que "só é
bom", realizando assim a perfeição da pessoa. Portanto,
o acto é bom, se o seu objecto é conforme ao bem da pessoa,
no respeito dos bens moralmente significativos para ela. Assim, a ética
cristã, que privilegia a atenção ao objecto moral,
não recusa considerar a "teleologia" interior do agir,
enquanto visa promover o verdadeiro bem da pessoa, mas reconhece que este
só é realmente procurado quando se respeitam os elementos
essenciais da natureza humana. O acto humano, bom segundo o seu objecto,
é também ordenável ao fim último. O mesmo
acto alcança, depois, a sua perfeição última
e decisiva, quando a vontade o ordena efectivamente para Deus mediante
a caridade. Neste sentido, ensina o Patrono dos moralistas e dos confessores:
"Não basta fazer boas obras, é preciso fazê-las
bem. Para que as nossas obras sejam boas e perfeitas, é necessário
fazê-las com o mero fim de agradar a Deus".129
O "mal intrínseco": não é lícito
praticar o mal para se conseguir o bem (cf. Rm 3, 8)
79. Deve-se, portanto, rejeitar a tese, própria das teorias teleológicas
e proporcionalistas, de que seria impossível qualificar como moralmente
má segundo a sua espécie - o seu "objecto" -,
a escolha deliberada de alguns comportamentos ou actos determinados, prescindindo
da intenção com que a escolha é feita ou da totalidade
das consequências previsíveis daquele acto para todas as
pessoas interessadas.
O elemento primário e decisivo para o juízo moral é
o objecto do acto humano, o qual decide sobre o seu ordenamento ao bem
e ao fim último que é Deus. Este ordenamento é identificado
pela razão no mesmo ser do homem, considerado na sua verdade integral,
e portanto, nas suas inclinações naturais, nos seus dinamismos
e nas suas finalidades que têm sempre também uma dimensão
espiritual: são exactamente estes os conteúdos da lei natural,
e consequentemente o conjunto ordenado dos "bens para a pessoa"
que se põem ao serviço do "bem da pessoa", daquele
bem que é ela mesma e a sua perfeição. São
estes os bens tutelados pelos mandamentos, os quais, segundo S. Tomás,
contêm toda a lei natural.130
80. Ora, a razão atesta que há objectos do acto humano que
se configuram como "não ordenáveis" a Deus, porque
contradizem radicalmente o bem da pessoa, feita à Sua imagem. São
os actos que, na tradição moral da Igreja, foram denominados
"intrinsecamente maus" (intrinsece malum): são-no sempre
e por si mesmos, ou seja, pelo próprio objecto, independentemente
das posteriores intenções de quem age e das circunstâncias.
Por isso, sem querer minimamente negar o influxo que têm as circunstâncias
e sobretudo as intenções sobre a moralidade, a Igreja ensina
que "existem actos que, por si e em si mesmos, independentemente
das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos,
por motivo do seu objecto".131 O mesmo Concílio Vaticano II,
no quadro do devido respeito pela pessoa humana, oferece uma ampla exemplificação
de tais actos: "Tudo quanto se opõe à vida, como são
todas as espécies de homicídio, genocídio, aborto,
eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola
a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos
corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias
consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como
as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias,
as deportações, a escravidão, a prostituição,
o comércio de mulheres e jovens; e também as condições
degradantes de trabalho, em que os operários são tratados
como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis.
Todas estas coisas e outras semelhantes são infamantes; ao mesmo
tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais
aqueles que assim procedem, do que os que padecem injustamente; e ofendem
gravemente a honra devida ao Criador".132
Sobre os actos intrinsecamente maus, e referindo-se às práticas
contraceptivas pelas quais o acto conjugal se torna intencionalmente infecundo,
Paulo VI ensina: "Na verdade, se, por vezes, é lícito
tolerar um mal menor com o fim de evitar um mal mais grave ou de promover
um bem maior, não é lícito, nem mesmo por gravíssimas
razões, praticar o mal para se conseguir o bem (cf. Rm 3, 8), ou
seja, fazer objecto de um acto positivo de vontade o que é intrinsecamente
desordenado e, portanto, indigno da pessoa humana, mesmo com o intuito
de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares ou sociais".133
81. Ao ensinar a existência de actos intrinsecamente maus, a Igreja
cinge-se à doutrina da Sagrada Escritura. O apóstolo Paulo
afirma categoricamente: "Não vos enganeis: Nem imorais, nem
idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas,
nem ladrões, nem avarentos, nem maldizentes, nem os que se dão
à embriaguez, nem salteadores possuirão o Reino de Deus"
(1 Cor 6, 9-10).
Se os actos são intrinsecamente maus, uma intenção
boa ou circunstâncias particulares podem atenuar a sua malícia,
mas não suprimi-la: são actos "irremediavelmente"
maus, que por si e em si mesmos não são ordenáveis
a Deus e ao bem da pessoa: "Quanto aos actos que, por si mesmos,
são pecados (cum iam opera ipsa peccata sunt) - escreve S. Agostinho
- como o furto, a fornicação, a blasfémia ou outros
actos semelhantes, quem ousaria afirmar que, realizando-os por boas razões
(causis bonis), já não seriam pecados ou, conclusão
ainda mais absurda, que seriam pecados justificados?".134
Por isso, as circunstâncias ou as intenções nunca
poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu
objecto, num acto "subjectivamente" honesto ou defensível
como opção.
82. De resto, a intenção é boa quando visa o verdadeiro
bem da pessoa na perspectiva do seu fim último. Mas os actos, cujo
objecto é "não ordenável" a Deus e "indigno
da pessoa humana", opõem-se sempre e em qualquer caso a este
bem. Neste sentido, o respeito das normas que proibem tais actos e que
obrigam semper et pro semper, ou seja, sem nenhuma excepção,
não só não limita a boa intenção, mas
constitui mesmo a sua expressão fundamental.
A doutrina do objecto como fonte da moralidade constitui uma explicitação
autêntica da moral bíblica da Aliança e dos mandamentos,
da caridade e das virtudes. A qualidade moral do agir humano depende desta
fidelidade aos mandamentos, expressão de obediência e amor.
É por isso - repetimo-lo - que se deve rejeitar como errónea
a opinião que considera impossível qualificar moralmente
como má segundo a sua espécie, a opção deliberada
de alguns comportamentos ou de certos actos, prescindindo da intenção
com que a escolha é feita ou da totalidade das consequências
previsíveis daquele acto para todas as pessoas interessadas. Sem
esta determinação racional da moralidade do agir humano,
seria impossível afirmar uma "ordem moral objectiva"
135 e estabelecer qualquer norma determinada, do ponto de vista do conteúdo,
que obrigasse sem excepção; e isto reverteria em dano da
fraternidade humana e da verdade sobre o bem, e em prejuízo também
da comunhão eclesial.
83. Como se vê, na questão da moralidade dos actos humanos,
e particularmente na da existência dos actos intrinsecamente maus,
concentra-se, de certo modo, a própria questão do homem,
da sua verdade e das consequências morais que daí derivam.
Ao reconhecer e ensinar a existência do mal intrínseco em
determinados actos humanos, a Igreja permanece fiel à verdade integral
do homem, e, portanto, respeita-o e promove-o na sua dignidade e vocação.
Consequentemente, ela deve recusar as teorias expostas acima, que estão
em contraste com esta verdade.
Porém, é preciso que nós, Irmãos no Episcopado,
não nos detenhamos só a admoestar os fiéis sobre
os erros e os perigos de algumas teorias éticas. Devemos, antes
de mais, mostrar o esplendor fascinante daquela verdade, que é
Jesus Cristo. N'Ele, que é a Verdade (cf. Jo 14, 6), o homem pode
compreender plenamente e viver perfeitamente, mediante os actos bons,
a sua vocação à liberdade na obediência à
lei divina, que se resume no mandamento do amor de Deus e do próximo.
É o que acontece com o dom do Espírito Santo, Espírito
de verdade, de liberdade e de amor: n'Ele, é- -nos concedido interiorizar
a lei, percebê-la e vivê-la como o dinamismo da verdadeira
liberdade pessoal: "a lei perfeita é a lei da liberdade"
(Tg 1, 25).
III
"PARA NÃO SE DESVIRTUAR A CRUZ DE CRISTO" (1COR 1,17)
O bem moral para a vida da Igreja e do mundo
"Cristo nos libertou, para que permaneçamos livres" (Gál
5, 1)
84. A questão fundamental, que as teorias morais acima referidas
solevam mais fortemente, é a da relação entre a liberdade
do homem e a lei de Deus: é, em última análise, a
questão da relação entre a liberdade e a verdade.
Segundo a fé cristã e a doutrina da Igreja, "somente
a liberdade que se submete à Verdade, conduz a pessoa humana ao
seu verdadeiro bem. O bem da pessoa é estar na Verdade e praticar
a Verdade".136
O confronto entre a posição da Igreja e a situação
sociocultural de hoje põe imediatamente a descoberto a urgência
de se desenvolver precisamente sobre esta questão fundamental um
intenso labor pastoral por parte da própria Igreja: "Este
laço essencial entre Verdade-Bem-Liberdade foi perdido em grande
parte pela cultura contemporânea, e, portanto, levar o homem a redescobri-lo
é hoje uma das exigências próprias da missão
da Igreja, para a salvação do mundo. A pergunta de Pilatos:
"O que é a verdade?" emerge também da desoladora
perplexidade de um homem que frequentemente já não sabe
quem é, donde vem e para aonde vai. E é assim que não
raro assistimos à tremenda derrocada da pessoa humana em situações
de autodestruição progressiva. Se fôssemos dar ouvidos
a certas vozes, parece que não mais se deveria reconhecer o indestrutível
carácter absoluto de qualquer valor moral. Está patente
aos olhos de todos o desprezo da vida humana já concebida e ainda
não nascida; a violação permanente de fundamentais
direitos da pessoa; a destruição iníqua dos bens
necessários para uma vida verdadeiramente humana. Mas, algo de
mais grave aconteceu: o homem já não está convencido
de que só na verdade pode encontrar a salvação. A
força salvadora do verdadeiro é contestada, confiando à
simples liberdade, desvinculada de toda a objectividade, a tarefa de decidir
autonomamente o que é bem e o que é mal. Este relativismo
gera, no campo teológico, desconfiança na sabedoria de Deus,
que guia o homem com a lei moral. Àquilo que a lei moral prescreve
contrapõem-se as chamadas situações concretas, no
fundo, deixando de considerar a lei de Deus como sendo sempre o único
verdadeiro bem do homem".137
85. A obra de discernimento destas teorias éticas por parte da
Igreja não se limita a denunciá-las e rejeitá-las,
mas visa positivamente amparar com grande solicitude todos os fiéis
na formação de uma consciência moral, que julgue e
leve a decisões conformes à verdade, como exorta o apóstolo
Paulo: "Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo,
mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim
de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é
agradável e o que é perfeito" (Rm 12, 2). Esta obra
da Igreja encontra o seu ponto de apoio - o seu "segredo" formativo
- não tanto nos enunciados doutrinais e nos apelos pastorais à
vigilância, como sobretudo em manter o olhar fixo no Senhor Jesus.
A Igreja cada dia olha com amor incansável para Cristo, plenamente
consciente de que só n'Ele está a resposta verdadeira e
definitiva ao problema moral.
De modo particular, em Jesus crucificado, ela encontra a resposta à
questão que hoje atormenta tantos homens: como pode a obediência
às normas morais universais e imutáveis respeitar a unicidade
e irrepetibilidade da pessoa, e não atentar contra a sua liberdade
e dignidade? A Igreja faz sua a consciência que o apóstolo
Paulo tinha da missão recebida: "Cristo (...) me enviou (...)
a pregar o Evangelho, não porém, com sabedoria de palavras,
para não se desvirtuar a Cruz de Cristo (...) Nós pregamos
Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios.
Mas, para os eleitos, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder
e a sabedoria de Deus" (1 Cor 1, 17.23-24). Cristo crucificado revela
o sentido autêntico da liberdade, vive-o em plenitude no dom total
de Si mmo e chama os discípulos a tomar parte na Sua própriaÐa
liberdade.
86. A reflexão racional e a experiência quotidiana demonstram
a debilidade que caracteriza a liberdade do homem. É liberdade
real, mas finita: não tem o seu ponto de partida absoluto e incondicionado
em si própria, mas na existência em que se encontra e que
representa para ela, simultaneamente, um limite e uma possibilidade. É
a liberdade de uma criatura, ou seja, uma liberdade dada, que deve ser
acolhida como um gérmen e fazer-se amadurecer com responsabilidade.
É parte constitutiva daquela imagem de criatura que fundamenta
a dignidade da pessoa: nela ressoa a vocação original com
que o Criador chama o homem ao verdadeiro Bem, e mais ainda, com a revelação
de Cristo, chama-o a estabelecer amizade com Ele, participando na mesma
vida divina. É inalienável propriedade pessoal e, ao mesmo
tempo, abertura universal a todo o vivente, com a saída de si rumo
ao conhecimento e ao amor do outro.138 Portanto, a liberdade radica-se
na verdade do homem e destina-se à comunhão.
A razão e a experiência atestam não só a debilidade
da liberdade humana, mas também o seu drama. O homem descobre que
a sua liberdade está misteriosamente inclinada a trair esta abertura
para o Verdadeiro e para o Bem, e que, com bastante frequência,
de facto, ele prefere escolher bens finitos, limitados e efémeros.
Mais ainda, por detrás dos erros e das opções negativas,
o homem detecta a origem de uma revolta radical, que o leva a rejeitar
a Verdade e o Bem para arvorar-se em princípio absoluto de si próprio:
"Sereis como Deus" (Gn 3, 5). Portanto, a liberdade necessita
de ser libertada. Cristo é o seu libertador: Ele "nos libertou,
para que permaneçamos livres" (Gál 5, 1).
87. Cristo revela, antes de mais, que o reconhecimento honesto e franco
da verdade é condição para uma autêntica liberdade:
"Conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á" (Jo
8, 32).139 É a verdade que torna livre defronte ao poder e dá
a força do martírio. Assim, Jesus diante de Pilatos: "Para
isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade"
(Jo 18, 37). Assim, os verdadeiros adoradores de Deus devem adorá-l'O
"em espírito e verdade" (Jo 4, 23): nesta adoração
tornam-se livres. A ligação à verdade e a adoração
de Deus manifestam-se em Jesus Cristo como a raiz mais íntima da
liberdade.
Além disso, Jesus revela, com a sua própria existência
e não apenas com as palavras, que a liberdade se realiza no amor,
ou seja, no dom de si. Ele que disse: "Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13),
caminha livremente para a Paixão (cf. Mt 26, 46) e, na Sua obediência
ao Pai sobre a Cruz, dá a vida por todos os homens (cf. Fil 2,
6-11). Deste modo, a contemplação de Jesus crucificado é
a via-mestra pela qual a Igreja deve caminhar cada dia, se quiser compreender
todo o sentido da liberdade: o dom de si no serviço a Deus e aos
irmãos. Mais, a comunhão com o Senhor crucificado e ressuscitado
é a fonte inesgotável, onde a Igreja se sacia incessantemente
para viver na liberdade, doar-se e servir. Comentando o versículo
do Salmo 99100 "Servi ao Senhor com alegria", S. Agostinho diz:
"Na casa do Senhor, livre é a escravidão. Livre, visto
que o serviço não o impõe a necessidade, mas a caridade
(...) A caridade te faça servo, como a verdade te fez livre (...)
És, ao mesmo tempo, servo e livre: servo, porque tal te fizeste;
livre, porque és amado por Deus, teu criador; mais ainda, livre
porque te foi concedido amar o teu criador (...) És servo do Senhor
e livre no Senhor. Não procures uma libertação que
te leve para longe da casa do teu libertador!".140
Deste modo, a Igreja, e nela cada cristão, é chamada a participar
no munus regale de Cristo na cruz (cf. Jo 12, 32), na graça e na
responsabilidade do Filho do Homem, que "não veio para ser
servido, mas para servir e dar a Sua vida pelo resgate de muitos"
(Mt 20, 28).141
Jesus é, pois, a síntese viva e pessoal da perfeita liberdade
na obediência total à vontade de Deus. A Sua carne crucificada
é a plena Revelação do vínculo indissolúvel
entre liberdade e verdade, tal como a Sua ressurreição da
morte é a suprema exaltação da fecundidade e da força
salvífica de uma liberdade vivida na verdade.
Caminhar na luz (cf. 1 Jo 1, 7)
88. A contraposição, mais, a radical separação
entre liberdade e verdade é consequência, manifestação
e realização de outra dicotomia, mais grave e perniciosa,
que separa a fé da moral.
Esta separação constitui uma das mais sérias preocupações
pastorais da Igreja no actual processo de secularismo, onde demasiados
homens pensam e vivem "como se Deus não existisse". Encontramo-nos
diante de uma mentalidade que atinge, frequentemente de modo profundo,
vasto e minucioso, as atitudes e os comportamentos dos cristãos,
cuja fé se debilita e perde a própria originalidade de novo
critério interpretativo e operativo para a existência pessoal,
familiar e social. Na verdade, os critérios de juízo e de
escolha assumidos pelos mesmos crentes apresentam-se frequentemente, no
contexto de uma cultura amplamente descristianizada, como alheios ou até
mesmo contrapostos aos do Evangelho.
Urge, então, que os cristãos redescubram a novidade da sua
fé e a sua força de discernimento face à cultura
predominante e insinuativa: "Se outrora éreis trevas - admoesta
o apóstolo Paulo -, agora sois luz no Senhor. Comportai-vos como
filhos da luz, porque o fruto da luz consiste na bondade, na justiça
e na verdade. Procurai o que é agradável ao Senhor, e não
participeis das obras infrutuosas das trevas; pelo contrário, condenai-as
abertamente (...) Cuidai pois, irmãos, em andar com prudência,
não como insensatos, mas com circunspecção, aproveitando
o tempo, pois os dias são maus" (Ef 5, 8-11.15-16; cf. 1 Ts
5, 4-8).
Urge recuperar e repropor o verdadeiro rosto da fé cristã,
que não é simplesmente um conjunto de proposições
a serem acolhidas e ratificadas com a mente. Trata-se, antes, de um conhecimento
existencial de Cristo, uma memória viva dos seus mandamentos, umaverdade
a ser vivida. Aliás, uma palavra só é verdadeiramente
acolhida quando se traduz em actos, quando é posta em prática.
A fé é uma decisão que compromete toda a existência.
É encontro, diálogo, comunhão de amor e de vida do
crente com Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6). Comporta
um acto de intimidade e abandono a Cristo, fazendo-nos viver como Ele
viveu (cf. Gál 2, 20), ou seja, no amor pleno a Deus e aos irmãos.
89. A fé possui também um conteúdo moral: dá
origem e exige um compromisso coerente de vida, comporta e aperfeiçoa
o acolhimento e a observância dos mandamentos divinos. Como escreve
o evangelista João, "Deus é luz e n'Ele não
há trevas. Se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos
nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade (...) E sabemos
que O conhecemos por isto: se guardarmos os Seus mandamentos. Aquele que
diz conhecê-Lo, e não guarda os Seus mandamentos é
mentiroso, e a verdade não está nele. Mas quem guarda a
Sua palavra, nesse, o amor de Deus é verdadeiramente perfeito;
e, por isso, conhecemos que estamos n'Ele. Aquele que diz que está
n'Ele, deve também andar como Ele andou" (1 Jo 1, 5-6; 2,
3-6).
Através da vida moral, a fé torna-se "confissão"
não só perante Deus, mas também diante dos homens:
faz-se testemunho. "Vós sois a luz do mundo - disse Jesus.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se
acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do
velador, e assim alumia a todos os que estão em casa. Brilhe a
vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai, que está nos Céus" (Mt 5,
14-16). Estas obras são, sobretudo, as da caridade (cf. Mt 25,
31-46) e da autêntica liberdade que se manifesta e vive no dom de
si. Até ao dom total de si, como fez Jesus que, sobre a cruz, "amou
a Igreja e por ela Se entregou" (Ef 5, 25). O testemunho de Cristo
é fonte, paradigma e força para o testemunho do discípulo,
chamado a seguir pela mesma estrada: "Se alguém quer vir após
Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me"
(Lc 9, 23). A caridade, segundo as exigências do radicalismo evangélico,
pode levar o crente ao supremo testemunho do martírio. Sempre,
segundo o exemplo de Jesus que morre na cruz: "Sede, pois, imitadores
de Deus, como filhos muito amados, - escreve Paulo aos cristãos
de Éfeso - e progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo,
que nos amou e por nós Se entregou a Deus como oferenda e sacrifício
de agradável odor" (Ef 5, 1-2).
O martírio, exaltação da santidade inviolável
da lei de Deus
90. A relação entre fé e moral transparece com todo
o seu fulgor no respeito incondicional devido às exigências
inalienáveis da dignidade pessoal de cada homem, àquelas
exigências defendidas pelas normas morais que proibem sem excepção
os actos intrinsecamente maus. A universalidade e imutabilidade da norma
moral manifesta e, ao mesmo tempo, serve de tutela à dignidade
pessoal, ou seja, à inviolabilidade do homem, em cuja face brilha
o esplendor de Deus (cf. Gn 9, 5-6).
A recusa das teorias éticas "teleológicas", "consequencialistas"
e "proporcionalistas", que negam a existência de normas
morais negativas referentes a determinados comportamentos e válidas
sem excepção, encontra uma confirmação particularmente
eloquente no facto do martírio cristão, que sempre acompanhou
e ainda acompanha a vida da Igreja.
91. Já na Antiga Aliança, encontramos admiráveis
testemunhos de fidelidade à lei santa de Deus, levada até
à voluntária aceitação da morte. Emblemática
é a história de Susana: aos dois juízes injustos,
que ameaçavam condená-la à morte se se recusasse
ceder às suas paixões impuras, assim responde: "A que
aflições me encontro submetida de todos os lados! Consentir?
É para a mim a morte. Negar-me? Nem mesmo assim vos escaparei.
Não! É preferível para mim cair em vossas mãos
sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Senhor!" (Dn 13, 22-23).
Susana, preferindo "cair inocente" nas mãos dos juízes,
testemunha não só a sua fé e confiança em
Deus, mas também a sua obediência à verdade e ao carácter
absoluto da ordem moral: com a sua disponibilidade para o martírio,
proclama que não é justo praticar o que a lei de Deus qualifica
como mal para dele conseguir algum bem. Ela escolhe para si a "melhor
parte": um claríssimo testemunho, sem qualquer reserva, à
verdade do bem e ao Deus de Israel; manifesta assim, nos seus actos, a
santidade de Deus.
No limiar do Novo Testamento, João Baptista, recusando-se a calar
a lei do Senhor e a comprometer-se com o mal, "deu a sua vida pela
justiça e pela verdade",142 e foi assim o precursor do Messias
também no martírio (cf. Mc 6, 17-29). Por isso, "foi
encerrado na escuridão do cárcere aquele que veio para dar
testemunho da luz e que mereceu ser chamado pela mesma luz, que é
Cristo, lâmpada que arde e ilumina (...) E foi baptizado no próprio
sangue aquele a quem fora concedido baptizar o Redentor do mundo".143
Na Nova Aliança, encontram-se numerosos testemunhos de seguidores
de Cristo - a começar pelo diácono Estêvão
(cf. Act 6, 8-7, 60) e o apóstolo Tiago (cf. Act 12, 1-2) -, que
morreram mártires para confessar a sua fé e o seu amor ao
Mestre e para não O renegar. Nisto, eles seguiram o Senhor Jesus,
que, diante de Caifás e Pilatos, "deu um tão belo testemunho"
(1 Tim 6, 13), confirmando a verdade da Sua mensagem com o dom da vida.
Inumeráveis os mártires que preferiram as perseguições
e a morte, a cumprir o gesto idólatra de queimar incenso perante
a estátua do Imperador (cf. Ap 13, 7-10). Rejeitaram inclusive
simular um tal culto, dando assim o exemplo do dever de abster-se até
de um mero comportamento exterior contrário ao amor de Deus e ao
testemunho da fé. Na obediência, eles confiaram e entregaram,
como Cristo, a sua vida ao Pai, Àquele que os podia livrar da morte
(cf. Heb 5, 7).
A Igreja propõe o exemplo de numerosos santos e santas que testemunharam
e defenderam a verdade moral até ao martírio ou preferiram
a morte a um só pecado mortal. Elevando-os à honra dos altares,
a Igreja canonizou o seu testemunho e declarou verdadeiro o seu juízo,
segundo o qual o amor de Deus implica obrigatoriamente o respeito dos
seus mandamentos, inclusive nas circunstâncias mais graves, e a
recusa de atraiçoá-los, mesmo com a intenção
de salvar a própria vida.
92. No martírio, enquanto afirmação da inviolabilidade
da ordem moral, refulge a santidade da lei divina e, conjuntamente, a
intangibilidade da dignidade pessoal do homem, criado à imagem
e semelhança de Deus: é uma dignidade que nunca é
permitido aviltar ou contrariar, nem mesmo com boas intenções,
sejam quais forem as dificuldades. Jesus adverte-nos, com a máxima
severidade: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder
a sua alma?" (Mc 8, 36).
O martírio desautoriza como sendo ilusório e falso, qualquer
"significado humano" que se pretenda atribuir, mesmo em condições
"excepcionais", ao acto em si próprio moralmente mau;
mais ainda, revela claramente a sua verdadeira face: a de uma violação
da "humanidade" do homem, antes ainda em quem o realiza do que
naquele que o padece.144 Portanto, o martírio é também
exaltação da perfeita "humanidade" e da verdadeira
"vida" da pessoa, como testemunha S. Inácio de Antioquia,
dirigindo-se aos cristãos de Roma, lugar do seu martírio:
"Tende compaixão de mim, irmãos: não me impeçais
de viver, não queirais que eu morra (...) Deixai que eu alcance
a pura luz; chegado lá, serei verdadeiramente homem. Deixai que
eu imite a paixão do meu Deus".145
93. O martírio é, enfim, um preclaro sinal da santidade
da Igreja: a fidelidade à lei santa de Deus, testemunhada com a
morte, é anúncio solene e compromisso missionário
usque ad sanguinem, a fim de que o esplendor da verdade moral não
seja ofuscado nos costumes e na mentalidade das pessoas e da sociedade.
Um tal testemunho oferece uma contribuição de valor extraordinário,
para que, tanto na sociedade civil como também no seio das próprias
comunidades eclesiais, não se caia na crise mais perigosa que pode
afligir o homem: a confusão do bem e do mal, que torna impossível
construir e conservar a ordem moral dos indivíduos e das comunidades.
Os mártires, e mais em geral todos os santos da Igreja, através
do exemplo eloquente e fascinante de uma vida totalmente transfigurada
pelo esplendor da verdade moral, iluminam cada época da história
despertando o seu sentido moral. Dando pleno testemunho do bem, eles são
uma viva censura para os que transgridem a lei (cf. Sab 2, 12), e fazem
ressoar, com permanente actualidade, as palavras do profeta: "Ai
dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que têm as trevas por luz
e a luz por trevas, que têm o amargo por doce e o doce por amargo"
(Is 5, 20).
Se o martírio representa o ápice do testemunho a favor da
verdade moral, ao qual relativamente poucos podem ser chamados, há,
contudo, um testemunho coerente que todos os cristãos devem estar
prontos a dar cada dia, mesmo à custa de sofrimentos e de graves
sacrifícios. De facto, diante das múltiplas dificuldades
que, mesmo nas circunstâncias mais comuns, pode exigir a fidelidade
à ordem moral, o cristão é chamado, com a graça
de Deus implorada na oração, a um compromisso por vezes
heróico, amparado pela virtude da fortaleza, mediante a qual -
como ensina S. Gregório Magno - ele até consegue "amar
as dificuldades deste mundo, em vista do prémio eterno".146
94. Neste testemunho ao carácter absoluto do bem moral, os cristãos
não estão sós: encontram confirmação
no sentido moral dos povos e nas grandes tradições religiosas
e sapienciais do Ocidente e do Oriente, não sem uma interior e
misteriosa acção do Espírito de Deus. Sirva de exemplo,
a expressão do poeta latino Juvenal: "Considera o maior dos
crimes preferir a sobrevivência à honra e, por amor da vida
física, perder as razões de viver".147 A voz da consciência
sempre invocou, sem ambiguidades, a existência de verdades e valores
morais, pelos quais se deve estar pronto inclusive a dar a vida. Na palavra
e sobretudo no sacrifício da vida pelo valor moral, a Igreja reconhece
o mesmo testemunho àquela verdade que, já presente na criação,
resplandece plenamente no rosto de Cristo: "Sabemos - escreve S.
Justino - que os seguidores das doutrinas dos estóicos foram expostos
ao ódio e mortos, quando deram prova de sabedoria no seu enunciado
moral (...) graças à semente do Verbo inscrita em todo o
género humano".148
As normas morais universais e imutáveis ao serviço da pessoa
e da sociedade
95. A doutrina da Igreja, e particularmente a sua firmeza em defender
a validade universal e permanente dos preceitos que proibem os actos intrinsecamente
maus, é julgada frequentemente como sinal de uma intransigência
intolerável, sobretudo nas situações extremamente
complexas e conflituosas da vida moral do homem e da sociedade de hoje:
uma intransigência que estaria em contraste com o sentido materno
da Igreja. Nesta, dizem, escasseiam a compreensão e a compaixão.
Mas, na verdade, a maternidade da Igreja nunca pode ser separada da missão
de ensinar que ela deve cumprir sempre como Esposa fiel de Cristo, a Verdade
em pessoa: "Como Mestra, ela não se cansa de proclamar a norma
moral (...) De tal norma, a Igreja não é, certamente, nem
a autora nem o juiz. Em obediência à verdade que é
Cristo, cuja imagem se reflecte na natureza e na dignidade da pessoa humana,
a Igreja interpreta a norma moral e propõe-na a todos os homens
de boa vontade, sem esconder as suas exigências de radicalidade
e de perfeição".149
Na realidade, a verdadeira compreensão e a genuína compaixão
devem significar amor pela pessoa, pelo seu verdadeiro bem, pela sua liberdade
autêntica. E isto, certamente, não acontece escondendo ou
enfraquecendo a verdade moral, mas sim propondo-a no seu íntimo
significado de irradiação da Sabedoria eterna de Deus, que
nos veio por Cristo, e de serviço ao homem, ao crescimento da sua
liberdade e à consecução da sua felicidade.150
Ao mesmo tempo, a apresentação clara e vigorosa da verdade
moral jamais pode prescindir de um profundo e sincero respeito, animado
por um amor paciente e confiante, de que o homem sempre necessita na sua
caminhada moral, tornada, com frequência, cansativa pelas dificuldades,
debilidades e situações dolorosas. A Igreja, que jamais
poderá renunciar ao "princípio da verdade e da coerência,
pelo qual não aceita chamar bem ao mal e mal ao bem", 151
deve estar sempre atenta para não partir a cana já fendida
e para não apagar a chama que ainda fumega (cf. Is 42, 3). Paulo
VI escreveu: "Não diminuir em nada a doutrina salvadora de
Cristo constitui eminente forma de caridade para com as almas. Esta, porém,
deve ser sempre acompanhada da paciência e bondade, de que o próprio
Senhor deu exemplo ao tratar com os homens. Tendo vindo não para
julgar mas para salvar (cf. Jo 3, 17), Ele foi certamente intransigente
com o mal, mas misericordioso com as pessoas".152
96. A firmeza da Igreja em defender as normas morais universais e imutáveis,
nada tem de humilhante. Fá-lo apenas ao serviço da verdadeira
liberdade do homem: dado que não há liberdade fora ou contra
a verdade, a defesa categórica, ou seja, sem concessões
nem compromissos, das exigências absolutamente irrenunciáveis
da dignidade pessoal do homem, deve considerar-se caminho e condição
para a existência mesma da liberdade.
Este serviço é oferecido a cada homem, considerado na unicidade
e irrepetibilidade do seu ser e existir: só na obediência
às normas morais universais, o homem encontra plena confirmação
da unicidade como pessoa e possibilidade de verdadeiro crescimento moral.
E, precisamente por isso, um tal serviço é prestado a todos
os homens: não só aos indivíduos, mas também
à comunidade, à sociedade como tal. Estas normas constituem,
de facto, o fundamento inabalável e a sólida garantia de
uma justa e pacífica convivência humana, e, portanto, de
uma verdadeira democracia, que pode nascer e crescer apenas sobre a igualdade
de todos os seus membros, irmanados nos direitos e deveres. Diante das
normas morais que proibem o mal intrínseco, não existem
privilégios, nem excepções para ninguém. Ser
o dono do mundo ou o último "miserável" sobre
a face da terra, não faz diferença alguma: perante as exigências
morais, todos somos absolutamente iguais.
97. Assim as normas morais, e primariamente as negativas que proibem o
mal, manifestam o seu significado e a sua força, ao mesmo tempo,
pessoal e social: ao proteger a inviolável dignidade pessoal de
cada homem, elas servem a própria conservação do
tecido social humano e o seu recto e fecundo desenvolvimento. Particularmente
os mandamentos da segunda tábua do Decálogo, lembrados também
por Jesus ao jovem do Evangelho (cf. Mt 19, 18), constituem as regras
primordiais de toda a vida social.
Estes mandamentos são formulados em termos gerais. Mas, o facto
de que "a pessoa humana é e deve ser o princípio, o
sujeito e o fim de todas as instituições sociais",153
permite precisá-los e explicitá-los num código de
comportamento mais pormenorizado. Neste sentido, as regras morais fundamentais
da vida social comportam exigências determinadas, às quais
se devem ater tanto as autoridades públicas, como os cidadãos.
Independentemente das intenções, por vezes boas, e das circunstâncias,
amiúde difíceis, as autoridades civis e os sujeitos particulares
nunca estão autorizados a transgredir os direitos fundamentais
e inalienáveis da pessoa humana. Assim, só uma moral que
reconhece normas válidas sempre e para todos, sem qualquer excepção,
pode garantir o fundamento ético da convivência social, tanto
nacional como internacional.
A moral e a renovação da vida social e política
98. Perante as graves formas de injustiça social e económica
e de corrupção política, que gravam sobre povos e
nações inteiras, cresce a reacção indignada
de muitíssimas pessoas oprimidas e humilhadas nos seus direitos
humanos fundamentais e torna-se sempre mais ampla e sentida a necessidade
de uma radical renovação pessoal e social, capaz de assegurar
justiça, solidariedade, honestidade, transparência.
É certamente longa e dura, a estrada a percorrer; numerosos e ingentes
são os esforços a cumprir para levar a cabo uma tal renovação,
inclusive pela multiplicidade e gravidade das causas que geram e alimentam
as situações de injustiça hoje presentes no mundo.
Mas, como ensina a história e a experiência de cada um, não
é difícil identificar na base destas situações,
causas propriamente "culturais", isto é, relacionadas
com determinadas visões do homem, da sociedade e do mundo. Na verdade,
no âmago da questão cultural está o sentido moral,
que, por sua vez, se fundamenta e se realiza no sentido religioso.154
99. Só Deus, o Bem supremo, constitui a base irremovível
e a condição insubstituível da moralidade, e portanto
dos mandamentos, em particular dos negativos que proibem, sempre e em
todos os casos, o comportamento e os actos incompatíveis com a
dignidade pessoal de cada homem. Deste modo, o Bem supremo e o bem moral
encontram-se na verdade: a verdade de Deus Criador e Redentor e a verdade
do homem criado e redimido por Ele. Apenas sobre esta verdade é
possível construir uma sociedade renovada e resolver os complexos
e gravosos problemas que a abalam, sendo o primeiro deles vencer as mais
diversas formas de totalitarismo para abrir caminho à autêntica
liberdade da pessoa. "O totalitarismo nasce da negação
da verdade em sentido objectivo: se não existe uma verdade transcendente,
na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade,
então não há qualquer princípio seguro que
garanta relações justas entre os homens. Com efeito, o seu
interesse de classe, de grupo, de Nação contrapõe-nos
inevitavelmente uns aos outros. Se não se reconhece a verdade transcendente,
triunfa a força do poder, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo
dos meios à sua disposição para impor o próprio
interesse ou opinião, sem atender aos direitos do outro (...) A
raiz do totalitarismo moderno, portanto, deve ser individuada na negação
da transcendente dignidade da pessoa humana, imagem visível de
Deus invisível e, precisamente por isso, pela sua própria
natureza, sujeito de direitos que ninguém pode violar: seja indivíduo,
grupo, classe, Nação ou Estado. Nem tão pouco o pode
fazer a maioria de um corpo social, lançando-se contra a minoria,
alienando, oprimindo, explorando ou tentando destruí-la".155
Por isso, a conexão indivisível entre verdade e liberdade
- que exprime o vínculo essencial entre a sabedoria e a vontade
de Deus - possui um significado de extrema importância para a vida
das pessoas no âmbito sócio-económico e sócio-político,
como resulta da doutrina social da Igreja - a qual "pertence (...)
ao campo da teologia e, especialmente da teologia moral",156 - e
da sua apresentação de mandamentos que regulam a vida social,
económica e política, não só no que se refere
a atitudes gerais, mas também a precisos e determinados comportamentos
e actos concretos.
100. Desta forma, o Catecismo da Igreja Católica, depois de ter
afirmado que, "em matéria económica, o respeito da
dignidade humana exige a prática da virtude da temperança,
para moderar o apego aos bens deste mundo; da virtude da justiça,
para acautelar os direitos do próximo e dar-lhe o que é
devido; e da solidariedade, segundo a regra de ouro e conforme a liberalidade
do Senhor, que "sendo rico Se fez pobre para nos enriquecer com a
Sua pobreza" (2 Cor 8, 9)",157 apresenta uma série de
comportamentos e actos que vão contra a dignidade humana: o furto,
o reter deliberadamente coisas recebidas por empréstimo ou objectos
perdidos, a fraude no comércio (cf. Dt 25, 13-16), os salários
injustos (cf. Dt 24, 14-15; Tg 5, 4), o aumento dos preços, especulando
sobre a ignorância e a necessidade alheia (cf. Am 8, 4-6), a apropriação
e o uso privado dos bens sociais de uma empresa, os trabalhos mal executados,
a fraude fiscal, a falsificação de cheques e facturas, os
gastos excessivos, o desperdício, etc.158 E ainda: "O sétimo
mandamento proíbe os actos ou empreendimentos que, seja por que
motivo for - egoísta ou ideológico, mercantil ou totalitário
-, conduzam a escravizar seres humanos, a desconhecer a sua dignidade
pessoal, a comprá-los, vendê-los, trocá-los como mercadoria.
É um pecado contra a dignidade das pessoas e seus direitos fundamentais
reduzí-las, pela violência, a um valor utilitário
ou a uma fonte de lucro. S. Paulo ordenava a um amo cristão que
tratasse seu escravo, também cristão, "não como
escravo, mas como irmão (...), como um homem, no Senhor" (Flm
16)".159
101. No âmbito político, deve-se assinalar que a veracidade
nas relações dos governantes com os governados, a transparência
na administração pública, a imparcialidade no serviço
das Instituições públicas, o respeito dos direitos
dos adversários políticos, a tutela dos direitos dos acusados
face a processos e condenações sumárias, o uso justo
e honesto do dinheiro público, a recusa de meios equívocos
ou ilícitos para conquistar, manter e aumentar a todo o custo o
poder, são princípios que encontram a sua raiz primária
- como também a sua singular urgência - no valor transcendente
da pessoa e nas exigências morais objectivas de governo dos Estados.160
Quando aqueles deixam de ser observados, esmorece o próprio fundamento
da convivência política e toda a vida social fica progressivamente
comprometida, ameaçada e votada à sua dissolução
(cf. Sal 1314, 3-4; Ap 18, 2-3. 9-24). Após a queda, em muitos
países, das ideologias que vinculavam a política a uma concepção
totalitária do mundo - sendo o marxismo, a primeira dentre elas
-, esboça-se hoje um risco não menos grave para a negação
dos direitos fundamentais da pessoa humana e para a reabsorção
na política da própria inquietação religiosa
que habita no coração de cada ser humano: é o risco
da aliança entre democracia e relativismo ético, que tira
à convivência civil qualquer ponto seguro de referência
moral, e, mais radicalmente, priva-a da verificação da verdade.
De facto, "se não existe nenhuma verdade última que
guie e oriente a acção política, então as
ideias e as convicções políticas podem ser facilmente
instrumentalizadas para fins de poder. Uma democracia sem valores converte-se
facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história
demonstra".161
Desta forma, em qualquer campo da vida pessoal, familiar, social e política,
a moral - que se baseia sobre a verdade e na verdade se abre à
autêntica liberdade - presta um serviço original, insubstituível
e de enorme valor não só para o indivíduo e o seu
crescimento no bem, mas também para a sociedade e o seu verdadeiro
progresso.
Graça e obediência à lei de Deus
102. Mesmo nas situações mais difíceis, o homem deve
observar a norma moral para ser obediente ao santo mandamento de Deus
e coerente com a própria dignidade pessoal. Certamente a harmonia
entre liberdade e verdade pede, por vezes, sacrifícios extraordinários,
sendo conquistada por alto preço: pode comportar inclusive o martírio.
Mas, como demonstra a experiência universal e quotidiana, o homem
sente-se tentado a romper essa harmonia: "Não faço
aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço (...) O bem que eu
quero não o faço, mas o mal que não quero" (Rm
7, 15. 19).
Mas donde provém, em última análise, esta cisão
interior do homem? Este começa a sua história de pecado,
quando deixa de reconhecer o Senhor como seu Criador e quer ser ele mesmo
a decidir, com total independência, o que é bem e o que é
mal. "Sereis como Deus, e ficareis a conhecer o bem e o mal"
(Gn 3, 5): esta é a primeira tentação, e dela fazem
eco todas as outras tentações, às quais o homem está
mais facilmente inclinado a ceder por causa das feridas da queda original.
Mas as tentações podem ser vencidas, os pecados podem ser
evitados, porque, com os mandamentos, o Senhor nos dá a possibilidade
de observá-los: "Os olhos do Senhor estão sobre os
que O temem, Ele conhece as acções de cada um. Ele a ninguém
deu ordem para fazer o mal e a ninguém deu permissão de
pecar (Sir 15, 19-20). A observância da lei de Deus, em determinadas
situações, pode ser difícil, até dificílima:
nunca, porém, impossível. Este é um ensinamento constante
da tradição da Igreja, assim expresso pelo Concílio
de Trento: "Ninguém pois, mesmo justificado, se deve considerar
livre da observância dos mandamentos; ninguém se deve apropriar
daquela expressão temerária e já condenada com a
excomunhão pelos Padres, segundo a qual é impossível
ao homem justificado observar os mandamentos de Deus. De facto, Deus não
manda coisas impossíveis, mas ao ordená-las exorta-te a
fazeres tudo o que podes, e a pedires o que não podes, ajudando-te
para que possas; com efeito, "os mandamentos de Deus não são
pesados" (cf. 1 Jo 5, 3) e "o Seu jugo é suave e o Seu
fardo leve" (cf. Mt 11, 30)".162
103. Ao homem, permanece sempre aberto o horizonte espiritual da esperança,
com a ajuda da graça divina e com a colaboração da
liberdade humana.
É na Cruz salvadora de Jesus, no dom do Espírito Santo,
nos Sacramentos que promanam do lado trespassado do Redentor (cf. Jo 19,
34), que o crente encontra a graça e a força para observar
sempre a lei santa de Deus, inclusive no meio das mais graves dificuldades.
Como diz S. André de Creta, a própria lei "foi animada
pela graça e posta ao serviço desta numa combinação
harmónica e fecunda. Cada uma delas conservou as suas características
sem alteração nem confusão. Mas a lei, que antes
constituia um ónus gravoso e uma tirania, tornou-se, por obra de
Deus, peso suave e fonte de liberdade".163
Só no mistério da Redenção de Cristo se encontram
as "concretas" possibilidades do homem. "Seria um erro
gravíssimo concluir (...) que a norma ensinada pela Igreja é
em si própria apenas um "ideal" que deve posteriormente
ser adaptado, proporcionado, graduado - dizem - às concretas possibilidades
do homem: segundo um "cálculo dos vários bens em questão".
Mas, quais são as "concretas possibilidades do homem"?
E de que homem se fala? Do homem dominado pela concupiscência ou
do homem redimido por Cristo? Pois é disso que se trata: da realidade
da redenção de Cristo. Cristo redimiu-nos! O que significa
que Ele nos deu a possibilidade de realizar toda a verdade do nosso ser;
Ele libertou a nossa liberdade do domínio da concupiscência.
E se o homem redimido ainda peca, não é devido à
imperfeição do acto redentor de Cristo, mas à vontade
do homem de furtar-se à graça que brota daquele acto. O
mandamento de Deus é certamente proporcionado às capacidades
do homem: mas às capacidades do homem a quem foi dado o Espírito
Santo; do homem que, no caso de cair no pecado, sempre pode obter o perdão
e gozar da presença do Espírito".164
104. Neste contexto, abre-se o justo espaço à misericórdia
de Deus pelo pecado do homem que se converte, e à compreensão
pela fraqueza humana. Esta compreensão não significa nunca
comprometer e falsificar a medida do bem e do mal, para adaptá-la
às circunstâncias. Se é humano que a pessoa, tendo
pecado, reconheça a sua fraqueza e peça misericórdia
pela própria culpa, é inaceitável, pelo contrário,
o comportamento de quem faz da própria fraqueza o critério
da verdade do bem, de modo a poder-se sentir justificado por si só,
mesmo sem necessidade de recorrer a Deus e à Sua misericórdia.
Semelhante atitude corrompe a moralidade da sociedade inteira, porque
ensina a duvidar da objectividade da lei moral em geral e a rejeitar o
carácter absoluto das proibições morais acerca de
determinados actos humanos, acabando por confundir todos os juízos
de valor.
Devemos, ao invés, acolher a mensagem que nos vem da parábola
evangélica do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-14). Talvez
o publicano pudesse ter alguma justificação para os pecados
cometidos, de modo a diminuir a sua responsabilidade. Porém, não
é sobre estas justificações que se detém a
sua oração, mas sobre a própria indignidade face
à infinita santidade de Deus: "Ó Deus, tem piedade
de mim, que sou pecador" (Lc 18, 13). O fariseu, pelo contrário,
justifica-se por si só, encontrando talvez uma desculpa para cada
uma das suas faltas. Defrontamo-nos, assim, com dois comportamentos diversos
da consciência moral do homem de todos os tempos. O publicano apresenta-nos
uma consciência "penitente", que está plenamente
ciente da fragilidade da própria natureza e vê nas próprias
faltas, independentemente das justificações subjectivas,
uma confirmação do próprio ser necessitado de redenção.
O fariseu mostra-nos uma consciência "satisfeita consigo mesma",
que se ilude de poder observar a lei sem a ajuda da graça e está
convencida de não ter necessidade da misericórdia.
105. A todos é pedida uma grande vigilância para não
se deixar contagiar pela atitude farisaica que pretende eliminar a consciência
da própria limitação e do próprio pecado,
e que hoje se exprime particularmente na tentativa de adaptar a norma
moral às próprias capacidades e interesses, e até
na rejeição do conceito mesmo de norma. Pelo contrário,
aceitar a "desproporção" entre a lei e a capacidade
humana, ou seja, a capacidade das simples forças morais do homem
deixado a si próprio, aviva o desejo da graça e predispõe
a recebê-la. "Quem me há-de libertar deste corpo de
morte?" - pergunta-se o apóstolo Paulo. E numa jubilosa e
grata confissão, responde: "Graças sejam dadas a Deus,
por Jesus Cristo, Nosso Senhor!" (Rm 7, 24-25).
A mesma consciência nos aparece nesta oração de S.
Ambrósio de Milão: "De facto, o que é o homem
se Vós não o visitais? Não esqueçais, portanto,
o débil. Lembrai-Vos, ó Senhor, que me fizestes débil,
e que do pó me plasmastes. Como poderei permanecer de pé,
se Vós não me olhais continuamente para consolidar este
barro, já que a minha consistência provém da Vossa
face? "Se escondeis o Vosso rosto, tudo desfalece" (Sal 103,
29): mas, se Vós me olhais, ai de mim! Nada tendes para ver em
mim senão montanhas de delitos: não traz vantagem ser abandonados
nem ser vistos, porque, quando somos contemplados, provocamos desgosto.
Podemos, porém, pensar que Deus não rejeita aqueles que
vê, porque purifica aos que olha. Diante d'Ele arde um fogo capaz
de queimar a culpa (cf. Jl 2, 3)".165
Moral e nova evangelização
106. A evangelização é o desafio mais forte e sublime,
que a Igreja é chamada a enfrentar desde a sua origem. Na verdade,
a proporem este desafio não são tanto as situações
sociais e culturais que ela encontra ao longo da história, como
sobretudo o mandato de Jesus Cristo ressuscitado, que assim define a razão
da existência da Igreja: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai
a Boa Nova a toda a criatura" (Mc 16, 15).
Mas o momento que estamos a viver, pelo menos numa extensão grande
da humanidade, é mais o de um formidável incitamento à
"nova evangelização", ou seja, ao anúncio
do Evangelho sempre novo e sempre portador de novidade, uma evangelização
que deve ser "nova no seu ardor, nos seus métodos e na sua
expressão".166 A descristianização que pesa
sobre povos e comunidades inteiras, outrora ricas de fé e de vida
cristã, comporta não só a perda da fé ou de
qualquer modo a sua ineficácia na vida, mas também, e necessariamente,
um declínio ou um obscurecimento do sentido moral: e isto, quer
pela dissipação da consciência da originalidade da
moral evangélica, quer pelo eclipse dos próprios princípios
e valores éticos fundamentais. As tendências subjectivistas,
relativistas e utilitaristas, hoje amplamente difundidas, apresentam-se
não simplesmente como posições pragmáticas,
como prática comum, mas como concepções consolidadas
do ponto de vista teorético que reivindicam uma sua plena legitimidade
cultural e social.
107. A evangelização - e, portanto, a "nova evangelização"
- comporta também o anúncio e a proposta moral. O próprio
Jesus, precisamente ao pregar o Reino de Deus e o Seu amor salvífico,
fez apelo à fé e à conversão (cf. Mc 1, 15).
E Pedro, com os outros Apóstolos, ao anunciar a ressurreição
de Jesus de Nazaré de entre os mortos, propõe uma vida nova
a viver, um "caminho" a seguir para ser discípulo do
Ressuscitado (cf. Act 2, 37-41; 3, 17-20).
Tanto ou mais ainda que pelas verdades da fé, é ao propor
os fundamentos e os conteúdos da moral cristã que a nova
evangelização manifesta a sua autenticidade, e, ao mesmo
tempo, expande toda a sua força missionária, quando se realiza
com o dom não só da palavra anunciada, mas também
da palavra vivida. É particularmente a vida de santidade, resplandecente
em tantos membros do Povo de Deus, humildes e, com frequência, despercebidos
aos olhos dos homens, que constitui o caminho mais simples e fascinante,
onde é permitido perceber imediatamente a beleza da verdade, a
força libertadora do amor de Deus, o valor da fidelidade incondicional
a todas as exigências da lei do Senhor, mesmo nas circunstâncias
mais difíceis. Por isso, a Igreja, com a sua sábia pedagogia
moral, sempre convidou os crentes a procurarem e a encontrarem nos santos
e santas, e, em primeiro lugar, na Virgem Mãe de Deus "cheia
de graça" e "toda santa", o modelo, a força
e a alegria para viver uma vida conforme aos mandamentos e às Bem-aventuranças
do Evangelho.
A vida dos santos, reflexo da bondade de Deus - d'Aquele que "só
é bom" -, constitui não apenas uma verdadeira confissão
de fé e um impulso para a comunicar aos outros, mas também
uma glorificação de Deus e da sua infinita santidade. Uma
vida santa leva assim à sua plenitude de expressão e actuação
o tríplice e unitário munus propheticum, sacerdotale et
regale, que cada cristão recebe como dom no renascimento baptismal
"da água e do Espírito" (Jo 3, 5). A sua vida
moral possui o valor de um " culto espiritual " (Rm 12, 1; cf.
Fil 3, 3), que brota e se alimenta daquela fonte inesgotável de
santidade e glorificação de Deus que são os Sacramentos,
especialmente a Eucaristia: com efeito, ao participar no sacrifício
da Cruz, o cristão comunga do amor de doação de Cristo,
ficando habilitado e comprometido a viver esta mesma caridade em todas
as suas atitudes e comportamentos de vida. Na vida moral, revela-se e
actua-se ainda o serviço régio do cristão: quanto
mais ele, com a ajuda da graça, obedece à lei nova do Espírito
Santo, tanto mais cresce na liberdade, à qual é chamado
através do serviço da verdade, da caridade e da justiça.
108. Na raiz da nova evangelização e da vida moral nova,
que aquela propõe e suscita com os seus frutos de santidade e de
missionação, está o Espírito de Cristo, princípio
e força da fecundidade da santa Mãe Igreja, como nos recorda
Paulo VI: "A evangelização nunca será possível
sem a acção do Espírito Santo".167 Ao Espírito
de Jesus, acolhido pelo coração humilde e dócil do
crente, se devem, pois, o florescimento da vida moral cristã e
o testemunho da santidade na grande variedade das vocações,
dos dons, das responsabilidades e das condições e situações
de vida: é o Espírito Santo - anotava Novaciano, nisto exprimindo
a autêntica fé da Igreja - "Aquele que deu firmeza aos
corações e às mentes dos discípulos, que os
iniciou nos mistérios evangélicos, que os iluminou nas coisas
divinas; por Ele revigorados, não temeram as prisões nem
as correntes pelo nome do Senhor; antes, subjugaram as próprias
potências e tormentos do mundo, armados já e reforçados
por Seu intermédio, dotados que foram com os Seus dons que este
mesmo Espírito reparte e envia como jóias à Igreja,
Esposa de Cristo. É Ele, de facto, que na Igreja suscita os profetas,
instrui os mestres, guia as línguas, realiza prodígios e
curas, produz obras admiráveis, concede o discernimento dos espíritos,
confere os encargos de governo, sugere os conselhos, reparte e harmoniza
os restantes dons carismáticos, tornando, assim, por toda a parte
e em tudo plenamente perfeita a Igreja do Senhor".168
No contexto vivo desta nova evangelização, destinada a gerar
e a nutrir "a fé que actua pela caridade" (Gál
5, 6), e em relação com a obra do Espírito Santo,
podemos agora compreender o lugar que, na Igreja, comunidade dos crentes,
compete à reflexão que a teologia deve desenvolver sobre
a vida moral, assim como podemos apresentar a missão e a responsabilidade
própria dos teólogos moralistas.
O serviço dos teólogos moralistas
109. Toda a Igreja, feita participante do munus propheticum do Senhor
Jesus mediante o dom do Seu Espírito, é chamada à
evangelização e ao testemunho de uma vida de fé.
Graças à presença permanente do Espírito de
verdade nela (cf. Jo 14, 16-17), "a totalidade dos fiéis que
receberam a unção do Espírito Santo (cf. 1 Jo 2,
20.27) não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade
peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do
Povo todo, quando este, "desde os Bispos até ao último
dos fiéis leigos", manifesta consenso universal em matéria
de fé e de costumes".169
Para cumprir a sua missão profética, a Igreja deve continuamente
despertar ou "reavivar" a própria vida de fé (cf.
2 Tim 1, 6), particularmente por meio de uma reflexão cada vez
mais profunda do conteúdo da mesma fé, sob a guia do Espírito
Santo. É ao serviço desta "busca fiel da inteligência
da fé" que está, de modo específico, a "vocação"
do teólogo na Igreja: "Entre as vocações suscitadas
na Igreja pelo Espírito - lemos na Instrução Donum
veritatis - distingue-se a do teólogo, que em modo particular,
tem a função de adquirir, em comunhão com o Magistério,
uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus contida
na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva
da Igreja. Por sua natureza a fé se apela à inteligência,
porque desvela ao homem a verdade sobre o seu destino e o caminho para
o alcançar. Mesmo sendo a verdade revelada superior a todo o nosso
falar, e sendo os nossos conceitos imperfeitos frente à sua grandeza,
em última análise insondável (cf. Ef 3, 19), ela
convida porém a razão - dom de Deus feito para colher a
verdade - a entrar na sua luz, tornando-se assim capaz de compreender,
em certa medida, aquilo em que crê. A ciência teológica,
que respondendo ao convite da verdade, busca a inteligência da fé,
auxilia o Povo de Deus, de acordo com o mandamento do Apóstolo
(cf. 1 Pd 3, 15), a dar razão da própria esperança,
àqueles que a pedem".170
Para definir a própria identidade da teologia e, consequentemente,
actuar a sua missão específica, é fundamental reconhecer
o seu nexo íntimo e vivo com a Igreja, o seu mistério, a
sua vida e missão: "A teologia é ciência eclesial,
porque cresce na Igreja e age sobre a Igreja (...) Ela está ao
serviço da Igreja, devendo portanto sentir-se dinamicamente inserida
na missão da Igreja, particularmente na sua missão profética".171
Por sua natureza e dinamismo, a teologia autêntica só pode
florescer e desenvolver-se mediante uma convicta e responsável
participação e "pertença" à Igreja
enquanto "comunidade de fé", assim como a esta mesma
Igreja e à sua vida de fé retorna o fruto da pesquisa e
do aprofundamento teológico.
110. Quanto foi dito até agora sobre a teologia em geral, pode
e deve ser referido à teologia moral, considerada na sua especificidade
de reflexão científica sobre o Evangelho como dom e mandamento
de vida nova, sobre a vida "segundo a verdade na caridade" (Ef
4, 15), sobre a vida de santidade da Igreja, na qual resplandece a verdade
do bem levado até à sua perfeição. Não
só no âmbito da fé, mas também e de modo indivisível
no âmbito da moral, intervém o Magistério da Igreja,
cuja tarefa é "discernir, mediante juízos normativos
para a consciência dos fiéis, os actos que são em
si mesmos conformes às exigências da fé e que promovem
a sua expressão na vida, e aqueles que, pelo contrário,
por sua malícia intrínseca, são incompatíveis
com tais exigências".172
Pregando os mandamentos de Deus e a caridade de Cristo, o Magistério
da Igreja ensina aos fiéis também os preceitos particulares
e determinados e pede-lhes que os considerem, em consciência, como
moralmente obrigatórios. Desempenha, além disso, um importante
papel de vigilância, advertindo os fiéis da presença
de eventuais erros, mesmo só implícitos, quando a sua consciência
não chega a reconhecer a conveniência e a verdade das regras
morais que o Magistério ensina.
Aqui se insere a tarefa específica de quantos, por mandato dos
legítimos Pastores, ensinam teologia moral nos Seminários
e nas Faculdades Teológicas. Eles têm o grave dever de instruir
os fiéis - especialmente os futuros Pastores - sobre todos os mandamentos
e as normas práticas que a Igreja declara com autoridade.173 Apesar
dos eventuais limites das argumentações humanas apresentadas
pelo Magistério, os teólogos moralistas são chamados
a aprofundar as razões dos seus ensinamentos, ilustrar o fundamento
dos preceitos por ele indicados e a sua obrigatoriedade, mostrando a sua
mútua conexão e a relação com o fim último
do homem.174 Cabe aos teólogos moralistas expor a doutrina da Igreja,
dando, no exercício do seu ministério, o exemplo de uma
leal adesão, interna e externa, ao ensinamento do Magistério,
tanto no campo do dogma como no da moral.175 Unindo as suas forças
para colaborar com o Magistério hierárquico, os teólogos
terão a peito fazer sobressair cada vez mais os fundamentos bíblicos,
os significados éticos e as motivações antropológicas
que apoiam a doutrina moral e a visão do homem, propostas pela
Igreja.
111. O serviço que os teólogos moralistas são chamados
a prestar, na hora actual, é de primária importância
não só para a vida e missão da Igreja, mas também
para a sociedade e a cultura humana. Em estreita e vital conexão
com a teologia bíblica e dogmática, compete-lhes sublinhar,
na reflexão científica, "o aspecto dinâmico que
faz ressaltar a resposta que o homem deve dar ao apelo divino no processo
do seu crescimento no amor, no âmbito de uma comunidade salvífica.
Deste modo, a teologia moral adquirirá uma dimensão espiritual
interna, respondendo às exigências de pleno desenvolvimento
da imago Dei, que está no homem, e às leis do processo espiritual
descrito na ascética e mística cristãs".176
Hoje certamente a teologia moral e o seu ensino defrontam-se com uma particular
dificuldade. Visto que a moral da Igreja implica necessariamente uma dimensão
normativa, a teologia moral não se pode reduzir a um conhecimento
elaborado só no contexto das chamadas ciências humanas. Enquanto
estas se ocupam do fenómeno da moralidade como facto histórico
e social, a teologia moral, embora deva servir-se das ciências do
homem e da natureza, não está, porém, subordinada
aos resultados da observação empírico-formal ou da
compreensão fenomenológica. Na verdade, a incidência
das ciências humanas na teologia moral sempre deverá ser
regulada pela pergunta originária: O que é o bem e o mal?
Que devo fazer para alcançar a vida eterna?
112. O teólogo moralista deve, portanto, praticar um cuidadoso
discernimento no contexto da actual cultura prevalecentemente científica
e técnica, sujeita aos perigos do relativismo, pragmatismo e positivismo.
Do ponto de vista teológico, os princípios morais não
estão dependentes do momento histórico, em que são
descobertos. Além disso, o facto de alguns crentes agirem sem observar
os ensinamentos do Magistério ou considerarem erradamente como
moralmente justa uma conduta, declarada pelos seus Pastores contrária
à lei de Deus, não pode constituir argumento válido
para rejeitar a verdade das normas morais ensinadas pela Igreja. A afirmação
dos princípios morais não é da competência
dos métodos empírico-formais. Sem negar a validade de tais
métodos, mas tão pouco sem restringir a eles a sua perspectiva,
a teologia moral, fiel ao sentido sobrenatural da fé, toma em consideração
sobretudo a dimensão espiritual do coração humano
e a sua vocação ao amor divino.
De facto, enquanto as ciências humanas, como todas as ciências
experimentais, desenvolvem um conceito empírico e estatístico
de "normalidade", a fé ensina que uma tal normalidade
carrega em si os vestígios de uma queda do homem da sua situação
original, ou seja, está afectada pelo pecado. Só a fé
cristã indica ao homem o caminho do regresso "ao princípio"
(cf. Mt 19, 8), um caminho que, com frequência, é bem distinto
daquele da normalidade empírica. Neste sentido, as ciências
humanas, apesar do grande valor dos conhecimentos que oferecem, não
podem ser assumidas como indicadores decisivos das normas morais deste
caminho. É o Evangelho que descobre a verdade integral sobre o
homem e sobre o seu caminho moral, e assim ilumina e adverte os pecadores
anunciando-lhes a misericórdia de Deus, o Qual incessantemente
cuida de os preservar tanto do desespero por não poderem conhecer
e observar a lei divina, como da presunção de se poderem
salvar sem merecimento. Além disso, ele lembra-lhes a alegria do
perdão, o único capaz de conceder a força para reconhecer
na lei moral uma verdade libertadora, uma graça de esperança,
um caminho de vida.
113. O ensino da doutrina moral implica a assunção consciente
destas responsabilidades intelectuais, espirituais e pastorais. Por isso,
os teólogos moralistas, que aceitam o encargo de ensinar a doutrina
da Igreja, têm o grave dever de educar os fiéis para o discernimento
moral, para o empenhamento no verdadeiro bem e para o recurso confiante
à graça divina.
Se a convergência e os conflitos de opinião podem constituir
expressões normais da vida pública, no contexto de uma democracia
representativa, a doutrina moral não pode certamente depender do
simples respeito por um tal processo; ela, de facto, não é
absolutamente estabelecida, seguindo as regras e as formas de uma deliberação
de tipo democrático. A discordância, feita de interesseiras
contestações e polémicas através dos meios
de comunicação social, é contrária à
comunhão eclesial e à recta compreensão da constituição
hierárquica do Povo de Deus. Na oposição aos ensinamentos
dos Pastores, não se pode reconhecer uma legítima expressão
da liberdade cristã nem da diversidade dos dons do Espírito.
Neste caso, os Pastores têm o dever de agir em conformidade com
a sua missão apostólica, exigindo que seja sempre respeitado
o direito dos fiéis de receberem a doutrina católica na
sua pureza e integridade: "O teólogo, não esquecendo
jamais que também ele é membro do Povo de Deus, deve nutrir-lhe
respeito, e esforçar-se por dispensar-lhe um ensinamento que não
venha lesar, de modo algum, a doutrina da fé".177
As nossas responsabilidades de Pastores
114. A responsabilidade pela fé e pela vida de fé do Povo
de Deus pesa duma maneira peculiar e precisa sobre os Pastores, como nos
lembra o Concílio Vaticano II: "Entre os principais encargos
dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho.
Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos
discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores
autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se
deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do
Espírito Santo e tirando do tesouro da revelação
coisas novas e antigas (cf. Mt 13, 52), fazem-no frutificar e solicitamente
afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cf. 2 Tim 4, 1-4)".178
É nosso dever comum e, antes ainda, nossa graça comum, ensinar
aos fiéis, como Pastores e Bispos da Igreja, aquilo que os conduz
pelo caminho de Deus, tal como fez um diz o Senhor Jesus com o jovem do
Evangelho. Ao responder à sua pergunta: "Que devo fazer de
bom para alcançar a vida eterna?", Jesus apontou para Deus,
Senhor da criação e da Aliança; lembrou os mandamentos
morais, já revelados no Antigo Testamento; indicou o seu espírito
e radicalidade, convidando a segui-Lo na pobreza, na humildade e no amor:
"Vem e segue-Me!". A verdade desta doutrina teve a sua chancela
sobre a Cruz no sangue de Cristo: tornou-se, no Espírito Santo,
a nova lei da Igreja e de cada cristão.
Esta "resposta" à questão moral está confiada
por Jesus Cristo de um modo particular a nós, Pastores da Igreja,
chamados a torná-la objecto do nosso magistério, e, portanto,
no cumprimento do nosso munus propheticum. Ao mesmo tempo, a nossa responsabilidade
de Pastores, quanto à doutrina moral cristã, deve ser actuada
também na forma do munus sacerdotale: isto realiza-se quando distribuímos
aos fiéis os dons da graça e da santificação,
como meio para obedecer à lei santa de Deus, e quando, com a nossa
assídua e confiante prece, sustentamos os crentes, para que sejam
fiéis às exigências da fé e vivam conforme
ao Evangelho (cf. Col 1, 9-12). A doutrina moral cristã deve constituir,
sobretudo hoje, um dos âmbitos privilegiados da nossa vigilância
pastoral, do exercício do nosso munus regale.
115. Com efeito, é a primeira vez que o Magistério da Igreja
expõe os elementos fundamentais dessa doutrina com uma certa amplitude,
e apresenta as razões do discernimento pastoral necessário
em situações práticas e culturais complexas e, por
vezes, críticas.
À luz da Revelação e do ensinamento constante da
Igreja, e especialmente do Concílio Vaticano II, evoquei brevemente
os traços essenciais da liberdade, os valores fundamentais relacionados
com a dignidade da pessoa e com a verdade dos seus actos, para assim poder
reconhecer na obediência à lei moral, uma graça e
um sinal da nossa adopção no único Filho (cf. Ef
1, 4-6). Em particular, com esta Encíclica, são propostas
avaliações sobre algumas tendências actuais na teologia
moral. Comunico-as agora, em obediência à palavra do Senhor
que confiou a Pedro o encargo de confirmar os seus irmãos (cf.
Lc 22, 32), para iluminar e ajudar o nosso discernimento comum.
Cada um de nós conhece a importância da doutrina que representa
o núcleo do ensinamento desta Encíclica e que hoje é
evocada com a autoridade do Sucessor de Pedro. Cada um de nós pode
considerar a gravidade daquilo que está em causa, não só
para os indivíduos mas também para a sociedade inteira,
na confirmação da universalidade e da imutabilidade dos
mandamentos morais, e, em particular, daqueles que proibem sempre e sem
excepção os actos intrinsecamente maus.
Ao reconhecer tais mandamentos, o coração cristão
e a nossa caridade pastoral escutam o apelo d'Aquele que "nos amou
primeiro" (1 Jo 4, 19). Deus pede-nos que sejamos santos como Ele
é santo (cf. Lv 19, 2), que sejamos - em Cristo - perfeitos como
Ele é perfeito (cf. Mt 5, 48): a exigente firmeza do mandamento
baseia-se no inesgotável amor misericordioso de Deus (cf. Lc 6,
36), e o fim do mandamento é conduzir-nos, com a graça de
Cristo, pelo caminho da plenitude da vida própria dos filhos de
Deus.
116. Temos o dever, como Bispos, de vigiar a fim de que a Palavra de Deus
seja fielmente ensinada. Meus Irmãos no Episcopado, faz parte do
nosso ministério pastoral vigiar sobre a transmissão fiel
deste ensinamento moral e recorrer às medidas oportunas para que
os fiéis sejam preservados de toda a doutrina e teoria a ele contrárias.
Nesta tarefa, todos somos ajudados pelos teólogos; mas, as opiniões
teológicas não constituem a regra nem a norma do nosso ensinamento.
A autoridade deste deriva, com a assistência do Espírito
Santo e na comunhão cum Petro et sub Petro, da nossa fidelidade
à fé católica recebida dos Apóstolos. Como
Bispos, temos a obrigação grave de vigiar pessoalmente por
que a "sã doutrina" (1 Tim 1, 10) da fé e da moral
seja ensinada nas nossas dioceses.
Uma particular responsabilidade se impõe aos Bispos, relativamente
às instituições católicas. Quer se trate de
organismos para a pastoral familiar ou social, quer de instituições
dedicadas ao ensino ou aos cuidados sanitários, os Bispos podem
erigir e reconhecer estas estruturas e delegar-lhes algumas responsabilidades;
mas, nunca ficam dispensados das próprias obrigações.
Compete-lhes, em comunhão com a Santa Sé, a tarefa de reconhecer,
ou de retirar em casos de grave incoerência, a denominação
de "católico" a escolas,179 universidades,180 clínicas
e serviços sócio-sanitários, que se dizem da Igreja.
117. No coração do cristão, no núcleo mais
secreto do homem, sempre ressoa a pergunta que, um dia, o jovem do Evangelho
dirigiu a Jesus: "Mestre, que devo fazer de bom para alcançar
a vida eterna?" (Mt 19, 16). É necessário, porém,
que cada um a faça ao "bom" Mestre, porque é o
único que pode responder na plenitude da verdade, em toda a situação
e nas mais diversas circunstâncias. E quando os cristãos
Lhe fazem a pergunta que sai da sua consciência, o Senhor responde
com as palavras da Nova Aliança confiadas à sua Igreja.
Ora, como diz de si próprio o Apóstolo, nós fomos
enviados "a pregar o Evangelho, não, porém, com sabedoria
de palavras, para não se desvirtuar a Cruz de Cristo" (1 Cor
1, 17). Por isso, a resposta da Igreja à pergunta do homem tem
a sabedoria e a força de Cristo crucificado, a Verdade que Se dá.
Quando os homens põem à Igreja as perguntas da sua consciência,
quando na Igreja os fiéis se dirigem aos Bispos e aos Pastores,
na resposta da Igreja está a voz de Jesus Cristo, a voz da verdade
acerca do bem e do mal. Mediante a palavra pronunciada pela Igreja, ressoa
no íntimo das pessoas a voz de Deus, que "só é
bom" (Mt 19, 17), que só "é amor" (1 Jo 4,
8. 16).
Na unção do Espírito, esta palavra doce e exigente
torna-se luz e vida para o homem. É ainda o apóstolo Paulo
a convidar-nos à confiança, porque "a nossa capacidade
vem de Deus. Ele é que nos fez capazes de sermos ministros de uma
Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito (...)
O Senhor é espírito e onde está o Espírito
do Senhor há liberdade. E todos nós, com o rosto descoberto,
reflectindo a glória do Senhor, como um espelho, somos transformados
de glória em glória, nessa mesma imagem, sempre mais resplandecente,
pela acção do Espírito do Senhor" (2 Cor 3,
5-6.17-18).
CONCLUSÃO
Maria, Mãe de misericórdia
118. No final destas considerações, confiamos nós
mesmos, os sofrimentos e as alegrias da nossa existência, a vida
moral dos crentes e dos homens de boa vontade, as pesquisas dos estudiosos
de moral a Maria, Mãe de Deus e Mãe de misericórdia.
Maria é Mãe de misericórdia, porque Jesus Cristo,
seu Filho, foi mandado pelo Pai como Revelação da misericórdia
de Deus (cf. Jo 3, 16-18). Ele não veio para condenar mas para
perdoar, para usar de misericórdia (cf. Mt 9, 13). E a misericórdia
maior está no seu habitar entre nós e na chamada que nos
é feita para O encontrar e confessar, juntamente com Pedro, como
"o Filho do Deus vivo" (Mt 16, 16). Nenhum pecado do homem pode
cancelar a misericórdia de Deus, nem pode impedi-la de expandir
toda a sua força vitoriosa, logo que a invocamos. Antes, o mesmo
pecado faz resplandecer ainda mais o amor do Pai que, para resgatar o
escravo, sacrificou o Seu Filho:181 a Sua misericórdia por nós
é redenção. Esta misericórdia chega à
sua plenitude com o dom do Espírito, que gera e exige a vida nova.
Por mais numerosos e grandes que sejam os obstáculos postos pela
fragilidade e pelo pecado do homem, o Espírito, que renova a face
da terra (cf. Sal 103104, 30), torna possível o milagre do cumprimento
perfeito do bem. Esta renovação, que dá a capacidade
de fazer o que é bom, nobre, belo, agradável a Deus e conforme
à Sua vontade, é em certo sentido o florescimento do dom
da misericórdia, que liberta da escravidão do mal e dá
a força de não mais pecar. Pelo dom da vida nova, Jesus
torna-nos participantes do Seu amor e nos conduz ao Pai no Espírito.
119. Esta é a consoladora certeza da fé cristã, à
qual se deve a sua profunda humanidade e a sua extraordinária simplicidade.
Por vezes, nas discussões sobre os novos e complexos problemas
morais, pode parecer que a moral cristã seja em si própria
demasiado difícil, árdua para se compreender e quase impossível
de praticar. Isto é falso, porque ela, em termos de simplicidade
evangélica, consiste em seguir Jesus Cristo, abandonar-se a Ele,
deixar-se transformar pela Sua graça e renovar pela Sua misericórdia,
que nos vem da vida de comunhão da sua Igreja. "Quem quiser
viver - recorda-nos S. Agostinho -, tem onde viver, tem donde viver. Aproxime-se,
creia, deixe-se incorporar para ser vivificado. Não abandone a
companhia dos membros".182 Portanto, todo o homem pode compreender,
com a luz do Espírito, a essência vital da moral cristã,
inclusive o menos dotado, antes e sobretudo quem sabe conservar um "coração
simples" (Sal 8586, 11). Por outro lado, esta simplicidade evangélica
não dispensa de enfrentar a complexidade da situação,
mas pode introduzir na sua compreensão mais verdadeira, porque
o seguimento de Cristo porá progressivamente a descoberto as características
da autêntica moralidade cristã e dará, ao mesmo tempo,
a energia vital para a sua realização. É tarefa do
Magistério da Igreja vigiar a fim de que o dinamismo do seguimento
de Cristo se desenvolva orgânicamente, sem deixar que lhe sejam
falseadas ou ocultadas as exigências morais com todas as suas consequências.
Quem ama Cristo observa os seus mandamentos (cf. Jo 14, 15).
120. Maria é Mãe de misericórdia também, porque
a Ela Jesus confia a Sua Igreja e a humanidade inteira. Aos pés
da Cruz, quando aceita João como filho, quando pede ao Pai, juntamente
com Cristo, o perdão para aqueles que não sabem o que fazem
(cf. Lc 23, 34), Maria, em perfeita docilidade ao Espírito, experimenta
a riqueza e a universalidade do amor de Deus, que Lhe dilata o coração
e A torna capaz de abraçar todo o género humano. Deste modo,
é feita Mãe de todos e cada um de nós, Mãe
que nos alcança a misericórdia divina.
Maria é sinal luminoso e exemplo fascinante de vida moral: "já
a sua vida é ensinamento para todos", escreve S. Ambrósio,183
que, dirigindo-se especialmente às virgens mas num horizonte aberto
a todos, assim afirma: "O primeiro ardente desejo de aprender dá-o
a nobreza do mestre. E quem é mais nobre do que a Mãe de
Deus? Ou mais esplêndida do que Aquela que foi eleita pelo próprio
Esplendor?".184 Maria vive e realiza a própria liberdade,
doando-Se Ela mesma a Deus e acolhendo em Si o dom de Deus. Guarda no
seu seio virginal o Filho de Deus, feito homem, até ao momento
do Seu nascimento, educa-O, fá-Lo crescer e acompanha-O naquele
gesto supremo de liberdade que é o sacrifício total da própria
vida. Com o dom de Si mesma, Maria entra plenamente no desígnio
de Deus, que Se dá ao mundo. Ao acolher e meditar no seu coração
acontecimentos que nem sempre compreende (cf. Lc 2, 19), torna-Se o modelo
de todos aqueles que escutam a palavra de Deus e a praticam (cf. Lc 11,
28) e merece o título de "Sede da Sabedoria". Esta Sabedoria
é o próprio Jesus Cristo, o Verbo eterno de Deus, que revela
e cumpre perfeitamente a vontade do Pai (cf. Heb 10, 5-10). Maria convida
cada homem a acolher esta Sabedoria. Também a nós dirige
a ordem dada aos servos, em Caná da Galileia durante o banquete
de núpcias: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2, 5).
Maria compartilha a nossa condição humana, mas numa total
transparência à graça de Deus. Não tendo conhecido
o pecado, Ela é capaz todavia de Se compadecer de qualquer fraqueza.
Compreende o homem pecador e ama-o com amor de Mãe. Precisamente
por isso, está do lado da verdade e compartilha o peso da Igreja,
ao recordar a todos e sempre as exigências morais. Pelo mesmo motivo,
não aceita que o homem pecador seja enganado por quem pretendesse
amá-lo justificando o seu pecado, pois sabe que desta forma tornar-se-ia
vão o sacrifício de Cristo, seu Filho. Nenhuma absolvição,
oferecida por condescendentes doutrinas até mesmo filosóficas
ou teológicas, pode tornar o homem verdadeiramente feliz: só
a Cruz e a glória de Cristo ressuscitado podem dar paz à
sua consciência e salvação à sua vida.
Ó Maria, Mãe de misericórdia,
velai sobre todos
para não se desvirtuar a Cruz de Cristo,
para que o homem não se extravie
do caminho do bem,
nem perca a consciência do pecado,
mas cresça na esperança
em Deus "rico de misericórdia" (Ef 2, 4),
cumpra livremente as boas obras
por Ele de antemão preparadas (cf. Ef 2, 10)
e toda a sua vida seja assim
"para louvor da Sua glória" (Ef 1, 12).
- Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 6 de Agosto, festa da Transfiguração
do Senhor, do ano de 1993, décimo quinto do meu Pontificado.
  
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